Quando se pensa que os debates no Parlamento já não podem descer mais, Manuel Pinho presenteia-nos com um gesto inenarrável, grotesco, fazendo uns "corninhos" com os dedos, na direcção de um deputado.
Quando se pensa que os debates no Parlamento já não podem descer mais, Manuel Pinho presenteia-nos com um gesto inenarrável, grotesco, fazendo uns "corninhos" com os dedos, na direcção de um deputado.
Por estes dias tenho lido Dietrich Schwanitz e o seu aclamado "Cultura". É um livro curioso, uma espécie de mini-enciclopédia, onde o autor resume os grandes acontecimentos históricos, os grandes livros, as grandes obras de arte, enfim, os principais elementos da nossa herança cultural. O texto é escorreito, rico e recorre à ironia q.b.
O meu problema com este tipo de obras "genéricas" é que o autor, por mais culto e preparado que seja, nunca consegue ser um especialista em todas as áreas do saber, o que conduz a lamentáveis equívocos – que de certa forma minam o propósito da obra (oferecer-nos um resumo informado de vários temas tratados de forma complexa noutros livros mais "específicos").
Dou um exemplo numa área que conheço bem: a Revolução Americana. Escreve Schwanitz: "Após a conclusão da Paz com a Inglaterra, em 1783, reuniu em Filadélfia a Assembleia Constituinte (1787). A figura dominante era o antigo ajudante de Washington, Alexander Hamilton, que encabeçava os chamados federalistas que se propunham fortalecer o governo central da União. O seu adversário era Thomas Jefferson, […] cuja tónica incidia na independência dos vários Estados federados." (p. 162).
Temos aqui dois problemas graves: Hamilton era de facto uma das figuras principais dos federalistas, mas a sua prestação na Convenção de Filadélfia resumiu-se a um único discurso em quase 4 meses, não tendo elaborado uma só moção ou proposta concreta, pelo que o seu contributo para a criação da Constituição foi quase nulo. Por outro lado, Jefferson é identificado como uma figura preponderante neste evento, mas Jefferson era embaixador em Paris, não tendo estado presente na dita Convenção, nem se envolvido na discussão e aprovação da mesma (Jefferson só regressaria aos EUA no final de 1789).
Dir-me-ão que isto é pouco relevante e que são erros inevitáveis. Talvez. Mas fica sempre a pergunta: se neste tema, que por acaso domino, o autor cometeu estes erros, o que me garante que não o tenha feito noutros assuntos que não domino, e onde tomo a informação por boa? Em suma, parecem-me louváveis estes esforços de "síntese cultural", mas de modo algum substituem o trabalho do especialista e da "análise minuciosa" que as diversas áreas do saber exigem.
A confirmar-se esta notícia, o Primeiro-Ministro mentiu descaradamente na Assembleia da República. Não sou de me exaltar com facilidade, mas tal ocorrência parece-me ser de uma extrema gravidade.
A reacção ao "manifesto dos 28" colocou em evidência aquele que considero ser um dos problemas principais deste país: a desconfiança relativamente ao valor do debate público. Passamos o tempo a criticar a sociedade civil, que designamos de amorfa, e a solicitar mais discussão, mas quando figuras independentes dessa mesma sociedade (universitários, engenheiros, até mesmo cidadãos "anónimos"), se prestam a avançar com determinadas propostas ou pontos de vista, logo se critica tal "arrogância", tal desfaçatez.
Nem preciso dar exemplos: uma viagem pela blogosfera ou pelos jornais (abro uma excepção para mencionar o inacreditável artigo de Vital Moreira no "Público") é bem demonstrativa do que afirmo: o dito "manifesto" mereceu diatribes contra os seus signatários (quantas delas de teor "pessoal"…), suspeitas relativamente às intenções dos seus subscritores e até comentários infantis sobre o estatuto profissional dos envolvidos, mas poucos – muito poucos – comentários sobre os argumentos propriamente ditos.
Infelizmente, continuamos a preferir debater pessoas em vez de debater ideias, a analisar "currículos" e intenções, em vez de reflectir sobre propostas e valores.
Deve ser culpa minha, mas não sei se percebi este texto do Eduardo Pitta. Afirma o Eduardo que, "se fosse votante PSD (não sou), começava a tomar doses cavalares de sertralina", isto porque, caso o PSD ganhe as eleições, teria uma série de problemas a bater-lhe à porta ("os bonés dos polícias", os sindicatos, os professores, as dificuldades em lidar com o desemprego, o BPN, etc.). O que não percebo é o seguinte: o Eduardo, como eleitor, fica menos preocupado com a possibilidade de estes mesmíssimos problemas serem enfrentados pelo Governo que os não conseguiu resolver até aqui?
