Como está difícil, de repente, o reconhecimento de qualquer direito relacionado com o estatuto de profissional do Estado, antigamente tão fácil e automático. Isto é, baseado numa condição laboral honesta, transparente e sindicável. E ainda na boa-fé distributiva.
Dou um exemplo: pedir um cartão da ADSE para um filho que não usufrui de outro sistema de saúde.
Elementar, meu caro Watson. – Certo? Concedido e carimbado, como os ovos.
Mas não…. espera-nos um calvário. Uma máquina desconfiada, cínica e obtusa.
E eu pergunto-me, inevitavelmente: – Para que desconto, descontei e descontarei, se parece que essa contribuição não existe e me tratam como se exigisse uma mordomia?
Encarniço-me contra os hipócritas que clamam contra o fim do Estado Social, no sentido em que não é legítimo eleger este ou qualquer Governo do século como “o culpado”.
É uma desonestidade intelectual, claro.
Desde que eu entrei na vida activa (já lá vão quase 30) li e estudei e desenvolvi aplicadamente, em exames de cursos de formação que fiz, obedientemente, as previsões deste fim.
Os cenários negros bailaram-me debaixo dos olhos em milhentos profetas da desgraça, cientificamente acreditados. Transmiti-as em aulas que dei. Fui avisada. E avisei.
Portanto, é uma hipocrisia fazer de conta que isto é uma opção, quando é uma consequência inevitável.
Mas sofrer na carne a atrofia do dito cujo (Estado Social) custa.
Isso não se aprende nos livros.
(E já agora… – Podem largar-me as canelas? Chega.)


Trata-se de uma opção e não de uma consequência inevitável. O facto do Estado ainda não ter conseguido ter contas sustentáveis não é uma demonstração de uma impossibilidade. Ter uma percentagem de analfabetos em Portugal acima de 10% até ao fim do século XX não era uma inevitabilidade mas apenas uma “escolha” da sociedade em que vivemos.
Claro que é uma consequência inevitável e não uma opção, dêm-lhe as voltas que derem. Mas se persirtirmos na utopia, podemos sempre ir viver para a nova Grécia, dentro de uma semanas.
Cara Laura, tente entender de uma vez por todas:
o Estado Social é um esquema de Ponzi.
“Para que desconto, descontei e descontarei…?”
Resposta: para que outros tivessem tido acesso às benesses da Segurança Social.
Para que a senhora, ou os seus filhos, tenham os mesmos direitos que a geração anterior, outros terão de descontar e contribuir, para si e para os seus.
Ora, há outros para contribuir, de forma a sustentar o esquema? Não, não há. Acabou-se o que era doce.
Trate de explicar isso ao seu filho. Sem livros.
Uma observação revolucionária. Vou propô-lo para Nobel da Economia.
pedir um cartão da ADSE para um filho que não usufrui de outro sistema de saúde
Usufrui do Sistema Nacional de Saúde, que já não é pouco.
Os meus filhos têm ADSE, mas raramente ou nunca usufruem dela para seja o que fôr. Porém, um deles já foi tratado, não poucas vezes, pelo SNS.
A sério? Farmácia, dentista, etc, etc? Boa sorte.
Eu não largo as canelas ao meu sistema de saúde para o qual contribuo.