“Xaxxetti, Xaxxetti”


letraspequenas,

Acho que era aquela mente inquieta dele, pior que a minha. Enervou-me. Mantive-me sempre na distância de segurança. Bater de frente com o beto não agoirava nada de bom. Foi há mais de vinte anos, era um músico a iniciar-se e por dias convivemos cordialmente. Só muito mais tarde o vi em palco, convidado inesperado, e pensei, olhó o espertalhão aqui. E ao seu tocar tive de remoer a beleza do sacrista. Agora, às vezes, bastantes vezes, enche-me a sala porque se finou. Mentes que nem no além descansam sem desinquietarem as outras. Com as guerras, com as pazes.

Não há luar como o de Janeiro, nem amor como o primeiro


letraspequenas,

O nosso vinho era bom. No paladar, na cor, no equilíbrio do gás, sem cristais, engarrafado com direito a rótulo, a gravata de ráfia e a lacre, timbrado com as armas dos antepassados. Era o melhor ganho que a terra nos dava e qualquer ameaça às nossas latas carregadas, carinhosamente enxertadas, podadas e sulfatadas, fazia explodir a ira de meu Pai. Era ele que enxertava e que podava, que levava dias de Abril e Maio a ver os gomos, o desenvolvimento dos gomos. Depois os cachos e o desenvolvimento dos cachos. A catar ladrões pelas videiras acima e a instruir a canalha que vigiava as vacas, que em vez de andarem a pasmar, fossem tirando os ladrões às videiras. Cada enxerto pegado era coisa de se ir ver. Naqueles dias ainda frios de Dezembro e Janeiro, que era a época da poda, passava o tempo em cima do cavalete e tinha uma tesoura especial. Aliás, toda a ferramenta dos seus trabalhos era especial e não tinha permissão para andar na baila. A cesta da enxertia era um tesouro, a ver em exclusivo com os olhos. E trabalhos que metessem videiras eram altos cargos a pedir protocolo.

 

Meu Pai fumava muito e só de pensar que outro cancro o podia levar de vez, me dava horas de insónia e sessões de choro na cama. Todos os anos, o jeito de ele podar, fazia-lhe gretar o dedo anelar. Ao almoço, inspeccionava a ferida, deitava-lhe mercúrio-cromo e vinha, do toutiço às orelhas, carregado de cisco da vinha. Gostava de o sacudir. Gostava daquele cheiro dele, a tabacoversus lavanda, misturado com o cheiro lá de fora impregnado na lã da camisola. Sabes quantos cigarros fumei desde manhã? Quatro. A podar fumo menos. Nesse tempo fumava um tabaco de enrolar, acabado de lançar pela nossa Tabaqueira. E eu, que morria que ele morresse, pensava com os meus botões que o tabaco o ia matar e seria mesmo bom que demorasse muito a podar a quinta toda, que os homens sábado e domingo não o pudessem vir ajudar, que sempre fumava menos e assim fintava a morte.

 

A nossa vinha era “do tarde”. Com o ribeiro a tornear a quinta, num baixo e muito irrigada, fazia a terra mais fria e lenta. Ou seja, a nossa agricultura brotava sempre mais tarde que a dos outros e vinha mais exuberante. Fomos, durante anos, quem mais milho produziu por hectare no concelho. Éramos os últimos a lavrar, a semear, a colher. Na reunião anual com a Adega Cooperativa acertávamos as datas mais finais para entregar as uvas. Como não tínhamos caseiro, não havia partilha de cachos, nem discussão de meias ou de terços. Para mim, coisa ruim. Tinha tido a sorte, num ano em que um tio, por ausência, me incumbiu de lhe tomar conta da vindima e de verificar a partilha. Com direito a ordenado, foi um ver se te avias a contar cestos – um para eles, dois para nós – e a marcar com a navalha, na chibata de oliveira. Mas lá em casa, a sina ditava que vindimasse, que acarretasse, que apanhasse bagos do chão, ou que ficasse à moenga. À escolha. Apanhar bagos nunca me entusiasmou. Quando ganhei corpo, gostava de carregar ao ombro, como os homens, ou de mostrar a força na manivela da moenga e na alavanca da prensa. As raparigas fortes eram mais acarinhadas.

 

Sem sombra de dúvida que colheita empolgante era a vindima. Permitia toda a espécie de gente: homens, mulheres e crianças. Merendava-se bem, reinava a alegria e enchia-se a barriga de uvas diversas: morangas, dedo de dama, e ainda havia uma videirinha trazida do Douro, por graça, que dava umas uvas muito doces. Nada disso entrava nos balseiros que iam para a Adega. Deus nos livre de traçar o vinho. E a tarefa pedia traje a rigor: chapéu, boina ou lenço à cabeça, uma camisa velha e dois farrapos: pr’á rodilha e pr’ò “purso”. A rodilha pede um pano grosso, para calçar o cesto sem trilhar a cabeça. O pulso, pede um lencinho da mão, em jeito de ligadura, que impeça as pingas de escorrerem pelo braço até ao sovaco e o incomodativo cola-descola. Ainda que “quanto mais colar, maior é o grau”. Mas isso era medido à entrada da Adega e não nos competia a nós, simples jornaleiros, aferir açúcares.

