Como perder a razão


josegomesandre,

O extremismo é o maior obstáculo à formulação de análises políticas adequadas e congruentes. Um bom exemplo desta máxima diz respeito à forma como têm sido interpretadas a figura e a agenda política de Obama, quando partindo ora de um messianismo insuportável, ora de um ódio visceral. O primeiro caso tem sido mais abundante, mas há igualmente vários exemplos do segundo. 

Veja-se esta análise de Maria João Marques, que parte de uma gaffe inócua de Obama (a referência a um termo em "austríaco") para uma série de inferências de largo espectro (que Obama nada sabe sobre o Anschluss de 1938, nem sobre o problema dos sudetas na Checoslováquia), acabando mesmo a comparar as políticas económicas de Obama e Hitler. De passagem, uma outra referência sobre o "apaziguamento" inglês perante os nazis e a semelhante abordagem de Obama à política externa.

Isto não é apenas um exemplo clássico da "Godwin’s Law". É um daqueles casos onde a pressa de chegar a algum sítio levou ao absoluto esquecimento do caminho a percorrer.

Blog da semana


josegomesandre,

É um blog discreto, que não procura reconhecimento fácil nem se promove incessantemente em caixas de comentário alheias. Mas garanto-vos que vale a pena descobri-lo. O Notas ao Café, de JN (nunca cheguei a saber se  é o José Nunes do "Foram-se os Anéis"), apresenta-nos uma vasta e notável selecção de cartoons, devidamente acompanhados de um texto que os enquadra e/ou os aprofunda. O tom é geralmente à esquerda, mas existe por ali um olhar complexo sobre o mundo que vai muito para além de ideologias estanques. Um mimo para o olhar e um repasto para a mente.

Se é dos nossos, tudo bem!


josegomesandre,

Cada vez mais me parece haver uma futebolização da análise política em Portugal. Sabem aquelas discussões sobre quem é a melhor equipa ou o melhor jogador – com os adeptos invariavelmente a defenderem o seu clube, mesmo que sem razão aparente? Em relação à política não é muito diferente: em primeiro lugar, avalia-se de que lado se está e só depois se procuram argumentos para defender o preconceito.

Vejam-se dois óptimos exemplos recentes desta inversão racional. Ciganos em contentores apartados das restantes turmas? Eis um maná para a indignação da Esquerda e motivo de indiferença à Direita. Porém, como o responsável pela situação é um governo socialista eis que a Direita irrompe num coro de protesto (tantas lágrimas de crocodilo, meu Deus!) e a Esquerda aplaude a citação (quanta hipocrisia…).

Mas há mais. Pensemos na hipótese de existirem pressões políticas sobre um caso envolvendo um primeiro-ministro, conhecido pela sua arrogância, que promete represálias se as decisões judiciais não o favorecerem e processa jornalistas que o criticam. O que se diria à Esquerda se este político fosse do PSD ou do CDS? "Acudam, que a Pátria está em perigo!", "ai que se mata a liberdade de expressão", "fascistas!". Todavia, como o PM é o socialista Sócrates, as reacções oscilam entre o mais profundo silêncio e lembretes ridículos como este cantando hossanas à "integridade moral das pessoas" e ao "direito ao bom nome e reputação". Isto já não são bem análises políticas. São cânticos de claques.

Mais meias-verdades


josegomesandre,

Neste país socrático é cada vez mais difícil distinguir entre verdade e mentira, propaganda e feitos reais, objectividade e subjectividade. Ouviram ou leram por aí que houve uma redução enorme nas faltas nas escolas? Ouviram ou leram o Ministério da Educação a tecer loas ao seu próprio sucesso? Pois afinal parece que não é bem assim: "[…] nas escolas o anúncio está a ser recebido com alguma “perplexidade”. Responsáveis contactados pelo PÚBLICO recordam que por força do novo Estatuto do Aluno, aos estudantes que fizeram provas de recuperação e tiveram positiva, são retiradas as faltas registadas, o que não quer dizer que tenham faltado menos. «Podem ir acumulando faltas, acumulando provas e ir voltando sempre à estaca zero. É o que a lei prevê». […] «Até se pode estar a promover mais o absentismo e as estatísticas mostrarem o contrário», admite Maria José Viseu, professora e presidente da Confederação Nacional Independente de Pais, que acrescenta: «Para sabermos se houve ou não uma redução, é preciso ver primeiro quantas faltas foram retiradas do cadastro na sequência das provas de recuperação».

