Nasceu uma nova estrela. Um tal de Miguel Gonçalves, que Miguel Relvas (e quem mais?!) viu no Youtube e convidou para “embaixador” do “Impulso Jovem” (só esta frase já provoca um asco de morte). À semelhança de outros fenómenos da nossa praça, distingue-se pela “irreverência”, pelo discurso “positivo” e por outras coisas que vêm sempre juntas neste tipo de pacote (“dinâmico”, “criativo”, “pró-activo”, etc. – é ouvir o dito cujo).
O problema de Miguel Gonçalves não é a referida “personagem”, mas o facto de os seus dislates reproduzirem um discurso público cada vez mais difundido e aceite acriticamente pelos media, pelos governantes, pelas elites e pela população em geral. Discurso esse que mistura o pior do “darwinismo social” (o elogio do conflito social e a glorificação da lei do mais forte), um moralismo pseudo-científico de pacotilha (que condena os que sucumbem, imputando-lhes a culpa do seu “insucesso”) e os elementos mais abjectos do novo totalitarismo linguístico “made in Wall Street” (que apela ao “empreendedorismo”, à “reinvenção pessoal”, ao “acreditar em si próprio” e ao “tornar-se senhor do seu destino”).
Em suma, estamos perante um discurso político, social e económico que combina as inanidades de livros como “O Segredo” (“tu podes ser quem quiseres”) com a profundidade da reflexão filosófica de um Zézé Camarinha. O pior de tudo isto? É que este discurso tem tanto de disparatado quanto de perigoso. Denunciá-lo já não é uma simples questão de bom-senso; é um dever de todos os homens civilizados.

Olha quem ele é!! Já falei aqui dele e dos disparates – perigosos, como dizes – que debita à velocidade da luz, perante uma plateia de embasbacados imberbes que tudo o que querem na vida é ser como ele. Coitados. A ver se encontro o link.
Aqui está a perspiquenta criatura: http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/50 00482.html
🙂
Ana Vidal
Critica o moço pelo moço e pelo que diz. Tem a mais valia de o ter feito quando ninguém percebeu quem ele era.
No entanto a crítica que vejo por aí baseia-se só no facto de ter sido visto no youtube e por falar com um sotaque estranho. Como se fosse mau escolher um agente de comunicação pelo youtube.
O que me causa apreensão é ver nomeações de jovens que nem no youtube aparecem.
Também estou habituado a ler estudos e planos de gente mais comedida e discreta mas que por terem nomes sonantes passam por credíveis. O nível do disparate no entanto é o mesmo.
Xico, a mim o que me preocupa é mesmo o que ele diz, não é o sotaque. Preocupa-me que se esteja a formar uma geração cujos valores se baseiam em fantasias pirotécnicas para impressionar o pagode, em vez de trabalho e consistência.
Percebi que não era o que a preocupava. Mas foi o que preocupou muita gente. Há comentadores cujo participação na vida pública só se conhece por serem comentadores de televisão sem que se lhes conheça qualquer mérito para o fazerem e foram os primeiros a criticar a escolha pelo youtube, e não pelo conteúdo. Não foi o seu caso e isso reconheci-o logo de início.
Era, era o “rapaz da perspiquidade”, que a Ana já tinha identificado há uns meses atrás.
Há cerca de um ano e meio, quando este rapazote começou a aparecer pelo Tedex, e salvo erro também pelo Prós e Contras, alguns dos meus colegas (sou professora), “q.b. de esquerda”, aconselharam-no como modelo aos seus/nossos alunos, o que me espantou…
Na altura, eu, habitualmente pouco de esquerda (ou pouco dessa “esquerda q.b.”), a iniciar um projecto de empreendorismo com uma das minhas turmas, disse a esses colegas que o discurso deste rapaz me parecia perigoso e trapalhão e que não o queria como modelo para aquilo que os alunos pudessem vir a fazer nos seus trabalhos. Creio que não me consegui fazer entender…
A verdade é que, no empreendorismo ou noutra área qualquer, sem trabalho sério, sem persistência, sem teoria, sem análise, não há voluntarismo que resista, por mais moderno e “pró-activo” que possa parecer.