Para complementar o post da Leonor, esta grande interpretação de "Cálice", por Chico Buarque e Milton Nascimento. Um belo e inteligente jogo de palavras entre o termo "cálice" (na sua referência bíblica) e o português "cale-se", numa óbvia referência à censura praticada pela ditadura brasileira. Um tema de todos os tempos.
Agora que o Bloco de Esquerda se vê a si mesmo como um partido sério, valeria a pena conhecer verdadeiramente o seu programa político. Estou a falar de posições concretas, e não das vacuidades que habitam o seu site e o habitual lema "partido contra-poder". Embora Louçã tenha apresentado algumas ideias concretas numa recente entrevista (onde apela a nacionalizações em catadupa e à saída de Portugal da NATO), julgo que são necessários esclarecimentos adicionais. Ficam aqui as minhas principais perguntas.
O Bloco de Esquerda…
… defende a saída de Portugal da União Europeia?
… acredita na propriedade privada? Se sim, em que circunstâncias?
… defende a nacionalização de sectores estratégicos? Se sim, quais exactamente? Estas nacionalizações devem incluir empresas privadas predominantes, como a SONAE, por exemplo?
… defende a subida de impostos? Caso não defenda, como propõe financiar o vasto programa de apoios sociais por si advogado?
… defende a ruptura com aliados tradicionais, como a Inglaterra e os EUA? E deseja estabelecer novas alianças com parceiros estratégicos próximos da sua matriz ideológica, como a Coreia do Norte e Cuba?
… defende a supressão das Forças Armadas? Tendo em conta que pretende igualmente a saída da NATO, como propõe o Bloco que o país se defenda em caso de uma invasão militar?
[texto alterado].
É um dos meus blogs preferidos, e por estes dias mais ainda. Quase de uma assentada: uma interessante reflexão sobre o futuro do Partido Republicano, nos EUA, do Nuno Gouveia; uma pertinente observação do Alexandre Homem Cristo sobre a moda dos "Observatórios" (ainda por cima, com o facto maravilhoso de ver os Federalist Papers e James Madison serem citados num blogue português); e um outro texto do mesmo Alexandre sobre a eleição no Irão, relativizando os protestos contra Ahmadinejad e sublinhando antes a importância de alterações no regime político, embora sabendo que as mesmas serão necessariamente lentas (tese que subscrevo em absoluto).
Embora chocado com os decepcionantes resultados de dia 7, o PS parece decidido a continuar um discurso de chantagem política. Dificilmente se ouvirá falar em maioria absoluta, mas o lema "ou nós ou o caos" está para durar. Pelo menos a julgar por este apontamento do incansável Carlos Manuel Castro, com o título "O que está em causa nas próximas legislativas": "Como em eleições anteriores, a próxima não escapará a esta escolha, quem querem os portugueses para Primeiro-Ministro? E a escolha é entre José Sócrates ou Manuela Ferreira Leite".
Escusado será dizer que está em causa muito mais que isso… Não sou de fazer grandes previsões, mas suspeito que se os socialistas continuarem a tomar os eleitores por parvos, terão mais uma desilusão eleitoral muito em breve.
Aqui há dias, o Jorge Assunção falava das práticas caridosas do nosso Estado, disposto a esbanjar dois milhões de euros num generoso subsídio para manter Tiago Monteiro na Fórmula Um. Pois bem, para acreditarmos que Portugal ainda não é uma República das Bananas (às vezes parece), o Tribunal de Contas considerou ilegal a atribuição desta verba (canalizada pela Secretaria de Estado da Juventude e do Desporto) para manter o piloto português na F1. Pelo meio, ficamos também a saber que a Secretaria de Estado do Desporto atribuiu a Tiago Monteiro um milhão de euros para promover uma tal "Marca Portugal", numa competição onde o referido piloto nem chegou a participar. Um verdadeiro regabofe…
Algumas breves notas, aqui das Primeiras Jornadas de Jovens Investigadores de Filosofia.
1. Falei às dez da manhã, num auditório escuro como breu. Ninguém adormeceu e ainda tive direito a três perguntas. Posso considerar o feito positivo.
