O vazio tem a mania das grandezas


josegomesandre,

Nasceu uma nova estrela. Um tal de Miguel Gonçalves, que Miguel Relvas (e quem mais?!) viu no Youtube e convidou para “embaixador” do “Impulso Jovem” (só esta frase já provoca um asco de morte). À semelhança de outros fenómenos da nossa praça, distingue-se pela “irreverência”, pelo discurso “positivo” e por outras coisas que vêm sempre juntas neste tipo de pacote (“dinâmico”, “criativo”, “pró-activo”, etc. – é ouvir o dito cujo). 

O problema de Miguel Gonçalves não é a referida “personagem”, mas o facto de os seus dislates reproduzirem um discurso público cada vez mais difundido e aceite acriticamente pelos media, pelos governantes, pelas elites e pela população em geral. Discurso esse que mistura o pior do “darwinismo social” (o elogio do conflito social e a glorificação da lei do mais forte), um moralismo pseudo-científico de pacotilha (que condena os que sucumbem, imputando-lhes a culpa do seu “insucesso”) e os elementos mais abjectos do novo totalitarismo linguístico “made in Wall Street” (que apela ao “empreendedorismo”, à “reinvenção pessoal”, ao “acreditar em si próprio” e ao “tornar-se senhor do seu destino”).

Em suma, estamos perante um discurso político, social e económico que combina as inanidades de livros como “O Segredo” (“tu podes ser quem quiseres”) com a profundidade da reflexão filosófica de um Zézé Camarinha. O pior de tudo isto? É que este discurso tem tanto de disparatado quanto de perigoso. Denunciá-lo já não é uma simples questão de bom-senso; é um dever de todos os homens civilizados.

Insanidade em Bruxelas


josegomesandre,

Pela calada, o Euro e a União Europeia sofreram hoje um abalo terrível. O resgate de Chipre levou o Eurogrupo a impôr condições muitíssimo severas, que não só lançaram os cipriotas em desespero como produzirão ondas de choque muito além do Mediterrâneo. Os dirigentes europeus demonstraram, mais uma vez, uma completa indiferença pelas regras do jogo democrático e pelos enquadramentos legais. Qual é a legitimidade da UE para levantar impostos sobre os depósitos bancários individuais? E como podem os responsáveis cipriotas enganar a população desta forma, negociando uma jogada de bastidores que constitui um autêntico assalto às poupanças dos cidadãos? E talvez pior ainda: que mensagem envia a UE aos restantes povos europeus? Que o (pouco) dinheiro que têm nos bancos não está a salvo em nenhumas circunstâncias? Quem achou uma boa ideia aterrorizar os depositantes, num momento de crise generalizada como este? Querem acabar com a pouca credibilidade que ainda resta no sistema bancário? A insanidade grassa em Bruxelas.

Ser feliz em Londres


josegomesandre,

 

Em 2007, quando preparava o meu doutoramento, tive a oportunidade de fazer investigação na British Library, junto à estação de King’s Cross. O edifício, construído em 1997, é extraordinário, devido à sua funcionalidade: oito salas de leitura distribuídas por dois andares, uma pequena sala de concertos, um andar para exposições, salas de conferências, uma loja, uma livraria, restaurante, bar e bengaleiro – dispostos em redor da magnífica biblioteca de Jorge III, protegida por um vidro especial, a qual pode ser contemplada onde quer que nos encontremos no edifício.
A decoração é simples, mas com bom gosto. Os pormenores são deliciosos: sofás espalhados ao longo dos corredores convidam a uma pausa tranquila, enquanto se lê o jornal. Existem pequenas mesas de trabalho espalhadas por todos os andares, permitindo que jovens e velhos, estudantes ou simples curiosos, possam frequentar o espaço e dele tirar proveito sem restrições: seja para preparar um teste, navegar na Internet ou concluir um Sudoku.
As salas de leitura contêm um espólio impressionante – 13 milhões de livros, um milhão de jornais, 3 milhões de registos sonoros. A consulta é livre – basta mostrar o cartão de leitor (gratuito). O horário é alargado (9.30h-20h) e a biblioteca está aberta ao sábado até às 17h. As salas de leituras estão apetrechadas de dezenas de espaçosas mesas individuais de trabalho. Existem mais de cem computadores em cada sala, a partir dos quais se podem fazer diversos pedidos, usualmente atendidos num curto período. Um óptimo conjunto de revistas em formato electrónico e uma impressionante colecção de microfilmes estão à disposição do estudioso que necessita de materiais de difícil acesso.
Os funcionários são prestáveis, eficientes e conhecedores da biblioteca. Nunca hesitei em pedir informações sobre as colecções, a forma de requisitar jornais antigos ou tão simplesmente de como fotocopiar um determinado livro. Responderam-me sempre com eficácia – às vezes mesmo com um sorriso.
Frequentam a biblioteca centenas de pessoas – o que perante estas condições não surpreende. Num dos dias em que me encontrava na sala de leitura de Humanidades – e para meu grande espanto – pude mesmo ouvir através dos altifalantes a seguinte informação: “Lamentamos comunicar que a sala de leitura está neste momento lotada. Pedimos às pessoas que desejam um lugar sentado que aguardem alguns momentos”. “É a hora de ponta”, explicou-me uma funcionária. Surpreso, vi formar-se uma fila no exterior. Uma vintena de pessoas esperavam que alguém saísse, para poderem ocupar um lugar na sala de leitura.
Filas para entrar numa biblioteca: ora aí está uma coisa que não se vê todos os dias.