Mas como explicar isto nas escolas secundárias, onde as confusões ideológicas dos professores são mais que muitas?
Que dirão hoje esses meus colegas, q.b. de esquerda, deste apadrinhamento por Miguel Relvas? Que poderei eu dizer que para eles faça sentido? Ou será melhor nada dizer, por compaixão?
Não me parece que seja o melhor, mas a verdade é que já me falta por vezes a força para tentar ajudar a clarificar seja o que for…
Prof-it, o problema só aumenta se o partidarizarmos. A questão não está aí, e é pena que tenha sido preciso o Relvas apadrinhá-lo para lhe verem os defeitos óbvios (e graves) de raciocínio.
Por outro lado, até agradeço ao Relvas ter-se embeiçado pelo rapazinho. Foi o pior que podia ter-lhe feito, mas ainda bem.
Ainda ontem o Pedro Correia suscitou o tema do vazio do discurso polémico na nova geração de autores… parece que Relvas estava atento, assinou por baixo.
Esta “contratação” é a visão social à Relvas.
Os TED já eram o que eram, depois houve o franchising dos TEDx… e fico naquela nostalgia de lembrar o papaguear dos vendedores nas feiras. Não é stand-up comedy, porque não tem piada mesmo… é mais stand-up tragedy. E é bom nem dar ideias porque esta gente é perigosa, e ainda se lembram de fazer dinheiro com o pessoal a exibir as suas agonias em público…
Afinal tudo tem valor – você está desesperado… com uma grande depressão, toca a transformar isso em valor comercial.
O personagem fez-me lembrar o Zé Maria, um sujeito que ganhou o Big Brother…
Mas é diferente.
No fim da escala dos valores humanos, estão aqueles que se aproveitam da desgraça alheia – neste caso o desemprego, insucesso – para fazer dinheiro, iludindo falsas esperanças.
Coitadito… Cada um tem o TED que merece.
Mesmo não conhecendo o trabalho do novo “embaixador do impulso jovem”, concordo na totalidade com o que dizes. Pelo que vi é notória a sua capacidade de vendedor. Não lhe será nada difícil ganhar seguidores. Ele, e outros como ele, têm e devem ter o seu espaço. Por enquanto será só o embaixador de um programa de estágios profissionais na administração pública que, do que eu conheço, tem pouco ou nada a ver com as suas afirmações e chavões grandiosos. Mas é assustador pensar que este discurso é apresentado como um modelo quase “oficial”.
Acredito, no entanto, que ele não chegará a tornar-se perigoso uma vez que nem todos nós nos encantamos desta maneira, como o ministro Miguel Relvas, com estes discursos inflamados que vemos no YouTube.
ou então vai a ministro …
Eu gosto muito de o ouvir. Não percebo o que é que não gosta tanto nele. O que ele diz faz sentido e tem actualidade no mundo que se vive e se vai viver.
Há quem diga semelhante:
http://www.nytimes.com/2013/03/31/opini on/sunday/friedman-need-a-job-invent-it.h tml?_r=0
E, aliás, o facto de se criticar quem está parado/não se mexe, pode ser visto mais como um sinal de alerta do que uma crítica velada.
É uma assunção e admissão da realidade como ela é.
Isto não está nada fácil e ele alerta para isso.
Não é um político que tenha que desenvolver grandes teorias de como devia ser. Se o trabalho dele é motivar pessoas, e também ser comercial e fazer negócios, mais uma razão para não ser criticado por veicular o que vê a acontecer todos os dias.
E, por outro lado, se não se gosta, não se vê.
As pessoas não são crianças para serem protegidas de um tipo de discurso mais pão pão queijo queijo.
