Proibido comer


josegomesandre,

O nutricionismo é uma notável invenção do século XX, mas corre o risco de ser uma praga do século XXI. À força de sermos todos muito saudáveis, e de dosearmos e seleccionarmos os produtos ideais para a nossa dieta quotidiana,tomámos a via sacra do niilismo alimentício. Não há um santo dia em que não apareça um programa televisivo, um debate na rádio, ou uma reportagem no jornal sobre os “malefícios” de uma dieta “inadequada”, inevitavelmente acompanhados de uma lista de “produtos a evitar”. E é aqui que reside o busílis da questão.
Os doces têm muito açúcar. O pão engorda. O azeite e a manteiga aumentam o colesterol. O leite pode causar pedras nos rins. Os iogurtes e as natas também. Os frutos secos têm valores calóricos excessivos. Os legumes provocam soltura e, em alguns casos, diarreia. Os ovos podem estar contaminados por salmonelas. Enchidos e salgados, é melhor nem falar. Pastelaria diversa? Voltamos ao início. As carnes vermelhas têm demasiada gordura. A das vacas pode estar louca. Mas, pelo sim, pelo não, é melhor evitar frango e peru, por causa da gripe das aves. Fruta verde faz mal aos intestinos. Grão, feijão, ervilhas e castanhas são de difícil digestão: abstenha-se. Azeitonas e ameixas? Hemorróidas. A comida japonesa – aparentemente uma boa alternativa – tem níveis excessivos de mercúrio (e isso não pode ser bom). O arroz branco tem falta de nutrientes. E por causa da concentração de gordura, os fritos são um horror; os assados fazem crescer a conta do gás e os grelhados enchem a casa de fumo.
A continuar assim, ainda acabamos todos a comer raízes.

8 comentários em “Proibido comer”

  1. Olhe, José, faça como eu: mande-os f—- a todos e siga em frente. Era o que me faltava ter gajos e gajas a armar ao pingardelho a dizer-me o que devo ou não comer.
    É como as doenças, a treta é a mesma.

    Estes tipos e tipas andam convencidos que ficarão por cá para semente.

  2. Se o poder é a capacidade de condicionar os comportamentos dos outros, o nutricionismo, juntamente com o aquecimento global, são duas das novas religiões laicas do sec XXI, onde não faltam regras de conduta nem penitências. Contudo ambas esgotam-se perante a constatação (lá chegarão) que um dia todos iremos morrer. Enquanto não introduzirem penitência ou gozo perpétuo no seu discurso, continuar-ao uns pontos atrás das religiões mais antigas.

  3. O truque é esperar pelas campanhas certas e selecionar o que se quer.
    O vinho tinto já foi veneno e já fez bem ao coração, o mesmo para o chocolate.
    Aqui há uns anos só o povo que ia morrer novo e muito doente usava azeite, agora tem óleos monosaturados e faz bem.
    A sardinha só devia ser comida se fosse a última alternativa antes de morrer de fome, agora tem ómega 3.
    A dieta mediterrânica abusava do porco e era pobre e desequilibrada, agora é o passaporte para a vida longa.
    Se gosta de comer alguma coisa em particular não se preocupe. Já houve, ou vai haver, um tempo em que esse alimento é altamente recomendado.

  4. Visto sobre o ponto de vista do bem estar do próprio, físico(dificuldade em se mexer), como do psicológico(não é indiferente ver os olhares reprovadores do passante), bem como sobre as dificulades que causam aos que poderão precisar de tratar de nós, num hospital, num transporte publico, num teatro, a coisa já começa a ser menos simpatica e o “que se lixem” já não vem nada a propósito.
    Como estive hospitalizado a pouco assisti ao trabalho que era movimentar um doente obeso, fosse para tratamento, mudar a cama ou tratar da higiene -era necessário duas equipas e só no fim de estarem livres das tarefas de rotina. Claro que no sistema que temos os custos são suportados por todos em solidariedade. Não é descabido pedir aos próprios que se esforcem para serem solidários com os outros.

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