Escolher cerejas


josegomesandre,

Cherrypicking: é como os americanos chamam ao acto de seleccionar, a partir de um conjunto muito variado, uma sondagem particular favorável ao nosso argumento ou interesse. Assim como, perante uma taça com muitas cerejas, escolhemos as mais apetitosas. O resultado daquele acto é, naturalmente, pouco científico, impedindo uma análise racional sobre a tendência de um determinado evento político. A cobertura da eleição presidencial americana tem sido marcada por actos constantes de cherrypicking. A imprensa continua a divulgar as sondagens que mais interessam à sua narrativa (e já nem falo dos blogues!), esquecendo todas as outras publicadas no mesmo período. Nas últimas semanas, ora surgem referências a vantagens claras de Obama (7 pontos) ora a um empate técnico. Uns preferem as sondagens estaduais para anunciar Obama como o mais-que-provável-vencedor. Outros agarram-se à Rasmussen para descrever uma luta titânica.

 

Tudo isto é verdadeiro. E tudo isto é falso. Estes intervalos são naturais, pois há diversas sondagens diárias nos EUA. Com tantos dados, podemos contar a história que quisermos. A imprensa tenderá a narrar uma história emocionante, para manter vivo o interesse da opinião pública, mas uma análise séria deve procurar olhar para a média ponderada das sondagens, a única forma de decifrar a objectiva tendência da corrida. É menos emocionante, claro. Não é divertido anunciar que a disputa deste ano tem-se mantido relativamente estável, com ligeira vantagem de Obama, reforçada nas últimas semanas, por factores ainda a determinar (eu aposto em Convenção Democrata e erros tácticos de Romney). Com tantas narrativas de altos e baixos, os leitores ficarão provavelmente surpreendidos ao verificar que Obama lidera as sondagens desde Novembro de 2011 (!) (média RCP).

Just for the record


josegomesandre,

Não vou à manif de amanhã porque não me apetece ser instrumentalizado pelos partidos de esquerda em que não confio e porque não sou contra a “saída da troika” do país (não me dou bem com bancarrotas, desculpem lá). Mas depois dos disparates desta semana – a ridícula proposta da Seg. Social, a patética entrevista de PPC, o desnorte da política económico-financeira e o absoluto pandemónio instalado no Ensino Secundário e Superior – deixei de apoiar este Governo. Só para que conste.

De mal a pior


josegomesandre,

“Fora com a Troika”. Não há frase mais perigosa por estes dias, movida pela ilusão de que a austeridade desapareceria instantaneamente. Ilusão que seria rapidamente substituída pelo mais puro desespero, ao descobrirmos que não haveria pagamento de salários públicos nem pensões em Setembro. Cuidado com o que desejam.

Os “tudólogos” nacionais e a política americana


josegomesandre,

Infelizmente, os cronistas de maior audiência em Portugal são profundamente ignorantes acerca da política americana. O que não os coíbe de se manifestarem sobre o tema, como qualquer bom “tudólogo” deve fazer. Os disparates tornam-se portanto frequentes. Que o diga Miguel Sousa Tavares, que afirma, entre várias tolices, ser desejo da dupla Romney/Ryan “fazer a guerra aos árabes, russos, chineses e aos pretos”, proibir o aborto até mesmo em caso de violação, extinguir o IRS para os mais ricos e defender “o direito inalienável de todos os cidadãos andarem armados e dispararem livremente”. Até dava para rir, se não fosse sério.

 

Ontem à noite, Marcelo Rebelo de Sousa resolveu juntar-se à festa e alinhar na lógica do comentário desinformado. Dizia o Professor que a Convenção Democrata tinha sido um insucesso e que correra francamente mal a Obama em particular (“que está uma sombra” do que foi), prevendo que a Convenção tenha um impacto nulo nas eleições. Curioso. A maioria dos comentadores elogiou a Convenção Democrata. O público americano gostou da Convenção, que teve maiores audiências do que a Republicana. Todas as sondagens mostram uma subida de Obama durante e após a Convenção. Nate Silver, um dos maiores especialistas eleitorais americanos, escreveu, ainda no Sábado, que a Convenção Democrata pode mesmo ter marcado um momento decisivo na campanha, catapultando Obama para a condição de “claro favorito” (front-runner).

