Poetas esquecidos (5)


convite,

Estive durante a toda a manhã numa reunião de corpo presente. Adoptei a atitude que assumo em circunstâncias que tais: costas direitas e um olhar de indesmentível atenção cravado em quem está a falar. O pensamento, o pensamento vai andado por ali e por acolá. Trabalho imenso nestas circunstâncias. Hoje, preparava-me para pensar num conto de Natal, coisa que alguém tem sempre a malfadada ideia de me pedir por esta altura, quando o lado da minha mente vocacionado para os deveres e obrigações já assumidas me travou a fundo: “Então e os poetas esquecidos?” Pois é, vamos lá.

António Nobre. Não sei porquê, que só costumo pensar em António Nobre uma vez por ano, na altura em que vejo as fotografias das festas da Senhora da Agonia:

 

Georges! anda ver meu país de romarias
E procissões!
Olha estas moças, olha estas Marias!
Caramba! dá-lhes beliscões!
Os corpos delas, vê! são ourivesarias,
Gula e luxúria dos Manéis!
Têm nas orelhas grossas arrecadas,
Nas mãos (com luvas) trinta moedas, em anéis,
Ao pescoço serpentes de cordões,
E sobre os seios entre cruzes, como espadas,
Além dos seus, mais trinta corações!

 

António Pereira Nobre nasceu em 1867 no Porto, onde morreu em 1900. Desencantado, ou desencontrado, com Direito em Coimbra (a nossa Laura ainda não estava lá para o encaminhar…) mudou-se para Paris para estudar na École Libre de Sciences Politiques. Durante muito tempo as Sciences Po fizeram parte do meu imaginário; eu pensava nas Sciences Po e via a cabeleira e a allure blasée de Bernard-Henry Lévy… agora transformou-se com os alunos desagradáveis que a frequentam e já não consigo pensar nas Sciences Po com um suspiro de glamour (o que não é a mesma coisa que um suspiro glamouroso, não tenho essas veleidades). Adiante: em Paris, Nobre priva com Eça de Queiroz, que na altura era cônsul na cidade, e com os paladinos do simbolismo, influência que o marca profundamente.  

Grande parte do Só, a sua única obra publicada em vida, foi escrita em Paris e traz nela, talvez pelo distanciamento, uma nostalgia de exilado, a falta  de um paraíso que se perdeu, o paraíso da infância feliz e da juventude descuidada, a Sehnsuchtdos românticos com um rosto bem português: a saudade dos espaços conhecidos, das romarias, de um real onde se cruzam a amargura dos seus estados e alma com a consciência de um tempo de mudança. O mundo poético finissecular vive muito dessa junção entre as agonias do eu interior e a mimese do real circundante, aguarela de um mundo que, rapidamente, se iria transformar.

A tuberculose agarra-o aos 33 anos, cortando-lhe cerce os planos de uma carreira diplomática.

Peço clemência porque estive a escrever longe de fontes de informação: as datas e os textos vão de memória. Ao fim da tarde, venho corrigir:

 

Virgens que passais, ao Sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente,
Que me transporte ao meu perdido lar.

 

Cantai-me, nessa voz omnipotente,
O sol que tomba, aureolando o Mar
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a graça, a formosura, o luar!

 

Cantai! Cantai as límpidas cantigas!
Das ruínas do meu lar desaterrai
Todas aquelas ilusões antigas

 

Que eu vi morrer num sonho, como um ai….
Ó suaves e frescas raparigas,
adormecei-me nessa voz… cantai !

Ulisses, meu amor


convite,

Tive, há séculos, uma professora de História que estava apaixonada pelo David de Miguel Ângelo. Falava da estátua como quem fala do namorado que espera no café ao fundo da rua o momento da nossa chegada. Na altura, para a minha compreensão de adolescente, aquilo era uma excentricidade. Uma excentricidade engraçada, que eu era menina de devaneios e pensava que não seria de todo má ideia apaixonar-me assim por quem, de pedra, não pudesse desencantar-me e, eternamente, se detivesse num gesto sem reparo.

Aprendi, depois e com o tempo, claro,  que a perfeição é a coisa mais irritante que existe. E a exibição da perfeição é insuportável.

