Queria ter-te só para mim.


letraspequenas,

Fossem bugiar, deixassem praças vazias e as gaiolas sem canários e sem moscas as tabernas. Fazei longe o piquenique, o regabofe, passaritos. E convidai as gaivotas. Ide, ide, ó infindáveis insectos, mais os pombos tantas vezes abjectos. Queria ter-te só para mim. Sem alma que se visse nem frenesim. Toda tu num meu deserto.

Já te imaginaste assim? A sentir o abandono. Pedra a pedra, sem nadinha que escorregue, pise, poise. Encontravas-te comigo num lugar que escolherias. Eu ia, corria, escada abaixo, rua acima, sem certeza desse sítio, que me havias de dizer. Já te imaginaste. Eu ainda por saber o que era ter-te só para mim.

Mais plágios


letraspequenas,

 

Terça bateu o feriado desci ao Chiado.

Quarta acordei para vida em grande euforia.

Quinta olhei as estrelas, vi uma cadente.

Sexta, três dias passaram deste novo ano.

Sábado, aleluia!, um sono decente.

Domingo nós aqui por casa é tudo boa gente.

Segunda, foi o começar de uma pergunta.

Terça era o Tejo cheio a brilhar ao sol.

Quarta, ainda cá estamos e amanhã é dia!

Era a dança…


letraspequenas,

 

… dos intervalos, da tarde toda, o serão da noite escura. Não podia dançar no soalho, minha Mãe não deixava. Punha em duas bilhas de gás e no esteio largo que sustenta o coberto, para jogar sozinha. Era um vício danado aquele elástico.

Anda, vem lá.


letraspequenas,


Insistia. Se eu fosse, não teria que caminhar calado e sozinho. Nem de olhar para o mundo, no esforço de se incluir nele. Mas para que visse só o mundo, não fui. Se eu fosse, seríamos dois separados dele.

foto Gui Mohallem

Cumprindo a promessa…


letraspequenas,

A mesma carinha alva, físico raquítico, tão nervoso de entusiasmo como eu, corado até às orelhas, todo ele era ele, até a voz tornada de homem, arrastando o mesmo Dona Guida. E se para trás houve a pancada do padrasto, lado a lado com a delinquência do bairro, sem chafurdar nela, estudando muito pouco e cumprindo uns cursos subsidiados, procura modo de vida que o arranque do ciclo vicioso perpetrado na família. O velho morreu, a Reforma acabou, a mãe nunca trabalhou, o Rendimento Mínimo é pouco e o Banco Alimentar não supre seis bocas em idades vorazes. Visita assídua, dou-lhe uns trocos raros e uma bucha que alivie naquela noite. Sei com que perturbação me ligou a uns dias do Natal, preocupado com a Consoada, que o Banco só tinha dado três frangos, massa e óleo. Perante a importância dada ao Natal pelo rapaz, na hora, desvalorizei o bacalhau, falei de crise, e disse: pá, que se lixe, interessa é haver comida para todos, os frangos é fixe e arranjo o que puder para mais umas coisas, e compras doces, mas bacalhau para seis, esquece. É muita guita. Quando me caiu no prato, lá do catano da Noruega, uma posta até ao tecto, só me sabia a frango e a arrependimento.

 

PS: Aquele encontro já foi há 4 anos.

Jardim das Estrelas


letraspequenas,

O velho dorme no banco ao pé de mim. Fosse roto, sujo e desgrenhado, cobrava à noite não dormida a bebedeira que lhe amainou a ferida. Mas um homem bem vestido e penteado no banco do jardim deitado parece que falece.

O velho desapareceu mas eu não vi. Talvez sonhando que o levavam num caixão dali, se aborrecesse com a morte. Talvez escolhesse a sorte. Regra e pão e outra regra e sempre o pão, para os patos do jardim.

