Culpas


josegomesandre,

Multiplicam-se as análises sobre o “fenómeno Lloret del Mar” e a trágica morte de um jovem de 17 anos. A culpa é dos pais. A culpa é da escola. A culpa é das agências de viagens. A culpa é do hotel. A culpa é dos espanhóis gananciosos. A culpa é dos vendedores de álcool. A culpa é da sociedade. Os únicos que não são culpados, claro, são os jovens envolvidos em festas bacanais, trips de comprimidos e noites sucessivas de shots. Enquanto não percebermos a necessidade de restaurar o conceito de “responsabilidade individual”, estaremos condenados a procurar culpas como agulhas num palheiro.

Cegueira política


josegomesandre,

Há muitas explicações para a crise europeia, mas uma das mais importantes passa certamente pela falta de visão dos líderes políticos europeus. Reagiram tarde ao “crash” económico-financeiro, valeram-se de narrativas morais pueris para justificar os buracos da UE, viraram costas a soluções políticas criativas no quadro europeu, ignoram a história do Velho Continente, não querem saber do exemplo americano, não percebem a natureza do federalismo, não entendem o perigo de uma austeridade sem crescimento. Aparentemente, estão agora muito preocupados com a “surpreendente” taxa de desemprego. Quem é esta gente? Que livros (não) leram? Em que mundo vivem? E o que alimenta esta cegueira, esta tão triste manifestação dos piores atributos da liderança política?

Razão e Liberdade – o Pensamento Político de James Madison


josegomesandre,

 

Já está nas livrarias o fruto da minha investigação sobre James Madison, um dos mais notáveis Founding Fathers dos EUA e um dos maiores expoentes do republicanismo liberal, do federalismo e de diversas tendências fulcrais da ciência política moderna. Foi um prazer trabalhar neste livro, esperando assim contribuir para a divulgação de um extraordinário pensador e líder político infelizmente algo esquecido na Europa.

Entre outros temas, abordamos os esforços de Madison na defesa da democracia representativa, do autogoverno e do constitucionalismo, na apologia dos direitos individuais e da liberdade religiosa, na criação e difusão dos partidos políticos, e ainda na promoção da vigilância popular e da crítica pública aos governantes. Merecerão ainda destaque questões marcantes do debate contemporâneo, como a ideia de federalismo, o elogio do pluralismo como factor determinante de uma comunidade livre e o valor da cidadania na legitimação e vivência comum das sociedades liberais.

Primárias Republicanas


josegomesandre,

Um resumo das contendas no Iowa e New Hampshire? Romney venceu em ambos os Estados e consolidou o seu estatuto de favorito. Tem consigo os independentes e os Republicanos moderados, e até boa fatia dos conservadores, que já perceberam ser Romney o melhor posicionado para enfrentar Obama. Os adversários e os media da Direita “Tea Party” continuam a apontar-lhe falhas, mas não têm aparecido adversários à altura. Só um cataclismo eleitoral poderia afastar Romney da nomeação.

 

Notas mais exaustivas no Era uma Vez na América, onde com Nuno Gouveia e Alexandre Burmester acompanho de perto a política americana.

O dilema europeu


josegomesandre,

A convite do Henrique Raposo, escrevi um texto sobre a União Europeia para um blog da edição online do Expresso. Aqui fica um breve trecho:

 

Desde 1992, a Europa vive na ficção de que é possível subsistir uma “união de povos”, com uma moeda e uma economia comuns, alicerçada ao mesmo tempo numa “união de nações que se consideram plenamente soberanas”, sem que exista um interesse comum definido nem um sustentáculo constitucional vinculativo. Instada a optar pela tradicional “Liga de Estados” ou pelo aprofundamento federalista, a União Europeia – qual criança mimada – quis escolher os dois. Não percebeu que ficaria condenada, ora a perder ambos, ora a forçar um impossível equilíbrio através de manobras de bastidores, sem debate público e sem legitimidade democrática. 

Ler mais: http://aeiou.expresso.pt/uniao-europeia-essa-crianca-mimada-ou-a-via-do-federalismo=f696369#ixzz1hh3TQDOP

Federalismo


josegomesandre,

Poucos tópicos se prestam a tantas mistificações como este. Não há pachorra para ouvir aqueles que apregoam o federalismo como panaceia para todos os males (embora escarneçam com frequência do federalismo americano), nem para ver confundido federalismo com projectos de consolidação de Estados numa estrutura unitária centralizada.

 

Como este último caso é o mais recorrente, insisto: parem de identificar federalismo com centralização unidimensional. O que está na base dos sistemas federais é a criação de vários eixos de poder complementares, convivendo sob uma mesma entidade política autoridades distintas. Embora se reconheça a supremacia de um determinado órgão em matérias específicas, o federalismo é por natureza poliárquico e multifacetado. 

 

Pode a Europa caminhar para um governo nacional centralizado? Pode. Mas nesse momento deixará de ser “federal” para se tornar “unitária” ou “jacobina”. Infelizmente, de tanto vilipendiarem o “verdadeiro” federalismo, os nacionalistas e os “soberanistas” estão a acabar por promover o pior de uma “terceira via”: um centralismo mal amanhado, anti-democrático e perigoso, sobretudo se alicerçado no Directório franco-alemão.

