A petição


josegomesandre,

A blogosfera anda excitadíssima por causa de uma petição para tornar Marcelo Rebelo de Sousa cabeça-de-lista às europeias. Polémica não falta, com as críticas de Pacheco Pereira à abordagem jornalística (aqui), uma resposta violenta do Francisco Almeida Leite (aqui) e do 31 da Armada (aqui), entre outros comentários variados (vejam este, do Paulo Tunhas, ou este, do nosso Pedro Correia). Quanto a mim, não tenho paciência para a mania da perseguição e os delírios conspirativos que caracterizam Pacheco Pereira por estes dias, mas o espírito de facção existente no PSD leva-me igualmente a desconfiar de manobras "desinteressadas", mesmo que Vasco "o meu país precisa de mim" Campilho proclame a sua inocência aos sete ventos.

Todavia, há nesta história um pormenor ainda pouco falado, mas muito curioso: uma breve frase que surge num dos textos escritos por Vasco Campilho (o autor da petição) a este propósito. Escreve Campilho que "Marcelo Rebelo de Sousa terá lançado o nome de Pedro Passos Coelho como possível cabeça de lista do PSD nas eleições europeias. Não me parece descabida a ideia: Passos Coelho tem neste momento condições para ser um candidato ganhador a qualquer eleição que se proponha vencer" . Isto é uma piada? Um wishful thinking? Uma análise política? – e baseada em que dados, em que tendências, em que precedentes? Definitivamente, há muita gente iludida na política portuguesa.

Histórias do Novo Mundo (7)


josegomesandre,

A expansão para o Oeste selvagem suscitou reacções ambivalentes no imaginário americano. Havia, por um lado, um entusiasmo associado a essa notável aventura, que prometia glória e fama para quem nela se atrevia a mergulhar. Porém, o confronto com os rigores do clima, a aridez do solo e a desolação da paisagem conferia um travo amargo a essas esperanças.

São pois muitos os relatos de pioneiros desiludidos com a colonização do Oeste, que também nem sempre impressionou os principais responsáveis políticos americanos. Tendo viajado certa vez até perto de Cheyenne, no que é o hoje o Wyoming, o senador Benjamin Wade comentou com um rancheiro local: “Este é um território ruim – um território abandonado por Deus”. “Está enganado, senador”, disse o rancheiro. “É um território muito bom. Apenas lhe falta água e uma sociedade decente”. Ao que Benjamin Wade respondeu: “Pois, é tudo o que falta ao inferno”.

Coisa nenhuma


josegomesandre,

"Sendo indispensável o usufruto de uma maioria absoluta para governar o país, comprometemo-nos a não formar governo a menos que o eleitorado nos dê esse voto de confiança". Eis uma declaração quer seria perfeitamente aceitável e compreensível por parte do primeiro-ministro ou de um candidato a primeiro-ministro. A versão alternativa apresentada – "pedimos maioria absoluta mas governamos com o que aparecer" – tem política e emocionalmente o valor de coisa nenhuma.

Vital Moreira: quatro notas


josegomesandre,

 

1. Poderá ser uma escolha controversa, mas por favor não  repitam a observação de Pedro Marques Lopes na SIC-N: “É um intelectual que não sabe falar para as pessoas normais (sic)”. Os analistas queixam-se de que os políticos portugueses são medíocres, não têm qualidades éticas nem intelectuais, e que a vida partidária está divorciada da sociedade civil. Porém, logo zombam quando surgem candidatos como Vital Moreira, com um excelente percurso académico, integridade, indiscutível conhecimento dos temas e que não só não é um militante do PS como tem de facto um percurso de vida ligado à sociedade (e não particularmente aos partidos).

 

2. Concedo que Vital Moreira é um comunicador mediano e praticamente desconhecido para o grande eleitorado. Todavia, nas eleições europeias os nomes dos candidatos são de longe o menos importante (dão-se alvíssaras a quem, sem recorrer ao Google, se recordar dos cinco cabeças-de-lista do mais recente escrutínio para o parlamento europeu). A meu ver, esses problemas na ligação ao "cidadão comum" terão pouca ou nenhuma relevância no resultado eleitoral do PS.