A democracia e a liberdade de expressão


josegomesandre,

Não tenho apreço político por Miguel Relvas. Não lhe vislumbro qualidades assinaláveis e considero-o um elemento tóxico no Governo, pelas polémicas em que se viu (e vê) envolvido, às quais ainda não deu resposta esclarecedora. Todavia, o que aconteceu no Clube dos Pensadores, em Gaia, e no ISCTE, em Lisboa, não pode merecer elogios. Uma coisa é manifestar-se desagrado público pela governação, algo perfeitamente legítimo e até elogiável em várias circunstâncias. Outra coisa diferente é utilizar uma manifestação para intimidar fisicamente uma pessoa ou impedi-la de exercer a sua liberdade de expressão.

E se o primeiro exemplo não me incomoda especialmente (é um caso de polícia ou porventura dos tribunais), o segundo deixa-me muito incomodado. O orador pode ser um crápula, um imbecil, até mesmo um “fascista” (como lhe chamaram), mas aquilo que distingue uma democracia consolidada é a sua capacidade para proteger os valores democráticos em qualquer circunstância. Calar um homem porque se discorda dele, com o objectivo de “proteger a democracia”, é tão idiota quanto pretender extinguir o oxigénio do planeta para acabar com os fogos.

Sim, estou a parafrasear James Madison. Ele sabia muito bem que a liberdade de expressão não existe para que os tiranos sejam silenciados. Existe para que os tiranos falem e nós lhes possamos responder, denunciando as suas falácias. Isso – e não a limitação de uns para benefício de outros – é que é a democracia.

O Estado da União


josegomesandre,

Esta noite, às 21h (2h em Portugal), Barack Obama realizará perante uma sessão conjunta do Congresso o seu “Discurso sobre o Estado da União”. Mais do que um mero requisito constitucional, esta é uma tradição fundamental da vida política americana, utilizada pelo Presidente para descrever o ambiente político actual e influenciar decisões futuras do Congresso, traçando as grandes metas e prioridades legislativas dos meses seguintes.

Derivado do precedente britânico (o monarca discursava na sessão de abertura do Parlamento), este procedimento foi seguido à risca desde a entrada em vigor da Constituição, cuja secção 3ª do Artigo 2º determina: “O Presidente deverá, de tempos a tempos [“from time to time”], prestar ao Congresso informações sobre o Estado da União e submeter à sua consideração as medidas que julgue necessárias e convenientes”. O objectivo desta disposição era atribuir ao chefe do Executivo a possibilidade de condicionar a agenda legislativa do Congresso, entendendo os Pais Fundadores americanos que o Presidente tinha um papel muito limitado neste domínio (a história alteraria essa situação).

Curiosamente, como vemos, o articulado constitucional não se refere a uma comunicação “anual”, mas meramente periódica. Como em tantas outras questões formais, a prática seguida pelo Presidente George Washington (um discurso anual) criou um sólido precedente, ainda hoje respeitado. Todavia, ao contrário do primeiro Presidente americano, muitos foram os chefes do executivo que optaram por transmitir ao Congresso uma declaração escrita e não um discurso oral (desde Jefferson a William H. Taft). Já no século XX, Woodrow Wilson reinstaurou esta última tradição, seguida (com raras excepções) por todos os Presidentes até aos nossos dias.

