Lidar com problemas


josegomesandre,

Deve ser culpa minha, mas não sei se percebi este texto do Eduardo Pitta. Afirma o Eduardo que, "se fosse votante PSD (não sou), começava a tomar doses cavalares de sertralina", isto porque, caso o PSD ganhe as eleições, teria uma série de problemas a bater-lhe à porta ("os bonés dos polícias", os sindicatos, os professores, as dificuldades em lidar com o desemprego, o BPN, etc.). O que não percebo é o seguinte: o Eduardo, como eleitor, fica menos preocupado com a possibilidade de estes mesmíssimos problemas serem enfrentados pelo Governo que os não conseguiu resolver até aqui?

10 comentários em “Lidar com problemas”

  1. Não percebeu, não foi único e mesmo depois da explicação continua a ser difícil perceber. No entanto, o “óbvio” parece ser isto: como foi este Governo PS que não resolvendo uma série de problemas, ignorando outros, mas sobretudo criando alguns bem graves (como o caso dos professores; e não se diga como o faz Eduardo Pitta, que também o PSD não o consegue resolver, pois isso é tentar escamotear que tivesse o PS actuado como se impunha – bem – e ninguém tinha pura e simplesmente de lidar com ele, pelo que, no mínimo, há que censurar o imbróglio em que o Governo meteu os estudantes, as escolas, os docentes, os encarregados de educação e a comunidade escolar em geral – e fico nisto para não me referir igualmente à operação cosmética escandalosa à “melhoria de rendimento” escolar dos alunos e que ganha, sem sombra de dúvida, o prémio “a farsa da década”), dizia, tendo sido este Governo PS incapaz de evitar as crises em que se envolveu, que não resolve nem resolverá, o melhor, na óptica de Eduardo Pitta é mesmo deixá-los lá ficar, pois que continuem, os outros que nem tenham oportunidade de tentar solucionar um pouco melhor (e novas caras e posturas é logo um avanço) os problemas que eram evitáveis. Eles meteram-se nelas, eles só fizeram asneiras? Ora, votemos neles novamente (quais santos a quem devemos compaixão) para que as repitam e as mantenham. É, evidentemente, uma lógica boa: defesa da manutenção do problema ad eternum (trocado por miúdos: “em equipa que perde não se mexe”). Claro, numa coisa concordo, é tão óbvio que é por isso que à primeira passa despercebido (mas, depois, até dói).

    1. Caro Luís Terrinha, pelo teor do seu discurso, já vi que responde pela Corporação. Recita o missal do “imbróglio” e pouco mais. Por que razão? Porque, como a tantos outros, interessa, antes de mais, o que lhe diz respeito. O status quo. As aulinhas santas e as santas aulinhas. O seu dinheirinho ao fim do mês sem prestar contas a ninguém. Quanto ao resto, que se lixe. Certo?

      1. Caro Gonçalo, deve-me ter tomado por algo que não sou, mas interprete e conjecture como quiser. Pelo menos, por favor note que o que fiz foi um comentário, na medida do possível, curto, não pretendendo elaborar um texto com desenvolvimento que abrangesse outras temáticas. Acho, apesar de tudo, que a educação é um bom exemplo do padrão rasteiro em que se nivela este Governo. Pode gostar de ser ludibriado, eu, por muitos defeitos que tenha, não. A manipulação dos resultados dos exames com o facilitismo em que se incorreu há-de vir nos livros de História e é uma evidência de como não temos um Governo PS sério. Quanto à avaliação dos docentes, não sou professor, aliás, sou estudante, e sou completamente a favor dela. No entanto, também não aguento o estilo burocratizado em que o país parece gostar de se enovelar e acredito que não hão-de ser certamente todos os professores que saíram em manifestação a estarem errados e o Governo certo. Arranje-se um modelo exequível, mas não só: não se esqueça que há outras medidas e outras políticas que podem contribuir para a qualidade dos docentes e da escola pública (ex: regulação do sector privado superior e politécnicos e institutos que enchem o mercado de “professores”, no mínimo, incapazes; aposte-se na qualificação das universidades, na sua competência e na sua excelência e também na sua regulação e dos próprios professores universitários, porque se muitos dos professores que estão nas escolas não são “bons” em parte devem-no também aos sítios de onde vêm e se formaram que, como é óbvio, grande trabalho não devem estar a fazer).
        Se se quiser deslocar da educação, pense no Código do Trabalho, um código, o de hoje, que nem o PSD teve a coragem de apresentar em 2003 (nem em conteúdo nem em circunstâncias, sendo que o PS com a sua delirante vontade de entrada em vigor imediata quase atropelou a constituição – felizmente travada – mas sempre conseguiu obstar ao prévio debate universitário que seria muito adequado e útil).
        Se quiser ainda mais temas, posso referir-me ao estilo neo-ditador sem carisma (alguns também utilizam a expressão engraçada de tiranete) de José Sócrates (mas provavelmente, disso gosta o Caro Gonçalo, deve achar que é assim que se afronta o “status quo”) que não contribui em nada para a qualidade da nossa democracia.
        Olhe igualmente para a Justiça e quando tiver de aceder ao tribunal para a realização dos seus próprios direitos que a lei lhe confere e protege e ao apresentar a sua petição lhe pedirem para pagar logo um montante exagerado de custas lembre-se do nosso querido Ministro Alberto Costa e da sua vontade, claro está, de agilizar e desentupir os tribunais (assim também eu: quem paga logo e muito, desmoraliza, quiçá até desiste – mas olhe meu caro Gonçalo, pode ser que tenha a sorte de ser muito rico e então para si não há-de ser problema).
        Ainda pretende mais caro Gonçalo? E acha que sou eu que quero que o resto se lixe? Ora pense lá bem, certo?