 

3. Contudo, enganam-se também aqueles que elogiam o aspecto estratégico da decisão de Sócrates, aplaudida pela forma como enfraquece potencialmente a oposição à esquerda. Nada mais errado. Vital Moreira é de facto um nome à Esquerda, mas de forma alguma é o conciliador que os analistas logo se apressaram a elogiar. O seu passado comunista e o modo como deixou o PCP não o vai beneficiar em nada junto do eleitorado comunista. Bem pelo contrário: prevejo que sirva de incentivo para mobilizar o PCP numa luta que muito tem de simbólico (uma espécie de oportunidade para negar o movimento reformista no interior do Partido e punir os traidores internos – causas que mexem muitíssimo com os comunistas). Por outro lado, não me parece que um Professor Universitário com alguma idade seja especialmente apelativo para o eleitorado do Bloco: os jovens não o conhecem; as massas suburbanas não o vão querer conhecer (em tempos de crise não terão paciência para ouvir falar sobre direito constitucional ou tratados internacionais).

 

4. Teremos oportunidade de avaliar a sua candidatura, mas para já começou bem. Embora num tom demasiado vaidoso para o meu gosto, apresentou ideias interessantes sobre as questões europeias (a reforma das instituições, a necessidade de uma concertação internacional para enfrentar a crise económica) e foi suficientemente sincero para admitir que poderia ter um resultado fraco (havendo nas eleições europeias o chamado “voto de protesto”). Num Congresso dominado pela arrogância e por um optimismo quase infantil, foi quase entusiasmante ouvir estas observações moderadas e realistas.

Produtos Seleccionados (2)


josegomesandre,

O politólogo Pedro Magalhães (do Centro de Sondagens da UCP e Professor do ICS) apresenta no Margens de Erro uma série de excelentes gráficos sobre a correlação entre o comportamento eleitoral e vários dados demográficos e socio-económicos. Em países como os Estados Unidos ou a Inglaterra esta é uma prática comum, que permite avaliar com bastante rigor características importante do eleitorado e das bases de apoio que sustentam os vários partidos, mas infelizmente no nosso país são raros os estudos deste tipo. Iniciativas deste género merecem pois todo o destaque…

O circo continua


josegomesandre,

Esta história do Freeport tem sido tão bizarra que nenhum acto estranho ou manobra de contra-informação me deveria surpreender. Mas nem os mais prevenidos poderiam esperar o seguinte comunicado oficial enviado aos jornais por Sá Leão, o advogado de Júlio Monteiro (tio de Sócrates). Por favor, mantenham-se sentados nas vossas cadeiras:

 

 

Perante este momento de non-sense total, não sei se ria, se chore. Mas duma coisa estou certo: se este país não existisse, tinha de ser inventado.

Prós & Contras


josegomesandre,

Do debate de ontem sobre o casamento homossexual fica uma certeza: moderados como eu vão passar muito mal. Há um grande radicalismo em ambos os lados e, tal como na questão do aborto, parece-me inevitável que os insultos e o ruído se venham a sobrepor às discussões ponderadas e racionais. Com efeito, a julgar por exemplo pela prestação de Isabel Moreira – uma constitucionalista histérica, de dedo em riste e intolerante como raras vezes vi no mundo académico – vamos assistir a um circo deprimente.

Histórias do Novo Mundo (6)


josegomesandre,

Na arquitectura política norte-americana, um dos cargos mais peculiares é o de Vice-Presidente, a quem cabem duas tarefas: substituir o Presidente em caso de morte ou incapacidade do mesmo; e presidir às sessões do Senado (sem direito de voto a menos que exista um empate). Embora em anos recentes, os Vice-Presidentes tenham assumido alguma preponderância na Casa Branca (servindo como conselheiros do Presidente), a verdade é que se trata de um cargo com pouca ou nenhuma relevância concreta.

Ao longo dos tempos, os protagonistas e os estudiosos da história americana não deixaram de sublinhar esta singular inutilidade. John Adams, o primeiro Vice-Presidente, chamou-lhe “o cargo mais insignificante alguma vez engendrado pela imaginação humana”. O historiador Arthur Schlesinger considerou que o Vice-Presidente tinha apenas "um encargo verdadeiramente sério": "esperar que o Presidente morra”. Mas talvez a declaração mais sintomática e divertida seja a de Thomas Marshall (Vice-Presidente de Woodrow Wilson): “Era uma vez dois irmãos. Um fez-se ao mar. O outro foi eleito Vice-Presidente. A partir daí, nunca mais ninguém ouviu falar deles.”