Um dos acontecimentos políticos mais vistos e comentados nos EUA, este momento solene está também repleto de curiosidades. Uma das mais interessantes refere-se à necessidade de designar um membro da Administração para não estar presente na sessão (ficando em local desconhecido). Devido à (rara) aparição conjunta de várias figuras de topo da hierarquia federal, garante-se assim que, em caso de um atentado ou acidente, um dos membros do governo federal sobrevive a essa tragédia, impedindo que o país ficasse sem uma chefia legalmente reconhecida.

Um país esquizofrénico


josegomesandre,

Portugal vive de ciclos mediáticos. País tacanho e medíocre, mobiliza-se com as vagas de fundo promovidas pela comunicação social e rapidamente perde o interesse assim que os focos de luz se apagam. Discute durante meses a fio o aborto e logo o esquece para sempre. Debate a Europa, mas cedo deixa cair o tema na obscuridade. Emociona-se com crianças “que passam fome” até mergulhar numa árida discussão sobre bancos ou violência suburbana, a qual tem também curta duração. Vive por blocos. Desperta, vocifera, entusiasma-se, e em seguida é vencido por uma súbita inércia. Até que novo tema mediático o arranque da sua letargia. Portugal existe algures no seio desta bipolaridade que o alimenta e simultaneamente o turva.

Os desafios de Obama


josegomesandre,

 

São hercúleos os desafios que esperam Obama: crise económica, reforma da saúde, problemas ambientais, controlo de armas, imigração, nova política energética – a nível interno. Instabilidade no Médio Oriente, relações difíceis com a Rússia e a China, a contenção do Irão – a nível internacional. Nada de muito diferente em relação a 2009, quando tomou posse pela primeira vez.

Hoje Obama tem todavia uma grande vantagem: por esta altura, ninguém espera, como no passado, que ele possa resolver todos aqueles problemas de uma só assentada. Obama tem diante de si uma agenda monumental, mas livre do messianismo que o perseguiu há quatro anos, pode agir recorrendo à “arte da política”, sem que a avaliação do seu desempenho esteja sistematicamente sujeita a uma comparação com o Rei Midas.

A nível interno, o maior desafio de Obama será lidar com a enorme bipolarização da política americana. O sistema político dos EUA assenta num sistema de “freios e contrapesos”, concebido para exigir permanentes lógicas de diálogo e construções de consensos entre os diversos agentes políticos. Todavia, os Pais Fundadores não contaram com as particularidades da modernidade, nomeadamente a radicalização ideológica e partidária, que têm minado o sistema e servido como autênticos mecanismos de bloqueio, impedindo os referidos consensos e a tomada de decisões políticas céleres e resolutas. Desde 2004 que Obama defende uma agenda bipartidária e a “reconciliação da América”, mas raramente tem promovido ambas. Com os Republicanos a controlarem a Câmara dos Representantes, as suas capacidades de negociação serão severamente postas à prova neste segundo mandato.

O maior desafio de Obama é contudo um outro, que assola aliás em geral o Ocidente: preservar a estrutura fundamental do “Estado Social”, num quadro económico e demográfico mundial que não permite aos países desenvolvidos manter os mesmos níveis de despesa pública até aqui praticados. Se a nível interno a resposta para esta autêntica quadratura do círculo não foi ainda encontrada, no que toca à política externa e à Defesa, as orientações estão definidas: reduzir os gastos nuns impressionantes 400 mil milhões de dólares, cortando na ajuda a países em desenvolvimento, reduzindo os efectivos militares em vários continentes, diminuindo as operações de vigilância, etc.

Estas orientações têm implicações severas em toda a organização externa norte-americana e por consequência nos alinhamentos estratégicos do poder mundial. Se em alguns casos elas são sobretudo simbólicas (a redução de bases militares na Europa, por exemplo), noutros significam uma efectiva retracção da influência norte-americana, que pode comprometer os seus interesses futuros em áreas estratégicas vitais (designadamente o Médio Oriente e a Ásia).

