26 anos? Tu não és nada. Tu nem existes!


letraspequenas,

Casei com 20 anos. O homem que me levou tinha mais onze. Era triste e chato. E eu, alegre e risonha. Fomos felizes, muito felizes. Durante o tempo em que iluminei todo aquele breu, não tem conta as noites de borga que cumprimos. Dessas noites, há umas palavras anónimas que adoro contar.

Jardim do Tabaco, Lisboa, 1994 – Era um eirado de alcatrão virado ao rio, frente a Santa Apolónia. Grande vista, calor, lua cheia. A música bombava forte e feio e a pretalhada representava o peso. Toda a boa catinga da margem Sul se propagava na atmosfera. Vivíamos o tempo do rap e a festa era dos rappers, para os rappers e as suas bandas yoo! Mal paramos no boteco e o meu ouvido sintonizou, fervi de vontade de entrar na sanzala. Fui-me afastando do dono e chegando a ela. Queria dançar e estendi-me um bocado, até que uns blacks repararam. Quando um ganhou coragem, falou:

 

– Dánças bém!
– Obrigada.
Nem dois minutos depois, o matumbinho volta a abrir a goela:
– Quantos anos é que tu téns?
– Adivinha lá.
Flanou o olhar por mim e entrou na dúvida, pausadamente:
– Eh pá, num sei… tem umas coisa que parece que tu és pita, mas tem outras que parece tu és coota…
– Tenho 26.
– Ahhhh, ‘tão é isso! Tu nem és cota, nem és pita.


Queres o quê?


letraspequenas,

 

Ir embora. Para onde? Para casa. Mas aqui é a nossa casa Gui. E a outra nossa casa pai? Ficou lá Gui, ficou lá. Então podemos ir no avião pai. Ficou tudo lá Gui.

Emília Tomásia, orgulhosamente cabo-verdiana, dava colo e costas na hora de varrer ou de correr entre as casas e cubatas do Alto Catumbela, um lugarejo erguido para os trabalhadores da Celulose, onde o rio Catumbela tinha duas pontes; a de betão e a de madeira – pedestre, com frestas tão largas que era borra uma criança atravessar. Lá em baixo, na correnteza brava do rio, os jacarés viviam atentos, e a Emília contou que eles imitavam o choro de miúdos, só para apanhar gente.

Tínhamos um clube que exigia cartão de sócio com fotografia, uma grande piscina pública, um recinto para farras memoráveis, a Cooperativa, mercado exclusivo dos colonos, e um colégio. Património respeitável, constituía as Casas 1 e 2, com belos relvados e arbustos, que instalavam os Administradores da fábrica. De resto, pouco mais figurava naquele lugarejo no meio do mato, fundado há umas décadas por brancos da Pátria, além dos hectares e hectares de eucaliptal onde o meu pai passava os dias.
Depois, veio Benguela, cidade maravilhosa. Carros, machimbombos, bicicletas, flores nunca vistas, cachos de dém-dém, gente, mar e ondas, tudo pertences da Praia Morena e do prédio onde calhámos. Coqueiros, acácias, areia, água… e de novo à areia, quente, quente até ao pescoço. Às vezes, todos se estendiam no alcatrão, brancos e pretos, como gatos ao sol. Benguela era os rapazolas das mini-hondas, a bomba de gasolina com uma onça a fazer vezes de cão e a esplanada do Tan-Tan, onde meu pai me esperava no fim das aulas a beber cucas. Na grande escola dos Professores do Posto leccionava minha mãe e lá em casa toda essa classe de pessoas se sentava à mesa de jantar, sacava papéis das malas e ficavam a falar até de madrugada. As coboiadas do Trinitá Insolente, em Benguela, aconteciam debaixo das estrelas, acompanhadas de vozes suplicantes: “cuidaaaado meu, ele vai-te matar!”. Cinema Calunga, viagens para lá de minimoke, sempre em pé, cantando hinos promissores e emocionados: “sob a bandeiraaaa do MPLAAA, nós faremos a revoluçãããão”. Mas domingos, era missa certa na catedral, reencontrando um ror de gente que sempre combinava grandes convívios, incluindo o Senhor Padre, até a guerra rebentar e parar com toda a dança daquela vida.
Foi-se a cor, o calor, o riso e até o olho vivo da nossa Emília Tomásia, que numa choradeira sem fim embarcou num navio com destino a Cabo Verde, ainda antes de passarmos duas noites num aeroporto cheio de famílias pelo chão que também esperavam um lugar no Jumbo rumo ao desconhecido.

Pai, aqui é frio e as pessoas estão escuras. É outro clima Gui. Lá em Benguela pai, é mais bonito. Mas é aqui que estamos agora Gui. Qualquer dia vamos voltar pai. Talvez Gui.

