
ELE VIU E TODOS NÓS VEMOS TAMBÉM
Faz hoje 201 anos, uma colina madrilena enchia-se do sangue de espanhóis que ousaram erguer-se contra o terror napoleónico. A resposta da tropa ocupante contra os protestos de rua foi brutal: duas centenas de insurgentes foram fuzilados nessa noite.
Na véspera, haviam partido os últimos membros da família real, expulsos pelo exército invasor: Napoleão enviara cem mil soldados para ocupar Espanha, pondo no trono o seu irmão José Bonaparte. O imperador francês aproveitara as divergências ocorridas na corte madrilena que haviam conduzido à abdicação de Carlos IV, a 23 de Março, e à subida ao trono do seu primogénito, Fernando VII, uma figura muito contestada (alguns historiadores consideram-no mesmo o pior soberano espanhol de todos os tempos). Repetia-se assim o ocorrido meses antes em Portugal. Com uma diferença digna de registo: a família real espanhola, ao contrário da portuguesa, não teve tempo de transferir o trono para as colónias americanas, que chegaram a ser encaradas como lugar de exílio.
Tal como tinham feito em território português, os franceses destacaram-se desde o início pelas atrocidades que iam espalhando à medida que avançavam no terreno. O orgulho espanhol ressentiu-se de imediato: estalou a revolta em Madrid, logo estrangulada à força de baionetas. Muitos dos envolvidos nesse levantamento foram executados, à laia de exemplo, para evitar novas insurreições. Em vão: nunca os espanhóis deixaram de se rebelar contra os franceses, que acabaram derrotados em 1813.
De esboço a quadro

Um pintor sexagenário, que vivia atormentado pela surdez mas mantinha o olhar arguto da juventude, testemunhou os acontecimentos da noite de 3 de Maio. Com o instinto inato dos grandes artistas, teve a percepção imediata de que as gerações posteriores deveriam poder testemunhar igualmente a repressão ali abatida sobre o seu povo. Fez um esboço rápido da macabra cena das execuções e guardou-o. Seis anos depois, em 1814, o esboço transformou-se em quadro – um dos mais impressionantes quadros de que há memória. O 3 de Maio de 1808 em Madrid: os fuzilamentos no Monte do Príncipe Pio.
Com esta tela hoje exposta no Museu do Prado, Francisco Goya y Lucientes (1746-1828) virava uma página decisiva na história da pintura, inaugurando uma etapa em que a arte se tornava grito de protesto, pondo os vencidos no lugar habitualmente reservado aos vencedores. Gerava-se um “fenómeno de socialização dos sentidos”, como acentua o crítico de arte Manuel Tuñón de Lara. Antes dele, pontificavam as figuras mitológicas recuperadas do imaginário greco-romano ou os santos eleitos através dos séculos pela devoção católica. Depois dele, a grande personagem da pintura tornou-se o Homem. Assim mesmo, com agá maiúsculo.
É precisamente um homem que surge no centro deste quadro. De braços abertos, palmas das mãos expostas, peito entregue às balas que daí a instantes vão trespassá-lo. Não desvia o olhar: encara num último desafio o renque de fuzis que tem à sua frente. Há um feixe de luz a inundá-lo: é o único foco de claridade numa tela onde predominam os tons escuros, acentuando a dicotomia entre o peso da opressão e o impulso dos combatentes pela liberdade. Quem morre, recebe a bênção da luz; quem mata, permanece envolto num manto de trevas.
A luz e as trevas
Olhemos o quadro com um pouco mais de atenção: desconhecemos o nome da figura central. Mas a iconografia aqui representada é-nos familiar. Os braços abertos em forma de cruz e as chagas nas mãos funcionam como metáfora de Cristo mártir. Repare-se na fileira de soldados: nenhum deles tem rosto. Cumprem ordens superiores, de dedo no gatilho, tornando-se implacáveis máquinas de trucidar. Para reforçar a dicotomia, o homem que vai ser morto em primeiro lugar veste uma camisa branca.
No plano geométrico, outro contraste. Entre a verticalidade dos madrilenos e a horizontalidade das armas dos soldados que obedecem aos despóticos irmãos Bonaparte.
O homem no centro de todos os olhares, o quadro como expressão do seu tempo, o artista como assumido intérprete da consciência colectiva: este 3 de Maio de 1808 é uma das maiores peças de propaganda de que há memória. Contra o militarismo, contra a violência gratuita, contra o horror da guerra com o seu cortejo de mortos. Goya quer que nos tornemos testemunhas dos actos macabros que presenciou e transpôs para o seu esboço, hoje depositado no Museu da Sociedade Hispânica de Nova Iorque. Como sublinhou Pablo Serrano, com ele “a arte converte-se em grito de protesto, numa atitude ética e moral de inegável valor humano”.
O mais verdadeiro
Poucos quadros terão sido tão inspiradores. Do francês Monet ao compatriota Picasso, diversos mestres da pintura prestaram tributo a Goya com telas claramente inspiradas nesta obra seminal (a própria Guernica segue uma linhagem inaugurada aqui). E até pintores contemporâneos, como o chinês Yue Minjun, continuam a fazer variações a este quadro feito por aquele a quem a Irmã Wendy Beckett – célebre pelo seu programa televisivo em que divulgou a arte de todos os tempos junto do grande público – chamou “o mais verdadeiro dos artistas”.
Goya, de facto o mais verdadeiro de todos os artistas, era capaz de pintar um rei com a face banal de um homem comum. Outro dos seus grandes quadros, A Corte de Carlos IV, é disso um excelente exemplo. Com ele o pintor deixou de ser um ilustrador servil do perfil dos poderosos, deslumbrado com os lustres palacianos. Torna-se um crítico social, torna-se um homem do seu tempo.

Nesse quadro de 1799 detectava-se outra inovação: todos os membros da família real espanhola, com as suas feições rudes, parecem ter uma expressão submissa em relação a quem os pinta. E quem ocupa aqui a posição central é a rainha Maria Luísa, não o monarca – indivíduo inseguro e timorato, ao que rezam as crónicas.
O olhar implacável de Goya era assim: não se limitava a retratar a realidade – antecipava tendências. No fundo, A Corte de Carlos IV é já uma despedida da monarquia absoluta: vinha aí a Europa liberal.
“Eu vi” era o lema de Francisco Goya. Através dos olhos dele, todos passámos a poder ver também. Quem quer que contemple O 3 de Maio de 1808 em Madrid, sob os mais diversos ângulos, não pode deixar de sentir a mesma repulsa pela brutalidade cega aqui tão cruamente desenhada. Como permanente grito de revolta contra todos os actos de barbárie. Em qualquer tempo, em qualquer lugar.