É conhecido o episódio que rodeia a publicação de A Interpretação dos Sonhos: apesar de impressa em finais de 1899, apresentaria na página inicial a data de 1900. Freud assim o impôs ao editor, pois considerava o seu trabalho científico uma descoberta fundamental, própria da revolução que o novo século anunciava. Nesse conjunto de folhas que chocava os salões vienenses encontrava-se uma terrível denúncia do âmago humano, que trazia consigo uma derradeira revelação. Na verdade, o universo fora desvelado – antes preso em esferas circulares finitas, depois inabarcável pelo limitado olhar humano. O homem fora desvelado – descendente de um peludo piteco. A alma, contudo, permanecia por desvelar. Freud deu esse passo, e com ele destruiu a supremacia antropológica.
Pulsões incontroláveis, libido, o inconsciente, a força reveladora do sonho, o trauma: conceitos que o Ocidente interiorizaria mais tarde mas que, nesses já tão longínquos dias, soavam a uma horrível afirmação do desconhecido. Triunfador na alegria de ter percorrido todo o mundo, o homem sentia-se, agora, diante de uma região inexplorada, onde a dúvida poderia dar lugar, de súbito, ao reconhecimento do mal e à penosa aceitação do tenebroso.
Joseph Conrad vivia já em Inglaterra, nesse sombrio período. Dois anos mais tarde, publicou a sua denúncia da alma humana, nesse extraordinário conto que é The Heart of Darkness (O Coração das Trevas, que mais tarde inspirará Apocalypse Now). Nele relata, pelos olhos de Marlow, a travessia de um rio em África, que se revelará intrinsecamente obscura. Essa viagem é mitológica – levando Marlow, como outros heróis, a enfrentar uma via sombria, e a lidar com a intensidade de uma escuridão que lentamente se descobre. O seu destino não é, porém, redentor. Ao invés, Kurtz, esse homem-lenda que Marlow enfim avistará, é apenas um outro nome para o doloroso encontro do abismo humano. “O horror, o horror!”, palavras que jamais se esquecem. A elas correspondem a travessia propriamente dita, povoada de fragmentos maléficos que se confundem com os homens que os procuram dominar.
É de um ser contaminado que se trata, ou de uma natureza demoniacamente tocada? Pergunta difícil, pois não há espelhos mágicos na obra de Conrad. Apenas a afirmação absoluta da obscura natureza do ser humano. A viagem de Marlow assemelha-se à travessia do Estige: do outro lado, apenas gritos, angústia. E por isso a Sibila gritou a Eneias: “Agora vais precisar de toda a tua coragem”. Assim declara Conrad: “o calmo caminho das águas, que leva aos confins da terra, corria escuro sob um céu sombrio – dir-se-ia que a levar-nos ao coração de infinitas trevas”. Nesse percurso, em que o herói se descobre a si mesmo, desvela-se o humano. E traz-se à consciência, com mais clareza, o oceano turvo que, no seu recôndito, se revolve infinitamente.


Excelente análise a esta obra-prima de Conrad, Zé. Tal como dizes, a novela (prefiro chamar-lhe assim) acentua “a afirmação absoluta da obscura natureza do ser humano”, fazendo ruir algumas pretensas certezas do racionalismo oitocentista e abrindo caminho a outros autores – Kafka, desde logo. Terminada leitura, apetece-me rever ‘Apocalypse Now’, essa brilhante adaptação de ‘Heart of Darkness’ feita por um Coppola em estado de graça. Livro e filme merecem-se mutuamente, como poucas tem sucedido nesta caminhada de mais de um século do cinema a par da literatura.
A mim, honestamente, cria-me vontade de ler os outros dois que ainda não li: “Youth” e “The End of the Tether“; coisa que já ando a adiar há demasiado tempo…
Obrigado pelo comentário, amigo. É um grande livro, de facto…
Grande texto. “Heart of Darkness” está na minha lista de leitura há algum tempo, e conseguiste deixar-me com ainda mais vontade de o ler. E de entre os filmes de guerra, género que aprecio especialmente, “Apocalypse Now!” será sem dúvida o meu preferido.
Obrigado, João! Depois diz-me o que achaste do livro… Abraço!
Uau! Obrigada, José André 😉
Obrigado eu pelo tempo que dispensaste a ler o meu texto 🙂
E daí levaste-me à Câmara Escura 🙂
Devagar,
Hora a hora,
Dia a dia,
Como se o tempo fosse um banho de acidez,
Vou vendo com mais funda nitidez
O negativo da fotografia.
E o que eu sou por detrás do que pareço!
Que seguida traição desde o começo,
Em cada gesto,
Em cada grito,
Em cada verso!
Sincero sempre, mas obstinado
Numa sinceridade
Que vende ao mesmo preço
O direito e o avesso
Da verdade.
Dois homens num só rosto!
Uma espécie de Jano sobreposto,
Inocente,
Impotente,
E condenado
A este assombro de se ver forrado
Dum pano de negrura que desmente
A nua claridade do outro lado.
M. Torga
🙂 O meu velhinho Pai tem o Miguel Torga por autor preferido. Obrigado por mo relembrares! Bjs