Obama tem insistido que o recurso ao “soft power” (diplomacia, fortalecimento das relações comerciais, cooperação com as instâncias internacionais), aliado a um posicionamento militar mais diminuto, mas cirúrgico, será suficiente para manter a influência americana intacta, mas só o tempo dirá se os EUA continuarão a ser “a nação indispensável”. Mais um desafio para o mais desafiado Presidente americano.

 

[publicado inicialmente no site da TVI24]

O abismo humano


josegomesandre,

 

É conhecido o episódio que rodeia a publicação de A Interpretação dos Sonhos: apesar de impressa em finais de 1899, apresentaria na página inicial a data de 1900. Freud assim o impôs ao editor, pois considerava o seu trabalho científico uma descoberta fundamental, própria da revolução que o novo século anunciava. Nesse conjunto de folhas que chocava os salões vienenses encontrava-se uma terrível denúncia do âmago humano, que trazia consigo uma derradeira revelação. Na verdade, o universo fora desvelado – antes preso em esferas circulares finitas, depois inabarcável pelo limitado olhar humano. O homem fora desvelado – descendente de um peludo piteco. A alma, contudo, permanecia por desvelar. Freud deu esse passo, e com ele destruiu a supremacia antropológica.

Pulsões incontroláveis, libido, o inconsciente, a força reveladora do sonho, o trauma: conceitos que o Ocidente interiorizaria mais tarde mas que, nesses já tão longínquos dias, soavam a uma horrível afirmação do desconhecido. Triunfador na alegria de ter percorrido todo o mundo, o homem sentia-se, agora, diante de uma região inexplorada, onde a dúvida poderia dar lugar, de súbito, ao reconhecimento do mal e à penosa aceitação do tenebroso.

Joseph Conrad vivia já em Inglaterra, nesse sombrio período. Dois anos mais tarde, publicou a sua denúncia da alma humana, nesse extraordinário conto que é The Heart of Darkness (O Coração das Trevas, que mais tarde inspirará Apocalypse Now). Nele relata, pelos olhos de Marlow, a travessia de um rio em África, que se revelará intrinsecamente obscura. Essa viagem é mitológica – levando Marlow, como outros heróis, a enfrentar uma via sombria, e a lidar com a intensidade de uma escuridão que lentamente se descobre. O seu destino não é, porém, redentor. Ao invés, Kurtz, esse homem-lenda que Marlow enfim avistará, é apenas um outro nome para o doloroso encontro do abismo humano. “O horror, o horror!”, palavras que jamais se esquecem. A elas correspondem a travessia propriamente dita, povoada de fragmentos maléficos que se confundem com os homens que os procuram dominar.

É de um ser contaminado que se trata, ou de uma natureza demoniacamente tocada? Pergunta difícil, pois não há espelhos mágicos na obra de Conrad. Apenas a afirmação absoluta da obscura natureza do ser humano. A viagem de Marlow assemelha-se à travessia do Estige: do outro lado, apenas gritos, angústia. E por isso a Sibila gritou a Eneias: “Agora vais precisar de toda a tua coragem”. Assim declara Conrad: “o calmo caminho das águas, que leva aos confins da terra, corria escuro sob um céu sombrio – dir-se-ia que a levar-nos ao coração de infinitas trevas”. Nesse percurso, em que o herói se descobre a si mesmo, desvela-se o humano. E traz-se à consciência, com mais clareza, o oceano turvo que, no seu recôndito, se revolve infinitamente.

Uma metáfora do regime


josegomesandre,

Glória Araújo, deputada do Partido Socialista (PS), foi detida na passada sexta-feira em Lisboa, por conduzir com excesso de álcool no sangue (2,41 gramas por litro), bem acima do limite a partir do qual esta infracção é qualificada como crime (1,2 g/l). […] A deputada foi detida numa operação stop no centro de Lisboa às 3h20 da madrugada e foi depois notificada para comparecer perante o Tribunal de Pequena Instância Criminal de Lisboa, desconhecendo-se o resultado da audiência com o juiz. […] a deputada socialista faz parte da Comissão para a Ética, a Cidadania e a Comunicação […]. A nível partidário, integra a comissão nacional do PS. Glória Araújo já participou até em acções sobre a segurança na estrada, como a Comissão Interparlamentar da Segurança Rodoviária (Setembro de 2008) e um encontro com empresários em Lousada para debater a Estratégia Nacional para a Segurança Rodoviária (Março de 2009).