2. Estou preocupado com a minha geração de investigadores. Muitos marxistas, neomarxistas, trotskistas, "revolucionários". Muita gente a falar de "capital", "Estado", "classes", "massas", "igualdade". Quase ninguém mencionou a expressão "liberdades individuais". Notei igualmente a ausência de termos como "cidadania", "direitos pessoais", "empreendedorismo".
3. A colheita de autores estudados também me parece preocupante. Americanos, pouquíssimos. Ingleses, nem vê-los. Anda tudo entusiasmado com uns franceses de segunda linha e uns fenómenos "pós-modernos" tipo Zizek e Badiou. O horror, meus caros, o horror.
4. Àparte dos encontros filosóficos, tenho a oportunidade de revisitar Évora, cidade belíssima, com grande apreço pelo seu património cultural. A Praça do Giraldo é das mais belas do país.
5. A melhor coisa desta viagem, até ao momento? Migas à alentejana. Definitivamente, uma prova da existência de Deus.
Nos próximos dias (quinta, sexta e sábado) têm lugar na Universidade de Évora as Jornadas Internacionais de Jovens Investigadores, dedicadas à filosofia política contemporânea (programa aqui). Terei o prazer de apresentar uma comunicação sobre as virtudes do federalismo (entendido como dinâmica de integração de realidades multipolares), a partir de Kant, James Madison e Daniel Elazar. Para os interessados, um resumo aqui. A entrada para o colóquio é livre. Quem sabe não nos encontramos por lá…
Decorre na blogosfera um debate sobre o chamado “dia de reflexão”, com interessantes contributos do Nuno Gouveia, Rodrigo Saraiva e Vítor Dias. Eu sou contra a existência deste mecanismo. A meu ver, o “dia de reflexão” apenas faria sentido numa sociedade desinformada, com media poucos desenvolvidos, alheia à coisa pública e mais ou menos afastada dos centros de decisão política.
[adaptado de um texto que escrevi aqui a um outro propósito].
Os socialistas dizem-se muito preocupados com a crise, mas a campanha para as Europeias vai decorrendo em ambiente de verdadeiro regabofe. Exagero? Veja-se este excerto sobre o encontro de Elisa Ferreira (que aparentemente está proibida de falar com os jornalistas…), Vital Moreira e Ana Gomes, segundo uma notícia do "Público":
"Elisa Ferreira e Vital Moreira encontraram-se hoje a meio da manhã, na marginal, na Praça Gonçalves Zarco […]. De imediato e com um ar divertido, a também eurodeputada Ana Gomes, que encabeça a lista do PS à Câmara de Sintra, disse: «Deixem-me cumprimentar a outra candidata fantasma», numa crítica indirecta ao PSD pelo facto de Elisa ser simultaneamente candidata a eurodeputada e à Câmara do Porto. Vital entrou na graça e reforçou: «São duas candidatas fantasmas de carne e osso que existem» e Ana Gomes respondeu prontamente «fazem assombrações, somos especializadas em assombrar»".
A forma como encaramos a velhice tornou-se num dos maiores paradoxos do nosso tempo: procuramos prolongar a vida humana, de modo quase obsessivo, mas, simultaneamente, criámos um modelo social e cultural que menospreza a velhice. Na sociedade contemporânea, o homem orgulha-se da sua longevidade, mas envergonha-se da sua velhice.
Pergunto-me se seria hoje possível uma obra como a de Cícero, De Senectute, onde se elogia os privilégios da velhice, mas se reconhece porém de forma tranquila que se vive então o ocaso da vida. Onde se assume um genuíno reconhecimento da nossa finitude – afinal, a única atitude que, partindo da aceitação humilde do que não somos, afirma plenamente a singularidade do que somos, do que fomos e do que não podemos nem devemos ser.
Disto falava também um envelhecido James Madison em 1831 (e não é por acaso que os revolucionários americanos idolatravam os clássicos), orgulhoso da sua longevidade, mas perfeitamente ciente de que o seu tempo chegara ao fim. Revendo os seus 80 anos de idade, Madison – o último dos Pais Fundadores, a derradeira testemunha da Revolução Americana – escrevia ao amigo Jared Sparks: “Depois da morte do coronel Few sou agora o único signatário da Constituição ainda vivo. Sou também o último sobrevivente do Congresso Revolucionário que operou durante a Guerra da Independência; e sou ainda o único sobrevivente dos membros que em 1776 criaram a Constituição da Virgínia. Tendo vivido mais tempo do que tantos dos meus contemporâneos, não devo esquecer que provavelmente vivi também mais tempo do que aquele que me estava destinado."