Uma questão de prioridades (3)


josegomesandre,

O Rui Pedro Nascimento trouxe um interessante contributo para a discussão sobre o trânsito na Baixa, neste post (escrevi sobre o assunto aqui e a Fernanda Câncio aqui). Do texto do Rui destaco um trecho bastante sugestivo: "[…] defendo o fecho do trânsito na Baixa […] para transformar essa zona da cidade numa zona de vida cultural e de lazer de excelência. […] Organizando teatros de rua, permitindo aos artistas da(s) escola(s) de circo que ali actuem (só dois exemplos), juntando a isso a oferta já existente na área, promovida pelo Coliseu, o Politeama e o Teatro Nacional. Isto, claro, combinado com um policiamento capaz e com os restaurantes e lojas abertos até mais tarde."

Discordo contudo da parte final do texto, quando o Rui escreve: "[…] e quanto aos utilizadores das vias adjacentes, acontecia-lhes o mesmo que aconteceu quando deixou de ser permitido aos veículos pesados no Terreiro do Paço, junto ao rio: encontraram outros caminhos!". Feliz ou infelizmente, a Baixa tem uma extensão e uma importância nas linhas viárias de Lisboa muito superior à do Terreiro do Paço, pelo que a supressão absoluta do tráfego na Baixa não se resolveria com um simples "desvio" para outras zonas. A menos que queiramos bloquear de vez o Marquês de Pombal e as Amoreiras!

Uma questão de prioridades (2)


josegomesandre,

Procuremos responder a este texto de Fernanda Câncio sobre o meu post. Passemos por cima da sua estratégia habitual para menosprezar os seus interlocutores (como a de me chamar "cara pessoa") e falemos da substância do problema. É evidente que o tema do trânsito da Baixa é polémico, mas que existem bons argumentos para o defender. Contudo, "poder apanhar um táxi e sair à porta das lojas" quando a zona está cheia de transportes públicos não é seguramente um deles. Tal como não é sério referir-se na mesma frase ao “bem comum” e ao direito dos habitantes da Rua do Ouro e da Prata em abrirem as janelas e não “sentirem a casa a tremer na hora de ponta”.

O debate sobre o bem público tem que ir para além destes sentimentos egoístas e desta lógica bairrista (não por acaso Fernanda Câncio mora na Baixa), porque senão amanhã os habitantes do Saldanha, de Benfica e do Campo Grande também vão querer fechar as estradas para respirarem melhor e não ouvir carros nem ambulâncias. A questão, como sempre, é pesar as vantagens e inconvenientes de uma medida tendo em conta quem dela usufrui directa ou indirectamente. E embora me pareça uma boa ideia limitar o trânsito numa zona histórica (para habitantes, turistas e frequentadores), é igualmente verdade que a Baixa corresponde a um vector fulcral no tráfego da capital.

Sem se remodelar o sistema de transportes públicos gerais e sem se projectarem vias alternativas para o trânsito, o fecho do tráfego na Baixa conduzirá a um entupimento de zonas limítrofes como a Avenida da Liberdade, o Marquês e a zona das Amoreiras, já de si francamente congestionadas. Imagino que para quem pretenda fazer compras na Baixa, isto tenha pouca importância. Mas para os muitos lisboetas que necessitam de viatura própria para chegar ao trabalho, pode ser a diferença entre um dia normal e uma visita ao Inferno.

Sócrates, o mártir


josegomesandre,

Começa agora a perceber-se porque insistiu Sócrates tantas vezes nas últimas semanas no tema das “campanhas negras”. Mais do que uma excelente manobra de diversão num caso complexo e ainda por esclarecer, esta é uma óptima estratégia para desacreditar a oposição. O triste espectáculo de ontem no Parlamento foi disto prova. A uma pergunta legítima de Paulo Rangel sobre os métodos operativos dos serviços de informação, Sócrates respondeu com indignação, sentindo-se “insultado”, voltando à famosa tese da cabala e remetendo o seu interlocutor para um grupo de perigosos malandros que apenas querem difamar o seu bom nome.

Sob a capa da vitimização, Sócrates procura libertar-se de quaisquer críticas ou questões incómodas num dos períodos mais negros da sua governação (e não, não é por causa do Freeport). Ao mesmo tempo, lança publicamente dúvidas sobre as intenções dos seus adversários políticos. Não sei se esta táctica produzirá bons resultados para a imagem de Sócrates. Mas uma coisa é certa: tudo isto só contribui para descredibilizar e enfraquecer ainda mais as instituições democráticas do nosso regime político.

O cúmulo da desfaçatez


josegomesandre,

Durante a campanha eleitoral de 2005, Sócrates prometeu não aumentar a carga fiscal. Assim que chegou ao poder, quebrou a promessa. Nos últimos três anos este Governo aumentou os impostos em quase todos os domínios (combustíveis, tabaco, rendimentos pessoais, etc.). Como se nada disto se tivesse passado, Sócrates prometeu ontem “aliviar a carga fiscal das classes médias”. É preciso topete!