Lembram-se do conto de Eça de Queiroz “A Perfeição”? O conto recria o episódio da Odisseia durante o qual Ulisses é retido pelo desejo de Calipso na ilha de Ogígia. Tudo na ilha, da ninfa às flores, é perfeito e imutável. Ulisses cansa-se de não se cansar e anseia o regresso às dificuldades. Zeus, então, envia Hermes à ilha. Calipso, que regressava do spa de correntes inexauríveis ao fundo da ilha, pronta para se sentar à mesa que as ninfas domésticas haviam já decorado com o tema do dia, deparou com o mensageiro divino sentado a bebericar ambrosia. “Pois é, filha, o chefe quer que te deixes de cenas. Dá lá ao homem do que necessite para se fazer ao mar e não te lamentes. Esta ilha fica na rota de quem se perde no mar, não terás a cama vazia por muito tempo.” Calipso olhou os sacos de guardanapos que mandara bordar com um U em fio de ouro e para a gruta decorada em branco e bege claro, muito zen, e suspirou. Mas as ordens de Zeus são o que são e subverter a hierarquia olímpica não era coisa que passasse pela cabeça de uma imortal que se prezasse. Eça de Queiroz não sabia grego e lera, com certeza, a Odisseia numa tradução francesa. Todavia, o ponto fulcral está lá, certíssimo, na última frase, quando diz que Ulisses partiu para a “delícia das coisas imperfeitas”. Nem mais. (Só para os marinheiros mais novos que, eventualmente,  aqui aportem: o conto de Eça não tem, como é óbvio, os pormenores pós-modernos de spas e guardanapos com que polvilhei esta conversa.)

Nem a perfeição nem a imortalidade convinham a Ulisses. E se a Ulisses não convinham, a mim assustam-me. Algumas vezes, dou de caras com a exibição de uma perfeição tão ostensiva que é absolutamente aterradora. Movem-se como se nada nas mãos lhes murchasse, nenhum plano lhes saísse gorado, nenhuma amargura lhes enovelasse os fins-de-semana idílicos. Afasto-me dessa rota, cautelosamente. O nome de Calipso provém do verbo grego kalupto que significa ocultar. Calipso é a Ocultadora. Há sempre uma ilha de Ogígia para quem gostar de um décor clarinho, verde água, com energias positivas e muitos livros de auto-ajuda nas estantes. É procurá-la e aceitar o preço da imortalidade. Cá fora, onde a vida é de brocado cor de fogo, morre-se muitas vezes. Outras, apenas se desespera, mas estou convencida de que é infinitamente melhor.

 

 

(Texto já publicado não me perguntem onde:  os meus ficheiros vagueiam numa desordem dantesca.)

O espírito de outros natais by Luís M. Jorge


convite,

Diz o nosso Luís M. Jorge no seu Vida Breve:

 

Com o passar dos anos tornamo-nos conservadores, não por razões filosóficas mas porque o progresso nos dói e já não nos traz boas notícias. Eu só queria a minha fruta, a minha prenda e a minha lampreia tal como eram quando eu era criança e o tempo ainda não existia. Mas sei que é pedir muito.

 

Na mouche.

Poetas esquecidos (4)


convite,

Acho que foram os primeiros versos que decorei, de saia vermelha com peitilho e blusa branca de mangas tufadas, e repetia na frente do meu pai que acompanhava de mão no ar, qual batuta de maestro:

 

Olho-a através da vidraça.

Pôs tudo da cor do linho,

Passa gente e, quando passa,

Os passos imprime e traça

Na brancura do caminho …

 

O meu pai decidiu, pelos meus quatro anos, ensinar-me a ler a escrever. Discutível opção que dava outro post. Do ensinamento fazia parte o exercício da memorização. Coisa blasfema para os ouvidos de um pedagogo actual, sei bem, mas a mim não me fez mal. A memória, ginasticada de tenrinha, sempre meu deu um jeito dos diabos ao longo da vida.

Claro que decorar aquelas coisas e repeti-las, sem tropeçar, era um gozo que me dava. E, atrás desse, veio o gozo de ler sem repetir, de cor, o que tinha lido, o gozo do silêncio, a só com os textos. As minhas tias, nos fins-de-semana em casa dos meus avós, reprovavam aquela educação. Mulheres práticas, não conseguiam pôr-me a coser um botão. “Esta mocinha não sabe fazer nada.”, diziam. A Lucinda, herança de outros tempos e que, naquela altura já só vinha aos sábados para ajudar nos almoços, reclamava : “Ah, meninas! Não gosto nada de ouvir dizer isso. Ela escreve tão bem uma cartinha.”

Fiquei, assim, com poucas prendas das que são realmente úteis. E, também, muito desarrumada, defeito esse que está a contaminar este post, pois não era de mim que ia falar mas de Augusto Gil.

