Há dias falava de palavras, do estardalhaço ininterrupto que fazem dentro de nós, dos estragos capazes de provocar. Há-de ser assim com todos, fazendo menos mossa a uns, que as gerem melhor, mais a outros, que sufocam se lhes não dão primazia, andamento e caminho visível. Tempos houve em que me acalorava a conversa, a comunicação, a fala, o desabafo, as ideias. Hoje, nada disso me interessa como outrora. Chego a ter saudades do silêncio. Palavras leva-as o vento, estrebucha o ditado em mim. Estafam-me conversas sérias, cansam-me as opiniões sobre tudo e mais alguma coisa. Os porquês disto e daquilo, que se exigem a ferro e fogo, servindo umas poucas de inverdades e de loucuras. Encantam-me os que sem abrir boca dizem tudo. E vou à lua com os que teimam fazer com o gesto o seu discurso, a sua declaração de amor. Hoje, percebo uma série de homens calados que havia antigamente. E as mulheres que agora me dizem “fazes-me rir”. Conversas, de facto, só para rir. Para chorar, para ensinar, para guardar, escrevam. Mergulhem no silêncio, oiçam-se e escrevam como souberem. Nas mãos, nas paredes, nos panos da loiça. De resto, poupem-se. Senão um dia ninguém vos ouve.
Pouco barulho
letraspequenas,


Ah! lindeza tamanha, que você está a caminho da sabedoria. Demorei a perceber o que me disse um colega trabalhador: “por algum motivo temos dois ouvidos e uma boca.”.
Bem visto! Também demorei 🙂
E sabedoria é ter o seu Adeus à mão, Jorge Antunes,
Saudades!
( )
PS- Sem palavras, tamanha é a qualidade do texto.
Sem ar, por tamanho elogio.
Obrigada, Senhor 🙂
Minh@ agridoce Lima,
as folhas caídas regressam sempre à raiz.
Silêncio é a união da Parte no Todo:
http://www.youtube.com/watch?v=JGV5Ux166 rs
Beijo!
Tirei essa foto para si, Anómino. Para nunca se esquecer de bater na nossa porta, ainda que não diga nada.
E ai, isso que me diz lembra a morte. Schhh, que tenho uma curiosidade doida e ainda me mato, enquanto as folhas caem 🙂
Beijo!
Anómino é mais louco, não é? eheh
É. 🙂
Tante grazie.
Nã, nã é a morte, é a vida. O silêncio é o som da união entre a parte e o todo. É a descoberta, em nós, da dimensão que nos transcende; é respeito pelo outro, quando posso.
As folhas caídas que regressam às origens é excatamente o símbolo desse desprendimento. Quando nos libertamos de nós, e também dos outros, compreendemos a origem (o sentido).
Em palavras simples: é o acreditar que somos sempre renovadamente Primavera.
Retribuo o xuac.
Ahhh. Tenho laivos desse paraíso. Laivos, laivos. Nada mau, é um começo.
D’esse vermelho sanguíneo
Sobre fundo branco e velho
Onde repousa a aldrava
Batida por punho ígneo
Lembra o tempo gasto e relho
Em que a palavra sobrava.
😉
Ah, Bartolomeu, Vexa verseja, e cá com um vocabulário!
Que beleza. Obrigada. Grande abraço!
Percebo, acho que muita gente partilha a sensação mas, como posição, é algo perigosa:
– No limite, convida à indiferença ou à demissão;
– Ainda que inadvertidamente, pode revestir-se de alguma sobranceria.
Por um lado, com certas gralhas e matracas, é indiferente. Por outro, ficar calado, convenhamos, não é para qualquer um – é preciso alguns predicados 😉
O meu marido lembrava-se ainda de quando percebeu, escandalizado, que as pessoas precisavam de falar para se entenderem.
Escandalizava-o, tal facto, era, IsabelPS?
Falar é preciso, claro. Mudos também não nos ajeitamos muito bem, eheh
Sim, sei que achava muito mal feito (presumo que da mesma forma que, em adulto, achava que a morte era um erro que mais tarde ou mais cedo havia de ser corrigido).
Não sei bem que idade tinha, mas sei que começou a falar muito tarde, ao ponto de os pais começarem a preocupar-se. Sei também que considerava a a sua cadela Prune como sua segunda mãe, o que aliás se notava, em adulto 🙂
Seu marido, Isabel, purinho que ele era. Parece-me assim ao de longe. A ideia de erro da morte é uma coisa… sei lá, do outro mundo. Só lhe posso agradecer contar-nos essa memória.
Venha sempre!
Eu é que agradeço 🙂
Belo texto. Com sabedoria. Gostei.
Não vem lá muito a propósito, mas, como também diz o povo, “um tolo calado passa por por pessoa sábia…”; e, sinceramente, o que não falta aí pelo país fora, em especial nos ‘media’ – veja-se o que se passa nas tvs – é muita gente a dizer muita tolice, para quem, ao menos para mim, não há pachorra para dar atenção. Chiça!
Muito grata, Beirão.
Desligar a tv 😉 Ligar 2 vezes por semana, só para saber o que vai. O resto é palha. Para nós, os burros.
Que belo manifesto anti tagarela. Mas o que me tingiu os olhos foi esta linda porta sangue de boi e esta aldraba salpicada de sinais de outras encarnações 🙂
eheh.
Largo de Santo António, ante-à-esquerda da Sé de Lisboa. Um senhor prédio em restauro. Bonitas portas e eu saquei 🙂
Ah, o silêncio, menina. Um luxo asiático que cada vez me é mais caro. É uma das razões por que eu gosto tanto da noite. Belo texto.
🙂 um abraço gratíssimo que te parta as costelas, eheh
Muito bem, muito bem, muito bem.
sentida vénia 🙂
Óptimo post. “Conversas, de facto, só para rir” é muito isto. Cada vez mais.
Obrigada Marta! É bom saber que lhe agradou.
Boa semana 🙂