[Pub.]


josegomesandre,

"Quando foi anunciado o nome de Paulo Rangel como cabeça-de-lista do PSD às Europeias, franzi o sobrolho. Pareceu-me um erro de Manuela Ferreira Leite: escolher um candidato com um currículo político reduzido, desconhecido do grande público e com um mediatismo muito inferior a outros nomes (como Marques Mendes, por exemplo). Sei hoje que me enganei redondamente".

Este é o início de um post que escrevi para o Papamyzena, um blog de apoio a Paulo Rangel e ao PSD, recentemente criado por sociais-democratas e independentes (é o meu caso), no qual participam ainda a Ana Margarida Craveiro (aqui da casa) e outros bloggers conhecidos, como o João Gonçalves, o Vasco Campilho ou o André Abrantes Amaral, entre outros. Junto-me a este grupo com muito gosto, esperando contribuir para um debate público elevado, esclarecedor e profícuo para a sociedade portuguesa. Visitem-nos!

Dos bairros sociais


josegomesandre,

A tese é conhecida, repetida e aceite como definitiva: os problemas na “Bela Vista” e bairros semelhantes devem-se à “injustiça social”, às questões da “integração” e outros chavões sociológicos. Não nego que esses são temas válidos. Mas é urgente reconhecer que são apenas parte do problema. Muitos destes distúrbios são causados por mera delinquência juvenil – um termo que vai desaparecendo no léxico político e sociológico devido à sua carga negativa. Mas, mesmo que isso seja politicamente incorrecto, urge aceitar que muitas das pessoas que atacam a polícia, incendeiam carros e destroem propriedade alheia não o fazem apenas ou sobretudo porque estão desempregadas, desiludidas com a sua vida ou porque a sua casa tem bolor.

Em vários casos – a maioria, atrevo-me a dizer – essas são as desculpas utilizadas por quem deseja efectivamente envolver-se em actos criminosos, porque é “cool”, porque é emocionante, porque os outros também o fazem, porque é a maneira de se sentirem adultos, porque é aquilo que a sua genética os impele a fazer. E para lidar com isto, temos que ajustar o nosso discurso, chamando as coisas pelos nomes, em vez de nos refugiarmos em neologismos que procuram desculpabilizar o que uma sociedade livre, ordenada e regrada não pode aceitar.

PS-BE: um amor impossível


josegomesandre,

Fala-se na possibilidade de um Governo coligado com PS e o Bloco de Esquerda. Parece-me improvável, por três razões. Primeiro, para o PS seria uma jogada política arriscadíssima, que, caso fosse mal sucedida, alienaria durante pelo menos uma década o decisivo eleitorado do centro. Segundo, porque não vejo no BE quadros políticos de qualidade e diversidade suficiente para ocupar 4 ou 5 ministérios. Louçã ou Fazenda para a Economia/Trabalho, talvez Miguel Portas. Mas quem mais? A não ser que, num acto de loucura, Sócrates aceitasse que figuras absolutamente menores como Ana Drago ou Alda Macedo se tornassem ministras…

 

O maior problema situa-se contudo a um nível programático. A abordagem política do Bloco centra-se em três grandes linhas: isolacionismo na política externa (advogando a saída da UE e da NATO); uma oposição à economia de mercado (com defesa de nacionalizações e expropriações; crítica ao PEC e à manutenção de Portugal na zona euro); um ideal progressista nas matérias sociais (defesa da legalização de drogas, casamento homossexual, entre outros). Admito que se possa encontrar um compromisso nesta última questão, mas parece-me impossível haver um acordo nos dois temas anteriores, sem que o PS atraiçoe o seu eleitorado e a sua matriz ideológica. Por outro lado, se abdicasse destas exigências, o BE violaria os seus princípios fulcrais, virando costas ao cariz revolucionário do seu projecto político.

Em qualquer dos casos, caso se coligassem, PS ou BE seriam obrigados a contrariar aspectos fundamentais da sua visão política, pondo em risco a sua sobrevivência num futuro próximo.

Lembrem-me para não comprar


josegomesandre,

Descubro pelo 5dias que já saiu o mais recente livro de Alain Badiou, L’Hypothese Communiste (Lignes, Abril, 2009). Carlos Vidal transcreve um excerto da contracapa: "O capitalismo, e a sua democracia de superfície, é aquilo que há de mais velho, é aquilo que está condenado, é a renúncia ao pensamento, a renúncia à acção segundo os princípios de um pensamento. Por outro lado, é a hipótese comunista, seja qual for o nome que tiver (emancipação, igualdade…), é esta hipótese que é nova e totalmente legítima". Como dizem os ingleses, keep moving, keep moving, nothing to see here…

“Obama, Roosevelt e as lições do passado”


josegomesandre,

É o título de um artigo que tive a oportunidade de escrever para o "Público", a propósito dos primeiros "cem dias" de Obama. Para os interessados, e para quem não pôde ler (o acesso online é restrito a assinantes), fica aqui a peça (longa, desde já previno).