 

Mas que interessa tudo isto? Todas estas sondagens, comentários e dados estatísticos? Marcelo acha que não correu bem. E se Marcelo acha que não correu bem, quem se atreve a dizer o contrário? Como dizia o saudoso Gore Vidal, “the biggest problem of our time, is that everyone has an opinion, but nobody has a thought”.

Não há em mim um pingo de revolucionário, mas…


josegomesandre,

… ultimamente tenho lido com renovado interesse um texto antigo: “A prudência recomenda que não se mudem os governos instituídos há muito tempo por motivos leves e passageiros; e, assim sendo, toda experiência tem mostrado que os homens estão mais dispostos a sofrer, enquanto os males são suportáveis, do que a se desagravar, abolindo as formas a que se acostumaram. Mas quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objecto, indica o desígnio de reduzi-los ao despotismo absoluto, assistem-lhes o direito, bem como o dever, de abolir tais governos e instituir novos Guardiães para sua futura segurança.” (Thomas Jefferson, Declaração de Independência dos EUA, 1776).

A utopia de Romney


josegomesandre,

Embora extraordinária no aspecto mediático e formal, a Convenção Nacional Republicana deixou-me algo perplexo quanto à substância das propostas da dupla Romney/Ryan nos EUA. Em síntese, os Republicanos propõem reduzir o desemprego, criar 12 milhões de postos de trabalho, revitalizar o crescimento económico, estimular as pequenas e médias empresas, diminuir os impostos aos mais ricos, criar um novo paradigma energético que não dependa da importação de petróleo (limitando contudo a indústria carbonífera e rejeitando igualmente as “energias verdes”), fortalecer o aparato militar (com maior apoio a Israel e um desafio explícito à Rússia de Putin), endurecer globalmente a política externa e reafirmar o poder americano no mundo.

 

Propõem fazer tudo isto sem criar novos impostos às classes médias, nem limitar os gastos militares (em Defesa e Segurança), reduzindo o défice orçamental e diminuindo a dívida pública (nomeadamente a contraída face à China), no meio da maior crise mundial económica e financeira dos últimos 80 anos. Espantoso. Obama foi (justamente) criticado por prometer este mundo e o outro. Mas o que são as propostas de Romney/Ryan senão um programa de intenções absolutamente utópico, tão irresponsável quanto irrealizável?

Convenção Nacional Republicana


josegomesandre,

Começa hoje a Convenção Nacional Republicana, que oficializará a escolha de Mitt Romney e Paul Ryan como candidatos à Casa Branca. Encontro de debate político e grande mediatismo, as Convenções partidárias marcam o início “a sério” das campanhas presidenciais americanas. O meu amigo Nuno Gouveia está na Florida, em reportagem especial para o 31 da Armada e o Era uma vez na América. Em jeito de prognóstico, deixo a minha leitura sobre as “forças” e “fraquezas” do evento:


Forças

– o “timing” não podia ser melhor: os dados da economia e desemprego são desanimadores para os Democratas; as sondagens mostram uma subida de Romney; e a nomeação de Paul Ryan animou a base conservadora. A Convenção pode ser a cereja no topo do bolo numa campanha em crescendo.

– foi uma boa ideia focar a Convenção nos temas económicos e fiscais, a principal preocupação dos americanos e o campo onde os Republicanos mais podem capitalizar com as fragilidades da Administração Obama.

– apesar das renitências iniciais do “establishment” em relação a Romney, a “máquina Republicana” conseguiu reunir as maiores figuras do Partido na Convenção, que terá como oradores Condoleezza Rice, John McCain, Marco Rubio, Rand Paul, Mike Huckabee, Jeb Bush, Christ Christie e Tim Pawlenty, entre outros. 

