Mundial 2018


josegomesandre,

Num ano de crise económica e com três actos eleitorais não faltarão críticos à ideia de Portugal organizar o Mundial de Futebol em 2018 (juntamente com a Espanha). Manuel Alegre, com a demagogia a que nos habituou, já veio afirmar que “o país tem outras prioridades”. Esta observação óbvia não nos deve toldar a análise: é certo que a experiência megalómana do Euro 2004 (com a desnecessária construção de dez estádios) justifica algumas reticências, mas a ideia não é totalmente descabida.

 Portugal tem um parque desportivo herdado precisamente do Euro 2004 que estaria disponível para esse Mundial, o qual poderia ser rentabilizado numa competição extraordinariamente mediática. Com os estádios construídos, Portugal praticamente não precisaria de investir em infra-estruturas, bastando-lhe fazer alguns ajustes nos acessos e nas condições hoteleiras para receber os visitantes. Um custo mínimo face ao enorme retorno económico que a organização de um Mundial de futebol obviamente geraria.

Uma solução óbvia


josegomesandre,

À Esquerda e à Direita traçam-se planos semelhantes para enfrentar a crise económica. Nos Estados Unidos, a Administração Obama prepara um choque fiscal de grande dimensão, reduzindo impostos para estimular o consumo e a actividade comercial. Na Alemanha, o executivo de Angela Merkel anuncia um cenário idêntico. E nós por cá? O governo não tem nem uma palavra sobre o assunto. Não há ninguém em São Bento com o discernimento necessário para compreender que uma redução no IRC, no IVA ou no IRS – mesmo que limitada – poderia ser uma excelente medida de combate à estagnação económica?

Do uso irreflectido das palavras


josegomesandre,

Num longo artigo no DN de ontem, Mário Soares disserta sobre o conflito em Gaza, não se ficando por meias palavras: “Israel lança-se numa «guerra inútil» que lembra a barbárie do Holocausto”.

Confesso que face à complexidade destes eventos tenho dificuldades em assumir posições taxativas. Porém, este género de declarações é absolutamente ridículo, não apenas porque compara o incomparável, mas essencialmente porque relativiza um evento histórico de gravíssimas e hediondas proporções – ao qual nos deveríamos referir com grande parcimónia tendo objectivos metafóricos.

As pessoas têm todo o direito em indignar-se com as decisões militares de Israel. Mas isso não justifica a invocação fácil do Holocausto como arma de arremesso (numa espécie de psicologia invertida), banalizando o Mal e atraiçoando a memória histórica das suas vítimas.

Revista de Imprensa


josegomesandre,

Na sua tradicional observação anual sobre os media, Pacheco Pereira tece duras críticas ao semanário “Expresso” (aqui fica o link antes que o dito me dê uma ensaboadela). Tendo a concordar com o espírito da denúncia em alguns dados particulares: apesar das boas colunas de opinião (com Miguel Monjardino, José Cutileiro, Daniel Oliveira e agora Ricardo Costa, por exemplo), o caderno principal corresponde a pouco mais do que um resumo da semana, raramente contendo verdadeiras notícias. Por outro lado, a “Actual” é hoje uma sombra do passado, despachando o cinema e o teatro em três páginas e meia e dispensando literalmente um terço do seu espaço com o guia de televisão e espectáculos.

Todavia, Pacheco Pereira é muito injusto quando se refere à “Única”, descrevendo-a como inconsistente e uma “colecção fragmentada de inutilidades”. Bem pelo contrário. As mudanças recentemente efectuadas tornaram a revista muito mais coesa e pertinente, definindo um eixo temático em redor do qual surgem várias reportagens, artigos e entrevistas geralmente bem elaborados. Uma série de crónicas dispersas (Clara Ferreira Alves, João Pereira Coutinho, José Quitério, etc.) permitem alguma diversificação, numa revista que ainda para mais conta com um excelente grafismo. Possuíssem os restantes suplementos estas características e o Expresso seria hoje um jornal indispensável.

Pelo delito de opinar


josegomesandre,

Ao longo dos séculos, muitas vezes a opinião encontrou resistência entre os seus alvos ou simplesmente entre aqueles que tinham poder para a restringir. A crítica de personalidades públicas foi proibida na Grã-Bretanha em 1606, sendo então definida como “libelo sedicioso”. Em 1798, os Estados Unidos – campeões da liberdade de imprensa – baniram nos jornais os comentários negativos tecidos ao seu Presidente, John Adams. Também a nossa história recente está repleta de circunscrições ao pensamento e à livre crítica.

 

Gosto de recordar, todavia, que muitos outros – com menos recursos do que nós – lutaram contra o delito de opinião. Como John Peter Zenger, que viveu encarcerado dez meses em 1735 por criticar o Governador de Nova Iorque, afirmando, no fim do seu julgamento, que “nenhuma nação perdeu o direito de expressar livremente os seus sentimentos sem que perdesse também a sua liberdade em geral”. Como James Madison, que lutou como nenhum outro americano pela promoção da opinião pública, entendendo-a como instrumento fundamental para vigiar a acção governativa e denunciar as insuficiências do sistema político e social. Ou como George Hay, que perante a discussão sobre os limites da crítica pública, afirmou: “a liberdade de imprensa, como a castidade, ou é absoluta, ou não existe de todo”.

 

O meu anterior cantinho blogosférico era encimado pelo célebre dito de Ella Wheeler Cox: “Cometer o pecado de ficar em silêncio quando devíamos protestar torna os homens cobardes”. Evitar esse pecado é também aqui o meu compromisso, pois julgo que uma sociedade só se pode considerar verdadeiramente emancipada se nela existir uma plena liberdade de expressão. Dito isto, mãos à obra…