 

"A referência aos primeiros cem dias de governação como um importante barómetro político nasceu com a Presidência de Franklin Roosevelt, cujo início foi caracterizado justamente por uma crucial e frenética acção governativa, determinante para salvar os Estados Unidos de uma crise sem precedentes. O momento era especialmente grave: o desemprego atingira em 1932 os 24%; a economia conhecera uma contracção de 13,4% e o sistema bancário estava à beira do colapso. Impulsionado por uma vitória retumbante, Roosevelt avançou porém com um vasto programa político capaz de combater aquele cenário negro, fazendo jus ao lema que havia enunciado no seu discurso inaugural: «A única coisa de que devemos ter medo é o próprio medo».  

 

Beneficiando de um claro apoio do Congresso (reunido em sessão especial durante 99 dias, por exigência do Presidente), a Administração Roosevelt conseguiu fazer aprovar e implementar quinze grandes pacotes legislativos em pouco mais de três meses, contrariando a inércia governativa que marcara a anterior Presidência do Republicano Herbert Hoover. Logo no seu primeiro dia na Casa Branca, Roosevelt ordenou que fossem encerrados dezenas de bancos, submetendo-os a rigorosas inspecções e garantindo que só seriam reabertas as instituições fiáveis. Esta medida foi determinante para restabelecer a confiança pública no sistema bancário, sujeito a partir de 1933 a novas regras de supervisão. Do mesmo modo, o mercado bolsista – responsável em grande parte pelo colapso financeiro de então – passou a ser severamente controlado pelas instâncias federais.

 

Os primeiros meses da Administração Roosevelt ficaram ainda marcados por evidentes preocupações sociais, tendo sido criados subsídios de desemprego e programas de auxílio aos sectores mais desfavorecidos. Por outro lado, foram também lançados diversos empreendimentos públicos, com o objectivo de estimular a anémica economia americana e enfrentar o desemprego galopante. Neste âmbito, merecem destaque a criação da Administração de Obras Públicas (cujo orçamento de três mil milhões de dólares foi utilizado na construção de diversas infra-estruturas), os vários incentivos concedidos à indústria, e a formação da Tennessee Valley Authority (uma organização federal que fomentava o desenvolvimento económico no sul do país).

 

Esta inusitada expansão do governo federal consignava uma ruptura com a abordagem tradicional da política americana, mas Roosevelt não hesitou em utilizar a intervenção estatal como forma de combater a Grande Depressão. No seu entender, a gravidade das circunstâncias exigira uma abordagem mais agressiva do poder executivo, atitude que mereceu grande apreço entre a opinião pública, galvanizada pela determinação de Roosevelt.

 

São visíveis as semelhanças entre este período singular da história americana e a nossa época. Tal como em 1933, vivemos hoje uma acentuada crise económica e financeira, com graves repercussões sociais. E tal como em 1933, a Casa Branca é habitada por um Presidente resoluto, que nos primeiros meses do seu mandato apresentou uma vastíssima agenda governativa – a qual em grande medida mimetiza o espírito e a própria substância do programa defendido por Roosevelt. Como no passado, a Administração Obama começou por sanear um sistema bancário gravemente enfermo (nomeadamente através da aquisição de activos tóxicos e da revitalização dos mecanismos de crédito). Submeteu Wall Street a uma reforçada supervisão estatal, fazendo aprovar novas regras de conduta no mercado bolsista e limitando ainda a atribuição de prémios nas administrações auxiliadas por fundos públicos. Lançou o maior pacote de estímulo económico da história americana (num total de 789 mil milhões de dólares), que engloba apoios federais à indústria automóvel e outras áreas vitais. E promoveu várias medidas de auxílio social para os desempregados e para o crescente grupo de famílias endividadas, às quais foi permitido que renegociassem os seus empréstimos junto dos bancos. 

 

Por outro lado, este programa de componente essencialmente económica tem sido acompanhado de um multifacetado ímpeto legislativo, com incentivos às energias renováveis, medidas contra a discriminação laboral, novos limites para a intervenção dos lóbistas na Casa Branca, e ainda acções de forte simbolismo, como a condenação da tortura e o fim das detenções em Guantánamo. Também no campo da política externa a Administração Obama tem revelado uma assinalável dinâmica, com o reforço do contingente militar americano no Afeganistão, um plano de retirada a médio-prazo das tropas de combate no Iraque, e uma nova abordagem nas relações diplomáticas com Cuba, Rússia e Irão, entre outros países problemáticos.