Se acham que isto ainda não podia piorar, deixo-vos com este fantástico parágrafo: "Nos blogues de professores, a coberto do anonimato, são vários os docentes que dão conta de outras realidades. Por exemplo, casos de directores de turma que não passam para o sistema informático todas as faltas dos alunos de modo a evitarem, assim, a proliferação de provas de recuperação; de professores que, com o mesmo objectivo, começaram a poupar nestes registos".

Touché!


josegomesandre,
Leia-se o que escreve Miguel Morgado sobre a arrogância que grassa no meio académico português, sintoma aliás de um complexo cada vez mais disseminado entre nós: o horror à crítica, ao debate de ideias, à consideração de perspectivas diferentes das nossas: "Dizia-me um amigo das andanças académicas que estava preocupado com a incapacidade crescente manifestada pelos académicos portugueses de aceitar críticas ao seu trabalho. Repare-se que estou a falar do meio académico, em que a crítica dos pares desempenha um papel insubstituível na progressão do trabalho científico. E a queixa deste meu amigo pode ser verificada todos os dias, em todas as esferas de actividade. Somos um País de gente medrosa, insegura, freneticamente ciosa do risível quintal que vai assegurando, e em guerra com um conjunto infindável de ameaças que os outros suscitam. No fundo, isto é também um reflexo do País que fomos construindo nos últimos anos. Um País literalmente de bárbaros, isto é, de pessoas incapazes de manter uma conversação racional."

Mais um prego no caixão laranja


josegomesandre,

Lê-se no Público: "O PSD está irredutível na recusa do nome de Jorge Miranda, proposto pelo PS, para o cargo de provedor de Justiça. A decisão final foi tomada ontem na comissão permanente do partido e radica apenas no facto de não ter sido uma escolha dos social-democratas, uma posição de princípio de Manuela Ferreira Leite.".  Se isto for verdade, é não apenas ridículo como absolutamente demolidor para a própria figura de Ferreira Leite, que anda há tempos a vender a ideia de que com ela a prioridade será sempre o país, e não os partidos. Esta era uma excelente oportunidade para mostrar objectivamente a tal imagem de credibilidade a que tantas vezes se refere, aceitando um nome com qualidades indiscutíveis para o cargo e libertando o país de um drama bizarro que se arrasta há meses, permitindo que se voltem a discutir as questões que realmente apoquentam a nossa sociedade. Prolongar esta polémica por querelas partidárias e "posições de princípio" assentes em meros joguinhos de poder é apenas (mais) um tiro no pé da líder do PSD.

Estes ingleses estão loucos!


josegomesandre,

"Os alunos das escolas primárias britânicas deverão dominar ferramentas baseadas na Web como blogues, podcasts, Twitter e Wikipedia, segundo planos de alterações ao programa hoje divulgados pelo jornal britânico «The Guardian». Em contrapartida, os alunos destas classes deixarão de ter como obrigatório o estudo de certos períodos históricos, como a época vitoriana ou a II Guerra Mundial […]. O fim da rigidez dos programas deverá ser outra novidade, com os alunos a ter mais a dizer sobre a matéria.".

Futebolândia


josegomesandre,

Já joguei futebol. Gosto muito de futebol. Vejo dois ou três jogos por semana. Vou com alguma frequência aos estádios. Sinto-me por isso à vontade para franzir o sobrolho perante a loucura fute-televisiva de tempos recentes. Só nas últimas vinte e quatro horas, assisti de passagem a entrevistas ao treinador do Sporting, ao Presidente do mesmo clube, a um árbitro, a um dos seus assistentes, e a três experts nos canais generalistas. Ontem houve dois programas de debate em directo na TVI24 e na SICN com três comentadores cada (programas com duração de uma hora). Segue-se hoje (terça-feira) o Trio de Ataque na RTPN. Todos estes programas repetem pela madrugada e pelo menos no dia seguinte. O Prós e Contras dedicou o programa desta segunda-feira ao futebol em Portugal. E os canais noticiosos (como vários jornais, aliás) escolheram o Doutoramento "honoris causa" de Mourinho como notícia do dia. Não será um bocadinho demais?

O passado (não) é um lugar estranho


josegomesandre,

O Nuno Ramos de Almeida, do 5 Dias, recomendou um fascinante artigo da Alternatives Economiques sobre “reformas significativas” que a crise financeira de certo modo traz a debate. As principais ideias? Estabelecer um salário máximo. Suprimir o direito de herança. Obrigar todos os assalariados a sindicalizaram-se. Taxar a 80% os salários mais altos.