Histórias do Novo Mundo (5)


josegomesandre,

Erudito cientista, prezado escritor, eminente revolucionário, tipógrafo, polemista, diplomata, Benjamin Franklin foi o verdadeiro self-made man mais de um século antes do termo ter sido inventado. Um dos pontos culminantes da sua vida surgiu quando contava já 81 anos: a participação na Convenção de Filadélfia, onde seria elaborada e aprovada a Constituição federal dos Estados Unidos.

Discursando em várias ocasiões, Franklin manifestava grande preocupação pelo facto de os Estados se recusarem a obter um compromisso quando à natureza do sistema federal. No último dia da Convenção, e ultrapassada essa dificuldade, Franklin confessaria por fim a sua satisfação e ao mesmo tempo as suas esperanças no futuro dos EUA.

À medida que a Constituição era assinada pelos delegados, Franklin referiu-se a uma pintura que se encontrava na sala e confessou a alguns membros: “Tenho olhado [para este desenho] no curso das sessões, sem ser capaz de dizer se se trata de uma aurora ou de um crepúsculo; mas agora, tenho a felicidade de saber que ali se encontra uma alvorada e não um sol poente”. Em seguida, assinou ele próprio o texto constitucional, não evitando que uma lágrima lhe corresse pelo rosto.

Dignidade precisa-se


josegomesandre,

O António e o Pedro já denunciaram as declarações ridículas de Augusto Santos Silva em textos anteriores, mas gostava de acrescentar uma ideia. O que realmente me incomoda neste e noutros comportamentos semelhantes é a total falta de sentido de Estado da maioria dos nossos políticos. Tanto me dá que o caso concreto remeta para uma reunião partidária ou para uma festa de angariação de fundos. Tratava-se de um evento público e Santos Silva, mais do que um membro do Partido Socialista, é neste momento um ministro do Governo, ocupando um cargo relevante no Estado.

Para que Portugal não se transforme numa república das bananas, é necessário que aqueles que o representam ao mais alto nível tenham respeito pelo povo, pelas instituições políticas e pelos cargos que desempenham. Os nossos políticos – e os nossos ministros – têm de se convencer, de uma vez por todas, que não são líderes de uma claque de futebol nem presidem a associações de estudantes do liceu.

Histórias do Novo Mundo (4)


josegomesandre,

Embora republicana na sua matriz, a Revolução Americana sempre sentiu um grande apreço pelo sistema constitucional britânico e pelas tradições inglesas. É disto exemplo uma célebre discussão no Congresso, no início de 1789, a propósito das denominações formais dos titulares de cargos públicos. Na altura, um comité do Senado sugeriu que o Presidente americano fosse designado de “His Highness the President of the United States of America and Protector of the Rights of the Same” (Sua Majestade o Presidente dos Estados Unidos da América e Protector dos seus Direitos).

Embora ridicularizado por muitos congressistas, este título pomposo seria todavia defendido por alguns americanos famosos. Um deles era John Adams, um dos arquitectos da Revolução, mas ainda assim um conhecido admirador do modelo político britânico, que elogiara nos seus escritos. Esta posição mereceu escárnio no seu tempo e Adams não se livraria de uma imagem histórica pouco simpática, que usualmente sublinha a sua predilecção aristocrática e as suas “tendências monárquicas”.

 Um jornal satírico de então, aproveitando o facto de Adams ser um dos homens mais gordos da sua época, chegou mesmo a propor que lhe fosse concedido o seguinte título nobiliárquico: “John Adams, His Roundness”. Intraduzível, meus amigos, intraduzível…

Changeling (1)


josegomesandre,

 

 

 

Depois dos extraordinários Million Dollar Baby e Cartas de Iwo Jima, Clint Eastwood oferece-nos Changeling, um filme colossal sobre a perda, a coragem, a razão e o exercício do poder – entendido nas suas tortuosas e complexas ramificações. O espectro temático é tão rico quanto os movimentos de câmara, as interpretações, a banda sonora, a espantosa fotografia e a reconstituição histórica, elementos que nos são revelados com inegável mestria. Na verdade, Eastwood dirige o filme com a precisão de um relógio suíço e a carga dramática de um Shakespeare, conduzindo um enredo que nas mãos de outro realizador acabaria provavelmente numa película medíocre. Uma obra excepcional, à qual voltarei nos próximos dias.