Maria gosta da pinga


letraspequenas,

 

Gosto das lojas do meu bairro porque lá se escarrapacha a minha cidade. Gosto do Albino mulato que encontra a paz numa dúzia de minis e lembra a Angola-paraíso que deixou para trás. Pelo-me pela Cassilda voz de bagaço, que criou a neta, enterrou o filho drogado e assistiu às escaras do pai entrevado – tudo ao mesmo tempo. E pela menina Maria, que nasceu onde mora em 1920, e vem comprar um rajá porque sente tonturas e precisa de açúcar. Joga-lhe o banco o merceeiro, manda-a serenar e encolhe o ombros, apontando à boca. A menina Maria, de cara esveiada, ignora a rodela que o gargalo pintou no beicinho encarquilhado. A menina Maria gosta da pinga, embirra com os euros, pergunta se “é fresco” e denuncia a caloteira que manda a filha, sabendo que à criança o Carlos jamais negaria a saca das carcaças que lhe hão-de matar o bicho.

No meu bairro ninguém fica só, porque há portas abertas e luzes acesas e bocas que falam. E a D. Maria Pia que Deus tem, pode vir à sua rua mirar o Tejo, respirar Monsanto e ouvir a gente que por cá continua.

9 comentários em “Maria gosta da pinga”

  1. Bonito. A Cassilda e a Maria julguei vê-las para os lados de São Miguel de Seide a escapulirem de um velho romance Camiliano.

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