        1. Caro Luís, gostei da resposta. Fala-me um pouco de tudo, entre considerações mais ou menos seráficas sobre os meus gostos e/ou expectativas pessoais. Certo. Reconheço merecer o tom de hiperonímia com que, eu próprio, havia aberto, passo a expressão, as hostilidades. Mas já que é de figuras de estilo que falamos, permita-me um reparo. O meu Caro, aparentemente um homem do mundo, uma mente inquieta com o estado de degradação a que chegou o nosso pais com o incrível rol de malfeitorias perpetrada pelo ditador de pacotilha que a história há-de julgar (se não o fizermos nós antes) estará, com certeza, bem seguro, na sua inquebrantável probidade moral e intelectual, de que o nosso primeiro ministro não merece outra coisa que não o nosso total descontentamento, as palavras mais azedas, as observações mais criticas. Com certeza. Não lhe digo que é o seu direito democrático, porque estou certo de que o saberá e porque não gosto de lugares comuns. E é por não gostar deles, nem que pensem por mim, nem de recitar discursos de cátedra, que tomei a liberdade de comentar o seu comentário anterior e que, como filho de boa gente (muito rica?), lhe respondo a este. Começo já por lhe dizer que partilho de muitas das suas opiniões e esperanças. Detesto operações de estética. Acho que o sistema de ensino é uma farsa. Penso que o tema da justiça é um motivo de vergonha e, pior, verdadeiramente opressivo e castrador. Não sei se as nossas semelhanças se ficam por aqui ou não, mas, em meia dúzia de palavras, gostaria de viver num pais decente, com gente trabalhadora, lúcida, orgulhosa e altruísta. Mas não vivo. Não vivemos, aliás.