 

Quando o vinho verde entrou nas bocas do Mundo e a Adega Cooperativa tudo fazia para chamar a si as colheitas e cobrir as encomendas, muitos deixaram de ter o trabalho em casa. Caíram em desuso os lagares, acabaram as noites de pisadas e o cheiro de brolho fermentado. Ficava o suficiente para o consumo do ano, em alguns casos, e o resto seguia nas carrinhas dos tractores para a Cooperativa, onde os sócios se abastecem à vontade, descontando no ano seguinte e dispensando-se o uso de dinheiro. Um luxo. Na vila, à boca da ponte, os miúdos esperavam os tractores para se empoleirarem no taipal traseiro e apanharem a boleia até à Adega. Sempre enchiam o bandulho e armavam um pagode a atirar bagos a quem passava. Era a única fila de trânsito que conhecíamos, feita de tractores e meia dúzia de carros de bois, noite e dia, desde o fim de Setembro até meados de Outubro. Era a aldeia a vir à vila, sem ideia de ir ao tasco ou à missa, e a vila orgulhosa dos seus lavradores, desejando-lhes muitas pipas. E era, também, o meu momento de glória.

 

Meu Pai ia à vida dele e confiava-me o tractor. Puxas à frente, desengatas e desligas. A emoção era tal que quase caía numa tentação do diabo: tratá-lo pelo nome. Ok Zé. Ele tão bonito… boa figura, olho cor de sulfato, um fidalgo com coração simples. Gostava de conviver, metia-se nas tascas todas as noites, adorava a gente da sua terra, de os ouvir, de lhes dar coisas, de trocar favores. Vens-me cá podar, afogo-te em vinho e lavro-te o campo grande. Conhecia-os de gingeira. Aos domingos, metia-os no carro e iam lanchar a Tuy. Para alguns, continuava o menino Zézinho. As peixeiras vibravam com ele. Zéziiinho! e quando uma bez me lebou no motão? Cala-te mentirosa. Ai num s’alembra? Ha, ias com as pernas todas à mostra. Isso é que tu gostavas, ordinária… Ai que bããodido. A menina num bá no que diz o paizinho oubiu? Doce, bom mas bruto, cegava de raiva e berrava sem acanho onde quer que fosse. Era justo, mas usava da força para intervir por um amigo, pela Mulher, pelos sobrinhos… menos por mim. Se forem maiores que tu, agarras no que estiver à mão e dás-lhes.

 

Conheci-o ainda antes de todas as muitas vindimas, peixeiras e lavradores, como topógrafo da Celulose de Angola. Usava bons botins de carneira, passava dias fora de casa, voltava cheio de pó e de saudades e era o herói dos seus ajudantes a quem chamava “os meus capatazes”. Nenhum branco mandava comprar uma grade de cervejas todos os dias para o pessoal beber nas longas horas que passavam no mato. Quando deixamos o Alto-Catumbela, esses homens formaram uma barreira à nossa frente, choraram como crianças e vi o meu Pai abraçar um por um, desfigurado de tanto desespero.

Pouco barulho


letraspequenas,

Há dias falava de palavras, do estardalhaço ininterrupto que fazem dentro de nós, dos estragos capazes de provocar. Há-de ser assim com todos, fazendo menos mossa a uns, que as gerem melhor, mais a outros, que sufocam se lhes não dão primazia, andamento e caminho visível. Tempos houve em que me acalorava a conversa, a comunicação, a fala, o desabafo, as ideias. Hoje, nada disso me interessa como outrora. Chego a ter saudades do silêncio. Palavras leva-as o vento, estrebucha o ditado em mim. Estafam-me conversas sérias, cansam-me as opiniões sobre tudo e mais alguma coisa. Os porquês disto e daquilo, que se exigem a ferro e fogo, servindo umas poucas de inverdades e de loucuras. Encantam-me os que sem abrir boca dizem tudo. E vou à lua com os que teimam fazer com o gesto o seu discurso, a sua declaração de amor. Hoje, percebo uma série de homens calados que havia antigamente. E as mulheres que agora me dizem “fazes-me rir”. Conversas, de facto, só para rir. Para chorar, para ensinar, para guardar, escrevam. Mergulhem no silêncio, oiçam-se e escrevam como souberem. Nas mãos, nas paredes, nos panos da loiça. De resto, poupem-se. Senão um dia ninguém vos ouve.

