Quem perde, ganha?


josegomesandre,

Um Governo PS-CDU-BE tem toda a legitimidade constitucional. Se os partidos encontrarem pontos comuns fundamentais e estabelecerem um acordo podem construir uma solução estável, formando um Governo apoiado por uma maioria absoluta no Parlamento.
Não é a questão legal que me atormenta. É a questão política, moral até, se quiserem. Se o PS tivesse ganho as eleições, acharia natural, até desejável. Mas não ganhou. A solução acima descrita seria encabeçada por um candidato que PERDEU as eleições. É uma perversão do espírito democrático. Num país com elevada abstenção e um crescente divórcio entre as pessoas e a política, a violação de um princípio tão básico (quem ganha governa) tem uma aparência tão errada, tão injusta, que não poderá deixar de provocar consequências graves na percepção democrática, política, social e moral dos cidadãos comuns.

Eleições – 5 notas


josegomesandre,

1. A Coligação perde votos e mandatos, mas obtém uma vitória impensável há alguns meses atrás. Depois de 4 anos de cortes drásticos e sacrifícios violentes, é pouco menos que um milagre eleitoral.

2. O PS tem uma derrota histórica. Não capitalizou o voto de protesto e perdeu nos grandes centros urbanos. Revelou uma estratégica errática (ora virava à Esquerda, ora apelava à “estabilidade”), fez uma campanha amadora, está tomado por um sector radical (que chegou ao poder através de um “golpe de Estado” interno) e tem como líder um nado-morto político.

3. O BE é um vencedor inequívoco. Beneficiou da renovação do partido, do fim da excêntrica “liderança bicéfala”, do bom trabalho parlamentar, do efeito Mortágua e dos disparates do PS.

4. Livre, Agir e PDR são coqueluches dos media mas não valem um chavo eleitoral. Ficaram atrás do PAN, que mostra como um movimento social, implantado no terreno e bem organizado (mesmo se ignorado pela comunicação social), pode conquistar efectivamente votos.

5. Embora em linha com a maioria das democracias ocidentais (não entremos em pânico), a abstenção é muito elevada. As pessoas parecem não perceber que a democracia não é um dado adquirido nem definitivo, mas uma frágil conquista que importa alimentar e preservar.

Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?


josegomesandre,

 

Não me interessa o folclore do Natal. Esta é a noite mais solene do cristianismo, talvez mesmo a mais solene da história. Quando Cristo, sabendo do seu destino fatal, exprime a sua dor humana, demasiado humana, em revolta contra o trágico evento que o espera. Há muitas coisas admiráveis sobre a Última Ceia, a lavagem dos pés, a instituição da Eucaristia e o beijo de Judas, mas nenhuma me parece tão importante quanto a dúvida que assola Jesus (“Pai, afasta de mim esse cálice!”), Deus feito homem – e portanto apaixonado pela vida dos homens e pelos homens. Sob a aparente serenidade do que se seguirá, habita em Cristo um desejo de resistência contra o absurdo da morte, que culminará, horas mais tarde, na mais desesperada e brutal das frases bíblicas: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” Citando um salmo do Antigo Testamento, opera-se a ligação entre o antigo e o novo, mas é de um homem dilacerado que se trata ainda, face a uma morte que não quer aceitar, mas da qual não pode fugir, em nome da causa que defende. Em todas as Páscoas penso na luta desse homem – e do que ela tem para nos ensinar sobre as nossas próprias lutas. 

O homem que sonhava ser pássaro


josegomesandre,

Um dia, Chuang Tzu sonhou ser uma borboleta, voando alegremente entre as flores do jardim, sem saber que era Tzu. Quando acordou subitamente, na pessoa que sempre imaginara ser, já não podia dizer com certeza se era um homem que tinha sonhado ser uma borboleta, ou uma borboleta sonhando que era um homem. Lembrei-me desta história famosa ao ver “Birdman”, um filme que retoma este paradoxo a partir de uma impressionante rede de referências: a “peça dentro da peça” de Hamlet, o “quadro dentro do quadro” de Malevich, o “filme dentro do filme” de “Fala com Ela”, questionando o sentido da representação (“ser si mesmo noutro”? ou “ser outro em si mesmo”?) e, em última instância, levantando o maior mistério de todos: o que diabo é a realidade?