Augusto César Ferreira Gil nasceu em Lordelo do Ouro em 1873 e morreu em Lisboa em 1929. O Simbolismo, de que já falei a propósito de Eugénio de Castro, marca os seus textos, mas o Parnasianismo ainda mais. É uma poesia de rigoroso apuro formal, ritmada num tom de toada, que entra no ouvido. Os teóricos englobam na designação de pós-românticos um grupo, no qual Augusto Gil se insere, que vai de Abel Botelho a Wenceslau de Moraes, juntando, como facilmente se vê, poéticas de matrizes diversas e de diferentes linguagens. Estou em crer, todavia, que a poesia finissecular portuguesa é precisamente isso, uma tessitura de diferente cores, com um ou outro traço mais vincado, o Simbolismo, o Parnasianismo, o neo-romantismo nacionalista de António Nobre. De todos eles, Augusto Gil recebeu inspiração que frutificou.

Queria, antes de um poema, deixar aqui um excerto de uma, já de si, curta autobiografia, escrita em 1926. Peço-vos uma leitura benevolente, sem juízos moralistas. O zeigeist pode muito sobre o espírito de um homem.

 

Tive sarampo em menino. De então para cá, a minha atabalhoada existência foi sempre lamentavelmente e variavelmente patológica. Quanto a dores morais, boa dose também. […] Mas, em contrapartida, guardo na memória também, com gratidão, vários instantes saborosos. Exemplo: o primeiro beijo de amor, ou como deva chamar-se-lhe. Deu-mo a nossa criada Miquelina. Era de Fornos de Algodres e tinha uma belida na vista esquerda. Ainda assim, uma alva e atraente mulheraça com seios de tão elástica rijeza que, sob a cobertura do chambre, pareciam mesmo dois toiros marrando à porta do curro. Já faleceu, coitadinha.

Outro prazer, que me deixou a transbordar de narcisado enlevo, senti-o na manhã em que um jornalista amigo botou do alto do hebdomadário provinciano, onde pontificava, esta descarada e generosa falsidade: ser uma pessoa de talento. Tão tontinho me pôs a leitura da gazeta – que até acreditei! Breve se me esvaiu essa ilusão. Por mais busque no meu passado e rebusque no meu presente, não há maneira de apurar meia dúzia de acontecimentos merecedores de projecção pública e capazes de embandeirarem-me a autobiografia. Não os encontro. Não os há …. A frase que melhor me qualifica é daqueles anúncio do Diário de Notícias em que as criadas de segunda ordem inculcam a sua aptidão: “o trivial”.

Que devo acrescentar? Fiz asneiras abundantes e a maioria delas em verso rimado. Versejar na época recorrente é ridículo, é vexatório, é indecência fóssil. Todavia, há pechas mais degradantes: ser pederasta, ou rufião – ou ministro …. Perdoem-me o emprego desta palavra obscena.

 

Não vai correr-me bem ter plasmado aqui este texto, mas adiante que dos poetas quer-se a poesia e aqui fica este, sobre um artigo do Código Civil que, entretanto, foi alterado:

 

Art. 1056º do Código Civil

 

Oiça, vizinha, o melhor

É combinarmos o modo

De acabar com este amor

Que me toma o tempo todo.

 

Passo os meus dias a vê-la

Bordar ao pé da sacada,

Não me tiro da janela,

Não leio, não faço nada …

 

O seu trabalho é mais brando,

Não lhe prende o pensamento,

Vai conversando, bordando

E acirrando o meu tormento …

 

O meu não: abro um artigo

Da lei, mas nunca o acabo,

Pois dou de caras consigo

E mando as leis ao diabo.

 

Ao diabo mando as leis

Com excepção de um artigo:

O mil e cinquenta e seis …

Quer conhecê-lo? Eu lho digo:

 

“Casamento é um contrato

Perpétuo.” Este adjectivo

Transmuta o mais lindo pacto

No assunto mais repulsivo.

 

“Perpétuo!” Repare bem,

Que artigo cheio de puas.

Ainda se não fosse além

Duma semana, ou duas …

 

Olhe: tivesse eu mandato

De legislar e poria:

Casamento é um contrato

Duma hora – até um dia …

 

Mas não tenho. É pois melhor

Combinarmos algum modo

De acabar com este amor

Que me toma o tempo todo.

Esta ditosa língua minha amada


convite,

Hoje, um grupo de adolescentes escrevia um, digamos, requerimento no qual se dirigiam a entidade que lhes era hierarquicamente superior, dizendo que vinham “pedir a V. Exª que … “. Interrompi-lhes a redacção. Havia que substituir “pedir” por “solicitar”. Grande e clamorosa oposição. Ora essa, diziam, pois então não eram sinónimos? Sim, na substância, porém a carga semântica era diferente. Se fosse a entidade a querer alguma coisa deles,  diria “peço que”. Na prática: solicita-se para cima, pede-se para baixo.

Em redor do imberbe grupo, quatro ou cinco pessoas que já não são imberbes há mais de 40 anos resolveram fazer coro. Que só eu tinha estas esquisitices, que só eu olhava para estas coisas, que só eu assim e assado.

A rebelião crescia, mas como a redacção do papelucho estava sob a minha responsabilidade, decidi-me por um argumento de autoridade. Mandei que fosse escrito : “. .. vêm, respeitosamente, solicitar a V. Exª se digne autorizar …”

Sou uma ditadora. Fora de moda, ainda por cima.

Poetas esquecidos (3)


convite,

Os homens do 2º Modernismo, os da geração da Presença, sempre me pareceram umas figuras sisudas e ensimesmadas. Nada de mal nisso, eu até gosto de gente ensimesmada, que fique claro. Talvez o propósito quase folião de épater le bourgeois tivesse terminado com os poetas do Orfeu e os tempos fossem, então, de outras gravidades.

Falo hoje de José Régio. De José Maria dos Reis Pereira, o poeta. Nasceu em Vila do Conde em 1901 e lá morreu em 1969. Entre as duas datas há um percurso dado às letras como poucos, um percurso que vai da dramaturgia ao ensaio, do conto à poesia, da crítica à novela. Com João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca funda, em 1927, a revista Presença que será publicada até 1940 e a cujo projecto se manterá ligado. Dir-me-ão, agora, que José Régio não é um poeta esquecido. Que toda a gente conhece o “Cântico Negro” ou a “Toada de Portalegre”. Claro, mas e de Régio, lembram-se? Da solidão orgulhosa em que se comprazia, de uma certa forma de misantropia que era apenas timidez, da insatisfeita resignação com que aceitava os conflitos com si mesmo e com o mundo:

 

Quem desespera dos homens,
Se a alma lhe não secou,
A tudo transfere a esperança
Que a humanidade frustrou

 

São versos da “Toada de Portalegre”, Portalegre em cujo liceu foi professor e onde morou 30 anos na “estranha casa, lá do largo de cemitério” exposta ao vento descrito pelas aliterações de que o nosso Pedro tanto gosta:

 

Toda aberta ao sol que abrasa,

Ao frio que tosse e gela
E ao vento que anda, desanda,
E sarabanda, e ciranda
Derredor da minha casa,

 

A janela aberta da casa de Portalegre deixa ver também a dor dos outros, a “tragédia da planície” como lhe chamaria Vergílio Ferreira mais tarde:

 

( Lá vem o vento suão!,
Que enche o sono de pavores,
Faz febre, esfarela os ossos,
E atira aos desesperados
A corda com que se enforcam
Na trave de algum desvão…)

 

Em Régio, mais do que um registo sentido e apurado do sofrimento e da dor, há uma consciência estética da mágoa como se, sendo sua, dele saísse para ser, ao mesmo tempo, uma belíssima e excruciante companheira de viagem. Para sempre.

  

ÍCARO

  

A minha Dor, vesti-a de brocado,

Fi-la cantar um choro em melopeia,

Ergui-lhe um trono de oiro imaculado,

Ajoelhei de mãos postas e adorei-a.

 

Por longo tempo, assim fiquei prostrado,

Moendo os joelhos sobre lodo e areia.

E as multidões desceram do povoado,

Que a minha dor cantava de sereia…

 

Depois, ruflaram alto asas de agoiro!

Um silêncio gelou em derredor…

E eu levantei a face, a tremer todo:

 

Jesus! ruíra em cinza o trono de oiro!

E, misérrima e nua, a minha Dor

Ajoelhara a meu lado sobre o lodo.

Poetas esquecidos (2)


convite,

Tenho andado esquecida dos meus poetas esquecidos. Vamos, então, a isto que o prometido é devido. Não quero seguir nenhuma ordenação cronológica em especial. Hão-de sair-me da memória, ao acaso, e pousar aqui.

