Os quadros das nossas vidas (9)


Teresa Ribeiro,

 

Não sei ao certo em que circunstâncias eu e ela cruzámos o olhar pela primeira vez. Desconfio que foi em casa dos meus pais, enquanto consultava um livro sobre pintura. Mas se não retenho com clareza as circunstâncias do encontro, em contrapartida recordo com precisão os sentimentos que aquela mulher nua, de mão no queixo e sorrisinho provocador, despertou em mim.

Um quadro que odiamos também pode ser um dos quadros da nossa vida. E este foi, sem dúvida, aquele que até hoje suscitou em mim um sentimento mais imediato e inflamado de rejeição. Era muito jovem quando o gravei a contragosto na minha memória visual. No máximo, o que terei feito depois de o observar com crispação foi virar a página com vigor e procurar no tal livro imagens que mo fizessem esquecer.

Mas com os anos, e à medida em que os inevitáveis reencontros se sucederam, fui acabando por recolher informação sobre esta conhecida obra de Édouard Manet. Talvez mais para perceber-me do que para entender o que o terá levado a conceber aquela cena que tanta polémica provocou quando, em 1863, foi exibida pela primeira vez em Paris, no Salão dos Recusados.

Depois do que pesquisei acerca de Déjeuner sur L’Herbe fui obrigada a reconhecer por que é uma obra tão reputada e referenciada na História da Pintura. Picasso fez sobre ela nada mais, nada menos que 200 esboços. Pois! Mulher nua entre dois cavalheiros completamente vestidos é uma poderosa fantasia sexual masculina. E sabe-se bem até que ponto Picasso era sensível a estímulos deste teor. Mas fantasias sexuais à parte (perdoem-me, mas não é assunto que me apeteça esmiuçar. Aliás, para quê? O Edouard já fez o "desenho"), o que distingue este quadro dos outros é, primeiro que tudo, a sua eficácia. Ao iluminar o nu de uma forma artificial – se fosse iluminado por uma luz natural, como seria lógico numa cena no campo, aquele corpo nunca poderia contrastar de forma tão evidente com o meio circundante – Manet faz daquela mulher o foco da nossa atenção. É um néon que está ali a piscar e ainda por cima a olhar-nos nos olhos. Para cúmulo ainda sorri. E é de nós que sorri. Da incomodidade que ela sabe que nos desperta.

Uma mulher nua entre homens vestidos sugere-nos de imediato humilhação sexual e no entanto esta exibe através da pose descontraída e expressão facial uma quase arrogância que nos confunde. É nesta ambiguidade que reside todo o fascìnio desta obra de Manet, ousada no tema e na forma, pois transgride, farta-se de transgredir. Desde as normas que aconselham a utilização de uma maior palete de cores, por forma a evitar contrastes cromáticos considerados, na época, inestéticos, às regras da perspectiva que ele ignora deliberadamente para salientar o insólito da situação. Uma situação que ele retrata de uma forma só aparentemente naturalista.

Em miúda na verdade não sei o que mais detestei no quadro. Se a displicência dos homens que a têm ali, como um objecto para desfrute visual, se a placidez dela. Estupidamente divertida com aquele jogo e ainda mais divertida comigo. É claro, só podia detestá-la, detestá-los. Este quadro não se deixa ignorar. Ah, como eu o detesto! 

29 comentários em “Os quadros das nossas vidas (9)”

          1. Nada como tirar a roupinha… Num caso e noutro. Na altura o que chocou as mentalidades não foi a nudez da senhora e o fato dos senhores, foi o facto da senhora ser uma mulher comum… Só se podiam despir a as deusas e as entidades bíblicas..

