O timing das promoções foi oportunista e provocador (o que se esperava depois da guerra nos últimos dias entre supermercados e sindicatos). Mas tirando isto, o que justificou tanta algazarra nos media, tanta indignação (São José Almeida falou mesmo em “atentados à dignidade humana”), tantas “manifestações de pesar”? O Pingo Doce ganhou (pelas vendas e pela publicidade). As pessoas ganharam, poupando dezenas de euros. O Estado ganhou milhares de euros em impostos. Os trabalhadores ganharam um dia de salário a triplicar, o direito a gozar uma folga e desconto de 50% em compras. Caramba, até os jornalistas ganharam tema de reportagem num dia soporífero.
O resto é folclore. Folclore da Esquerda-católica, que gosta de apregoar a sua “preocupação pelas pessoas”, mas prefere falar do “dumping” e dos atentados a não-sei-o-quê, quando na verdade milhares de pessoas (na maior parte desfavorecidas) tiveram um dia em cheio, com efectivo impacto nas suas difíceis contas. Folclore da Esquerda-caviar, que manda umas bocas ao Pingo Doce e aos coitadinhos manipulados pelo grande capital, porque lhe sobra dinheiro para comprar o que bem entende, ao preço que calhar, no Corte Inglés e nas lojas gourmet. E folclore da Esquerda-socialista, que suplica por políticas de crescimento e desenvolvimento, mas quando vê iniciativas bem-sucedidas com origem em empresas privadas, a que as pessoas aderem por sua livre escolha (e interesse), entra de imediato em pânico, face à necessidade de repensar os seus estereótipos intelectuais.

Subscrevo. Aviltante não são as promoções do PD, aviltante é isto ser “A” notícia do nosso 1º de Maio. Andamos a trocar tudo…
Dar tiros nos pés também é outro nome a dar à coisa.
Do que gosto mesmo é da expressão “esquerda-católica”. Há sempre tanta lágrima moralista por derramar, tanta indignação acerca do outro alienado (eu não que sou iluminado), tanto respeitinho é muito bonito pelos símbolos ora da pátria ora da progresso, tanto dedo apontado à procura de quem é a culpa.
Pois é, caro companheiro filósofo 🙂
“Esquerda-católica”?? Bolas, eu sou católico e não quero nada com a esquerda! Ficaria melhor se tivesse escrito “esquerda-protestante” ou “esquerda-testemunhas de Jeová”…
como católico,
cá pra mim aqui é (foi) coisa de ímpios e aleivosos.
diz Salomão no livro de Prov. que “mas os ímpios serão arrancados da terra, e os aleivosos serão decepados”.
Assim sendo, porque não fazem isto todos os feriados e fins de semana? Todos os dias, porque não? Todos os supermercados! Isso é que vai ser ganhar.
É a Aristocracia Social.
Protestam contra o consumismo mas depois choram pelos empregos.
Dizem mal do Sócrates mas depois querem os défices do Sócrates.
Julgam que têm um direito de pernada sobre o 1 de Maio.
Bem, ainda bem que há gente descomplexada e prá frentex que sabe ver as coisas descontraidamente…
Suponho que se algum dia a concorrência escolher o dia de natal para fazer uma operação semelhante também vai achar tudo bem, não é?
Afinal, é tudo uma questão de eficácia e lucro (para todos, obviamente)
Quem não ganhou sei quem foi: o consumidor. Esta engenharia “obriga” o consumidor a ir ao PD. É certo que aqueles preços estão baixos, e os outros que o consumidor imbuido pelo espírito de “ser tudo mais barato” compra também? Se fizerem as contas, e existem estudos sobre a matéria, em termos médios onde se compra mais caro é nas grandes superfícies.
Engavetou as críticas de acordo com os padrões que conhece, pelo que a sua visão é restrita.
O dia 1º de Maio foi consignado Dia do Trabalhador porque, bem antes de nós, houve quem lutasse, quando isso parecia impossível, quem tivesse morrido por essa luta e quem teve o seu sangue derramado, sem viver para comprovar que as suas lutas deram frutos: o Trabalho foi consignado, mais do que um direito, uma importante esfera da vida do ser humano que lhe permitiria, não só a sobrevivência, mas o seu desenvolvimento económico, social e intelectual.
Honrar o 1º de Maio é prestar homenagem a todos os que tornaram possível a evolução histórica, sociológica, psicológica e económica no campo do Trabalho.
Aqui não cabe direita ou esquerda: cabe conhecer a História, saber que as condições de trabalho que hoje, genericamente existem, são o resultado de muito esforço, persistência e luta. Por isso, o 1º de Maio deveria merecer o respeito de todos os quadrantes.
Compreendo que haja pessoas que trabalhem no 1º de Maio. Não compreendo que estas ‘promoções’, podendo acontecer em outros dias do ano, aconteçam, precisamente neste dia. É, obviamente, uma provocação e uma afronta ao respeito histórico que nos merece esta data.
