“[…]a horda de zombies consumistas que esvaziaram prateleiras e lutaram por um pedaço do sonho proporcionado pelo magnânimo Alexandre Soares dos Santos, um dos pais da pátria. Estão todos bem uns para os outros: […]; também os zombies estão de parabéns: os milhares (milhões?) de clientes que hoje gastaram dinheiro em mercadorias a granel – é para isso que estes estímulos ao consumo desenfreado servem – não chegarão a perceber que parte daquilo que compraram não era absolutamente necessário e por isso viverão felizes na ignorância dos estúpidos. […] E o “povo”, essa entidade que, quando quer, sabe comportar-se como uma horda de zombies, esteve literalmente a borrifar-se para a crise e para os direitos dos trabalhadores.” [Sérgio Lavos, no Arrastão – óbvio].
A esquerda-caviar no seu melhor: o “povo”, por quem tanto se preocupa, é afinal uma horda de zombies estúpidos, que vive na ignorância e é manipulada pelo grande capital. Precisa de quem os ilumine, como dizia Rousseau, o pobre do “povo”. Gosto quando estala o verniz desta elite gourmet, tão alarmada com os “direitos do povo” quanto alimentada pelo seu sentimento de superioridade moral e intelectual.

Pois é. A consideração pelo povo está bem patente neste texto.
Uma coisa nojenta, é verdade. Por aqui se vê como é impossível à esquerda-caviar desligar-se do culto da imbecilidade.
Touché
Oh Zé Gomes André! Não vês que…
.Eles são mais inteligentes
.Eles são mais cultos
.Eles vêem mais longe
.Eles são iluminados
.Eles são os únicos que lêem
.Eles são a consciência social personificada
.Eles são o último reduto da soberania intelectual!
Ou estás a querer dizer que…
.Eles enrodilham-se nas coisas simples e cristalinas para as tornar complexas e indecifráveis
.Eles só vêem o que conhecem e não provam alimento alheio
.Eles são alienados
.Eles só se lêem uns aos outros e tomam os outros por parvos
.Eles fazem muito pouco, ou nenhum, pelo próximo
.Se lhes fossemos medir o QI, lá desfaríamos nós a pose da maioria deles que era um instante.
Estás inspirada, Laurinha 🙂
Artigo perfeito.
Não é capaz de passar na cabeça desta gente que as pessoas que se deslocaram aos pingos doce, o fizeram porque:
a) o quiserem (como dita as liberdades individuais, embora saiba que as pessoas que escrevem do arrastão preferem outro tipo de ideólogos)
b) porque precisavam
Porque há consumismo, porque ele existe, e é essa a sociedade em que vivemos. Contudo, antes isto do que vivermos numa sociedade onde não há maneira de alimentar a população, como acontecia no Antigo Regime (no verdadeiro antigo regime não há 30 anos) onde, como explicou Braudel, estavámos subordinados ás intempéries do tempo e do espaço. É também neste tipo de coisa que temos de pensar, de maneira a relativizar os nossos preconceitos e perceber que o mundo que hoje temos não nasceu há 100 anos.
Excelente texto.
Obrigado pelo comentário, Daniela 🙂
Um texto que diz tudo. Começo a ficar saturado desta esquerda tão iluminada que arrisca ficar cega.
Acho que ainda ninguém percebeu que o Povo não existe.
A esquerda-caviar é a dona da verdade. Os únicos iluminados neste jardim à beira mar.
A esquerda caviar, a direita bolorenta, os zombies, os fascistas… e assim vai a discussão das coisas – Colar o carimbo, como justificação dos argumentos, classificá-los e não reflecti-los ou desconstroi-los. É de facto, mais rápido e até divertido.
Toda a gente comenta e critica, mas parece que nenhum dos que critica foi ao Pingo Doce. É quase o mesmo que dizer que não se gosta de um livro pelas opiniões que se leram acerca dele, sem o ter lido.
Pois eu fui ao Pingo Doce. Fui, e vi (para além de comprar) o que essa horda de consumistas zombies andou a adquirir com voracidade pornográfica: bens essenciais. Os corredores das bebidas alcoólicas? Com os stocks completos. Doces? Aperitivos? Guloseimas? Stocks completos. Secção de mecânica, bricolage, e semelhantes? Cheias. Prateleiras vazias, não havia? Havia sim – arroz, azeite, óleo, iogurtes, massas, leite, fraldas. E chamar zombies consumistas a pessoas que aproveitaram uma promoção para garantir a sua subsistência por mais uns meses, merece-me a maior censura.
Quando se fazem filas durante dias para comprar um bilhete para o concerto dos U2, para garantir a compra de uma playstation ou de um qualquer outro gadjet acabado comercializar, acha-se graça. Afinal de contas, é a corrida ao supérfluo, ao sinal exterior de riqueza e excentricidade – vivemos numa sociedade que valoriza isso.
Já a corrida ao Pingo Doce é o movimento contrário. E a pobreza constrange. Ficamos todos com muita vergonha, porque afinal, a pobreza é coisa de esconder. Podemos não ter que comer, mas a roupa tem de ser de marca, não vá o vizinho desprezar-nos.
Eu acho que 3ª feira foi o primeiro dia em que neste país a pobreza, o medo do futuro, a situação “grega” que nos agitam à frente dos olhos saiu à rua sem pudor. E houve quem se tivesse sentido incomodado. Porque afinal, ser pobre “é” uma grande vergonha.
Parece que o o cinto já não pode ser mais apertado, e há quem não tenha ainda percebido isso.
ZOMBIES?!!!!!! Ah! Ah! Ah! Que grande dia 1 de Maio para quem pôde aproveitar encher a despensa!