Senão, vejamos: o filme conta a história de uma peça cujo personagem principal vive uma crise de identidade, pois perdeu o amor e o reconhecimento que antes usufruíra; tal é o drama vivido pela personagem do próprio filme, um actor anteriormente famoso e agora velho e esquecido, representado por Michael Keaton, um actor anteriormente famoso e agora velho e esquecido, num filme sobre o teatro, uma arte anteriormente famosa e agora velha e esquecida, que usa uma técnica ilusória (um falso plano-sequência) para nos questionar sobre a linha ténue que separa o real e o irreal, a fama e o esquecimento, a glória e o fracasso.

E afinal de contas, que linha é essa? Como saber, recordando Descartes e Philip Dick, se não estou preso num sonho que julgo ser real? Como posso efectivamente saber que este mundo não é uma ilusão de alguém, que este eu que julgo real não é afinal um sonho de mim próprio num outro mundo, numa outra época?

Aprendemos, desde cedo, a separar o mundo do “faz-de-conta” da “realidade”. Mas neste mundo de simulacros, de realidades virtuais, redes sociais, ídolos com pés de barro, o que é ilusão ou realidade? Não são poucos os dias em que olho pela janela e desejo, ansiosamente, que talvez eu seja afinal apenas um pássaro, esvoaçando alegremente sobre Central Park, que sonha ser este homem que vos escreve.

Deus e a América


josegomesandre,

Trata-se de um tema muitíssimo estudado, sobre o qual existem milhares de livros e artigos, com análises sobre o peso social, político e cultural que a religião desempenha nos EUA, e comentários acerca da natureza religiosa ou irreligiosa da Constituição americana. Neste complexo aglomerado, sobressai contudo um pequeno episódio, que dá conta como poucos do que realmente esteve em causa quando os Pais Fundadores criaram a República americana: a ideia que a ordem constitucional deve remeter-se ao silêncio no domínio da religião, a qual cabe apenas à consciência dos indivíduos. Conta a lenda que, pouco depois de deixar a Convenção de Filadélfia, Alexander Hamilton (participante na elaboração da Constituição) foi abordado por um pastor protestante em Nova Iorque, que lhe perguntou por que motivo a Constituição não aludia à existência de Deus. A resposta de Hamilton vale por todos os tratados deste mundo: “Indeed, sir, we forgot it”.

Como proscritos


josegomesandre,

A maioria das pessoas gosta do Natal porque pertence a dois grupos plenamente reconciliados com a época: os crentes (que o festejam com maior ou menor religiosidade) e os secularistas (que se apropriaram do evento religioso, conferindo-lhe contornos puramente laicos e transformando-o numa grande celebração do real, da matéria e – curiosamente – da família). Os primeiros constroem presépios, vão à Missa do Galo e recolhem-se em oração. Os segundos invadem os centros comerciais, embrulham e etiquetam presentes, ornamentam árvores e enviam MMS com renas e céus estrelados.

Resta um pequeno grupo, de quem Dante parecia falar quando escreveu “os lugares mais quentes do Inferno estão reservados para aqueles que, numa época de grandes desafios, mantenham a sua neutralidade”. Falta-lhes a crença para celebrarem o nascimento de Jesus e o entusiasmo materialista para festejarem o mito da modernidade. Sobra-lhes, pois, o Inferno – não a punição numa vida futura a que aludia o mestre florentino, mas o castigo de viver todos os dias de Dezembro como proscritos.

Perpétuo Movimento


josegomesandre,

Nas últimas semanas tenho estado a escrever um artigo particularmente espinhoso. Tarefa entusiasmante, mas por vezes monótona e fatigante. Várias vezes pensei como seria quando terminasse: como festejaria a última frase, a última correcção, o envio do texto. Imaginei desde um cenário de euforia contida (que envolveria um copo de Martini e o último quarteto de cordas de Beethoven) até um festejo desmedido (que podia passar por uma noite bem regada).
Terminei hoje. Escrevi a última frase, fiz a última correcção, enviei o texto. Não senti nada. Talvez um bocadinho de sono. E fome. Dois problemas que se resolveram facilmente. Onde estava o desejo de festejar o feito? Onde estava o Martini, o quarteto de cordas? Nem sequer uma sensação de alívio. Nenhuma vontade, nenhum alento especial.
Estranha, esta forma que a vida tem de nos roubar o entusiasmo, e, ao mesmo tempo, de nos impelir a prosseguirmos.

