
Hitler: ein film aus Deutschland”, Hans-Jürgen Syberberg, 1978

Entre os filmes que me dá mais prazer recordar – é para recordá-los que servem os filmes, depois do indispensável gosto imediato de os ver – estão aqueles que se poderiam denominar, à falta de melhor apelido, os “filmes compridos”.
Os “filmes compridos” não são lentos nem rápidos, embora a falta de pressa seja um gene muitíssimo comum a todos eles, o que leva algumas almas cândidas a raciocinar que se a cadeira tem pernas e o homem tem pernas, então a cadeira é um homem.
Os “filmes compridos” são aqueles que não cabem no nosso tempo, nós é que temos de caber no tempo deles. “Hitler” de Syberberg, com as suas incansáveis sete horas e meia, ou “Sátántangó” do melancólico magiar Béla Tarr, com igual duração, ou ainda “Le soulier de satin” (de Manoel de Oliveira, claro) que nos submerge durante sete horas, estão entre os exemplos mais vívidos e exponenciais deste atípico passatempo que consiste em passar um dia inteiro a ver decorrer um filme diante de nós. Convém notificar que se trata um gosto adquirido, ou seja, exige muitíssima predisposição e algum treino, sem o que o espectador corre grandes riscos de sair do filme com as nalgas amassadas, uma eventual dor de cabeça e uma deplorável sensação de ter perdido o equivalente a uma jornada de trabalho. Comparem-se, portanto, os “filmes compridos” ao álcool: insuportável na primeira vez que o tragámos, mas com o tempo e a experiência, cada vez mais distintivo e apreciável – mas só para quem quer…
Claro que os “filmes compridos” verdadeiramente interessantes, ao pedirem-nos um dos bens mais preciosos da vida contemporânea – o tempo –, têm a delicadeza de não pedir a nossa atenção indivisível. O bom “filme comprido” está consciente que tempo e atenção fazem um jogo de soma zero, pelo que na maior parte das vezes podemos sair e entrar da sala, ir fazer chichi ou beber um café, que ele espera por nós. É por isso escusado perguntar pelo enredo ou pelas personagens dos “filmes compridos”, pois deles o que perdura é sobretudo um pathos em vez de uma narrativa com cabeça, tronco e membros. O que se pode dizer, por exemplo, ao fim das seis horas de “Near death” de Frederick Wiseman, senão que estivemos um dia nos corredores de um hospital de doentes terminais?
Os “filmes compridos” só têm um problema grave, que é o de serem presa fácil da tanatologia académica, propícios a serem esquartejados nas mesas de autópsia por essa espécie necrológica que é a crítica, incubadora de um enxame de varejeiras analíticas.
Fora isto, são tão perfeitos como uma longa e luxuosa viagem, daquelas que só conseguimos fazer muito de vez em quando.

Engraçado como alguém, passados trinta e tal anos se lembra de “evocar” “Hitler – Um Filme da Alemanha”.
Esteve em cartaz no Festival Internacional de Cinema da Figueira da Foz, nesse ano (1978) ou no ano seguinte, sinceramente já não me lembro. Para quem não sabe, o FICFF era dedicado a produções independentes.
No âmbito do Festival, esse filme foi exibido no então “Salão de Festas” do Casino da Figueira. Quem conhece, sabe o enorme espaço da sala e, inclusivamente, o restaurante que acompanha a meia-lua que só não forma um círculo pela existência do palco e da tela.
Não posso entrar em pormenores mas, o meu único amigo que lá foi, por “culpa” das provisões que fez questão de levar de casa, alimentos e o “resto”, saiu de lá, ao fim de oito ou nove horas, devido aos intervalos, num estado “miserável” 🙂 🙂 🙂
Os pormenores têm realmente piada mas não os posso contar. Somos ambos da Figueira, é um grande amigo e não iria nunca comprometê-lo 🙂
Os “filmes compridos” são realmente complicados…
🙂 🙂
Belíssima história a que traz aqui, JMS. Não tive nessa mítica sessão do Festival da Figueira, mas na da Gulbenkian, não sei se logo a seguir ou tempos depois. Terá sido menos “extática”, digamos assim, pelo que descreve, até porque o filme é uma bela “pedrada” em si mesmo. Agora, o FICFF merece um capítulo só para ele na(s) história(s) do cinema em Portugal, isso sem dúvida.
Seria realmente interessante um capítulo sobre o FICFF.
Está previsto que seja retomado ainda este ano ou para o próximo com as alterações necessárias aos tempos que correm.
Obrigado pela sua resposta.
Bela novidade que traz, a do recomeço do Festival da Figueira. Agradeço-lhe imenso as suas palavras.