 

foto JCDuarte

A vida traz, leva, traz…


letraspequenas,

 

Do varanda eu via-o passar. Muito branco, muito loiro, cabelo à escovinha, duas pernitas a sair dos calções, ténis rotos, e sempre a garrafa na mão. Nem sei se chegava a um metro de altura. Para baixo, ia como um foguete, para cima, o peso do vinho dificultava-lhe a marcha. Um dia desci e entrei na tasca e espiei o miúdo. Com o tempo percebi que além dele havia mais. Eram uns cinco irmãos, com as mínimas diferenças de idade, abaixo dele. Meninas, meninos, todos trigueirinhos. Só ele saíra com aquele ar soviético, a mostrar as veias debaixo da pele e do sarro, olhos acentuadamente em bico. Quando entrou em minha casa pela primeira vez, já os de leite tinham caído. Daí em diante esperava-me todos os fins da tarde na esquina, subia comigo, descia para avisar a avó, voltava, e só se pirava quando sentia a “carroça”, como ele dizia. Era a camioneta do lixo que passava pelas onze e meia da noite. Depois conheci a avó, os irmãos, a prima, o tio. Viviam na mesma rua que eu, fazia-se um corredor estreito entre prédios, subia-se umas escaditas velhas e lá se dava com o covil. Nem as cortes de gado na minha aldeia eram aquela enxovia. Uma só divisão sem janelas, uma lâmpada fraca pendurada do tecto, uma torneira de cobre ao pé da porta. Mas nunca passei da soleira, de onde o Miguel chamava a avó, a mulher que sustentava o rancho, com os mesmos olhos de chinês, a mesma pele alvíssima, mas enrugada, a quem dizia, está aqui a senhora! Posso levar o Miguel de fim de semana? Queres ir? Ele decidia. Quando saí de Alcântara a Segurança Social já tinha convencido a avó. Mesmo contra a vontade dos miúdos. A mãe vivia nos Olivais, tinha um companheiro, casa com condições, tinham que ir. Saíram eles, sairia eu meses mais tarde. Ficou a avó vendedeira de hortaliça na praça, o filho ganzado e a neta graúda de uma outra filha que vivia “muito bem”, em Espanha. A última recordação é a de um sábado em que nos cruzámos por acaso, lá na nossa Alcântara, teria já 10 ou 11 anos. Correu até mim, corou de vergonha com a festa que fiz, com o abraço, e meteu no bolso a nota que lhe dei. É só para ti, ouviste? Os olhos eram estrelas.

Há dias, estacionei, e saía do carro quando um homem me interpelou. Você não morou em Alcântara? Morei. Você gostava muito lá de um miúdo… Talvez. Havia vários. Era o Miguel. O Miguelito? Sim, o russinho. Sou o tio dele. Ah, homem, você sabe lá as vezes que penso nesse menino. Tem telemóvel, 17 anos, a mesma voz vagarosa e risonha com que falava comigo enquanto eu fazia o jantar e partes gagas para eles se rirem. Com que ternura assumia tomar conta do meu filho Zé, um meia dúzia de meses insaciável na paródia. Fomos tão felizes. E éramos tão pobres e a vida tão difícil de levar. Amanhã, meus amigos, vou ver o Miguel! Amanhã, meus amigos, vou ver o Miguel!

 

Foto: Luiz Carvalho

Fatal é o destino?


letraspequenas,

 

Deixa-me viver. Não te entrances nos meus dias, estou-te a pedir. Não vês que não consigo carregar-te? É muito peso, é longa a história, e duro lamber as chagas. Na verdade, nem sei se sou capaz de te enfrentar, de te olhar nos olhos, de te ver de frente. Fazes-me pena, trazes-me raiva, mostras-me coisas que eu não quero, lembras-me o que eu gostava de esquecer. Lembras-me, eu já sei. Deixa-me lá continuar a disfarçar que sou mais um, igual a tantos outros da manada. Que gosto de andar aqui na multidão, de ser um cidadão progenitor, um empregado disciplinado e cumpridor. Larga-me, rogo-te. Fecha-te a sete chaves em sossego, não me forces a fazer-te essa vontade. Não posso, sinto isso, não consigo. Tem dó, alma perdida, pára de segredar constantemente a mesma coisa, que nada querias com esta vida. Não vês que eu era fraco e nem te ouvia? Como hei-de consolar-te, já não sei. Como hei-de dominar-te, ainda talvez… um dia, se lá chegar, vou procurar-te. E tentar saber ao que chegaste, o porquê, a razão de tanta urgência. Prometo, juro e quem sabe, firmamos um acordo. Que eu viva inteiramente ao teu jeito, que te ame loucamente como anseias, sem as reservas desta mente maltrapilha, carregada de obtusos pensamentos, que adiam e adiam os tormentos. Aguenta-te alma, mais um pouco. Espera que chegue o tempo que nos junte. Que haja coragem para termos esse encontro. Fatal, eu sei, como o destino.