Algo me diz que isto já foi tentado, ligeiramente a leste do nosso jardim à beira-mar plantado. E reza a lenda que não correu lá muito bem.

Barómetro


josegomesandre,

Deste episódio sobre a escolha do Provedor de Justiça registo duas observações breves. Primeiro, que esta briga de adolescentes entre os dois maiores partidos portugueses serve apenas para mostrar a degradação em que este regime político está mergulhado. Segundo, que não deixa de ser espantoso que a discussão se centre na tendência política/ideológica do novo Provedor e não na qualidade e mérito da personalidade a nomear. Este caso é particularmente irrelevante, mas diz muito do estado geral em que nos encontramos.

Histórias do Novo Mundo (9)


josegomesandre,

Como todos os grandes conflitos bélicos, a Guerra Civil Americana está repleta de episódios memoráveis. Um dos meus preferidos refere-se ao encontro dos Generais Grant e Lee, em Appomattox (em Abril de 1865), para discutirem os termos da rendição sulista. Ulysses Grant, o líder do exército nortista, era conhecido pela sua brutalidade e pelo modo temerário com que enfrentara os rebeldes, não raras vezes às custas de milhares de fatalidades. Robert Lee, o grande General sulista, era igualmente uma lenda. Brilhante estratega, obtivera triunfos impensáveis com um número inferior de forças. Sóbrio no trato, recordava o aristocrata virginiano, frugal, mas simultaneamente conspícuo e educado.

A cena é inesquecível. Grant chega atrasado ao mais importante encontro da sua vida. Apresenta-se com uma camisa de cor esbatida e desabotoada, calças corroídas pela guerra e um par de botas vulgar, escondendo-lhe a lama a cor natural. Não trazia esporas, nem espada, nem revólver. O uniforme confundia-se com o de um soldado raso.

Lee esperava-o a um canto da sala. Vestira o seu melhor fato, um uniforme cinzento irrepreensível, perfeitamente engomado, onde se distinguiam as estrelas reluzentes que lhe designavam a alta patente. Trouxera consigo uma espada notável, que se alongava junto ao corpo. O punho, adornado com belas jóias, aguardava o toque aveludado das experientes mãos do general, cobertas com novíssimas luvas esverdeadas. As botas, impecavelmente limpas, possuíam esporas com grandes rosetas.

Apesar de triunfante – e perante o mais célebre inimigo – Grant manifesta uma excepcional deferência para com Lee, que obtém generosas concessões na negociação dos termos de capitulação. Os soldados sulistas não serão acusados de traição e poderão regressar a casa montando os seus cavalos. Seriam imediatamente fornecidos mantimentos àqueles que ainda se encontravam nas linhas de combate. E três dias mais tarde, ao deporem as armas, os soldados revoltosos receberiam ainda honras militares.

Juro que consigo ouvir o general Grant, sussurrando na direcção de Lee: “peço desculpa por tudo isto”. Afinal, a dignidade não é exclusiva dos vencedores.

 

[republicado a partir de um texto que escrevi há dois anos no BPC].

Num país normal…


josegomesandre,

… esta notícia, referente a uma encomenda do Ministério da Educação que envolveu João Pedroso (e um chorudo pagamento de 310 mil euros por… fotocópias e índices de decretos) seria imediatamente alvo de uma investigação judicial. Estou também em crer que os envolvidos seriam confrontados com uma enxurrada de questões da imprensa e que a opinião pública não descansaria enquanto não fosse totalmente esclarecido a que se deveu esta delapidação do erário público a propósito de coisa nenhuma. O que sucede em Portugal? No pasa nada…

Histórias do Novo Mundo (8)


josegomesandre,

O Senado federal foi criado para funcionar como uma assembleia de elite, que controlaria simultaneamente a acção do Presidente e a legislação oriunda da “popular” Câmara dos Representantes. Nele serviram figuras notáveis da história americana (como Daniel Webster, Henry Clay, George Norris ou JFK) e hoje o Senado continua a fazer jus ao título de “clube mais exclusivo do mundo”. Todavia, nem sempre foi assim. No final do século XIX, o desenvolvimento das máquinas partidárias, dos lóbbies industriais e das pressões financeiras tornaram os senadores reféns de agendas específicas ou de interesses particulares.