Foi em Setembro de 1911. Trazias na boca promessas de sonho.


letraspequenas,

 

“(…) Guerra Junqueiro, que vem óptimo da Suíça:

(…) As constituintes não foram o que eu sonhava mas fizeram muitíssimo. E a propósito devo dizer-lhe que um jornal de Berna, que o secretário da legação portuguesa me enviou, publica a tradução dos primeiros trinta e dois artigos da Constituição portuguesa, encimados por esta honrosa declaração: “A Constituição portuguesa devia ser o código político de todas as nações da Europa.” Em seguida coteja-a com vários artigos da Constituição suíça, achando alguns da portuguesa superiores. (…)”

 

Raul Brandão, Memórias

Volume I, Tomo II

Relógio d’Água

S/ título


letraspequenas,


Tenho-me ido num andor de perdas.

Várias, diversas, sem fio que as una.

Lento e demorado, a arrastar consigo o que se desprende.

Vário, diverso, sem nó que o ate.

Alças caídas que me deixam nua, sem que nua já me importe.

Perdas são saudades.

 

Foto: Gui Mohallem

Rainha Sofia


letraspequenas,

Aqui, na Calçada do Marquês de Tancos, a chuva tem feito muito estrago. Nem Sofia vê a rua, nem as pombas a visitam, nem a gente lhe pode sorrir, nem os serviços se fazem. Sofia, naquela cadeira de rodas, em dias de sol, mesmo no inverno, chama por quem passa para lhe valer ao que falta faça. Anda cá, disse-me há tempos. Não encontro o palito. Deve estar caído aí no chão. Vasculhei à volta, desviei a cadeira, sacudi a manta, levantei-lhe as pernas, enterrei as mãos por onde podia. E nada, nada dele. Oh, meu Deus, que ainda a pica. Ai, Jesus, se lhe fura a fralda… Deixa lá. Não faz mal. Dá-me outro dali, dás?

 

Entrei, salinha dentro, cerimoniosa. Onde, menina Sofia? Nesse móvel da televisão, tenho aí bolachas. Caixas disto e daquilo, remédios e lenços, e nem sinal de palitos. Raças parta. E ela insistia. Por baixo, por baixo, está, está, procura. Valha-me o Senhor… começo a descrever todo o arsenal, alto e bom som, até que os meus olhos chegam a uma embalagem. Ah! Não me diga que é isto? É, diz-me num sorriso luminoso. Menina Sofia, eu andava à procura de palitos, mas não eram de La Reine, sua bandida! O que ela riu. E eu.
Hoje, voltei a vê-la. Como é menina Sofia, tudo em ordem? Veio o solinho, hã?, que maravilha! É verdade, filha. Olha: anda cá.

“Passei a beijar os meus amigos”,


letraspequenas,

“é bom beijar homens”, foram umas palavras de Lobo Antunes que tiraram dos fundilhos o que pensara: nesta coisa de as mulheres se beijarem, dos homens e das mulheres se beijarem, de nos cumprimentarmos com beijos, de pais beijarem filhos, os filhos os pais, os tios e os sobrinhos, os avós, os netos, sempre aos beijos… e eles não. Os amigos não, os irmãos também não. Os homens não dão beijos uns aos outros. Pelam-se por beijos, mas não dão. Palermas.

Ou lá terá que ser?


letraspequenas,

Na mesma semana em que compro um livrinho que integra um conjunto de intervenções e reflexões de Noam Chomsky, dirigidas ao movimento Occupy, que em Setembro de 2011 se manifestou em Nova Iorque, dou conta que em Lisboa se convocam consecutivas assembleias abertas de discussão sobre o futuro da democracia e, esta manhã, do discurso de um participante no Fórum TSF, que traçava, seguríssimo, o seu plano de salvação. Espanta-me a coincidência de, numa meia dúzia de dias, em lugares diferentes, a mesma canção ecoe. Chomsky, assumindo a enorme dificuldade (ou mesmo a impossibilidade) de inverter o sentido do poderoso sistema montado nos EUA e em outros países, baseado em políticas neoliberais e de austeridade, escudadas nos défices e negligenciando a dignidade dos homens, apela à união de todos os que por elas se vêem sufocados, mesmo que não tenham soluções; a agenda das reuniões populares no Rossio lembra que “só com a nossa participação e empenho a democracia poderá ser a arma que nos permitirá ser donos do nosso futuro e de termos uma palavra que seja escutada e respeitada por aqueles a quem confiarmos a responsabilidade de executar aquilo que forem as decisões dos cidadãos”; e o ouvinte radiofónico, perante o auditório, desenrola exactamente a mesma opinião – nada nos tirará desta “roda” se não nos juntarmos em comunidades que se apoiem mutuamente e se bastem no essencial a si próprias, à margem dos poderes instituídos e dos partidos políticos que nos voltam as costas.
Levará tempo, será doloroso, mas como em outras épocas em que a desigualdade excedeu todos os limites, a acção popular acabará por influenciar o caminho destas democracias ocidentais que dividem a sociedade em dois grupos percentuais esquisitos: 1% de abastados e 99% de miseráveis. Será?