 

Procurai, que diabo!


letraspequenas,


A tua guerra, essa luta que travas contra todos a quem chamas oponentes, é só tua. Começou, eras menino. Houve uns olhos que te olharam e a denunciaram, um coração em desespero que a partilhou contigo, uma boca que não conseguiu calar a voz amargurada da angústia. Há muitos homens em combate como tu. Que arremessam pedras, disparam tiros e põem bombas durante uma vida inteira. Em toda a esquina topam o inimigo, em cada alma auguram o traidor. Carregam desde meninos a dor de alguém que amaram, devolvem-na ao mundo, espalham-na à volta, sem nunca duvidarem do que sentem. Erguem o indicador sobre quem estiver à mão, ignorando nesse gesto os quatro dedos que apontam em sua direcção. Vem de longe a guerra. Destrói o teu mais intenso amor, a tua paz, a fraternidade que tanto apregoas. Há muito, muito tempo, eras tu tão pequenino, e foi profundamente injusto, insano, inconsequente.

Homens, procurem a origem do vosso inferno. A razão da vossa guerra. Revejam o que vistes em meninos. De que misérias fostes testemunhas caladas, entre os jogos de bola, o caminho da escola, os fins de tarde, as manhãs de sábado, os passeios de domingo, a ida à missa? Na vossa cama, à mesa de jantar, no silêncio aterrador da madrugada? Do que sentistes, talvez não tereis lembrança. Ou surgirão vagas recordações de uma criança amedrontada. Mas ficai certos: dentro de vós, como num papiro milenar, estão todas as vivências impressas ao pormenor. Têm a forma de terríveis consequências e poder sobre a vossa condição. Desabrocham como ervas entre as vossas opiniões, acções, reflexões. Toldam o timbre das vozes e manipulam os gestos mais naturais. Homens, não se detenham. Procurai a origem do vosso inferno, a razão de toda a guerra.

Não, não estou zangado.


letraspequenas,

 

Nem cansado dos homens, nem desesperançado deles. Vim ver o mar. Fazei o regabofe que quiserdes. Ride de mim, ride de todos. Dançai gaivotas, à vontade, essa canção. Mas olhai, olhai para nós. Todos farinha do mesmo saco. Carne e osso, alma e coração, medo e ambição, tentando apanhar o melhor grão. Como vós, aves do céu. Como vós, gente com asas. Como vós, atraídos para o alvo – peito aberto, picando o voo, caímos na emboscada, mergulhamos na tentação. É só isso, gaivotas. E então?

Desculpa, Pátria minha…


letraspequenas,

Há dois anos o patrão deixou de pagar os ordenados, depois simulou um esquema laboral a partir de casa, mas abandonou os empregados. Foram 7 meses e muitas horas na loja do cidadão até que a Autoridade para as Condições do Trabalho desencravasse a esmola de que agora vivo – o Subsídio de Desemprego.

Tenho 44 anos, trabalhei 24 com os devidos descontos de todas as partes, fui recibo verde por dois anos para ajudar a empresa, nunca pedi uma baixa e auferi de duas licenças de parto com um intervalo de 4 anos. Esqueci os 10 mil euros de ordenados em atraso e a indemnização por direito. A lei não me salvou das tropelias do patronato, os 1600 euros que trazia para casa todos os meses emagreceram para 1400 através de um layoff não oficializado, em 2009, e tudo se resolveu com 970 euros de um subsídio, que a partir de Janeiro será taxado em 6%, numa subtracção de quase 60 euros mensais.

As contas são cada vez mais simples: dos 970 euros, 500 vão para a renda de casa. O resto divide-se entre o Pingo Doce, a Epal, a EDP, a Repsol e a cantina da escola. A pensão de alimentos, quando a vejo, cobre as coisitas que os rapazes sabem que não posso dar – carregamentos de telefone, cordas de guitarra, uns cinemas, gomas e chocolates. Roupa, angario em segunda mão, até por questões ecológicas. Prejudiquei a mulher-a-dias, prescindi dela, pouco circulo de carro, e o meu luxo envergonhado é tabaco e mortalhas.