 

Fraquezas

– um azar chamado “Isaac”: não é uma novidade, mas a coincidência entre a chegada do furacão ao Sudeste dos EUA e a realização da Convenção Republicana traz problemas organizacionais e também riscos mediáticos, uma vez que a “mensagem política” poderá ser parcialmente abafada pelas notícias sobre o furacão.

– a Convenção serve também para definir a “plataforma ideológica” do Partido, e neste caso os Republicanos vivem uma autêntica crise de identidade, presos entre facções que pouco têm em comum: libertários, “conservadores sociais”, apoiantes do “Tea Party”, neoconservadores, “conservadores fiscais” e elites financeiras. Não vai ser fácil transformar esta manta de retalhos num partido coeso.

– apesar do esforço para combater a imagem de partido “WASP” (white anglo-saxon protestant), os Republicanos continuam a prestar pouca atenção aos grupos minoritários; se exceptuarmos Condoleezza Rice e os casos peculiares de Rubio (um latino da linha dura) e Fortuño (Governador…de Porto Rico), não há praticamente na Convenção representantes significativos de grupos sócio-políticos cruciais, como negros, hispânicos e mulheres.

Dos cães e dos homens


josegomesandre,

Por estes dias multiplicam-se notícias de pessoas atacadas violentamente por cães. O tema é polémico. Quem invoca o problema é prontamente criticado por insensibilidade (“coitadinhos dos cães”) e aversão primária a animais (“tu não gostas de animais, não percebes!”), ou então bombardeado pelos habituais clichés (do tipo “não há cães perigosos, só donos perigosos”). É o politicamente correcto no seu melhor, a impedir um debate sem “cortinas de fumo”, e cuja expressão máxima ocorre diariamente no espaço público: apesar dos enquadramentos legais (que obrigam ao uso de trela e de açaime em determinados casos), milhares de pessoas continuam a passear os seus cães na rua sem trela, sem controlo, sem cuidado – ou seja, autenticamente à margem da lei.

 

Por mais que custe aos “amigos dos animais”, a verdade é que estes últimos podem iniciar acções violentas sem motivo aparente, tornando-os um perigo permanente para quem com eles se cruze. E uma vez que os animais não podem ser responsabilizados, são os seus donos os culpados por esta ameaça ao bem-estar público. Vejo aliás, com frequência, a satisfação quase mórbida com que muita gente passeia os seus cães sem trela, à espera de encontrar um olhar atemorizado ou um transeunte que pára a marcha ou muda de passeio com medo. Mas ai de quem se atreva a criticar a irresponsabilidade do dono (só explicável por uma qualquer insegurança freudiana): é de imediato adjectivado de medricas ou “insensível”. E se por acaso o cão tem um ataque de raiva, ainda somos nós os culpados – “porque mostrámos medo”. Afinal de contas, dizem, “ele nunca fez mal a ninguém”…

 

Considero esta forma de intimidação absolutamente inaceitável. Pouco importa se mostrei medo ou não mostrei, se o cão costuma ser calmo ou não. O comportamento de um animal escapa a padrões seguros de racionalidade – e não lhe podendo imputar a responsabilidade de um acto nocivo, não lhe posso igualmente atribuir o direito de limitar a minha liberdade de movimento e acção. Entendam-me: reconheço o direito de qualquer pessoa ter animais, dentro dos quadros legais previstos. Mas essa pessoa não pode usar o seu animal para cercear o meu direito a andar tranquilamente na rua, sem temer que acabe no hospital desfigurado ou com uma perna desfeita por causa de um cão que não é da minha responsabilidade.