 

À semelhança de Roosevelt, Obama beneficiou até aqui de um significativo apoio da opinião pública (a sua taxa de aprovação após os primeiros “cem dias” situa-se nos 63%), e tal como o mítico Presidente, tem sido elogiado pela sua determinação e pela mensagem de esperança que procura inculcar numa sociedade em crise. Resta contudo saber se as suas políticas terão efeitos tão duradouros e benéficos como as defendidas por Roosevelt há 76 anos atrás. Nesse sentido, o derradeiro teste para Obama ainda está por vir.".

Já começou a chantagem (2)


josegomesandre,

Tal como previra, esta série vai ter pernas para andar. Veja-se este curioso texto de Carlos Manuel Castro, no Eleições 2009: "[…] caso o PS ganhe as próximas eleições legislativas com minoria, tal representaria uma forte ameaça à estabilidade nacional. Com uma direita sem rumo nem causas, apenas preocupada em sobreviver, e com uma esquerda totalmente irresponsável e desprendida do bem-estar dos portugueses, como ficará o País sem a estabilidade política destes anos? Condenado a um período de quase ingovernabilidade."

Manuel Pinho chamado à recepção…


josegomesandre,

…para nos tranquilizar em relação à presente crise. Ninguém espera que as coisas melhorem no curto prazo, mas os números que se vão conhecendo apontam para um cenário muito mais catastrófico do que o reconhecido pelo Governo. Olhe-se para o caso do desemprego: "O desemprego registado nos centros de emprego atingiu em Março de 2009 484.131 pessoas, o que representa uma subida de 23,8 por cento face ao período de homólogo de 2008. Esta variação mantém a tendência de subida verificada desde Junho de 2008. Em termos mensais, face a Fevereiro, o desemprego registado subiu 3,2 por cento."

Cinco questões sobre a entrevista


josegomesandre,

1. Quando deixará Sócrates de insultar os entrevistadores, enxovalhar os críticos (“indivíduos que me injuriaram”) e usar de uma altivez insuportável na exposição dos seus argumentos?

2. Quando é que Sócrates apresenta um verdadeiro plano de combate à crise que vá além da distribuição de uns escassos subsídios anunciados a conta-gotas?

3. Será que Sócrates compreende que o “caso Freeport”, na sua vertente “política”, não gira à volta do licenciamento daquela coisa abstrusa, mas sim em torno de um processo no qual o seu nome persiste em surgir associado a actos de corrupção e abuso de poder?

4. Alguma vez ouviram um primeiro-ministro enunciar publicamente uma lista de jornalistas “maus/inimigos” (TVI) e “bons/amigos” (João Marcelino)? Alguém acha este comportamento reprovável – para não dizer vergonhoso?

5. Depois de insistir na ideia de que “carrega às costas uma cruz”, será que o primeiro-ministro ficará conhecido na história como “Sócrates, o Cristo tuga”?

Os malandros dos ricos


josegomesandre,

Ninguém duvida que muita gente alcançou fortuna mediante esquemas ilegais ou trapaças económicas. Mas este discurso contra os "ricos" começa a meter nojo. Qualquer pessoa que tenha casa com piscina é um ladrão, os gestores são todos uns trapaceiros e os banqueiros então – ui – são da pior rês. Enerva-me esta generalização, esta zombaria da moda que ataca a dignidade e coragem de muitas pessoas que subiram na vida à custa do seu esforço, da sua criatividade ou do seu engenho.

Estou perplexo


josegomesandre,

"O inspector do SEF José Van der Kellen alertou hoje que novos fluxos migratórios oriundos do Norte de África e da Europa do Leste, atraídos por novas obras públicas, poderão trazer para Portugal «pessoas que possam professar uma ideia radical do islão». […] Van der Kellen salientou que «há uma forte possibilidade de as obras públicas» como o TGV e o novo Aeroporto em Alcochete «trazerem novos fluxos migratórios como aconteceu no passado». Segundo José Van Der Kellen, estes novos imigrantes são principalmente oriundos do Norte de África e Europa do Leste".

Isto é a sério? Ou é mais uma daquelas declarações tecidas depois de um almoço bem regado? Se é a sério, tenho uma dúvidazinha: por que é que a construção do TGV e do novo aeroporto podem trazer islâmicos fanáticos para Portugal e todas as restantes obras públicas (hospitais, estradas, escolas, etc.) não merecem a nossa preocupação? Ou será que as "pessoas que professam uma ideia radical do islão" já andam por aí e nós não sabemos? E nem vou comentar as observações sobre os "fluxos migratórios" e a "Europa de Leste", todas elas de elevado calibre.