Tromba alegre, fumando, cá ando, num Estado de Direito que deixa todo o malandro à tona e me afoga em impostos, multas diversas, repescadas em remotos anos, sobre veículos que já nem circulam mas foram meus, mais uma scut de 4 euros que quis pagar em 2010 e não consegui porque o sistema é esquisito e a empresa das portagens não responde aos meus apelos de socorro, preferindo avolumar a conta em cada cobrança, tudo bem argumentado com o disposto em números e alíneas de artigos de Códigos jurídicos e decretos-lei de todas as idades, que não descuram a ameaça de justiça em tribunal.

Cá ando, sempre de tromba alegre, sim, calando a úlcera que agora não se dá com jejuns, esperando o jurito de trocos poupados aos bochechos, cujo um quarto da soma é retido pelo Estado, sempre sobre o mesmo dinheiro, coitado, já com raízes nos cofres do Banif, que esse Estado parece controlar e ansiar mais do que eu. Eu, contribuinte exemplar, sem baldas ao IRS, nem atrasos nas entregas à Segurança Social. Eu, fiel depositária durante 3 meses do dinheiro público, multiplicado sem tiros na Bolsa, seguras aplicações de um euro, euro e vinte… por trimestre, o IVA saldava-me duas bicas, vá.

2013, é um consolo. Não farei declaração de IRS. Nada me será devolvido, só cobrado. O IMI perfila-se e quem sabe os 10 anos de isenção tenham sido engano e a conta venha junta e atacada. O subsídio, é provável que acabe antes do prazo legal, que as regras mudam. A barraca, vou, pois, avisar o banco que se agarre a ela. Os rapazes, simpáticos e em boa idade, talvez aceitem nas tardes livres tocar na Baixa, para ajudar ao panquê. Trabalho, é uma miragem, até na mais velha profissão do mundo. E eu, querida Pátria, vou falir, mas é de pé e de tromba erguida.

Qual Par?


letraspequenas,

 

Não chore menina, não chore. Seus olhos se enxugarão, assim que ele torne a vir. Torna a vir menina, tudo torna a vir. Desde que não chame por nada, enquanto se distrai das coisas, nos dias em que é seu ser. Deixe menina, deixe assim. A vida tem seu sentido. Ainda que se interrogue, ainda que se pergunte. Há-de vir sua resposta.
Ri agora, quem a viu. Quanto não valeu o pranto. Acendeu a sua luz. Há sempre além menina. Porque havia de acabar, se este mundo não tem fim? Dizem que é só abrir as asas. Que cada um tem o seu par. Cada um tem o seu par! Dizem isso menina. Dizem.

Ide, ide, que hoje é sexta!


letraspequenas,

 

Hoje gosta-se da tasquinha. De uma tasquinha asseada. Que tenha muitos petiscos. Gabarolas na ementa, no jarro de tinto, na factura generosa. É tudo bom. Tasca que é tasca deve ter comida simples mas apurada, vinho avulso de uma qualquer região – Aveiras no topo dos fornecedores, para azar dos alfacinhas – pão de lenha, sem manteiga, e azeitona, que tanto calha de ser verde como preta. Quem manda na tasca é a tasca. É o dono, é a mulher do dono, é a filha, é o rapaz, anafado e velado na camisola Ronaldo, que leva a tarde a empanturrar-se de Bolycaos e declina todo o petisco da mãe. Aqui não há patrão e as regras não se discutem, assim como os lucros, que nem dão azo a comentários, muito menos a invejas. Aqui entra de tudo, não há discriminação, selecção de freguesia. Quem quer fica, quem não quer vai andando. Numa tasca o jogo é limpo. Prognósticos ou reclamações só no fim da patuscada, longe da porta ou entre dentes.

