Daniel Oliveira é um dos melhores bloggers portugueses. Escreve bem, pensa bem, está bem informado. Mas no que toca ao conflito israelo-árabe cede facilmente à demagogia pura. Este post atesta-o como poucos.
Falta de discernimento
josegomesandre,
Apenas um – de tantos exemplos possíveis – para ilustrar o que o Pedro Correia escreveu há uns dias: neste nosso querido Portugal, o património histórico e cultural é alvo de um desprezo chocante…
Num ano de crise económica e com três actos eleitorais não faltarão críticos à ideia de Portugal organizar o Mundial de Futebol em 2018 (juntamente com a Espanha). Manuel Alegre, com a demagogia a que nos habituou, já veio afirmar que “o país tem outras prioridades”. Esta observação óbvia não nos deve toldar a análise: é certo que a experiência megalómana do Euro 2004 (com a desnecessária construção de dez estádios) justifica algumas reticências, mas a ideia não é totalmente descabida.
À Esquerda e à Direita traçam-se planos semelhantes para enfrentar a crise económica. Nos Estados Unidos, a Administração Obama prepara um choque fiscal de grande dimensão, reduzindo impostos para estimular o consumo e a actividade comercial. Na Alemanha, o executivo de Angela Merkel anuncia um cenário idêntico. E nós por cá? O governo não tem nem uma palavra sobre o assunto. Não há ninguém em São Bento com o discernimento necessário para compreender que uma redução no IRC, no IVA ou no IRS – mesmo que limitada – poderia ser uma excelente medida de combate à estagnação económica?
Num longo artigo no DN de ontem, Mário Soares disserta sobre o conflito em Gaza, não se ficando por meias palavras: “Israel lança-se numa «guerra inútil» que lembra a barbárie do Holocausto”.
Confesso que face à complexidade destes eventos tenho dificuldades em assumir posições taxativas. Porém, este género de declarações é absolutamente ridículo, não apenas porque compara o incomparável, mas essencialmente porque relativiza um evento histórico de gravíssimas e hediondas proporções – ao qual nos deveríamos referir com grande parcimónia tendo objectivos metafóricos.
Na sua tradicional observação anual sobre os media, Pacheco Pereira tece duras críticas ao semanário “Expresso” (aqui fica o link antes que o dito me dê uma ensaboadela). Tendo a concordar com o espírito da denúncia em alguns dados particulares: apesar das boas colunas de opinião (com Miguel Monjardino, José Cutileiro, Daniel Oliveira e agora Ricardo Costa, por exemplo), o caderno principal corresponde a pouco mais do que um resumo da semana, raramente contendo verdadeiras notícias. Por outro lado, a “Actual” é hoje uma sombra do passado, despachando o cinema e o teatro em três páginas e meia e dispensando literalmente um terço do seu espaço com o guia de televisão e espectáculos.
Ao longo dos séculos, muitas vezes a opinião encontrou resistência entre os seus alvos ou simplesmente entre aqueles que tinham poder para a restringir. A crítica de personalidades públicas foi proibida na Grã-Bretanha em 1606, sendo então definida como “libelo sedicioso”. Em 1798, os Estados Unidos – campeões da liberdade de imprensa – baniram nos jornais os comentários negativos tecidos ao seu Presidente, John Adams. Também a nossa história recente está repleta de circunscrições ao pensamento e à livre crítica.