Soares, a rua e o Governo


josegomesandre,

Mário Soares considera que “a maioria da população está a reclamar um novo Governo em Portugal”. Ainda que seja verdade (não tenho dotes adivinhatórios e as sondagens não são claras sobre isto), só há um espaço legítimo para concretizar essa “reclamação”: eleições livres. Os cidadãos têm todo o direito para protestar contra as acções governativas. Podem e devem criticar opções políticas, de forma a alterar essas opções. Podem e devem sugerir alternativas. Podem apelar aos tribunais para amplificarem o escrutínio governativo. E devem usar todos os meios legítimos para fazer ouvir a sua voz.

 

Todavia, pretender que a amplitude dos protestos públicos seja o instrumento de legitimação do poder político implica uma subversão da Constituição (a tal que é sacrossanta quando nos dá jeito) e dos valores democráticos em geral. Com efeito, a existência de uma vigilância popular e o direito à crítica pública não podem ser louvados em oposição à existência de um Governo legítimo, uma vez que este emana do único instrumento até agora inventado para auscultar a vontade do povo soberano em democracia: um escrutínio global, secreto e livre.

 

Condicionar a existência de um Governo à “vontade da rua” implicaria confundir um protesto parcial e condicionado (a um tema particular, a um grupo particular, etc.) com o momento de escolha geral dos agentes políticos, protegido pelo secretismo da cabina e dirigido à totalidade dos cidadãos. Isto vale mesmo no caso hipotético em que a “rua” fosse “maioritária”: tal protesto continuaria a ser significativo apenas no seu enquadramento próprio, i.e., no contexto de um acto de crítica pública. Este é ontológica, política e juridicamente distinto de um acto eleitoral, que convoca não apenas uma “maioria” a propósito de uma “questão peculiar”, mas sim “todos” os cidadãos a decidirem da composição dos órgãos governativos para a consecução de políticas públicas gerais.

 

P.S. É provável que este texto conduza a comentários que me chamam de ditador ou passos-coelho-lover. Não sou nenhum dos dois. Mas interessa-me avaliar o funcionamento da crítica pública nos quadros democráticos. E, para já, sou institucionalista até à medula: crítica pública com o objectivo de operar mudanças nas políticas públicas? Óptimo. Crítica pública com o objectivo de se substituir aos actos eleitorais, operando mudanças de Governo? Sou contra, salvo em casos absolutamente extremos (violação do contrato social, instituição de regimes ditatoriais, violação de direitos fundamentais – vida, liberdade e propriedade, Locke dixit).

“Grandes ideias…


josegomesandre,

… impossíveis de provar”. Eis o sugestivo título de um magnífico livro editado pela Tinta da China, que recolhe dezenas de contributos de reputados cientistas das mais diversas áreas (astrofísica, biologia, informática, medicina, psicologia, filosofia, etc.). O desafio? Indicar em meia dúzia de linhas um palpite sobre uma hipótese científica que o autor julga ser verdadeiro, mas que as limitações da ciência actual impedem para já de comprovar. O resultado é uma espécie de viagem ao futuro promovida pela imaginação humana, que nos aponta notáveis possibilidades – a vida noutros planetas, a aplicação da teoria da evolução ao mundo virtual, a existência de consciência nos animais, universos paralelos, entre muitas outras abordagens aos mistérios da ciência.

 

Deseja o caro leitor entrar no jogo? Deixe-nos o seu palpite: “O que acredita ser verdade, mesmo sem poder prová-lo?”

James Madison, pioneiro intelectual


josegomesandre,

Vai animada a discussão na blogosfera sobre o liberalismo americano e a figura de James Madison (entre o Samuel Paiva Pires e o Miguel Castelo Branco), que aliás até começou por se centrar na importância do contributo americano para um hipótetico federalismo europeu (ver Paulo Marcelo,Samuel Paiva Pires, Nuno Pombo e João Vacas, entre outros).