Proibido comer


josegomesandre,

O nutricionismo é uma notável invenção do século XX, mas corre o risco de ser uma praga do século XXI. À força de sermos todos muito saudáveis, e de dosearmos e seleccionarmos os produtos ideais para a nossa dieta quotidiana,tomámos a via sacra do niilismo alimentício. Não há um santo dia em que não apareça um programa televisivo, um debate na rádio, ou uma reportagem no jornal sobre os “malefícios” de uma dieta “inadequada”, inevitavelmente acompanhados de uma lista de “produtos a evitar”. E é aqui que reside o busílis da questão.
Os doces têm muito açúcar. O pão engorda. O azeite e a manteiga aumentam o colesterol. O leite pode causar pedras nos rins. Os iogurtes e as natas também. Os frutos secos têm valores calóricos excessivos. Os legumes provocam soltura e, em alguns casos, diarreia. Os ovos podem estar contaminados por salmonelas. Enchidos e salgados, é melhor nem falar. Pastelaria diversa? Voltamos ao início. As carnes vermelhas têm demasiada gordura. A das vacas pode estar louca. Mas, pelo sim, pelo não, é melhor evitar frango e peru, por causa da gripe das aves. Fruta verde faz mal aos intestinos. Grão, feijão, ervilhas e castanhas são de difícil digestão: abstenha-se. Azeitonas e ameixas? Hemorróidas. A comida japonesa – aparentemente uma boa alternativa – tem níveis excessivos de mercúrio (e isso não pode ser bom). O arroz branco tem falta de nutrientes. E por causa da concentração de gordura, os fritos são um horror; os assados fazem crescer a conta do gás e os grelhados enchem a casa de fumo.
A continuar assim, ainda acabamos todos a comer raízes.

Recordar Constant


josegomesandre,

Um dos factos perturbantes do nosso tempo é a cisão entre a liberdade privada e a liberdade pública. A primeira esmaga completamente a segunda. Entre tanta tecnologia, afazeres profissionais, relações amorosas, amizades e “eventos”, entre tantas actividades promotoras do “meu” espaço, que tempo sobra para acções verdadeiramente públicas? Que energia resta para um exercício cívico, na qual eu realize a minha individualidade como cidadão-do-mundo? Que espaço sobra para a política, para acções sociais, para o debate colectivo, para discutir as nossas prioridades como comunidade?

Fury


josegomesandre,

Um dos mais preciosos – e simultaneamente mais trágicos – factos do nosso tempo é o de vivermos numa Europa onde (quase) ninguém teve a experiência da guerra. Por isso ela é tantas vezes invocada em vão, pois desconhecemos os seus horrores, a sua miséria, a forma como conduz a uma absoluta desumanização. Nunca como hoje fomos tão indiferentes à nossa própria memória. E como diz o célebre poema de Santayana, aqueles que não conhecem a história estão condenados a repeti-la.

Interstellar


josegomesandre,

Dizia Kant que todos os organismos estão destinados a desenvolver as suas disposições originais até à sua máxima potencialidade. No caso do homem, esse desenvolvimento ocorrerá, contudo, apenas na figura do género humano, e não no indivíduo humano. Pela nossa insuperável finitude, não é possível nem realizar em cada homem a potencialidade da humanidade, nem tão-pouco vislumbrar a totalidade desse progresso. Somos apenas uma ínfima parte do todo em movimento, uma peça de um puzzle de milhões de peças. Não o podemos apreciar, nem compreender, mas na nossa ausência o puzzle ficaria incompleto. A história do homem é o processo gradual de construção desse puzzle, repleto de avanços e recuos, de falhas, de tragédias e de miséria, mas sempre em realização, sempre em busca de uma completude por vir.

