Os quadros das nossas vidas (4)


josegomesandre,

O “realismo mágico” tornou-se conhecido pelas obras literárias de Garcia Márquez e Julio Cortázar, nas décadas de 40 e 50. Contudo, vários anos antes já Réné Magritte praticava esse estilo na sua magnífica pintura (e escultura), misto de surrealismo e poesia visual. Recorrendo a temas clássicos da pintura, Magritte apresenta nos seus quadros uma notável simbiose entre um realismo quase provocador (se pensarmos que estamos na primeira metade do séc. XX, profundamente anti-realista) e uma dimensão onírica que definitivamente transporta a sua pintura para um território incógnito.

 

Os seus quadros vivem desse truque que permanentemente desafia o olhar: seja pela presença de um elemento “intruso”, ou pela existência de uma situação impossível, a obra de Magritte é em si mesmo um repto a transcender a esfera do conhecido, rumo a qualquer coisa que se situa repetidamente no limite. Um belo exemplo deste apelo à crença, à fé no impossível? Este “O Império das Luzes” (1954), quadro que Magritte pintou em vinte e sete versões, e que concilia afinal a dicotomia que há séculos a ciência definiu como estanque: a separação tradicional entre o dia e a noite é descartada pelo pintor belga, que contudo opera essa ruptura como uma suave transição. Quase que acreditamos ser de facto possível este quadro, onde nuvens brancas habitam um céu azul, ainda que a noite tenha já caído sobre nós.

 

Vi este quadro num dos mais belos museus do mundo (o Peggy Guggenheim), por sua vez localizado numa das mais belas cidades do mundo (fica numa das margens do Grande Canal, em Veneza). E comprei a réplica de uma outra versão no Museu de Serralves, no Porto. Esteve durante cinco anos por cima da minha cama, abençoando os meus sonhos (assim esperava). Habita agora a minha sala, iluminando – e escurecendo – os meus dias.

11 comentários em “Os quadros das nossas vidas (4)”

  1. Os quadros de Magritte são um desafio permanente e uma das minhas grandes paixões na pintura. E que bem defendido está Magritte neste belo texto! Gostei muito.

  2. Excelente texto sobre este belíssimo quadro de Magritte, José. Também vi este quadro no Guggenheim de Veneza e fiquei absolutamente deslumbrado. Trouxe uma reprodução, para a minha colecção pessoal, e por vezes ‘visito-a’. Com o deslumbramento de sempre.

  3. Engraçado… Tal como o “Love Embrace” da F. Kahlo que a Ana Vidal publicou, também este “O Império das Luzes “de Magritte está desde a primeira hora na coluna da direita no bnb. Mas que belíssima escolha. E que texto. Muitos parabéns!

    [Há 3 ou 4 dias aconteceu-me “ver” este quadro de uma das janelas de casa, que dá para um lugar com árvores e para poente… Uma combinação de luz e sombras estranhas. Não sei. Na altura lembrei-me deste quadro intrigante, paradoxal, e muito bonito].

  4. Com Magritte passa-se um um efeito de “esgotamento”. Tornou-se um gosto tão batido e recorrente, que quase perdeu frescura. Digo eu…
    Os trabalhos são uma charada propositada, mas o mais engraçado é que ele dizia que não tinham um propósito interpretativo concreto. Desconcertante 🙂
    Para mim, as telas imbatíveis são a (tb estafada) “Clarividência”, “A voz do Sangue”, “Os Amantes I”, “Saudades de casa” e “O julgamento”.

    1. É verdade, Chloé, isso acontece mesmo. Mas não diminui a qualidade da obra. Afinal, não é por toda a gente citar Pessoa, a torto e a direito, que ele deixa de ser um génio e que os poemas deixam de ser excepcionais. Mas entendo o que quer dizer com “esgotamento”.

      1. Não, claro que não que não diminui a qualidade intrínseca.
        Mas tenho uma má relação com os hits ” de moda, aplicáveis a tudo.
        Fernando Pessoa é um bom exemplo. Há muito que me irrita a mitificação e a massificação (sem querer fazer a apologia da reserva elitista, nada disso).
        Passa-se com tudo e com as coisas mais chãs:
        – a banalização dos nomes de que gosto (ou gostava…)
        – as citações de moda
        – os sítios que de repente ficam in ” (foi uma chatice quando o Rui Veloso se lembrou de cantar Porto Côvo. .)
        – um perfume predilecto que de repente começo a “sentir” em toda a gente.
        Insignificâncias e instintos, só isso :-):-)

        1. E na música, então…
          Sofro do mesmo mal: a exaustão de algumas coisas de que gosto, que acaba por provocar a reacção oposta. E não acho que seja elitismo… elitismo é o contrário, procurar – propositadamente! – ter gostos pouco comuns, só para cultivar uma distinção das “massas”. 🙂

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