          Continuamos a ater-nos a atavismos centenários, a uma cultura de olhos baixo e de respeitinho, de cátedra e de corporação, de “porreirismo” aparente, que convive com a mais vil mesquinhez, inveja e egoísmo. O mau é quem nos quer mudar. Mudar é mau. Principalmente se não o percepcionarmos como algo que nos beneficie imediatamente. Enfim. Muito haveria aqui a dizer. Voltando ao nosso subject matter, devo dizer-lhe que, tal como o havia julgado, fui professor durante alguns anos. Entretanto, entre as costumeiras touradas (que costumavam ser) das colocações, entre MUITOS alunos passados administrativamente porque nenhum colega queria levar com eles e porque “não dava para mais” (quer melhor operação de estética?), entre muitos encostos e baixas “cirúrgicas” 15 dias depois do início das aulas (andei 3 anos a contrato, a substituir praticamente as mesmas pessoas…), entre muitos colegas incapazes de redigir uma planificação de aulas que fosse – já para não falar de competências básicas sobre os temas que leccionavam – e entre um péssimo sistema / paradigma educativo identificado HÁ MUITO (desde que eu me lembre, caramba, quantas “reformas” falhadas?), pouco ou nada se fez. Por que razão? Não sei. Se calhar seria melhor conjecturar, organizar umas comissões, ouvir os parceiros sociais e mais o diabo. Falava-se, tal como o Caro Luís insiste, na metafísica subjacente ao ensino superior direccionado, tecia-se umas considerações sobre declarações de intenções e, zás catrapás, mais uns anos a mamar na teta do orçamento. Tudo como dantes… e lá se ia passando o tempo. Assim que o malfadado governo do neo-ditador ensaiou uma reforma de fundo, caiu o Carmo e a Trindade. Era tudo MUITO bonito – mais aulas, mais turmas, resultados “insuflados” que mostravam o meritório trabalho dos laboriosos professores – se não doesse nos bolsos. Se não fizesse perigar o estatuto (da carreira docente – i.e. hierarquia horizontal é que é bom!) e se, claro, não obrigasse, realmente, a ter de merecer o ordenado. Depois, lá está, é muito, muito fácil escudar-se por trás dos bons professores, dos bons profissionais e esgrimir argumentos invocando o bem dos alunos e da educação em geral. Meta-educação no seu melhor. Vomitar generalidades, criar factos, alimentar ilusões e distorções é, pura e simplesmente, desonesto. Não tão desonesto quanto falar do que não se conhece, mas enfim, isso seriam outros 500. Como estudante, com certeza que terá uma visão apurada do assunto para poder criticar, de forma tão acérrima, o que se está a tentar (tentou?) fazer. Foi feito às três pancadas? Sim. Contem muitos erros formais e de conteúdo? Claro.

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          Prejudica muita gente? Certamente. Mas, caramba, foi a ÚNICA tentativa de reformar, verdadeiramente, uma área axial do nosso futuro, com base em premissas concretas de credibilidade e de justiça profissional. Assumi-la como modelo final e negar, à partida, a possibilidade de a implementar para, depois, a fazer evoluir, foi condená-la ao insucesso. Peçam-se mais estudos e pareceres! Façam-se mais projectos piloto! Adie-se, por mais umas décadas, o raio do país. Quando tudo tiver perfeito (sob a visão de quem?), haverá um outro Mário Nogueira para desconstruir e para se manifestar contra os direitos adquiridos! E toma lá que já almoçaste, fica tudo como está. A não ser que se concretize o PREC e um glorioso amanhã soviético, com escolas à maneira.

          Enfim, incorrendo na insensatez de voltar à hiperonímia, pergunto-lhe o que é que sabe sobre o Código do Trabalho? Já o comparou com o anterior? Pois bem, o problema é que, mesmo caso o Luís não o tenha feito, qualquer pessoa que queira abrir uma empresa neste pais já o leu. E qualquer pessoa que – como eu – tenha de depender da volição, estratégia e demais travadinhas e amoques do seu patrão também já o terá lido. É imperfeito? Muito. Tenta agradar a gregos e a troianos? Pois é… É melhor que o que tínhamos? Sim!

          Quanto à Justiça, a questão das custas judiciais parece-me perfeitamente lateral. Quem não pode, há-de sempre arranjar maneira de poder, não me lixe. Quem pode, sempre pôde e sempre há-de poder. Preocupa-me mais, por exemplo, o facto dos juízes serem potencialmente imputáveis por erros de decisão… o que, num caso de corrupção, por exemplo, os há-de convidar a ter uma visão mais benigna sobre o réu. Esta foi, sem dúvida, a pior actuação do Governo que, de qualquer modo, tanto não me merece (nem a ninguém razoável) confiança absoluta como nem, obviamente, me merece um total desprezo. Pelo contrario. Apesar dos erros, é certo, este Governo pelo menos tentou inserir a semente das reformas (e não apenas das “reformas” feitas à papo-seco com a mama infindável dos fundos de coesão) Feitas à pressa e atabalhoadamente, claro, mas com a consciência do carácter de urgência. Feitas à bruta, à Sócrates (o neo-ditador que nada tem a ver com o muy prezado Cavaco, com a própria Manela ou com a expressão da força mandatada pelo proletariado), mas enfrentando o atavismo corporativo e a indecorosa falta de escrúpulos da oposição (o que ainda há pouco tempo era verdade – ou antes de 89 😉 – deixou de o ser, por conveniência politica ou apenas para criar chavascal). Feitas contra alguma função publica, contra alguns sargentos de carreira, contra alguns farmacêuticos, contra alguns juízes, contra alguns grupos económicos, contra alguns poderes instituídos, mas a favor do desenvolvimento do país a longo prazo.