Cada homem sente-se perdido na sua pequenez, na sua insignificância, incapaz de vislumbrar o processo, inábil para justificar a sua própria razão de ser. E no entanto, ele é indispensável ao todo. Cada sacrifício, cada decisão, cada acto conta. Cada ser humano é imprescindível ao cumprimento do género humano. Pois não é no indivíduo que a humanidade se realiza, mas é através dele que ela genuinamente se cumpre. 

No final da “Guerra dos Mundos”, ouvíamos Morgan Freeman dizer “nenhuma morte foi em vão”. “Interstellar” completa essa frase, dizendo-nos “nenhuma vida é em vão”. Tudo o que fazemos importa. Todos os homens importam. “Interstellar” é um grito de fé na humanidade, um grito em defesa da dignidade humana. Que ecoe bem alto – é o meu desejo.

Eleições Intercalares nos EUA – cinco notas


josegomesandre,

1. Foram ontem escolhidos os 435 membros da Câmara dos Representantes, 36 lugares no Senado e vários Governadores. Os Republicanos venceram em toda a linha, conquistando o Senado e uma claríssima maioria na câmara baixa. Não podemos falar em surpresa. As intercalares são habitualmente “eleições de protesto”, que penalizam o Partido afecto à Presidência, e estas não foram excepção. Acresce que a maioria das disputas mais renhidas decorreu em Estados conservadores e que muitos dos Democratas agora em risco beneficiaram do “efeito Obama” em 2008 para conseguirem uma então improvável vitória.

 

2. Porém, a amplitude da vitória Republicana foi assinalável, implicando um reforço na Câmara dos Representantes (o mais elevado desde a 2ª Guerra Mundial) e triunfos em Estados tendencialmente Democratas (Governadores em Maryland, Massachusetts, Illinois; Senadores no Colorado), que mostram não apenas uma renovada confiança do eleitorado no GOP, como a manifestação de claro repúdio pelos Democratas, que dominam a Casa Branca desde 2008 e o Congresso desde 2006. Com efeito, apesar dos dados económicos mais recentes serem animadores, o eleitorado norte-americano confessa-se globalmente desiludido com o Presidente Obama e não hesitou em “puni-lo”, mesmo que indirectamente.

  

3. Importa, contudo, ser prudente na análise do que estes resultados possam significar para as Presidenciais de 2016, completamente diferentes na sua natureza e nos níveis de participação (muito superiores às intercalares, onde votam sobretudo os eleitores mais “indefectíveis”). Basta recordar que George Bush triunfou em 2000, apesar da vitória Democrata em 1998, e que o extraordinário resultado Republicano em 2010 não impediu também a reeleição de Obama em 2012. 

 

4. Ainda assim, a vitória Republicana não deixará de ter importantes consequências. O Congresso tem enorme relevância no sistema político norte-americano, cabendo-lhe preponderância quer na agenda doméstica (sobretudo em questões orçamentais), quer na definição da política externa (onde a anuência do Senado é determinante), ou ainda na composição da estrutura administrativa e judicial dos EUA. Apesar dos “acordos de fundo” em matéria de política externa permitirem adivinhar linhas de continuidade, é de esperar que a nova maioria Republicana pressione o Presidente Obama a adoptar algumas das suas reivindicações (nomeadamente um endurecimento da posição norte-americana em casos delicados como o conflito russo-ucraniano, a guerra na Síria ou a ameaça do “Estado Islâmico”). Também em matéria de política interna, os Republicanos terão oportunidade para condicionar a Administração em temas como a imigração, a política energética e ambiental, e até a implementação do “Obamacare”.

 

5. Para Obama, este é mais um desafio de monta. Por um lado, corre o risco de ver enfraquecida a sua posição, estando obrigado a estabelecer entendimentos com os seus rivais políticos. Por outro, quererá certamente evitar ficar refém da maioria Republicana, que poderá efectivamente bloquear a fase terminal do seu mandato caso o Presidente se recuse a encetar novos compromissos. Quando aos Republicanos, têm uma oportunidade de ouro para avançar com a sua própria agenda (todavia sempre condicionada ao veto presidencial), reforçando a sua imagem como Partido credível e alternativa viável para a Casa Branca – a batalha realmente decisiva na política americana, marcada para Novembro de 2016.