 

Nesta cidade de oitos e oitentas, andam as tascas desanuviadas. E ao contrário dos congéneres ricos, que tanto se nos dá onde fiquem, a tasca tem que ter enquadramento. Tasca é coisa de rebuliço, é do povo morador, é do munícipe. Há-de ter balcão que ampare os cotovelos de quem não se dá sentado. Há-de estar num largo, na mais linda artéria da freguesia, há-de ter vista para muitos lados e portas escancaradas, há-de ter próxima a Paragem, a passadeira, as escadinhas. Há-de ter varandas por cima, roupa a secar, e no mínimo uma velha a coscuvilhar. Se é ribeirinha, tem de ver o rio ou pelo menos sentir-lhe o cheiro. Lisboa tem muitas tabernas, algumas famosas, outras só do bairro, para o bairro, com as suas horas de ponta, imperdíveis. Ao fim da tarde, desagua tudo ali. Tratam-se por tu, viram-se crescer, sabem quem morreu, quem não paga a renda e em Junho marcham juntos na Avenida. Sem o saberem, são uma família.

 

Era uma sexta estrelada ali na Praça da Armada. Os magalas da Marinha, em serviço no fim-de-semana, até se roíam de inveja. Só que os grumetes não podem largar a porta, nem que ao fundo vejam nítida a sua aldeia. No Beirão, entra-se e tanto se pode estar na Beira, como em Trás-os-Montes, como em qualquer bairro de Lisboa. O tecto baixo não perdoa e dissemina as pronúncias portuguesas. O avô diz come o caldo, o neto diz que antes prefere a chicha. Tás com a mosca? Tu-és-mes-mo-da-ha… Venham os carapaus, o arroz solto à moda de Bragança e o tal de Aveiras, tinto. O Sporting diz adeus à Taça. Agarra-te à cabeça, agarra. O balcão à cunha. Entra um tipo de roupão. Turco, raso, sem cor. Um boné verde e vermelho, as quinas de Portugal na testa. Os chinelos de fazenda, herdou-os. Tem os calcanhares de fora. Vem ao tabaco. Isso pensava ele. Que magnético balcão… Atracou. Perdido por cem… olha o Júlio! No Beirão, as janelas dão à Praça, à calçada inclinada, à buganvília do 31 da Armada, ao chafariz, ao parquinho dos miúdos, dos graúdos, altas noitadas, grandes futeboladas debaixo dos jacarandás.

 

Já ia no segundo, quando o “puto” meteu a cabeça. Paaiii. Pra casa Ruben! Dá um pires de tremoço e outra imperial. Paaiii. Arregalou os olhos e a sua versão em estado puro deu sebo às canelas. Apertou o cinto ao roupão, atravessou a sala e certificou-se. O miúdo já se tinha esgueirado. Voltou ao encosto, esvaziou devagar o prato e o copo, pagou, acendeu um cigarro e despediu-se directo ao Beco dos Contrabandistas. Ninguém estranhou a farpela. Que diabo, um homem pode muito bem estar em casa e ter necessidade de vir à rua. E porque raio há-de um homem vestir as calças se a tasca é ali ao lado e só vai ao tabaco? Seguem-lhe os passos o Avô e o neto já comido, a mascar a pastilha prometida. Já vais?! Tou agarrado com este… e hoje tá bera! Quem dita o horário são os fregueses. Saem uns, entram outros. De fora, dali, mães que metem o nariz a ver quem está enquanto fervem à conta dos seus Marcos, dos seus Rubens. O teu homem saiu agora. Eu sei. Oh… se sabem.

Delírio de opinião


letraspequenas,

Não conheço nenhum dos autores deste blogue. Mas gostava. Foi a Ana que me convidou, alegando que havia gente de todas as cores. Na mouche, Vidal. Dou-me melhor na diversidade – das almas, das realidades, das preferências, até das ervas e das pedras. Não engulo tudo, mas pouco falta. Referia-se a Ana a ideologias, mas desprezo-as. Vou dizer outra vez; desprezo. No sentido da minha existência, é essa a verdade, que me martela por todos os lados. Os queridos da Esquerda chamam-me ‘reaça’, os amores da Direita chamam-me ‘comuna’. Não interessa, quinze dias de engorda nesta sala, sinto dilatar-se o direito à queixa (isto é proletário). Sinto legitimidade para dizer o que me incomoda (assim está melhor?). Certo é que, quem corre este rio ao nosso lado, espera, e espera cangado – meus amigos, simpáticos anfitriões que me acolhem, aprovar comentários, é medonho. Sem pedir licença, aboli no meu talhão esta ditadura da tanga, desculpem, da canga (anarquia, anarquia!). Mas estou disponível para o diálogo.

