Aqui, da Lisboa onde me encontro, que em sorte me calhou este romântico Chiado e uma rua que acaba em rio azul – que meu braço atirado à janela lhe sente a aragem e os olhos míopes me enervam, que não distinguem o que vai nos azulejos que meu vizinho da frente exibe desde o tempo da senhora D. Maria II – sinto-me muda de palavras, essas mesmas que respeito não conhecem, se esgatanham todo o tempo cá por dentro e chegam quando bem lhes apetece. Tenho quilómetros delas e tantas vezes duvidei que fossem minhas. Impossíveis de tanta força. Densas como nunca fui, leves como horas bem passadas. Gozam que nem perdidas, como se fossem donas de todas as avenidas. Ohh, e rimam. Quem manda em ti, sou eu, segredam elas. Engraçadinhas. Quantos estragos já provocastes? Tendes noção? Claro que não. Desgraçadas. Sabem que tenho de escrever à sexta-feira, que a sensação é a de não ter eira nem beira. Aqui, deste Chiado onde me encontro, turvou-se o céu de uma noite que promete, acedem-se todos os candeeiros, e eis-vos, a bailar sem passo certo. Pára com a dança. Agora, nem que queiram, vos soletro. Tenho o meu orgulho e não aturo. Se me der, sou bem capaz de aprimorar uma nova Língua, outro alfabeto. E vós, nem para eco prestarão. Pois se é esta a resposta que dão. A nega, a tampa… ingratas! Logo agora. Quando preciso mais de vós. Ficai. Falai sozinhas, como loucas, presas, encurraladas nas vossas bocas. Eu já me vou. Ah! Não. Agora é tarde. Escusais de ensaiar alarde. Tende um riquíssimo fim-de-semana.


A delícia que é ler-te, Gui!
Essa guerra ganhas tu: Gui-1 / Palavras-0
Tem dias, tem dias. E que honra, agradar-te a prosa.
Cara Gui,
as palavras esvoaçam num mesmo éter, a que uns chamam acaso… mas não façamos caso do casino.
A casa onde se conjugam é o verbo… e este seu texto, bem como a observação do Pedro Correia sobre a “tensa relação entre a palavra e o silêncio”, sugeriu-me que a mesma palavra andou a brincar em diversas cabeças ao mesmo tempo, como se não conhecesse as restrições espaço-temporais que a obrigam a ficar muda.
E para vermos a irreverência da palavra “mudar”, veja só o que ela me conjugou:
– Eu muda,
– Tu mudo,
– Ele não muda.
– Nós mudos,
– Vós não mudais,
– Eles mudam.
Esta é uma versão menos trocos e mais “change”, só ao alcance de uma língua que muda, muda não pela forma, mas sim pelo entendimento.
Abraçadabra,
da Maia
(*) é mesmo “abraçadabra” e não “abracadabra”, que é uma má transliteração do grego, com uns milhares de anos.
Abraçadabra, da Maia
Bem caçadas essas ‘mudas’ 😉
À Sua!
@tão vamos a uma milonguita:
http://www.youtube.com/watch?v=8J-ueKepE Jw
http://www.youtube.com/watch?v=1AnUL70gQ ho
Tende uma riquíssima semana, o mais endiabrada possível!
segunda de cão. mas já está e já ninguém ma tira.
amanhã é que vou ouvir as milongas, eheh, se não me chatear pelo caminho.
bo@ semana 🙂
Elas que se vão, as muito sacanas, se for para te ler assim.
Belíssimo texto, Gui. Gostei muito.
Obrigada colegas 🙂
À do Delito!