 

O Ouro do Reno


josegomesandre,

A minha cidade alemã preferida? O Reno. Se há ainda na Europa um lugar que seja o espelho da civitas romana – o espaço onde os cidadãos se encontravam e praticavam a sua condição de habitantes do Império – esse lugar é o Reno, onde conflui todo o complexo tecido histórico, cultural e social que caracteriza a Alemanha. 

É o Reno que contorna a Floresta Negra e assinala a fronteira com a Suíça e a França, na solarenga e primaveril região de Baden-Württemberg, onde o céu azul, as casas brancas e o azeite são o orgulho das gentes. É o Reno que atravessa os palcos das grandes lutas religiosas – a partir das quais nasceu verdadeiramente a Alemanha como nação – banhando Speyer e Worms, onde o Protestantismo deu os primeiros passos institucionais. É ainda o Reno que irrompe orgulhosamente no Palatinado, onde os romanos encontraram solos ricos, margens firmes e um rio navegável pelo qual fluiria o seu comércio – assim nascendo Mogúncia (Mainz) e Koblenz. E por fim, é o Reno que dá vida aos grandes centros políticos, culturais, intelectuais e financeiros do Oeste alemão, iluminando as de outro modo cinzentas cidades de Bona, Colónia e Düsseldorf.

Nos entretantos, este é o rio de todos os mitos, onde cada monte escarpado conta uma história, onde cada curva acentuada esconde uma tragédia, onde cada pequena vila – orgulhosamente beijando o rio – alberga um herói que Wagner haveria de celebrar. Os castelos que se erguem nas suas margens transportam-nos para antigos romances de cavalaria, com nobres príncipes, belas duquesas e perigosos dragões. Sabemos que Lohengrin nos aguarda, que Rolando chorou aqui, e receamos ainda o poder sedutor do Lorelei. E somos encantados pelas suas assombrosas encostas, o verde das suas margens, o ocre dos telhados que distinguem as incontáveis aldeias por ele banhadas, as centenas de pontes que homens esforçados erigiram ao longo dos séculos – tentando domar um rio que, na verdade, sempre foi insubmisso e rebelde. Como é ainda hoje.

Perdidos no labirinto


josegomesandre,

O Partido Popular Europeu reuniu-se no Algarve para discutir “crescimento e emprego”, procurando anunciar um novo ciclo na política europeia. Após anos de austeridade, é altura de enviar uma mensagem de esperança aos deprimidos povos europeus, ainda que ninguém saiba qual a receita milagrosa capaz de reactivar o mercado europeu e dinamizar as débeis economias da periferia, já para não falar de problemas crónicos como a crise demográfica, a imigração ilegal ou o futuro da Segurança Social.

A verdadeira agenda dos conservadores deverá pois concentrar-se em desafios mais prementes. Um deles é saber como lidar com o novo mapa político da União Europeia, mais fragmentado do que nunca e habitado por um número crescente de nacionalistas xenófobos, eurocépticos tradicionais e esquerdistas radicais, cujas intenções são bem conhecidas: enfraquecer (ainda mais) o que resta do projecto europeu.

A eleição do próximo Presidente da Comissão Europeia adquire por isso grande preponderância. O PPE encontra-se porém num complexo labirinto, em parte por si gerado: prometeu que Juncker seria o escolhido caso vencesse as eleições, mas uma vez conhecido o resultado, regressou ao velho jogo de bastidores da política europeia, onde dominam os egos, os números de circo e a estrita defesa dos “interesses nacionais”. Como acaba esta história? Em mês de Mundial, provavelmente ao jeito do famoso ditado futebolístico dos anos 90: são onze contra onze e no fim ganha a Alemanha – ou seja, a escolha de Merkel…

[publicado no Diário Económico]