Ai procuras trabalho… e um BMzito, não vai?


letraspequenas,

Nem vou investigar, até porque nada me admira quando se trata de marketing em terras lusas (e aqui entre nós, não meto nariz na vida dos ‘boches’), mas ao que parece, quem se regista no “maior site de emprego em Portugal”, habilita-se a receber na caixa de correio, a “oferta” infra.

Vejam e digam-me se não depreendem, como eu, que os anunciantes têm acesso à base de dados dos utilizadores. Será possível? E quem anda à procura de trabalho, constitui o universo que interessa à BMW?! Coisa estranha…

 

De: BMW <ofertas@net-empregos.com>
Data: 12 de Novembro de 2012 20:09
Assunto: Conheça todas as vantagens BMW Premium Selection
Para: jose neto


 

Exmo.(a) Sr.(a) jose neto
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o vento


letraspequenas,
 

empurrava desde ontem e tudo estonteava na batida. andou beijando o céu por entre as casas e foi aquele azul quase uma vida. refeito olhava a rua, incrédulo foi voando de rajada. à medida que insistia na corrida, que a distância o apartava, sentia-se o vento agrilhoado. a chuva ainda o chamou de onde andava. estranhou a recusa à tempestade e o rol de frases descabidas: “pode lá perder-se o vento!”. o vento que desde ontem empurrava e tudo estonteava na batida, mentia. fintava a noite, quando viu o azul e a rua em alvorada. beijando o céu por entre as casas, amainou no beco a ventania.

Noite, noite…


letraspequenas,

 

Como eu hoje te esperei. Como queria as tuas horas, tão diferentes das dos dias. Sabes lá o que elas são. Nem sequer te vou contar. Esperei tanto que viesses, que me visses. Vês-me noite? Eu aqui à tua beira, debaixo do teu nariz? Pára de me atirar estrelas, que me estragas o vestido. Gostas dele noite? Que beleza tens trazido. Já ontem te calculei. Toda a semana desconfiei. Sabia. Era hoje que te via. Até o passei a ferro.

Noite, noite, fica noite até ser dia. Com as tuas horas sem pressa, sem que nada lhes aconteça. Lentas, mudas, belas, surdas. És um presente do céu. O melhor que alguém me deu. Sabes noite, o que eu gostava? Ao teu colo voava, no prenúncio da aurora. Sim. De ir aos lugares onde te metes. Por aí fora. Saudades? De noite não se é o mesmo. Pensei que sabias isso. Na noite, noite, pouco ou nada quer o dia.

 

Maria gosta da pinga


letraspequenas,

 

Gosto das lojas do meu bairro porque lá se escarrapacha a minha cidade. Gosto do Albino mulato que encontra a paz numa dúzia de minis e lembra a Angola-paraíso que deixou para trás. Pelo-me pela Cassilda voz de bagaço, que criou a neta, enterrou o filho drogado e assistiu às escaras do pai entrevado – tudo ao mesmo tempo. E pela menina Maria, que nasceu onde mora em 1920, e vem comprar um rajá porque sente tonturas e precisa de açúcar. Joga-lhe o banco o merceeiro, manda-a serenar e encolhe o ombros, apontando à boca. A menina Maria, de cara esveiada, ignora a rodela que o gargalo pintou no beicinho encarquilhado. A menina Maria gosta da pinga, embirra com os euros, pergunta se “é fresco” e denuncia a caloteira que manda a filha, sabendo que à criança o Carlos jamais negaria a saca das carcaças que lhe hão-de matar o bicho.

No meu bairro ninguém fica só, porque há portas abertas e luzes acesas e bocas que falam. E a D. Maria Pia que Deus tem, pode vir à sua rua mirar o Tejo, respirar Monsanto e ouvir a gente que por cá continua.

cá entre mim, txticulos.wordpress.com


letraspequenas,

– há muito que treino o espírito, pela tua saúde. cala-te corpo.

– sinto o abandono nesta prosa colada, sem direito a crédito, como filhos deitados aos males do mundo. 

– sei. o que nos sai do corpo, o corpo lamenta. são dores do apego. deixa lá o texto correr o espaço, sem nome por baixo, sem ser de ninguém.

– pertença de todos. não importa quem foi. pronto, está bem.

 

que seria…


letraspequenas,

… partir sem data de volta, para uma outra banda, onde nem a maresia chegasse, quanto mais saber-te ao fundo. que seria, sem água que lave as poeiras, nem leito que espelhe as luas. sem o eco do cais nos sentidos.

 

réstia tua, desconsolo. sombra desta nossa vida. tempo que foste metade de mim à espera da mais muda noite, louvando em silêncio a mesma oração. e a ânsia do dia, essa ânsia do dia, sempre promessa, sempre canção. sobe, desce, rua, rio.

 

fosse e subir-te-ia as marés em lágrimas. e para me não ver ausente da luz que te faz em tela, bem firmes, fechar-me-ia os olhos, e meu braço, se acenasse, era a súplica em pessoa: deita-me uma amarra, cidade, segura-me a ti, Lisboa.