 

Deputada há 8 anos. Membro da Comissão para a Ética. Dinamizadora de acções sobre prevenção rodoviária e segurança na estrada. Conduz com excesso de álcool, com quase o quíntuplo permitido por lei. Perfeito. Ainda chega a ministra dos Transportes.

Sócrates ainda mexe


josegomesandre,

Notícias que envolvam José Sócrates são habitualmente recebidas com grande atenção, gerando comentários jocosos ou análises mais ou menos sérias. Garantidamente, muito do clamor ocorrido provém da brigada socrática, nostálgica do “menino de ouro” que logo critica tão vigorosa recepção: “Sócrates ainda mexe com muita gente”, afiançam. Confesso-me surpreendido com esta reacção. Pois então não havia de ser assim? José Sócrates foi o político mais importante dos últimos 15 anos e provavelmente será o mais influente dos próximos 20. Conduziu o país à bancarrota, deixando-o à mercê de credores externos. Precipitou e alimentou uma crise monumental, que poderia ter sido mitigada não fosse a sua insólita teimosia. E inundou o debate político com uma demagogia corrosiva (ainda se lembram da crítica aos “pessimistas” e aos “velhos do Restelo”?), nunca hesitando em prejudicar o futuro do país desde que se mantivesse no poder. 

 

Num país desenvolvido, Sócrates estaria a responder na justiça pela sua desastrosa conduta política. Num país com hábitos democráticos, a simples menção do seu nome mereceria um amplo repúdio público. Seja qual for o clamor suscitado pelas notícias que envolvem Sócrates, nunca será tão ruidoso quanto ruinosa foi a sua herança.

Bom senso


josegomesandre,

O “Código Da Vinci” e a “saga Twilight” estão para a última década como o “Código da Bíblia” e o “Blair Witch Project” estão para os anos 90. Todos eles foram grandes “fenómenos”, todos eles são uma grande mão cheia de nada. Daqui a dez anos estão numa cave num alfarrabista à venda por 2  euros e mesmo assim ninguém lhes pegará. E daqui a vinte anos ninguém se lembrará deles. Afastarmo-nos desde já destes produtos não é só um dever moral ou um acto de sanidade; é puro bom senso.

Eleições EUA – notas finais


josegomesandre,

1. Obama venceu com margem confortável no Colégio Eleitoral (332-206) e com ligeira vantagem no voto popular (cerca de 3%). Dois factores contribuíram decisivamente para a vitória. Primeiro, uma extraordinária mobilização do eleitorado Democrata que, mesmo desiludido, acorreu às urnas em proporção praticamente idêntica a 2008: jovens, mulheres e minorias étnicas foram autenticamente “empurrados” pela máquina Democrata. Uma boa organização no terreno é hoje cada vez mais indispensável e os estrategas Democratas só podem estar de parabéns. Em segundo lugar, a campanha acertou em cheio na mensagem: ao mesmo tempo que justificava as insuficiências do primeiro mandato (ligando-o à excepcionalidade da crise económica e financeira mundial), Obama conseguiu projectar uma imagem de futuro, centrando-se mais nos “próximos 4 anos” do que numa defesa do seu mandato. Excelente decisão.

 

2. A América está a mudar. Se 2008 tinha sido uma eleição histórica, pela eleição de um negro para a Presidência, 2012 não lhe fica atrás, trazendo a primeira lésbica assumida para o Senado (Tammy Baldwin), votações favoráveis ao casamento homossexual em quatro Estados e a legalização da marijuana para efeitos recreativos (!) no Colorado e em Washington. O eleitorado urbano e liberal está em crescimento, a diversidade étnica é cada vez maior e os “valores tradicionais” parecem estar a diminuir em importância e em influência geográfica. Que não se assustem os mais conservadores: os EUA sempre tiveram uma enorme capacidade para se reinventarem, preservando ao mesmo tempo os seus princípios fundamentais.