A noite em que todos perderam


josegomesandre,

Com excepção da CDU e de Marinho Pinto, todos perderam. O PS obtém uma vitória curta, face às expectativas de congregar o voto de protesto contra a coligação PSD/CDS. A Direita sofre uma derrota histórica, que poderá abalar os alicerces do Governo (vem a caminho uma remodelação ministerial?). O Bloco continua a via da implosão. Perdeu as causas fracturantes para o PS e ao rejeitar ser hipotético parceiro dos socialistas tornou-se politicamente irrelevante. A abstenção atingiu valores elevadíssimos, resultado de um crescente (e preocupante) desânimo popular com a política (e com a Europa!) e do desgaste dos partidos tradicionais. O Governo sai fragilizado, mas a oposição não recolheu combustível suficiente para apelar de forma convincente a eleições antecipadas. A “força da rua” mostra-se nos “media” e nas redes sociais, mas o país real parece sobretudo amorfo e indiferente.

A CDU obtém um resultado notável, mas o seu discurso ideológico continua demasiado radicalizado para poder figurar como eventual parceiro de governação para o PS (e o facto de os comunistas terem feito campanha agressivamente contra os socialistas só adensou o abismo entre ambos). Marinho Pinto consegue a proeza de ser eleito para o Parlamento Europeu sem que se lhe conheça uma ideia sobre a Europa. Os eurocépticos ainda são irrelevantes em Portugal, mas o poder mediático do populismo já se faz sentir. 

[publicado ontem no Diário Económico].

 

P.S. A euforia de Seguro e Assis não passou de uma encenação para tentar vender a imagem de uma Direcção ganhadora. Correspondeu na verdade a um autêntico “canto do cisne”. A vitória foi curta (como qualquer pessoa notou desde logo). Segue-se pois uma guerra civil no PS…

Diário de campanha


josegomesandre,

Selfies (ainda por cima falsas, num cartaz que apela a uma “nova confiança”). Os outros que são um vírus. Outros ainda que são nazis. Sócrates, três, quatro, cinco vezes. Os temas que deviam ser europeus e por isso fala-se das pensões e do Governo. E eu que vou acabar com a pobreza. E nós que salvámos o país do apocalipse. E o outro que nunca mais sobe impostos, nem que a vaca tussa. E o surf no Secundário. E umas arruadas sem gente. E umas piadas sem graça. E uns que são muito democráticos e patrióticos, e os outros que são ainda mais democráticos e ainda mais patrióticos. E as sementes, nos tempos de antena, ao lado do tribunal europeu dos direitos dos animais, uma urgência planetária. E uns figurões que dantes eram do Partido X e agora apoiam o Partido Z, e que no futuro serão independentes, ou dependentes, desde que a coisa dê tacho. E uns relógios em contagem decrescente. E o escudo que salvava a malta num ápice. E o protectorado que agora é soberano outra vez (numa campanha para a União Europeia!).

 

Já sabemos que as campanhas eleitorais são poços sem fundo de demagogia e fait-divers. Mas desta vez estão a abusar. Na noite de 25 de Maio, os agentes políticos irão manifestar o seu “enorme pesar pela elevada abstenção”. Pena que não estejam a fazer nada para a evitar.

A praxe não tem lugar num mundo civilizado


josegomesandre,

A defesa da praxe recorre aos habituais argumentos: serve para “integrar” e “facilitar o entrosamento”, e em caso de excessos torna-se reprovável e os seus autores devem ser punidos. Nada mais falso. O equívoco reside nesta dicotomia, que define os contornos de uma praxe “boa” e de uma praxe “má”. A primeira procuraria familiarizar os indivíduos com a instituição a que agora pertence; a segunda utilizaria meios violentos para o atingir.

 

Trata-se de uma mistificação. A essência da praxe não é a “integração”, mas sim a humilhação. A praxe não existe para introduzir um indivíduo num contexto social harmónico ao qual ele aspira pertencer, mas sim para clarificar desde logo a relação de forças que existe nesse mesmo contexto, ou seja, para tornar evidente que o noviço se encontra na base da estrutura hierárquica da instituição, devendo submeter-se às condições impostas pelo topo da pirâmide. Evitando uma longa e penosa explicação teórica destas circunstâncias, a praxe manifesta, num instante físico conciso e intenso, os contornos exactos dessas regras, instaurando uma relação imediata entre o senhor e o servo, o dominador e o submisso.