 

 

P.S.: E dou as ventas, mas atenção, Pedro Correia: nada de Belles Toujours!

Meu amor vou-te deixar


letraspequenas,

Tão convincente és no abandono e nunca cumpres. Acabas sempre aqui. Sufocado de saudades, a roer queixumes, atraiçoado pela voz maldita que reivindica o que é teu. Só teu, dizes. A posse é a conquista deste vai e vem.

Tão convincente eu no teu abandono que me vence. Na aceitação com que remato o desespero, na persistência que imprimo à esperança, na culpa sacudida docemente dos teus ombros, dos meus. Voamos outra vez.

Tão convincentes somos neste embalo, que a nenhum ocorreu ainda – meu amor, para a alma, cada abandono é sem sentido e o nosso voo perde altura.

 

 

Já só o Amor nos salva.

Sereno ou esgroviado, insano ou bem aprumado, indo e vindo como os ventos, nunca lhe cortem as asas, nem lhe fujam aos tormentos.

Cumprindo a missiva do ‘Cão’, deixo o meu pedido de contribuição ao José Anjos e ao IzNotMeIzYou para tão bela iniciativa – cantar o Amor, como lhes aprouver, lá na casota do canito.

Palheta na calçada


letraspequenas,


Chega pra lá.
Dá o mascoto e acerta a linha.
Traz das pretas. Põe o molde.
Tás com a cabeça noutro lado…
Ando quilhado cu’a patroa.
Atão?
É sempre gente lá em casa.

Hoje não tá a render. Ontem foi à’viar.
Mas qual gente?
É vizinhas, é a cachopa da padeira, é o velho coxo da guerra, é um sai e entra.
Deixá lá, num quer tar só. Dá lumes. Bota areia.
A minha, é gatos e canzoada. Tudo pra casa. Diz que tem peninha. É cada chuto no gato.
Anda Pacheco!
É meia. Vamos ó tacho?
Sempre co’a pressa. De comer e de receber.
Atão. Melhor, só se for beber e aquilo qu’a gente sabe…
Atenção às beiras, bem calcadas. Dá c’u maço. Vais dando e vais varrendo, p’adiantar.
Inda vais ter saudades minhas.
A flausina?
Não me dá troco. Deve estar servida. Fica tão linda a vender bilhetes. Ficava mais linda comigo ao pé.
Isto tá bera. O calor.
Tá lindo o barquinho.
Barquinho?! É o reclame da cidade, rapaz. Aprende. A Caravela.
Iiisso, veio a escorregar na tábua lá da província. Qué q’há-de saber?
Inté se borra no carro eléctrico.
Tira a estaca, estica a linha. Traz três brancas, só três.
Acabando, vamos à ginja.
Pro causa da ginja dormi na Estação.
Gastaste-o? É bem feita. Bebesses auga.
É mais fácil c’uma mão dez estrelas agarrar, fazer o sol esfriar, reduzir o mundo a grude, mas ginja com tal virtude é difícil de encontrar.
Ora viste? Lá goela tens tu. Passa à ponta, troca c’u Quim e ele que venha alinhar o mastro.
Deslarga. Tá na hora.

Vai-te embora Paz que me lembras a Morte


letraspequenas,

 

Quanto te vejo assim até me dás medo. Não bule uma palha, está tudo sereno. Nem uma onda, nem uma aragem. Não há receio que te belisque, contratempo que te catrapisque. Vá, sacode essa tentação diabólica. Deixa-te descer ao reboliço da mente, às agruras do ego, à causa alheia. Inverte o sentido, dá-te à condição dos homens. Continua aqui, pelo mistério da vida. Mais uma ladeira, mais uma descida. Já sei que te pões assim, por mor do sossego. Mas agora não podes. É cedo. Há-de vir o dia. Anda, separa-te lá, antes que alguém veja e olhe para nós com olhos de inveja.