 

Em relação a Madison – e depois de ter escrito 400 páginas sobre o senhor – tenho dificuldade em avançar com opiniões sintéticas. Mas vale a pena tentar, pelo menos para sublinhar quão injusto é descrever a sua obra como “menor” ou “pouco original”. Tal visão deriva de um erro comum – associar Madison quase exclusivamente ao “The Federalist” (1787-88) – quando, na verdade, a sua obra completa preenche mais de 50 volumes, com milhares de discursos, artigos de jornal, panfletos, cartas e peças de ocasião. Com efeito, os 29 textos que Madison escreveu para o “The Federalist” correspondem a menos de 1% da sua obra, que se espraia até 1836! Só quando consideramos esta imensa vastidão podemos apreciar verdadeiramente a sua relevante herança teórica.

 

Na realidade, Madison foi o primeiro autor a tematizar a ideia de federalismo, na sua dimensão teórico-conceptual e prática. Foi também o primeiro pensador a defender claramente as virtudes do pluralismo para uma sociedade livre, quebrando com o preconceito europeu nesta matéria (que fazia equivaler eficácia a homogeneidade). Madison foi ainda um dos primeiros autores a advogar o paradigma activo da liberdade religiosa (direito natural do indivíduo) por oposição ao conceito passivo da “tolerância” (mera concessão do governante). Foi o primeiro autor a defender abertamente as vantagens dos partidos para a vivência democrática. E foi um dos primeiros a abordar questões-chave do pensamento político moderno como o constitucionalismo, a ideia de cidadania, o princípio do “filtro representativo” e as virtudes da liberdade de imprensa. Já chega para pertencer ao Panteão dos grandes pensadores do Ocidente?

 

Quanto ao federalismo europeu e o “exemplo americano”, remeto para um texto que escrevi há uns meses, destacando o seguinte trecho: “A preferir um verdadeiro federalismo, a Europa não se pode dar ao luxo de rejeitar um profundo debate teórico sobre os seus fundamentos. Neste contexto, é particularmente importante reaprender com o passado, enquanto se prepara um futuro alicerçado em soluções próprias. O caso norte-americano deve ser aqui peça modelar essencial, pelas suas inúmeras lições. Umas, históricas (federalismo americano também se ergueu sobre a cacofonia de treze Estados independentes e com poucas ligações entre si, após uma espinhosa crise institucional que se seguiu à Revolução). Outras, conceptuais: a importância de criar equilíbrios institucionais numa república federal (para não tornar opressiva nenhuma das estruturas políticas envolvidas); a necessidade de alicerçar a união política numa sanção popular; e o elogio do pluralismo, uma vez que a diversidade não é um obstáculo, é uma bênção.”

 

[também no Era uma vez na América]

O Pingo Doce no Parque Eduardo VII


josegomesandre,

No 1º de Maio a Feira do Livro estava cheia de gente que se acotovelava nos corredores, procurando beneficar de promoções elevadas, várias vezes superiores a 50%, em stands onde trabalhavam diversas pessoas durante longas horas. 1º de Maio, pessoas a trabalhar, caos generalizado, promoções vistosas, aparente “dumping” das editoras. Nem uma palavra – uma – nas redes sociais, nos jornais, nos media, nos blogs. Porquê? 

A Esquerda-caviar


josegomesandre,

“[…]a horda de zombies consumistas que esvaziaram prateleiras e lutaram por um pedaço do sonho proporcionado pelo magnânimo Alexandre Soares dos Santos, um dos pais da pátria. Estão todos bem uns para os outros: […]; também os zombies estão de parabéns: os milhares (milhões?) de clientes que hoje gastaram dinheiro em mercadorias a granel – é para isso que estes estímulos ao consumo desenfreado servem – não chegarão a perceber que parte daquilo que compraram não era absolutamente necessário e por isso viverão felizes na ignorância dos estúpidos. […] E o “povo”, essa entidade que, quando quer, sabe comportar-se como uma horda de zombies, esteve literalmente a borrifar-se para a crise e para os direitos dos trabalhadores.” [Sérgio Lavos, no Arrastão – óbvio].

