Cumprindo a promessa…


letraspequenas,

A mesma carinha alva, físico raquítico, tão nervoso de entusiasmo como eu, corado até às orelhas, todo ele era ele, até a voz tornada de homem, arrastando o mesmo Dona Guida. E se para trás houve a pancada do padrasto, lado a lado com a delinquência do bairro, sem chafurdar nela, estudando muito pouco e cumprindo uns cursos subsidiados, procura modo de vida que o arranque do ciclo vicioso perpetrado na família. O velho morreu, a Reforma acabou, a mãe nunca trabalhou, o Rendimento Mínimo é pouco e o Banco Alimentar não supre seis bocas em idades vorazes. Visita assídua, dou-lhe uns trocos raros e uma bucha que alivie naquela noite. Sei com que perturbação me ligou a uns dias do Natal, preocupado com a Consoada, que o Banco só tinha dado três frangos, massa e óleo. Perante a importância dada ao Natal pelo rapaz, na hora, desvalorizei o bacalhau, falei de crise, e disse: pá, que se lixe, interessa é haver comida para todos, os frangos é fixe e arranjo o que puder para mais umas coisas, e compras doces, mas bacalhau para seis, esquece. É muita guita. Quando me caiu no prato, lá do catano da Noruega, uma posta até ao tecto, só me sabia a frango e a arrependimento.

 

PS: Aquele encontro já foi há 4 anos.

6 comentários em “Cumprindo a promessa…”

  1. É muito difícil que os frangos se pareçam com o bacalhau Gui. E esse gajo lá dos confins dos mares gelados ganhou um poder neste país que podem vir frangos engalanados que não o tiram do seu belo trono.
    E esses simbolismos que nos ” invadem ” ameaçadoramente a pele também não ajuda nada. Este episódio fez-me lembrar um outro passado comigo. Certa vez no café fui abordada por uma mulher que me pediu, um ” duchaisse ” aquele bolo que tem imenso creme branco, acho que é esse o nome. Eu achei que ela ficaria melhor com um pão com queijo e fiambre e paguei-lhe isso. Dei meia volta perante o olhar triste da mulher e fui á minha vida, não sem que segundos depois me arrependesse profundamente do meu acto. Chamei-me nomes a mim própria mordida de arrependimento.
    Que estupidez, que moralidade tinha eu para achar o que seria melhor para aquela senhora e porque não fazê-la feliz por uns minutos?
    Voltei atrás e paguei-lhe o bolo. Já passou muito tempo, não 4 anos, mas também não esqueci.

    1. Ora pois, é isso mesmo, cr. Um ‘vício’ entranhado de acharmos que sabemos o que é melhor para os outros, esse ímpeto imediato de julgar. Coisa velha, a que já se começa a deitar sentido.
      Um abraço!

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