Desligados
O tema da falta de comunicação entre as pessoas nas sociedades modernas já é tão banal que aflorá-lo sem cair em lugares comuns começa a ser difícil. “Desligados” é pois um filme que se arrisca à irrelevância ao focar-se por inteiro neste tópico, sem recurso a enredos paralelos ou notas de humor que nos surpreendam. Mas tal como as melhores obras de ficção esta película, premiada nos festivais de Veneza e de Toronto, não precisa de subterfúgios para conseguir a nossa atenção.
Às vezes basta uns minutos de realidade para entrarmos de cabeça numa boa história, pois é o que acontece com “Desligados”. Às primeiras cenas ligamo-nos. A identificação imediata com o que vamos observando é a opção mais tentadora, embora também seja possível ficar só a ver. O que não se torna viável desde o começo é o descomprometimento. A acção em mosaico flui de acordo com a narrativa serena que se faz em torno da incomunicabilidade, um terreno que nos é tão familiar. No centro destas desconexões está a tecnologia, a grande facilitadora, que quase dispensa a intervenção humana. Mais um pouco e não é preciso fazer nada para comunicar. Nem falar, nem estar, nem escrever. Estamos perto disto ou já la estamos e visto de fora, no escuro de uma sala de cinema, juro que parece um filme futurista, daqueles em que os humanos se parecem com robots. Mas isto já sou eu a divagar, porque em momento algum neste filme se faz por interposta personagem estes juízos de valor. Como nos contos de Hemingway o conteúdo de “Desligados” é descritivo, não interpretativo. Essa parte, a mais dura, fica para nós. Se quisermos, antes de retomar as nossas rotinas virtuais, darmo-nos ao trabalho.
Título original: Disconnect
Realização: Henry Alex Rubin
Intérpretes: Jason Bateman, Frank Grillo, Hope Davis, Michael Nyqvist, Paula Patton


Eis um filme de que gostei muito. Um filme que me disse muito. Para mim um dos melhores filmes do ano.
Ainda não vi. Se vocês recomendam, vou vê-lo em breve.