Antológico o artigo de Vital Moreira no "Público" de ontem: um magnífico exemplo de propaganda socialista, onde se apresentam puras ficções como factos consumados, se utilizam conceitos arbitrários para desvalorizar os adversários e se procura convencer o eleitorado de conquistas que a realidade insiste em negar.
Vejam-se três casos concretos. Na enumeração dos êxitos deste Governo, Vital Moreira fala da "reabilitação da escola pública", uma referência que só podemos entender como um verdadeiro momento de humor. Qual reabilitação? Uma escola onde os valores da aprendizagem e do esforço são desconsiderados, onde os professores são vilipendiados e desautorizados? Uma escola onde os resultados são falseados e artificialmente inflaccionados? Ou uma escola que trata os seus docentes como débeis mentais?
Vital Moreira elogia ainda a forma como o PS terá promovido os direitos dos homossexuais, esquecendo-se de que foi o grupo parlamentar socialista o principal opositor à discussão desses mesmos direitos – isto enquanto Sócrates promovia uma agenda contrária no CCB. Noutros tempos, tal episódio seria descrito como uma "trapalhada", mas hoje passa como exemplo de pluralidade.
Por fim, Vital Moreira, num delírio linguístico que o aproxima aliás de Ilda Figueiredo e do BE, regressa à ladaínha do discurso contra o "neoliberalismo", que a seu ver é a matriz do PSD. Não apenas continuo a tentar descobrir o que é essa coisa do "neoliberalismo", que todos odeiam mas ninguém descreve convenientemente, como o programa político do PSD não tem quaisquer referências a essa alegada corrente.
Numa coisa Vital Moreira tem razão: "Portugal precisa de alternativas políticas claras e consistentes e responsabilidade política". Necessidades que por sua vez não dispensam um discurso verdadeiro e sincero sobre as condições reais em que nos encontramos – algo a que Sócrates e os seus lacaios são definitivamente pouco dados.
[também publicado no Papa Myzena].
…ao que a Ana Vidal escreveu anteriormente, podem conferir este peculiar exemplo. Uma trampa autêntica, se querem a minha opinião.
Fica por explicar a conduta de Alegre nos últimos meses, repleta de ameaças, retiradas estratégicas, volte-faces, novas ameaças e sistemáticos recuos. Embora, ao mesmo tempo, tudo pareça demasiado claro… Resta saber se o motivo real deste perturbante tacticismo (derrotar Cavaco em 2011) não lhe vai sair completamente furado.

O “realismo mágico” tornou-se conhecido pelas obras literárias de Garcia Márquez e Julio Cortázar, nas décadas de 40 e 50. Contudo, vários anos antes já Réné Magritte praticava esse estilo na sua magnífica pintura (e escultura), misto de surrealismo e poesia visual. Recorrendo a temas clássicos da pintura, Magritte apresenta nos seus quadros uma notável simbiose entre um realismo quase provocador (se pensarmos que estamos na primeira metade do séc. XX, profundamente anti-realista) e uma dimensão onírica que definitivamente transporta a sua pintura para um território incógnito.
Os seus quadros vivem desse truque que permanentemente desafia o olhar: seja pela presença de um elemento “intruso”, ou pela existência de uma situação impossível, a obra de Magritte é em si mesmo um repto a transcender a esfera do conhecido, rumo a qualquer coisa que se situa repetidamente no limite. Um belo exemplo deste apelo à crença, à fé no impossível? Este “O Império das Luzes” (1954), quadro que Magritte pintou em vinte e sete versões, e que concilia afinal a dicotomia que há séculos a ciência definiu como estanque: a separação tradicional entre o dia e a noite é descartada pelo pintor belga, que contudo opera essa ruptura como uma suave transição. Quase que acreditamos ser de facto possível este quadro, onde nuvens brancas habitam um céu azul, ainda que a noite tenha já caído sobre nós.
Vi este quadro num dos mais belos museus do mundo (o Peggy Guggenheim), por sua vez localizado numa das mais belas cidades do mundo (fica numa das margens do Grande Canal, em Veneza). E comprei a réplica de uma outra versão no Museu de Serralves, no Porto. Esteve durante cinco anos por cima da minha cama, abençoando os meus sonhos (assim esperava). Habita agora a minha sala, iluminando – e escurecendo – os meus dias.