          Ou alguém acredita em milagres?

          Ver pormenores como um todo, Caro Luís, só nos induz em erros. E tal como eu erradamente vi no seu post o discurso de um professor descontente com a necessidade imperiosa de mudança, bem me parece que o Luís vê em alguns erros do governo, o geral da sua governação ao longo de 4 (muito curtos) anos. “Vê” ou quer ver, que é algo completamente diferente.

          Mas enfim. Venha a Manela. Depois não diga que não o avisaram (outra vez).

          1. Caro Gonçalo, estou-lhe a responder por uma questão de consideração pelo facto de ter dado largas à veia de escritor e ter utilizado perto de 8600 caracteres. Também gostei da resposta. Apesar de tudo não me vou alongar tanto, só duas ou três coisas. Percebi o seu ponto. É óbvio que ninguém faz tudo mal. Agora, o meu ponto é que para um Governo de maioria absoluta, só houve, na minha humilde opinião, um aspecto em que se excederam e merecem o Óscar: criação de expectativas e anúncios falhados. Este Governo teve condições para fazer muito, apresentou-se como convinha (forte, determinado, com capacidade legítima) e no fim, feito o balanço, é um desastre e um poço de frustrações para os portugueses que esperavam aquilo com que tinham direito a contar (e eu nem antipatizo nada com PS, embora nunca tenha achado a mínima piada ao estilo artificial/ 21st century product de José Sócrates). Diz-me que fizeram por afrontar interesses instalados: com que resultados? Ficamos melhores? Mais valia não terem feito metade, mas o que fizessem ficar consolidado (há vozes que dizem ser perfeitamente possível numa legislatura reformar a justiça como é preciso – instalá-la em prédios para escritórios é que não é, evidentemente, o caminho).
            Segunda questão, interpelou-me acerca do código do trabalho. Sou estudante de Direito (os exemplos também não foram à toa). No entanto, sou-lhe sincero, a parte de relações individuais (contrato de trabalho) ainda não conheço com a profundidade desejável uma vez que estudei ainda pelo antigo código. Conheço já, a fundo, a parte de relações colectivas e vi lá bem a norma do art. 497 e o seu teor anti-sindical (para além de saber que houve imensa gente de esquerda desiludida com este código e isso normalmente significa que poderia ser melhor para os trabalhadores). Tal, apesar de tudo já seria outra discussão, e não tenho posição política definida.
            Terceira questão, considerou a questão das custas lateral e com isso tenho de estar em completo desacordo consigo; parafraseando um professor meu, é mesmo uma questão central da nossa democracia – o direito de acesso aos tribunais e à justiça não é para andar a brincar com ele desta maneira (especialmente para um partido que não gosta de se preocupar com os “custos da democracia” – ironia do destino). Além do mais, quando diz que “quem não pode há-de sempre arranjar maneira de poder”, incitava-o a pensar duas vezes. Há uma larga franja de “remediados” que não preenche os requisitos do apoio judiciário, além dos custos de um advogado e dos custos que implica a quantidade de anos que os processos se arrastam. Pagar custas em montante elevado aquando da apresentação da petição coloca problemas muito graves e leva a que as pessoas desistam de recorrer às instâncias judiciais.
            Quarta, tive pena que não utilizásse o seu espírito prático (“quem não pode há-de sempre arranjar maneira de poder”) para a questão da responsabilidade dos juízes – também parafraseando outro professor meu, há-de vir o dia em que um juíz condena outro (para nem falar da interpretação dos conceitos indeterminados – do género, culpa grave – que implicam muita elaboração, muita reflexão doutrinal e que dão margem para a apreciação do caso concreto, não levando à desprotecção caótica que se possa imaginar – a corporação também se sabe defender e lembre-se, nos termos da constituição os juízes são um corpo unitário!).
            Finalmente, não, claro que não acredito em milagres (o que não quer dizer que não os possa esperar, embora, nos dizeres de um poeta “como a esperança nunca morre, morre a gente de ter que esperar”), mas como certamente percebeu, o ponto de todos os meus comentários (partindo aliás do texto de Eduardo Pitta) foi só para transmitir que pelo menos este Governo já nos mostrou que não traz rosas no regaço (contudo, que as prometeu, prometeu).