Mas cada um tem a sua opinião, como é óbvio, e até pode ter razão no perigo que vê.
Cumprimentos.
e aquele sorriso do paternal padrinho estragou de certa maneira o efeito pretendido. Com um padrinho deste calibre ninguém vai longe…muita náusea deve ter suscitado…até dentro dalgum PSD…espero.
O que seria de nós sem o YouTube… E sem o Relvas, claro.
Quando fala “em todos os homens civilizados” está a referir-se a quem? aos que querem um empregozinho mesmo ao pé da porta da mamã, e se for no estado ou na camara municipal, melhor?
É claro que metendo o Relvas e o Zézé Camarinha na conversa, o bouquet fica mais enfeitado, mas convém não perder de vista o mundo em que vivemos. Com todos os defeitos que lhes encontrem, mas também com as qualidades que eles inegavelmente têm, quem leva este mundo para a frente, são os Miguéis Gonçalves desta vida.
Assim, meu caro, também já não vais ser convidado para “ministro plenipotenciário”…
De qualquer modo, deixa lá, não te importes. É da maneira que poderemos continuar a ler-te nesta morada.
Obrigado.
Parabéns pelo texto.
Verbalizou na perfeição tudo aquilo que penso sobre o assunto.
Já ouvi o atrasado mental e tive de sair da sala porque estava a ficar enjoado. Lembro-me que a ultima perola que ouvi foi mais ou menos isto: no meio de muito lixo o senhor colocou uma fotografia de uma caixa de preservativos ao lado de uma ecografia com um bébe´, o comentario foi:
“Um custa 2,5 euros, outro custa 50,00 euros a decisão é vossa”.
Dito isto não tive outra solução se não sair da sala e manda-lo foder (and pardon my french)
irá a ministro, pois claro… ele que me apareça à frente, a mim, mãe de 4 filhos que estrebucham neste país de merda e de merdosos como este chacal
Subscrevo inteiramente. Quanta imbecilidade elevada a ‘embaixador’ com o beneplácito e apoio dos governantes.
O homem é o retrato do empreendedorismo português: “pescadinhas de rabo na boca” e “homens de ideias”.
O homem não executada nada, pensa. E manda os outros executar. Ele é os 20 engenheiros da câmara que supervisionam os 2 pedreiros. Ele é os 2 chefes que monitorizam 2 sub-chefes que monitorizam 1 empregado.
Ele não empreende, cria serviços para ajudar os outros a empreender o seu empreendimento. E dá ideias sobre como criar serviços para ajudar os outros a criar serviços para empreenderem os seus empreendimentos.
É o vendedor chato da PT com 1001 argumentos para mudar para a MEO, só que em vez da MEO ele é o produto, criado num momento em que a produção do Prós e Contras teve um desvario e deu tempo de antena ao muito badalado “Bater Punho”.
Um empreendedor à portuguesa, um Chico Esperto à 10ª potência.
Discurso esse que mistura o pior do “darwinismo social” (o elogio do conflito social e a glorificação da lei do mais forte), um moralismo pseudo-científico de pacotilha (que condena os que sucumbem, imputando-lhes a culpa do seu “insucesso”) e os elementos mais abjectos do novo totalitarismo linguístico “made in Wall Street” (que apela ao “empreendedorismo”, à “reinvenção pessoal”, ao “acreditar em si próprio” e ao “tornar-se senhor do seu destino”).
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Estou de acordo, mas parece-me que o sucesso do seu discurso também se adapta perfeitamente a(às) geração(ções) pós-25 de Abril, que desde pequenina(s) limitava(m)-se a ouvir a palavra “competição”.
Não creio cometer um erro se colar este discurso com o Facebook, onde se descobrem os auto-elogios e pequenos apontamentos, como subtis difamações e a falta de solidariedade inter-geracional. Um narcisismo doentio…