Ou só as datas religiosas é que podem fazer sentido? É que não professando qualquer tipo de religião, que não professo, eu acharia que seria uma igual afronta se estas ‘promoções’ tivessem lugar a um 25 de Dezembro.
“Folclore da Esquerda-católica, que gosta de apregoar a sua “preocupação pelas pessoas”, mas prefere falar do “dumping” e dos atentados a não-sei-o-quê, quando na verdade milhares de pessoas (na maior parte desfavorecidas) tiveram um dia em cheio, com efectivo impacto nas suas difíceis contas.” Se foi dumping – é ilegal e, pelo que deduzo do seu discurso, isso não será problemático, porque vale tudo até arrancar olhos. Se não foi, significa que o PD não tem qualquer preocupação com as “milhares de pessoas (na maior parte desfavorecidas)” porque está a praticar lucros astronómicos no resto do ano, sabendo que estamos em crise e que estes ‘desfavorecidos’ o são todos os dias do ano.
Sr.José Gomes André, por vezes ( reconhecendo que cada vez menos) o dinheiro não é tudo!
Em cheio!
Vale tudo, é essa a conclusão.
Deus está morto, as ideologias estão mortas, morta está a política e a ética é coisa para entreter meia dúzia de líricos.
Vale tudo! Bem vindos ao fantástico mundo novo.
Acaba de ocorrer um mini-tornado em Sesimbra.
Comunicado dos sindicatos: “A culpa é deste governo, e das suas políticas de austeridade. Não podemos permitir que se aniquilem direitos adquiridos. Os trabalhadores têm de sair à rua, para protestar e mostrar o seu descontentamento”.
Comunicado do Pingo Doce: “Vendemos telhas com 50% de desconto”.
Será que o consumidor ganhou mesmo? Muitos arranjaram dinheiro sabe-se lá como, gastaram com coisas de que não precisavam, deram cabo da sua saúde, do seu convívio familiar e com amigos, do seu tempo, meteram-se em brigas, fizeram tristes figuras (ou não, como todos a faziam, ninguém reparava), para conseguir descontos? E os produtos que de um dia para o outro subiram para o dobro do preço? Na ânsia das compras, muitos nem repararam. E os empregados não ganharam a triplicar, mas a dobrar…coisa que é obrigatória visto ser feriado.
Chamem-me de “esquerda católica” ou o que quiserem, mas daquilo que vi e li achei aviltante, abjecto mesmo. O pior do consumismo estava ali. Muitas vezes fiz as minhas compras no Pingo Doce, muitas até num dos que registou cenas das mais lamentáveis, mas sempre devidamente orçamentado, e garanto-lhes que não iria ontem a um nem que fosse a 25% do preço (até porque tinham de ser compras superiores a 100 €uros, não se esqueçam).
Perfeitamente de acordo com a crítica endereçada a uma certa esquerda que considerou o “povo” (que aparentemente tão bem sabe definir) como um grupo de zombies, desordeiros, acéfalos, etc. Mas pergunto que dizer de uma direita que, igualmente do alto do seu pedestal, se regozija vendo os “desfavorecidos” (esse seu querido protectorado) a lutarem com bravura para encherem as suas despensas. E, uma vez que os fins justificam os meios, pergunto como reagirá essa direita quando se tratar de uma “indicativa bem sucedida” de pilhagem literal das lojas da Jerónimo Martins? Aí já valerá apelar para as leis do Estado? Falando unicamente a título individual, não creio que o refúgio do legalismo seja apenas a forma possível de granjear uma punição para um declarado “crime moral”; trata-se de perceber em que tipo de sistema vivemos e de consequentemente defender os dispositivos que possam, pelo menos, contribuir para mitigar a hegemonia de certas facções da sociedade (coisa que, creio eu, deves compreender muito bem). Abraço
Parece-me, meu caro JGA , excessivamente simplista.
Colocado dessa forma até teria sido um maná, mas infelizmente não me parece que assim tivesse sido.
Nestas coisas também se vê a diferença entre uma nação civilizada e o salve-se quem puder do terrorismo terceiro-mundista de alguns empresários cuja “superioridade moral” passa por um offshore holandês.
Noutros passará por Paris ou pelas colunas de outras lojas e templos mais virados para o “catering”.
Como já alguém escreveu, não basta acreditar-se que se é civilizado para se poder viver na mesma cidade de Péricles.
Um abraço.
Caro amigo, mas então quando estas coisas sucedem em Paris e Nova Iorque? São países civilizados, suponho. Abraço!
No dia do trabalhador? Sem aviso prévio? E por que não no dia de Natal? Ou na Sexta-feira Santa, aí pelas 15h? Não podiam ter obtido exactamente o mesmo efeito, por exemplo, no dia de aniversário do supermercado ou num sábado?
E já agora, meu caro JGA , garrafas de whisky e panelas de pressão são bens essenciais para o “povo trabalhador”?
Se se provar o dumping, a manobra não terá passado de pura “chico-espertice”, aquilo em que este país, infelizmente, se tornou pródigo e que o patrão do Pingo Doce tanto criticou noutros.
Bom fds .