Do sigilo bancário


josegomesandre,

Creio que (quase) toda a gente concorda que o fim do sigilo bancário é decisivo para efectuar um adequado combate à fraude fiscal e ao enriquecimento ilícito. Todavia, olho com preocupação para as recentes propostas (e parece que o PS vai concordar, finalmente). Quem é que vai afinal coordenar a análise das contas bancárias de todos nós? A nossa incompetente polícia? Os nossos inábeis procuradores? Ou os nossos ridículos políticos? Em qualquer dos casos, não me parece que possamos ficar descansados. Nem um pouco.

Da praxe


josegomesandre,

Leio algures que as queixas contra praxes aumentaram significativamente nos últimos anos. É um bom sinal. Já eram horas de alguém se revoltar contra este disparate pegado. Pena que na maior parte dos casos o anonimato dos agressores e a conivência das autoridades universitárias impeçam decisões judiciais inequívocas. Sobre a praxe propriamente dita, recupero um texto que escrevi há mais de dois anos. Infelizmente, não encontrei nenhum motivo para alterar uma linha que fosse.

Diz-se que a tradição da praxe serve para "integrar" e "facilitar o entrosamento" e que apenas é reprovável se executada com violência e sem moderadação. Nada mais errado. O equívoco reside nesta dicotomia, que define os contornos de uma praxe “boa” e de uma praxe “má”. A primeira procuraria familiarizar os indivíduos com a instituição a que agora pertence; a segunda utilizaria meios violentos para o atingir.

Trata-se de uma mistificação. A essência da praxe não é a “integração”, mas sim a humilhação. A praxe não existe para introduzir um indivíduo num contexto social harmónico ao qual ele aspira pertencer, mas sim para clarificar desde logo a relação de forças que existe nesse mesmo contexto, ou seja, para tornar evidente que o noviço se encontra na base da estrutura hierárquica da instituição, devendo submeter-se às condições impostas pelo topo da pirâmide. Evitando uma longa e penosa explicação teórica destas circunstâncias, a praxe manifesta, num instante físico conciso e intenso, os contornos exactos dessas regras, instaurando uma relação imediata entre o senhor e o servo, o dominador e o submisso.

Não se trata pois de um ritual iniciático, cujo móbil é o desejo de inscrever e assimilar. A praxe é uma cerimónia puramente exclusiva, que define os espaços interditos ao aspirante, confinando-o às rígidas fronteiras da hierarquia imutável da instituição. Na verdade, só o tempo permitirá a ascensão na pirâmide, embora apenas com o intuito de cristalizar a ordem pré-definida. Em rigor, a praxe é o mais acabado e cínico exercício de mumificação que as sociedades modernas engendraram.

Uma sociedade civilizada devia erradicar este fenómeno puro de exclusão, esta coacção psicológica necessariamente violenta, esta forma de opressão perpétua. Num mundo esclarecido, não há lugar para a praxe.

Breve nota sobre o “caso Câncio”


josegomesandre,

É claro que Fernanda Câncio tem alguma razão. A peça do Expresso era do mais preconceituoso possível. São igualmente lamentáveis as referências sistemáticas à "namorada de X", uma forma de negação da individualidade que me incomoda especialmente. Por outro lado, Fernanda Câncio revelou falta de bom-senso. Ninguém lhe pedia um silêncio forçado, mas a partir do momento em que se desmultiplicou em declarações violentas contra tudo o que parecesse a mais leve crítica a Sócrates – gesto que além do mais repetiu à saciedade em blogues, jornais, televisões e sabe Deus que mais – Fernanda Câncio envolveu-se num jogo perigoso, que não pode deixar de confundir os observadores. Eu não ponho em causa a sua seriedade e independência. Mas, como a vida nos ensina tantas vezes, as emoções traem-nos mesmo quando nos julgamos extraordinariamente objectivos. E neste caso concreto, é difícil fazer a separação mental entre a "jornalista isenta" e o ser humano envolvido numa relação emocional com uma personalidade singular.

Igual a todos nós (2)


josegomesandre,

 


O salmo 22 ("Mein Gott, mein Gott, warum hast du mich verlassen?" – "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?"), na magnífica composição de Mendelssohn. Um dos mais belos coros a capela que conheço, e que me parece ser um bom complemento ao excelente texto do Pedro Correia. Uma Boa Páscoa a todos.