Não se trata de um ritual iniciático, cujo móbil é o desejo de inscrever e assimilar. A praxe é uma cerimónia puramente exclusiva, que define os espaços interditos ao aspirante, confinando-o às rígidas fronteiras da hierarquia imutável da instituição. Na verdade, só o tempo permitirá a ascensão na pirâmide, embora apenas com o intuito de cristalizar a ordem pré-definida. Em rigor, a praxe é o mais acabado exercício de mumificação que as sociedades modernas engendraram. Uma sociedade civilizada devia erradicar este fenómeno puro de exclusão, esta coacção psicológica necessariamente violenta, esta forma de opressão perpétua. Num mundo esclarecido, não há lugar para a praxe. Sem excepções.

[Escrevi este texto em 2007 e já o republiquei duas vezes. O “Dux” não lhe ligou nenhuma. Talvez tenha melhor sorte desta vez]

Um rastejante e pestilento grunhido disfarçado de pensamento político


josegomesandre,

Nas últimas duas décadas, a FCT (Fundação para a Ciência e Tecnologia), entidade pública financiada pelo Governo português e por fundos europeus, tem feito um esforço notável de promoção da investigação em Portugal, através da concessão de bolsas individuais, projectos de investigação, centros científicos, etc. O número de Doutorados em Portugal cresceu exponencialmente, aproximando-se dos números europeus. Nos últimos dois anos, a contenção orçamental obrigou a uma compreensível estagnação nos fundos alocados, mas permitindo ainda assim a continuação de uma aposta clara na ciência num país quase analfabeto. 

 

Tudo isto desabou nos últimos dias. A atribuição de bolsas individuais levou a cortes escandalosos e inexplicáveis. Bolsas de Doutoramento, durante anos atribuídas a mais de 1500 investigadores, desceram para 729 este ano (já incluindo os novos “Doutoramentos FCT”). E as bolsas de pós-doutoramento, estabilizadas em 700 por ano desde 2007, desceram para 238 este ano. O que projectam estes números? Que estratégia encerram? Que futuro permitem adivinhar?

 

Pires de Lima explica: “não é possível alimentar um modelo que permita à investigação e à ciência viverem no conforto de estar longe das empresas e da vida real”. Estas declarações são todo um programa. Visam estabelecer uma dicotomia entre “fazer” e “pensar”, dividir o mundo entre quem “produz” e quem “reflecte”, quem “faz avançar” e quem “assiste”, quem “empreende” e quem “se resigna”, quem “cria” e quem “observa”. Ficou por dizer que os investigadores não-produtivos (ou seja, todos os que trabalham nas ciências humanas e sociais e boa parte das ciências exactas teóricas) são uns preguiçosos, apreciadores do sofá. Mas lá chegaremos. 

 

Em 1822, há quase duzentos anos, escreveu James Madison, 4º Presidente dos EUA: “Um governo popular, sem informação popular, ou os meios para adquiri-la, não é senão um prólogo a uma farsa ou uma tragédia, ou talvez a ambas. O conhecimento governará para sempre a ignorância; um povo que deseje ser o seu próprio governante terá que se dotar do poder que o conhecimento oferece”. Há dois séculos que os EUA têm sido campeões na promoção da ciência, com os resultados que se conhece. Neste cantinho à beira-mar plantado, regressámos à separação entre “ciência” e “vida real”, a uma distorcida e divisão entre o “conforto” do mundo da investigação por contraste com a “dureza” do mundo empresarial. Eis um modelo do agir e do pensar nos antípodas dos ganhos civilizacionais, culturais e científicos conquistados nos últimos três séculos. Como é que chegámos a isto, a este triunfo da ignorância, à celebração do mais rastejante e pestilento grunhido disfarçado de pensamento político?

 

Disclaimer: não fui afectado por nenhum destes concursos; usufruo de uma bolsa de pós-doutoramento desde 2010, cuja continuidade nada tem que ver com estes concursos.