 

3. Por falar em reinvenção, o Partido Republicano necessita de se reorganizar, tornando-se apelativo para novos segmentos essenciais do eleitorado (o caso mais óbvio são os hispânicos). A ala radical do Partido, mesmo minoritária, tem contaminado o núcleo do GOP com uma ideologia sectária e ultra-conservadora, que entusiasma a base, mas não ganha eleições. O discurso anti-ciência, a mistura de religião e política, o radicalismo no tema do aborto e a xenofobia latente têm ganho protagonismo entre os Republicanos, mas são amplamente rejeitados pelo eleitorado. O “establishment” necessita de se distanciar destes sectores radicais, sob pena da “marca Republicana” se tornar tóxica num futuro próximo.

 

4. São variados os desafios que esperam Obama. Crise económica, reforma da saúde, ambiente, nova política energética – a nível interno. Instabilidade no Médio Oriente, relações difíceis com a Rússia e a China, a contenção do Irão – a nível internacional. São temas complexos, que, na maioria dos casos, o Presidente terá de negociar com uma Câmara dos Representantes dominada pelos Republicanos. A tarefa mais dura? Lidar com o maior desafio que assola o Ocidente: preservar a estrutura fundamental do “Estado Social”, num quadro económico e demográfico mundial que não permite aos países desenvolvidos manter os mesmos níveis de despesa pública até aqui praticados.

 

5. Um dos maiores vencedores deste processo eleitoral foi a abordagem científica ao fenómeno político. Os estudos econométricos e as sondagens (e os agregadores de sondagens) retrataram com grande fidelidade a evolução e o desfecho da corrida, pese embora terem sido continuamente desvalorizados pelos “opinion-makers”. Estes (como Dick Morris ou George Will) preferiram basear-se em “feelings” e bitaites infundados (o termo português é “lançar postas de pescada”), mas saíram completamente derrotados face ao rigor e à objectividade do esforço de Nate Silver e Sam Wang, entre outros. Tenho a secreta esperança de que, mais tarde ou mais cedo, os “tudólogos” serão dispensados pela opinião pública e pela própria comunicação social, e substituídos por gente menos mediática, mas seguramente muito mais séria e informada.

Planos para a madrugada


josegomesandre,

Hoje à noite – e só para quem esteja interessado nas eleições americanas – emissão especial na TVI24, a partir da meia-noite. Vou andar por lá a comentar, movido a café forte, suspeito, com outros companheiros de americanofilia e com créditos blogosféricos e internáuticos, como o Tiago Moreira de Sá, Filipe Caetano e Nuno Gouveia, entre outros. A emissão será conduzida por José Alberto Carvalho e João Maia Abreu. Até logo!

[Pub.]


josegomesandre,

Desde há alguns dias, e até às eleições, a SIC Notícias tem apresentado um “Especial Eleições EUA”, em jeito de diário, com comentários, sondagens e análise do estado da corrida. Sempre à uma da manhã, em emissões de 15 minutos. Esta noite vou ter o prazer de estar no programa, a convite de Martim Cabral.

Obama vs. Romney: como estamos?


josegomesandre,

1. Com a aproximação das eleições, multiplicam-se os artigos de opinião, as sondagens, os “memorandos” das campanhas e as notícias eleitorais. Não é difícil ficar à toa perante tanta informação. Recomenda-se prudência na leitura dos artigos opinativos (especialmente nos EUA, onde são francamente imparciais) e na interpretação das sondagens – evitando leituras particulares desta ou daquela sondagem. Os dados mais importantes parecem-me ser as “tendências gerais” das sondagens e as decisões estratégicas (públicas) das próprias campanhas.

 

2. E como estamos nesses dados? Vimos uma corrida estável até ao primeiro debate (com vantagem clara de Obama), momento em que Romney conseguiu projectar a imagem de candidato credível e em que Obama surgiu fragilizado. Desde então, as sondagens mostram uma recuperação de Romney, que conduziu a um empate técnico nos números “nacionais”. Romney alargou a sua “área de influência” (Pensilvânia e Wisconsin, por ex.) e a campanha de Obama foi obrigada a concentrar os seus esforços no Midwest (deixando para segundo plano o Sudoeste e Estados como a Flórida e a Carolina do Norte).

