Vai animada a discussão na blogosfera sobre o liberalismo americano e a figura de James Madison (entre o Samuel Paiva Pires e o Miguel Castelo Branco), que aliás até começou por se centrar na importância do contributo americano para um hipótetico federalismo europeu (ver Paulo Marcelo,Samuel Paiva Pires, Nuno Pombo e João Vacas, entre outros).
Em relação a Madison – e depois de ter escrito 400 páginas sobre o senhor – tenho dificuldade em avançar com opiniões sintéticas. Mas vale a pena tentar, pelo menos para sublinhar quão injusto é descrever a sua obra como “menor” ou “pouco original”. Tal visão deriva de um erro comum – associar Madison quase exclusivamente ao “The Federalist” (1787-88) – quando, na verdade, a sua obra completa preenche mais de 50 volumes, com milhares de discursos, artigos de jornal, panfletos, cartas e peças de ocasião. Com efeito, os 29 textos que Madison escreveu para o “The Federalist” correspondem a menos de 1% da sua obra, que se espraia até 1836! Só quando consideramos esta imensa vastidão podemos apreciar verdadeiramente a sua relevante herança teórica.
Na realidade, Madison foi o primeiro autor a tematizar a ideia de federalismo, na sua dimensão teórico-conceptual e prática. Foi também o primeiro pensador a defender claramente as virtudes do pluralismo para uma sociedade livre, quebrando com o preconceito europeu nesta matéria (que fazia equivaler eficácia a homogeneidade). Madison foi ainda um dos primeiros autores a advogar o paradigma activo da liberdade religiosa (direito natural do indivíduo) por oposição ao conceito passivo da “tolerância” (mera concessão do governante). Foi o primeiro autor a defender abertamente as vantagens dos partidos para a vivência democrática. E foi um dos primeiros a abordar questões-chave do pensamento político moderno como o constitucionalismo, a ideia de cidadania, o princípio do “filtro representativo” e as virtudes da liberdade de imprensa. Já chega para pertencer ao Panteão dos grandes pensadores do Ocidente?
Quanto ao federalismo europeu e o “exemplo americano”, remeto para um texto que escrevi há uns meses, destacando o seguinte trecho: “A preferir um verdadeiro federalismo, a Europa não se pode dar ao luxo de rejeitar um profundo debate teórico sobre os seus fundamentos. Neste contexto, é particularmente importante reaprender com o passado, enquanto se prepara um futuro alicerçado em soluções próprias. O caso norte-americano deve ser aqui peça modelar essencial, pelas suas inúmeras lições. Umas, históricas (federalismo americano também se ergueu sobre a cacofonia de treze Estados independentes e com poucas ligações entre si, após uma espinhosa crise institucional que se seguiu à Revolução). Outras, conceptuais: a importância de criar equilíbrios institucionais numa república federal (para não tornar opressiva nenhuma das estruturas políticas envolvidas); a necessidade de alicerçar a união política numa sanção popular; e o elogio do pluralismo, uma vez que a diversidade não é um obstáculo, é uma bênção.”
[também no Era uma vez na América]

(Agora) sei que tens muita razão. De degrau em degrau, como intelectual prático, comprometido mas honesto, Madison foi um edificador.
Verdade! Aliás, nos EUA ele é justamente conhecido como “framer” 🙂 Beijocas!
Ninguém quer Federalismo na Europa.
Querem apenas um pote bem grande onde com erro julgam que podem esconder o lixo que defenderam ou mesmo contribuíram para criar.
O caso norte-americano deve ser peça modelar essencial
Eu diria que o caso indiano também o deve ser.
O caso norte-americano não é modelar no sentido em que há uma unidade linguística e uma unidade partidária, que não existem na Europa. Ou seja, nos EUA há uma língua que unifica tudo e os partidos políticos são os mesmos em todos os Estados. Ora, na Europa tal não é possível. Nesse sentido, a União Indiana é um modelo de federalismo mais adequado para a Europa. Na União Indiana os diferentes Estados têm línguas diversas e a imensa maior parte dos partidos políticos são estaduais.
Excelente sugestão. Vou conhecer melhor.
Como eu te compreendo! Bj e bom fim de semana
🙂
Ia parecer-me que o debate debaixo deste debate começou em Parménides com a oposição entre logos e doxa. Sinto-me perfeitamente habilitado para ter a doxa que me aprouver sobre Hamilton, mas acho que ainda me falta um bocadinho assim para falar dele do ponto de vista do logos.
🙂 Fizeste-me lembrar de uma aula que tive que mais parecia grego. Era ética: a questão do kata logon, kata orton e kata kairon. Que bela confusão! Abraços!
Pois. Deve ser o Eterno Retorno; aparentemente tudo começa e acaba na Grécia…
a discussão mais importante, interessante, actual e potencialmente útil que já vi na blogosfera.
Obrigado pela parte que me toca. Vamos prossegui-la, portanto.
José Gomes André
Eu só sei que nada posso acrescentar, pois rendo-me ao saber daqueles que sobre o assunto já investigaram e produziram textos académicos. Limito-me a relacionar a história com as ideias, pois a tentação para a filosofia acaba por transtornar a capacidade de apreensão de problemas que são, afinal, de natureza essencialmente práticos.
Caro Miguel, obrigado pelo comentário. Era o que faltava que só pudessem fazer acrescentos os “académicos”! O Miguel tem toda a legitimidade (e o conhecimento!) para falar destas matérias. Leio-o, aliás, com o maior interesse…embora na interpretação de Madison eu tenha uma leitura diferente. Continue a escrever e a pensar livremente. Abraço!