            Cumprimentos

          2. Caro Luís, obrigado pelo seu post. Antes de mais, devo dar aqui um passinho atrás e, a bem da clareza da nossa discussão e da franqueza da sua ultima resposta, afirmar que não é, de todo, minha intenção tentar demovê-lo das suas opiniões ou tentar evangelizá-lo em nome do que quer que seja (e desculpe ser tão “falador”). Como lhe disse – e voltando ao nosso assunto – realmente também não concordo com muitas políticas encetadas por este governo. Há certas nuances de estilo que me arrepiam, nomeadamente, não a “marketização” política por si, mas sim a utilização superficial e condescendente desta.

            Aproveitando a deixa para zurzir um pouco mais no Alberto e nos Magistrados, volto a frisar que, de todos os males da Justiça, as custas me parecem um mal menor. Porque até poderia não incorrer em quaisquer custos para o “utilizador”… que se continuasse ineficiente, demorada, atemorizada, estritamente conservadora e cristalizada na sua auto-complacência, de pouco nos valeria. Imagine o Luís que eu o apanho a roubar-me uma galinha. Como sou um tipo pacato e poupadinho, opto por não o crivar com sal grosso e recorrer aos tribunais. Não pago nada para lhe meter um processo. Mas daqui a 5 anos – e o Luís com a minha Galinha no buxo – o tribunal, das duas uma, ou não consegue apurar responsabilidades (uma das penas não correspondia à descrição lavrada nos autos de instrução) ou considera que a galinha “estava a pedi-las” e que, portanto, pede apenas que se apresente na esquadra da sua ára de residência todas as semanas, onde lhe perguntarão se voltou a cometer algum crime referente a galináceos e/ou animais de capoeira. Considerações à parte, durante todo este processo, o juiz teve de tirar as suas proprias fotocópias (porque os funcionários acabam o expediente às 17h), depois de 30.000 processos em despacho, variando desde crimes económicos complexos até roubo, entre outros, de patos e galinhas. O tribunal teve também de pagar eventuais perícias e mais o diabo a sete. E, para todos os efeitos, o meu caso custar-me-ia tanto dinheiro quanto lhe custaria a si, por exemplo, promover uma acção contra a administração do BPN. É muito bonito dizer que as custas são a questão central da justiça. Mas esquecêmo-nos de todo o resto. E que não vale a pena não pagar por um mau serviço. Principalmente quando o serviço é mau por falta (em muito, muitos casos) de mais meios. E claro, de um CSM decente, que não se ache o fim do mundo em cuecas. Segundo li, em 2008, de 200 e tal juizes (num universo de quê… 2000?), apenas 1 foi considerado mediocre. O problema existe? Existe. Ter-se-ia resolvido em 4 anos? Não. E se os seus profs. tiverem a solução para os juizes sem causar a desgraça geral, “os ataques à soberania”, eles que avisem.

            Voltando à nossa vaca fria, à “marketização”. Para início de conversa, acho – se calhar é puramente visão política ou deformação profissional – que a comunicação de esforço, de sucesso, de trabalho consegue MUITO mais que discursos da tanga e de politicas de terra queimada. Aliás, como ainda há pouco (pensava eu) tinhamos visto e ficado vacinados contra. Principalmente porque a economia é uma ciencia humana, dependente de factores intrinsecamente humanos e subjectivos. O discurso positivo, a apresentação de novas ideias é, realmente, avessa o nosso egrégio e santificado espirito humilde, de remediadinhos, trabalhadores e pobrezinhos honestos. O pecado deste governo não tem sido a promoção das suas ideias mas sim, parece-me, a promoção futil do que se faz. Não há conteúdo, não há uma explicação. Não. Diz-se “fizemos isto, somos muita bons”. Quem se informa, mais ou menos, ou quem pensa de boa fé até é capaz de perceber que há vontade de concretizar e que os projectos até podem ser bons. Mas a população em geral – tão à mercê da volatilidade, da baixa política, da mesquinhez e do opinion making das TVs – não o pressente como tal, porque não percebe e se fica pela espuma dos dias, pelo avacalho. Esquece-se, passado uns tempos ou face a primeira contrariedade, das boas medidas que se possam ter tomado. Vide o Magalhães, perdido na onda de baixaria que lhe montaram.

