Pouco barulho


letraspequenas,

Há dias falava de palavras, do estardalhaço ininterrupto que fazem dentro de nós, dos estragos capazes de provocar. Há-de ser assim com todos, fazendo menos mossa a uns, que as gerem melhor, mais a outros, que sufocam se lhes não dão primazia, andamento e caminho visível. Tempos houve em que me acalorava a conversa, a comunicação, a fala, o desabafo, as ideias. Hoje, nada disso me interessa como outrora. Chego a ter saudades do silêncio. Palavras leva-as o vento, estrebucha o ditado em mim. Estafam-me conversas sérias, cansam-me as opiniões sobre tudo e mais alguma coisa. Os porquês disto e daquilo, que se exigem a ferro e fogo, servindo umas poucas de inverdades e de loucuras. Encantam-me os que sem abrir boca dizem tudo. E vou à lua com os que teimam fazer com o gesto o seu discurso, a sua declaração de amor. Hoje, percebo uma série de homens calados que havia antigamente. E as mulheres que agora me dizem “fazes-me rir”. Conversas, de facto, só para rir. Para chorar, para ensinar, para guardar, escrevam. Mergulhem no silêncio, oiçam-se e escrevam como souberem. Nas mãos, nas paredes, nos panos da loiça. De resto, poupem-se. Senão um dia ninguém vos ouve.

29 comentários em “Pouco barulho”

  1. Ah! lindeza tamanha, que você está a caminho da sabedoria. Demorei a perceber o que me disse um colega trabalhador: “por algum motivo temos dois ouvidos e uma boca.”.

    1. Tirei essa foto para si, Anómino. Para nunca se esquecer de bater na nossa porta, ainda que não diga nada.
      E ai, isso que me diz lembra a morte. Schhh, que tenho uma curiosidade doida e ainda me mato, enquanto as folhas caem 🙂
      Beijo!

      1. Tante grazie.
        Nã, nã é a morte, é a vida. O silêncio é o som da união entre a parte e o todo. É a descoberta, em nós, da dimensão que nos transcende; é respeito pelo outro, quando posso.
        As folhas caídas que regressam às origens é excatamente o símbolo desse desprendimento. Quando nos libertamos de nós, e também dos outros, compreendemos a origem (o sentido).

        Em palavras simples: é o acreditar que somos sempre renovadamente Primavera.
        Retribuo o xuac.

  2. D’esse vermelho sanguíneo
    Sobre fundo branco e velho
    Onde repousa a aldrava
    Batida por punho ígneo
    Lembra o tempo gasto e relho
    Em que a palavra sobrava.
    😉

  3. Percebo, acho que muita gente partilha a sensação mas, como posição, é algo perigosa:
    – No limite, convida à indiferença ou à demissão;
    – Ainda que inadvertidamente, pode revestir-se de alguma sobranceria.

  4. O meu marido lembrava-se ainda de quando percebeu, escandalizado, que as pessoas precisavam de falar para se entenderem.

      1. Sim, sei que achava muito mal feito (presumo que da mesma forma que, em adulto, achava que a morte era um erro que mais tarde ou mais cedo havia de ser corrigido).
        Não sei bem que idade tinha, mas sei que começou a falar muito tarde, ao ponto de os pais começarem a preocupar-se. Sei também que considerava a a sua cadela Prune como sua segunda mãe, o que aliás se notava, em adulto 🙂

        1. Seu marido, Isabel, purinho que ele era. Parece-me assim ao de longe. A ideia de erro da morte é uma coisa… sei lá, do outro mundo. Só lhe posso agradecer contar-nos essa memória.
          Venha sempre!

  5. Belo texto. Com sabedoria. Gostei.

    Não vem lá muito a propósito, mas, como também diz o povo, “um tolo calado passa por por pessoa sábia…”; e, sinceramente, o que não falta aí pelo país fora, em especial nos ‘media’ – veja-se o que se passa nas tvs – é muita gente a dizer muita tolice, para quem, ao menos para mim, não há pachorra para dar atenção. Chiça!

  6. Que belo manifesto anti tagarela. Mas o que me tingiu os olhos foi esta linda porta sangue de boi e esta aldraba salpicada de sinais de outras encarnações 🙂

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *