Multiplicam-se as análises sobre o “fenómeno Lloret del Mar” e a trágica morte de um jovem de 17 anos. A culpa é dos pais. A culpa é da escola. A culpa é das agências de viagens. A culpa é do hotel. A culpa é dos espanhóis gananciosos. A culpa é dos vendedores de álcool. A culpa é da sociedade. Os únicos que não são culpados, claro, são os jovens envolvidos em festas bacanais, trips de comprimidos e noites sucessivas de shots. Enquanto não percebermos a necessidade de restaurar o conceito de “responsabilidade individual”, estaremos condenados a procurar culpas como agulhas num palheiro.
Culpas
josegomesandre,

Subscrevo quase inteiramente. Não sei se os pais não têm uma quota parte da responsabilidade. Concordo com a ausência de responsabilidade individual. É assim que são educados em casa. Se algo acontece, a culpa nunca é dos adolescentes.
Concordo, Leonor.
Não escrevi mais nada porque expressaste na perfeição o que acho!
Pergunto-me se esta disponibilidade absoluta do presidente da Câmara de Castro Verde para usar os dinheiros públicos a pagar o regresso da juventude que foi com dinheiro próprio e vontade determinada para aquele lugar não é a face mais visível desta falha social de não se cultivar a «responsabilidade individual» como dimensão da pessoa. Ou eu ainda não compreendi o problema ou há neste poder de dispor da coisa pública a porta aberta para que a juventude já tenha interiorizado a ideia de que o colectivo assumirá as suas culpas, suas dela, da juventude, e as compreenderá numa dimensão de serviço público, sim, nessa concepção de que o seu, dela, divertimento é um direito social.
Também achei desproporcionado o apoio dado pela Câmara de Castro Verde aos miúdos/graúdos/matulões, que foram brincar para a praia, desenquadrados da Família e da Escola. Que a morte do rapaz foi uma desgraça, para ele e para a família, foi. Que esta família mereça comiseração, tudo bem. Que os seus companheiros e as suas famílias, mereçam aqueles apoios todos, dados com dinheiros públicos, duvido.
“jovens envolvidos em festas bacanais”… Raios, onde é que estavam essas festas quando eu tinha 17 anos?
Não estavam… No meu tempo, há uns bons cinquenta anos, bacanais só nos relatos históricos da Roma antiga…
Pelo menos, ficamos a saber que certo jornalismo não larga a coisa até que a culpa seja consensual.
😀
1)É menor – não pode ser inteiramente responsabiizado.
2)Se se confirmar a suspeita (forte) de suicídio, ainda menos
3) O efeito de certas drogas em menores é imprevisível
4) Não é o primeiro menor a morrer tragicamente neste local e nesta circunstâncias, o que parece apontar mais para “factores externos” – ou seja alguma periculosiadade externa.
“Restaurar o conceito de responsabildiade individual”? Restaurar, José? Em que momento histórico é que ele existiu assim tão universamente que até abrangia rapazes de 17 anos de Castro Verde? Ia jurar que o que se passou foi um caso exemplar de uma máxima filosófica creio que de Putnam: shit happens.
É verdade. Mas digamos que tem mais tendência a acontecer em certas situações 🙂 Esse conceito já foi relevante nas sociedades ocidentais, caro José. Não o é hoje. Abraço!
Boa reflexão, Zé!
Onde vão os bons tempos em que os jovens apenas se ajoelhavam em rotundas, em jeito de reza, e diziam ter visto a luz? 🙂
Penso que responsabilidade, álcool, drogas e… infelizmente, agora não é rock’n’roll, não combinam muito bem.
Toda a gente sabe que os jovens cometem abusos. Toda a gente sabe que eles têm cada vez mais poder de compra (apesar da crise) e que isso lhes permite fazer consumos de substâncias que seriam impensáveis há algum tempo. Toda a gente conhece os efeitos nefastos desse consumo. Contudo, toda a gente, ou quase toda, prefere fechar os olhos a mais um problema. Preferem políticas de proibição em vez de educação.
Falar sobre o consumo de álcool e drogas, não implica um incentivo ao seu consumo, muito pelo contrário. Tal como não acontece com o sexo, mas continuamos a desprestigiar a necessidade da educação neste campo.
Talvez eu seja muito liberal, mas parece-me que se estes jovens soubessem o que podem beber, que tipo de drogas existem, como identificá-las, e o que não podem misturar de maneira alguma, veríamos menos casos trágicos destes nas notícias.