 

Por outro lado, importa recordar que o federalismo não se resume à sua dimensão institucional. “Mais federalismo” não implica novas estruturas de poder, órgãos de decisão ou comissões governativas. O federalismo não se esgota na sua índole formal, sendo também (ou sobretudo?) uma dinâmica, um instrumento de cooperação entre entidades colectivas ou individuais para a obtenção de interesses comuns. Neste sentido, a Europa está repleta de federalismo institucional, mas tem um longo caminho a percorrer no que respeita à dimensão cooperativa do federalismo. “Mais federalismo” não tem de significar “mais tratados” ou “mais instituições”, mas sim “mais colaboração” ou “mais inter-dependência” – o contrário do que temem os “soberanistas”.

 

[com a vossa permissão, texto republicado 18 meses depois, pela curiosidade das circunstâncias]

A árvore e a floresta


josegomesandre,

A crise chama o populismo, que com ele traz a vertigem pelo acessório, pelo trivial, pelo mesquinho. Nos últimos dias, os jornais, os blogs e as redes sociais encheram-se de indignados comentários sobre o ministro que trocou a Vespa pelo Audi, o deslize freudiano de um deputado e uma pretensa “gaffe” da Presidente da AR. No entretanto, a União Europeia vive a maior crise da sua história e o euro está em colapso. Vamos empobrecer drasticamente, recuar ao PIB dos anos 80, ter taxas de juro brutais, um desemprego galopante e um clima económico irrespirável. Esqueçam as “imposições” da troika ou o “plano de austeridade” de Passos Coelho. O que aí vem, se vier, será pouco menos que um desastre épico.

 

Mas que importa tudo isso, se há ministros a usar carros de alta cilindrada e deputados a gozar de um fim-de-semana antecipado?

A história repete-se


josegomesandre,

Sobre a dívida pública, duas opiniões contraditórias:

Alexander Hamilton: ““O aumento da dívida pública é uma circunstância de enorme importância nos assuntos do país. Equivale ao estabelecimento do crédito público. Nenhum homem pode ter crédito se os seus títulos se vendem por um terço ou metade do seu valor: o mesmo se passa em relação ao governo; uma consolidação adequada da dívida pública torná-la-á uma bênção nacional.”

James Madison: “Nunca fui um defensor da doutrina de que as dívidas públicas são benefícios públicos. Considero-as, pelo contrário, como malefícios que devem ser removidos tão rapidamente quanto a honra e a justiça o permitirem.”

 

Foi isto escrito no Economist de ontem? No Der Spiegel da semana passada? Não. Data de 1791, quando uns ainda jovens Estados Unidos se viam a braços com uma colossal crise financeira. Não deixa de ser curioso ouvir nos “media” os relatos histéricos sobre a “crise dos nossos tempos”. É no que dá desconhecer o passado. Como nos diz Santayana, acabamos condenados a vivê-lo uma e outra vez…

Aforismos nocturnos


josegomesandre,

Um dos mais claros sinais da degradação nacional é a incapacidade de o país se libertar dos seus furúnculos. Como podemos sair do buraco se continuamos a pedir opinião às mesmas figuras que nos conduziram à desgraça? Nos debates televisivos pululam ex-políticos conhecidos pelos seus erros como governantes (há dias ouvi António Mendonça e Pina Moura a “proporem soluções” para o país). Já Teixeira dos Santos professa “Lições de Sapiência” em colóquios e universidades. O que se segue? Conferências de José Sócrates sobre ética pública?

Aforismos nocturnos


josegomesandre,

Se há coisa de que tenho pena é o cinismo que traz a idade. Tenho saudades do tempo em que acreditava que tudo era possível, que podia mudar o mundo, que não havia limites para o meu engenho e perseverança. Ganha-se em maturidade o que se perde em sonho.

Madeira independente?


josegomesandre,

Bem sei que nem sequer devíamos levar isto a sério, mas aqui fica a minha opinião: não convém confundir as circunstâncias com a essência dos problemas. Estamos fartos de Jardim? Possivelmente. Mas aceitar a independência da Madeira seria um erro estratégico inaceitável.
Para a Madeira, significaria o adensar do isolamento geográfico, um inevitável retrocesso económico e a provável condenação a se transformar num paraíso fiscal, atarefado com promoções turísticas no Carnaval e na passagem de ano. 

Para Portugal, representaria a perda de um entreposto comercial relevante e de uma posição geográfica que o liga aos interesses estratégicos (militares, económicos e políticos) de matriz atlântica (refiro-me aos EUA, ao Brasil e à América Latina em particular). Por outro lado, a independência da Madeira constituiria um golpe histórico na unidade nacional, que, para o bem e para o mal, conheceu justamente com a descoberta das Ilhas um momento capital para a sua existência e definição.
O governo da República não deve ceder perante as chantagens (actuais ou eventuais) dos políticos madeirenses, mas adoptar uma atitude precipitada prejudicaria gravemente os interesses do país. Por agora, conservemos a nossa compostura e recorramos a uma paciência medieval. Mesmo que nos apeteça pregar uma partida ao Alberto João.