 

3. O equilíbrio e a incerteza são a nota dominante, mas neste momento continuo a achar Obama ligeiramente favorito, por diversas razões. Falta um debate que à partida lhe é favorável (foca-se na política externa, um dos pontos fortes da sua Presidência). Obama tem mais soluções no Colégio Eleitoral, nomeadamente porque no Midwest as sondagens resistem à incursão de Romney (vide Ohio, Wisconsin, Michigan e Iowa). Obama beneficia ainda da estupenda organização no terreno que montou em 2008. E os mercados electrónicos (mormente o Intrade), que permitem avaliar a reacção imediata da percepção geral do público aos eventos diários, continua a ver Obama como favorito (61,3%). 

 

4. Dito isto, não se deixem enganar pela cobertura jornalística portuguesa. Esta será uma das eleições mais renhidas da história americana. É que as referidas vantagens de Obama são compensadas por outros dados favoráveis a Romney: a desilusão do eleitorado com as promessas da Administração; o desalento da base Democrata; o entusiasmo da base Republicana; o profissionalismo da “máquina” organizativa do GOP; e uma campanha de Romney “em crescendo”. Cuidado com as apostas!

Venham mais cinco


josegomesandre,

O deputado do CDS Adolfo Mesquita Nunes manifestou-se contra a proposta de Orçamento do Estado para o próximo ano apresentada esta segunda-feira pelo Governo. «Não esperem de mim que aceite que este Orçamento de Estado é, tal como está, inalterável. E terei oportunidade de o dizer directamente ao Ministro das Finanças».


Declarações que revelam sentido de Estado, responsabilidade, inteligência e independência. Precisamos de (mais) gente assim na política.

Debate nos EUA: a vitória de Romney


josegomesandre,

1. Um debate presidencial é sobretudo uma encenação mediática, onde o que importa é parecer melhor: mais confiante e assertivo, mais simpático e descontraído, mais bem preparado, mais “presidenciável”. A forma ganha os debates, não o conteúdo.

 

2. Face a estes parâmetros, Mitt Romney foi um evidente vencedor. Face a um Obama surpreendemente cinzento, cansado, tropeçando nas próprias palavras, olhando para baixo enquanto ouvia o adversário, Romney surgiu como um orador talentoso, afirmativo, confiante. A sua linguagem corporal (olhando Obama como um predador olha a presa) mostrou um macho-alfa dominador. E as suas permanentes referências a histórias concretas e ao sofrimento do americano comum quebraram a sua imagem robótica, humanizando-o perante o eleitorado. 

 

3. Mas Romney ganhou noutros campos. Contrariando um dos (até aqui) maiores erros da sua campanha, Romney não se limitou a um discurso crítico do Presidente, como se “ser o outro” candidato bastasse para chegar à Casa Branca. Enviou portanto uma mensagem positiva ao eleitorado, insistindo nos méritos do seu próprio programa, focado na criação de emprego e na eliminação das “gorduras do Estado”. Enquanto Obama se perdia em detalhes técnicos aborrecidos, Romney defendia o seu projecto político de forma articulada e sintética, sem soar demasiado abstracto.

 

4. Chegará, por si só, para ganhar a eleição? Provavelmente não. Os debates presidenciais são amplamente escrutinados e têm excelentes audiências, mas os dados mostram que a maioria dos eleitores atentos procuram apenas “confirmar” posições previamente definidas, sendo que muitos dos chamados “indecisos” confessam posteriormente à eleição ter prestado pouca ou nenhuma atenção aos debates. Em todo o caso, numa eleição renhida como esta, alterações em franjas do eleitorado podem ser decisivas. Além do mais, este debate tem desde já o condão de enfraquecer o optimismo dos Democratas e renovar o entusiasmo Republicano (tanto da base eleitoral como dos financiadores da campanha)…

 

5. Faltam dois debates presidenciais, um debate entre candidatos a vice-presidentes e um mês de campanha. Continuo convencido que Obama é favorito e que Romney, apesar desta boa prestação, tem alguns problemas por resolver – nomeadamente a explicação cabal da revolução fiscal prometida, as alterações na Segurança Social e os cortes nos programas de saúde, temas de grande sensibilidade onde a dupla Romney/Ryan gera grande desconfiança. Todavia, se até aqui os eleitores viam Obama como um “mal menor”, a excelente prestação de Romney terá pelo menos generalizado a ideia de que ele pode constituir uma alternativa credível. Conseguir isto em hora e meia é notável.