Ansiosos, mal podemos esperar!


letraspequenas,

“(…) Cavaco Silva prometeu divulgar no sábado o texto do prefácio do livro. “No próximo dia 9 de Março, data em que completo o segundo ano do meu segundo mandato, divulgarei, na página da Presidência da República na Internet, o texto do prefácio do livro “Roteiros VII”, que reúne as intervenções mais significativas que produzi naquele período” diz a mensagem do Presidente da República, na sua página pessoal no facebook. (…)”

Eu dispensava dizer-te.


letraspequenas,

Chegou para matar a fome, sempre a dele, à minha frente, e a dos seus, que só presumo, e trazia novidade. Tinha ido a uma entrevista! e vinha cheio de esperança. Fosse a arrumar prateleiras, a entregar mercadoria ou até sentado à caixa, desde que revisse a tabuada, haveriam de o meter. Que alegria, meu menino, quando a vida pode mudar. Saberás o que te espera? O que é estudar e trabalhar, essa rima incessante, desde que o sol se ergue até à hora do jantar? Uma pessoa não quer ver alminhas desta alvura a perderem inocência. Sabes quanto vais ganhar? E levar para casa?

Ainda bem, senhor Ministro


letraspequenas,

Fica já uma ideia: agarre em toda aquela gente da EMEL e da Polícia Municipal que leva os dias a enfeitar pneus por Lisboa, e dê-lhes a oportunidade de mais dignas funções – zelar pela segurança das pessoas. É que já não se pode tomar um café numa esplanada da cidade ou conversar num banco de jardim, sem que se seja roubado. A carteira da senhora, o telemóvel do cavalheiro, a mochila do garoto, o casaco do chavalo, a máquina fotográfica do camon, a manta do sem-abrigo, tudo vai servindo para atenuar mais um dia de fome e de miséria. Força, senhor Ministro, que eles andam aí e não perdoam.

Da tal angústia, meu velho


letraspequenas,

 

 

Aqui, da Lisboa onde me encontro, que em sorte me calhou este romântico Chiado e uma rua que acaba em rio azul – que meu braço atirado à janela lhe sente a aragem e os olhos míopes me enervam, que não distinguem o que vai nos azulejos que meu vizinho da frente exibe desde o tempo da senhora D. Maria II – sinto-me muda de palavras, essas mesmas que respeito não conhecem, se esgatanham todo o tempo cá por dentro e chegam quando bem lhes apetece. Tenho quilómetros delas e tantas vezes duvidei que fossem minhas. Impossíveis de tanta força. Densas como nunca fui, leves como horas bem passadas. Gozam que nem perdidas, como se fossem donas de todas as avenidas. Ohh, e rimam. Quem manda em ti, sou eu, segredam elas. Engraçadinhas. Quantos estragos já provocastes? Tendes noção? Claro que não. Desgraçadas. Sabem que tenho de escrever à sexta-feira, que a sensação é a de não ter eira nem beira. Aqui, deste Chiado onde me encontro, turvou-se o céu de uma noite que promete, acedem-se todos os candeeiros, e eis-vos, a bailar sem passo certo. Pára com a dança. Agora, nem que queiram, vos soletro. Tenho o meu orgulho e não aturo. Se me der, sou bem capaz de aprimorar uma nova Língua, outro alfabeto. E vós, nem para eco prestarão. Pois se é esta a resposta que dão. A nega, a tampa… ingratas! Logo agora. Quando preciso mais de vós. Ficai. Falai sozinhas, como loucas, presas, encurraladas nas vossas bocas. Eu já me vou. Ah! Não. Agora é tarde. Escusais de ensaiar alarde. Tende um riquíssimo fim-de-semana.

Vida,


letraspequenas,


 

… que corrente de gente que de repente se sente. Que trazes nas frases todas as sintases. Aperto-te o papo – que mais destinais por estes beirais?

Diz que o Trabant…


letraspequenas,


… carrito clássico da ex-RDA, foi produzido até 1989 e desenhado por engenheiros da Lada, usando o reflexo de um Peugeot 404 num espelho côncavo – técnica usada também por Ferdinand Porsche através do reflexo de um carocha num espelho convexo para o primeiro 911. Que maravilha.