 

A esquerda-caviar no seu melhor: o “povo”, por quem tanto se preocupa, é afinal uma horda de zombies estúpidos, que vive na ignorância e é manipulada pelo grande capital. Precisa de quem os ilumine, como dizia Rousseau, o pobre do “povo”. Gosto quando estala o verniz desta elite gourmet, tão alarmada com os “direitos do povo” quanto alimentada pelo seu sentimento de superioridade moral e intelectual.

As promoções do Pingo Doce


josegomesandre,

O timing das promoções foi oportunista e provocador (o que se esperava depois da guerra nos últimos dias entre supermercados e sindicatos). Mas tirando isto, o que justificou tanta algazarra nos media, tanta indignação (São José Almeida falou mesmo em “atentados à dignidade humana”), tantas “manifestações de pesar”? O Pingo Doce ganhou (pelas vendas e pela publicidade). As pessoas ganharam, poupando dezenas de euros. O Estado ganhou milhares de euros em impostos. Os trabalhadores ganharam um dia de salário a triplicar, o direito a gozar uma folga e desconto de 50% em compras. Caramba, até os jornalistas ganharam tema de reportagem num dia soporífero.

 

O resto é folclore. Folclore da Esquerda-católica, que gosta de apregoar a sua “preocupação pelas pessoas”, mas prefere falar do “dumping” e dos atentados a não-sei-o-quê, quando na verdade milhares de pessoas (na maior parte desfavorecidas) tiveram um dia em cheio, com efectivo impacto nas suas difíceis contas. Folclore da Esquerda-caviar, que manda umas bocas ao Pingo Doce e aos coitadinhos manipulados pelo grande capital, porque lhe sobra dinheiro para comprar o que bem entende, ao preço que calhar, no Corte Inglés e nas lojas gourmet. E folclore da Esquerda-socialista, que suplica por políticas de crescimento e desenvolvimento, mas quando vê iniciativas bem-sucedidas com origem em empresas privadas, a que as pessoas aderem por sua livre escolha (e interesse), entra de imediato em pânico, face à necessidade de repensar os seus estereótipos intelectuais.

Cadáver esquisito (11)


josegomesandre,

1. UM LIVRO, 2. CA…… SARKIS G……..N, 3. OLHOS, 4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS, 6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA, 7. O MEDALHÃO, 8. O SEGREDO, 9. LABIRINTOS, 10. FRAGMENTOS DE HISTÓRIA

11

UMA VIAGEM

 

Valerya não lhe respondeu. Um pesado silêncio preenchia a sala, entre rostos cabisbaixos e esgares de incómodo. João Cosme esboçou um leve sorriso. Também ele estava surpreendido com aquela estranha revelação, a de um livro com uma data escrita aparentemente dez anos antes da sua publicação. Mas a primeira – a única – resposta que lhe ocorreu para tão invulgar mistério era tão simples quanto divertida. Talvez aquele número rabiscado tivesse sido de facto escrito em 1942. Nada de tão anormal assim, para um homem que durante anos devorara H.G. Wells, Sprague de Camp e Michael Moorcock. Que passara infindáveis tardes imaginando-se para lá dos limites do tempo, capaz de superar as barreiras da física e de conhecer outras realidades, outros homens, outros mundos. Porventura recuar até à época em que os seus dias não eram ainda turvos e o crepúsculo não teimava invadir os seus pensamentos.

— 1937 – disse em voz baixa Valerya, rompendo o silêncio da sala e cortando abruptamente a intempestiva reflexão de João Cosme.

 

(Este é o décimo primeiro capítulo do nosso ‘cadáver esquisito’, explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a do José Maria Gui Pimentel.)

Professor Karamba


josegomesandre,

“qualquer governo que saia das eleições de 5 de Junho dura só até à Páscoa de 2012. E vai com sorte.” (Maio de 2011)

 

“este governo não dura até à Páscoa.” (Julho de 2011)

 

“Sejamos claros: a Europa está à beira da implosão. Pode durar mais quinze dias, não dura certamente até ao Natal.” (Setembro de 2011)

 

Definitivamente, desde que se apaixonou pelo “socratismo” Eduardo Pitta não acerta uma.