            E é essa a questão. Podemos tomar a árvore pela floresta? Ou tomar a floresta por umas quantas arvores manhosas?

            Melhores cumprimentos

          3. Caro Gonçalo, como me interpela e termina sempre com perguntas, parece-me, claro, de bom tom responder, embora pareça óbvio que já nos afastamos do tema inicial.
            Quanto às observações que fez, creio que, na verdade, incorre em duas falácias.
            Primeira falácia: “ao roto, se lhe rasgarmos mais um bocado das suas calças já esfarrapadas não lhe fará, de certeza, grande diferença” (aceitará sem problemas estes termos irónicos). Da minha parte, volto a reiterar que a questão das custas não é lateral, é central. Aliás, é central desde logo pelo que se paga (que devia ser muito menos para haver verdadeiro acesso à justiça, sem distinção de classe e para não termos uma justiça só para ricos) mas também central quando se quer desencorajar as pessoas de recorrerem ao tribunal obrigando-as a uma antecipação de pagamento exorbitante. Diz-me que o resto é tudo muito mau, nunca o neguei, nem afirmo o contrário: o tempo que se fica à espera de uma decisão é a maior denegação de justiça e a maior afronta a este valor constitucional. Mas o caminho então não é certamente pegar, como fez este Governo, e com estes objectivos de desentupir por vias matreiras os tribunais, nas custas. Aliás, lembro-lhe que esta lógico neste PS é algo omnipresente. Para além da educação, o que o Ministro Vieira da Silva tentou fazer com o período experimental de 6 meses (que não havia em lado nenhum da Europa) foi tentar disfarçar a contratação a termo: para quê contratar a termo se podem contratar por tempo indeterminado e despedir sem justificação alguma e sem indemnização ao fim de 6 meses? Foi esta a vontade do Governo. Com a justiça, segue-se a mesma lógica. Centrou-se Caro Gonçalo muito nos juízes, coisa que penso estar profundamente off the target . Há um consenso alargado no meio jurídico, pelo que entendo, acerca da boa qualidade dos juízes. O problema é querer exactamente dar-se à opinião pública a ideia de que são estes sujeitos judiciários (tribunais, juízes , advogados) que tornam tudo complicado. O que o comum dos cidadãos não consegue compreender é o emaranhado de leis que existem, o fenómeno de inflação legislativa em que vivemos e a maneira desastrada como muitas leis são feitas – mas essa é uma culpa do legislador (Governo e AR). Ainda há tempos alguém dizia que um passo importante na reforma da justiça era rever profundamente o código de processo civil, porque estamos perante textos legislativos demasiado rígidos , que obrigam a tramitações sem fim e que não permitem nenhuma agilidade (para não falar do processo penal em que as garantias do arguido inviabilizam julgamentos decentes e céleres). Mas na opinião pública ninguém sabe que o Governo muda o código de processo civil todos os verões, que todos os anos muda a legislação fiscal, que as leis entram em vigor com data de morte anunciada. E quem são os culpados? Quem lida com o direito e o põe em prática todos os dias. Não está correcto.
            Segunda falácia: a marketização prejudica o conteúdo em vez de o ajudar. Ora caro Gonçalo só prejudica porque pura e simplesmente não há conteúdo. Não me diga que estão lá as ideias todas e que depois no processo de transmissão feito por profissionais sai tudo ao contrário. Não é lógico. O problema é não haver substância nenhuma mas mesmo assim estar a tentar vender a imagem que há: isso é que cria a falsidade e artificialidade que coroa este Governo. Tenta-se maximizar com recurso à espectacularidade e técnicas de marketing frouxas o que não pode ser maximizado porque é “nada”. Achei muito interessante, embora inverosímil, que dissesse “há ideias mas depois não passam”. Houvesse ideias e com os recursos investidos pelo PS ia ver como a esta hora estávamos todos siderados e galvanizados por esta governação. Houvesse concretização e efectividade no que se anuncia e ninguém reclamava. Mas não, tudo o que se diz é a politiquice. O estilo é de menino-de-guerra , em permanente competição mesquinha. Não transfira para a marketização o vazio do Governo, porque o marketing só resulta vazio porque o sujeito donde provém não tem muito por onde se lhe pegue. Neste caso concreto não vejo que possa ser doutra maneira.
            cumprimentos

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