Já agora, parabéns pelo livro e pela outra novidade que a Cátia já me cuscou. 🙂 bjs
Não descurando a parte da “responsabilidade individual”, é obvio que os pais e a sociedade têm grande responsabilidade nos valores que transmitem e ensinam ao jovens. Aquilo que eles são, o que fazem e como o fazem, resulta da sua formação intelectual, da educação familiar, do meio em que se inserem. Quer se queira quer não, a culpa é sempre partilhada. Infelizmente casos destes não servem para evitar outros e pelo menos para isso deveriam servir.
Num inquérito do Jornal de Notícias sobre haver ou não haver o velho exame da antiga 4.ª classe, mais de 75 % dos respondentes concordam com o exame.
A inefável Ana Benavente (coordenadora não sei de quê ‘observatório’ relacionado com Educação) opõe-se ferozmente que este governo se empenhe em que as criancinhas aprendam a ir para a faculdade a saber ler e escrever razoavelmente e sem darem demasiados erros ortográficos e gramaticais, porque, diz a senhora Benavente, isso traumatiza os meninos e as meninas.
Esta senhora Benavente , é a tal que, no governo do ‘bonzinho’ do Guterres (aqui começou o descalabro das contas públicas), sendo a responsável pelo facilitismo da Educação, dizia ao país, a propósito das queixas dos professores derem sovados e humilhados pelos ‘putos’ nas aulas, uma ‘lamparina’ dada num professor, por um aluno, era apenas sinal sadio de afirmação dos adolescentes.
Perante isto, batatas…
Fazer exames nunca fez mal a ninguém. Fiz muitos e aprendi ser responsável como estudante.
O nacional facilitismo levou ao estado de ignorância dos próprios ministros que dizem hadem e aos jornalistas que dizem interviu.
A minha filha está em viagem de finalistas. Não está em Lloret del Mar, mas eu estou à beira do desespero. Por muito que tente falar com naturalidade, ela percebe a minha preocupação e telefona cada vez com mais frequência. Há pouco, enquanto falávamos, perguntou-me “Não tens dormido nada, pois não?”
Foi ela que me deu a notícia sobre a morte do rapaz. “Mãe, aqui está tudo bem, mas já morreu um rapaz em Lloret.”
Não tenho a clarividência necessária para emitir opinião sobre este assunto. No entanto, magoa-me ver a geração a que a minha filha pertence caracterizada assim, como um bando de bêbedos, delinquentes que se atiram de janelas e caem sufocados no próprio vómito. Em muitos casos corresponde à verdade, mas para outros – muitos mais – é uma grande injustiça.
A esta hora muitos devem estar a pensar “cá está mais uma mãe iludida a pensar que a filha é um anjo”. É possível, mas acredito realmente que ela não é assim. Há milhares de jovens que não são assim e cujos pais estão neste momento a viver a mesma angústia que eu, duvidando dos filhos, da educação que lhes demos, da família que somos.
Julgar os filhos dos outros é fácil. Porém, educar os nossos é uma tarefa tão complexa que dura a vida toda.
Admitindo que tenha cometido algum erro ao enviar o meu comentário a este post, aqui vai a repetição:
Tem toda a razão: não é fácil, hoje, “criar” um filho, ou uma filha. Compreendo o seu problema. Mas, estou consigo: os jovens não são todos iguais e a maioria não se embebeda, nem faz as figuras tristes que nós vemos na TV.
Todavia, temos que admitir que a actual geração de pais é um bocado permissiva. Talvez para compensar o rigorismo da geração anterior. Resta-nos esperar que a actual geração de jovens venha a ser uma geração de pais mais equilibrada e que a sua filha esteja entre eles. Há que ter esperança no futuro, penso.
Concordo, há uma grande permissividade, fruto de muitas teorias. Não me revejo entre esses pais permissivos, até porque tive de ser pai e mãe desde muito cedo, não havia muito espaço para cedências. Eu tenho de ser o abrigo mas também a autoridade, tarefas que os pais/casais habitualmente dividem entre si.
Mas a minha filha não é especial, nem única (a não ser para mim, claro!). Os amigos e colegas dela também são jovens normais, com aspirações e sonhos, esforços e sacrifícios.
Pegando na sua deixa e reportando-me também ao post inicial, acho que a maior culpa é dos pais, sim. Somos nós que os educamos, que lhes damos os valores, sobretudo através do exemplo. Se eles não têm esse conceito de responsabilidade individual, é porque nós falhámos, não soubemos ou não quisemos incuti-lo, preferimos descartar as culpas na escola, ou na sociedade, ou simplesmente andámos demasiado ocupados e cansados para tomar atenção.
Embora não me reveja nesses comportamentos e até seja acusada pela minha família e amigos mais próximos de ser demasiado exigente e pouco tolerante, não posso deixar de me incluir e falar em nós. Além de detestar pessoas que nunca erram, tenho consciência que, ao longo do percurso, já devo ter falhado muitas vezes.