  1. Engraçado, Teresa… para mim, o quadro tem uma interpretação completamente diferente: aqueles homens estão ali sozinhos, não há nenhuma mulher de carne e osso entre eles. Ela está é presente na imaginação deles, nas conversas deles. Porque estes dois homens, sozinhos e numa hora de descontracção, falam naturalmente de mulheres e das suas fantasias sexuais. Ela (e a outra, mais atrás) são fruto dessas fantasias e desse tema inesgotável. Não a vejo, nem por um momento, como uma figura real. Talvez por isso o quadro não me choca nem me irrita.
    É isso que é fascinante na pintura, a possibilidade de ser aquilo que querem os nossos olhos que ela seja. E quem disse que só os abstractos permitem várias leituras? Este não pode ser mais figurativo e é a prova do contrário!
    De qualquer maneira, adorei o teu texto.

    1. É, de facto, a outra interpretação possível, Ana. Mas a leitura imediata não é essa e Manet, que pintou a cena, sabia-o melhor que ninguém. A inocência não mora aqui 🙂

      1. A inocência não mora aqui em nenhuma das versões, Teresa… apenas uma delas é menos agressiva para nós, mulheres. Manet sabia muito bem o que estava a provocar com este quadro no séc XIX, o auge dos moralismos e das dissimulações sociais.

        Mas há duas razões nas quais a minha leitura se apoia: o excesso de luz (artificial, como dizes) que Manet imprime às figuras femininas, o que reforça a sensação de irrealidade, de miragem; e a pose completamente descontraída dos homens, bem longe daquele “en garde” de tensão que existe sempre num homem perante uma mulher bonita à sua disposição e tão próxima (nua, ainda por cima).

        Mas, volto a dizer, um bom quadro é aquele que provoca reacções em quem o vê. E se forem diferentes, melhor.

  2. Gostei muito de ler o seu texto. E eu, que à pintura só tenho uma aproximação afectiva, identifico-me mais com a leitura da Ana Vidal. Com a sua permissão faço meu o seu comentário. Realmente a arte é fascinante também pela sua desafiadora polissemia.

    Que boa rúbrica esta. Um gosto.

    :)))

  3. Teresa: ‘descascaste’ muito bem o quadro, se me permites a expressão, aliás adequada ao contexto. O que mais gosto deste quadro é do título enganador, que nos sugere um plácido piquenique de burgueses, bem ao jeito daquele de que o Cesário Verde falava num poema célebre. Afinal este piquenique não era de burgueses.
    Aqui está como as aparências iludem. E os títulos também.

  4. Concordo com a Ana. Aquela mulher está ali deslocada, como se não existisse de facto e fosse apenas uma projecção do desejo masculino. Mas lá que ela tem cara de safada não se pode negar.

    1. Leonor, essa é uma leitura possível, até porque os homens que conversam parecem alheios à sua presença. Porém ela olha-nos e esse simples detalhe muda tudo, torna-a real. A ambiguidade é justamente o que torna este quadro fascinante.

      1. Essa aparente ignorância entre eles é que me fez sentir que era projecção, isso e o facto de estar nua no bosque enquanto eles estão tão vestidos. A ambiguidade é mesmo o que nos prende ao quadro, Teresa.

  5. Parabens Teresa pelo texto, uma excelente escolha. Acho o quadro fascinante. Mas se tivesse que escolher só um de Manet para levar para casa,(era bom era :-))) , escolheria o Olimpia

  6. É verdade sim senhor;) Há quadros que nos desgradam. Não pelo choque simbólico de uma ideia (como aconteceu com este) mas porque nos ‘arranham’, esteticamente falando. Assim como uma nota desafinada no meio de uma sinfonia.
    Este quadro também nunca me comoveu.
    Visto ao vivo (e como tem respeitáveis dimensões) não podemos negar que nos toca pela fantástica harmonia de cores, quase explosiva, se pensarmos no culto dos “escuros” que precedeu os impressionistas.
    Mas mais nada, não é?
    A senhora é realmente etérea, quase parece simbólica. Mas está lá e provocou os costumes.
    Mission accomplie, no que a Manet respeitava 😉

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