Uma das histórias que melhor ilustra como esta câmara de elite deu lugar a uma assembleia corrupta sucedeu quando um jovem senador pediu a um dos seus mais antigos membros, Cushman Davis, que lhe descrevesse brevemente os seus novos colegas. À medida que estes se encaminhavam para os seus lugares, Davis iniciou então uma extraordinária enumeração: “Eis que chega um chacal; um abutre; um cão que gosta de atacar ovelhas; um gorila; um crocodilo; um busardo; uma velha galinha, que não para de cacarejar; um pombo; um peru”. Por fim, ao ver chegar um senador dos novos Estados do Oeste – gordíssimo, ambicioso, insolente e com um ar duvidoso, entrando no Senado de forma arrastada – Davis apontou o dedo na sua direcção e exclamou de forma exaltada: “Um lobo, senhor! Um lobo maldito, faminto, furtivo e cobarde!”.

Ao ler esta descrição, quase tenho vontade de a incluir na série “Passado Presente”, transferindo-a para uma realidade geográfica mais próxima de nós…

Seis características (mais coisa menos coisa)


josegomesandre,

Depois de passar mais de dois anos na blogosfera, alguém teve finalmente a simpatia de me lançar uma corrente blogosférica. Obrigado, pois, à Marta e à Teresa!

 

1. Sou um noctívago fervoroso. Salvo raras excepções, deito-me às 5 da manhã e acordo para almoçar. Não sou apreciador do sol nem da luz e por isso durante a tarde gosto de manter o meu escritório escuro. Ao contrário do que possa parecer, não me dedico ao vampirismo: simplesmente aprecio o silêncio da noite e a tranquilidade da sombra.

2. Cometo com frequência o pecado da gula, particularmente se envolver bolachas e biscoitos. Gosto de me ver como a concretização definitiva do “monstro das bolachas” dos Marretas. Sem surpresas, cheguei o mês passado aos 85 quilos.

3. Tenho 28 anos e estudo há 23. Ainda não fiz outra coisa, portanto. É algo de que me orgulho, embora saiba que este não é nem o caminho da felicidade rápida nem do dinheiro fácil. Creio aliás que, a continuar por esta via, estarei frequentemente angustiado e de bolsos vazios.

4. Gosto muito de história, de escritores antigos, de músicos mortos, de cinema mudo e de filósofos que usavam peruca.

5. Os meus três filmes preferidos são “Ivan, o Terrível”, “A Barreira Invisível” e “Million Dollar Baby”. O livro da minha vida é o “Doutor Fausto”. O destino de eleição: Londres.

6. Gosto de jogos de tabuleiro e ainda mais de jogos de cartas. Cultivo uma estranha paixão por estatísticas desportivas e por resultados eleitorais americanos. Mas até agora, nada, nem ninguém, me consegue prender a atenção como um jogo do Benfica.

Por falar em episódios degradantes


josegomesandre,

No Parlamento recorre-se a linguagem de bordel e solicita-se pancadaria para resolver diferendos. No Twitter, o director do Público envolve-se em chalaças com um blogger. Quando este lhe pergunta o porquê de o jornal ter escolhido Sócrates como alvo, José Manuel Fernandes responde: "[O Público] não escolhe. É quem se põe a jeito. Já foi o Santana, o Isaltino, o Saleiro. Agora o que está a dar é o Loureiro e o dito cujo." Belas expressões de uma pessoa com esta responsabilidade…

E como se comporta a oposição neste debate público elevadíssimo? Brinca às petições ou pura e simplesmente desata a fazer traquinices. Exagero? Só um exemplo surreal: Tiago Azevedo Fernandes,  militante do PSD e dinamizador do site A Baixa do Porto, registou o endereço www.sócrates2009.com. Nesta brincadeira de hacker adolescente, encontramos uma página com uma das casas "projectadas" pelo primeiro-ministro e o slogan: "A Força da Mudança para um Portugal mais Fino". A que se segue o comentário profundo: "Hmmm, pensando melhor…" — e os links para o site oficial do PSD e para o Construir Ideias. Mas que fantochada é esta? Como é que esta gente tem a lata de falar em credibilidade? Ah, e tal, era só uma graçola? Então juntem-se às Produções Fictícias e deixem de nos vender que têm um projecto político sério para o país.

[P.S. Post corrigido. O meu pedido de desculpas aos leitores e aos visados pela informação incorrecta que constava do texto inicial].