Eugénio de Castro. Eugénio de Castro e Almeida nasceu em Coimbra em Março de 1869. Formado em Letras, enceta uma breve carreira diplomática em Paris onde se torna amigo de Jean Moréas e Henri de Régnier e aprofunda o conhecimento das obras de Mallarmé, Verlaine e Khan. Regressa a Coimbra para ensinar na Faculdade Letras. Ainda vão dizer que só estou a trazer para aqui poetas que foram professores nas Letras em Coimbra. Até gosto deles, agora que me passaram os traumas, mas não: hão-de vir outros que não tenham andado na Rua da Sofia. (;)

Com Manuel da Silva Gaio, dirige a revista Arte, depois de ter fundado e colaborado com a Os Insubmissos e a Boémia Nova.

A publicação, em 1890, do livro Oaristos coloca-o na história da literatura portuguesa como o introdutor do Simbolismo em Portugal.

Dir-me-ão, talvez, que em Portugal nunca houve um verdadeiro Simbolismo, à excepção de Camilo Pessanha. Podem, talvez, dizer-me que Eugénio de Castro é um poeta menor e eu até posso, num dia em que esteja menos refilona, concordar.

Oaristos, uma palavra que significa diálogos íntimos (mais para o lado da conjugalidade), traz no seu Prefácio um pequeno manifesto do Simbolismo, assumindo uma posição crítica face ao léxico da poesia portuguesa da época, pobre e repetitivo, e preconizava um aproveitamento da musicalidade da língua por puro deleite estético.

Com os simbolistas, a palavra liberta-se de um significado que a aprisiona e limita e torna-se um puro significante, vale pelo som e pelo símbolo, não apenas pelo que significa. Com o Simbolismo, abrem-se caminhos para novos modos de exprimir.

A Eugénio de Castro juntam-se Alberto Osório de Castro, Alberto de Oliveira, António Nobre, Júlio Brandão, entre outros. Eram os “nefelibatas”, designação um bocadinho pejorativa. Vem do grego: são os que andam nas nuvens. O Simbolismo português é, antes de mais, uma atitude estética, não é a filosofia do decadentismo francês de final de século. É um virar de costas ao pesadume exaltado do ultra-romantismo, é “de la musique avant toute chose”.

E fica aqui um poema óptimo, por sinal, para fazer um ditado ali aos amigos da Leonor:

 

Um sonho.

Na messe, que enlourece, estremece a quermesse…
O sol, o celestial girassol, esmorece…
E as cantilenas de serenos sons amenos
Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos…

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros…
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves.

Flor! enquanto na messe estremece a quermesse
E o sol, o celestial girassol esmorece,
Deixemos estes sons tão serenos e amenos,
Fujamos, Flor! à flor destes floridos fenos…

Soam vesperais as Vésperas…
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros…

Como aqui se está bem! Além freme a quermesse…
– Não sentes um gemer dolente que esmorece?
São os amantes delirantes que em amenos
Beijos se beijam, Flor! à flor dos frescos fenos…

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros…
Cornamusas e crotalos,
Cítólas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves…

Esmaiece na messe o rumor da quermesse…
– Não ouves este ai que esmaiece e esmorece?
É um noivo a quem fugiu a Flor de olhos amenos,
E chora a sua morta, absorto, à flor dos fenos…

Soam vesperais as Vésperas…
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros…

Penumbra de veludo. Esmorece a quermesse…
Sob o meu braço lasso o meu Lírio esmorece…
Beijo-lhe os boreais belos lábios amenos,
Beijo que freme e foge à flor dos flóreos fenos…

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros…
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves…

Teus lábios de cinábrio, entreabre-os! Da quermesse
O rumor amolece, esmaiece, esmorece…
Dá-me que eu beije os teus’ morenos e amenos
Peitos! Rolemos, Flor! à flor dos flóreos fenos…

Soam vesperais as Vêsperas…
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros…

Ah! não resistas mais a meus ais! Da quermesse
O atroador clangor, o rumor esmorece…
Rolemos, b morena! em contactos amenos!
– Vibram três tiros à florida flor dos fenos…

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros…
Cornamusas e crotalos,
Citolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves…

Três da manhã. Desperto incerto… E essa quermesse?
E a Flor que sonho? e o sonho? Ah! tudo isso esmorece!
No meu quarto uma luz luz com lumes amenos,
Chora o vento lá fora, à flor dos flóreos fenos…

A culpada, um post para os brelianos


convite,

O nome dela era Suzanne Yvonne Henriette Marie Galopet. Actriz, escolhera o stage name de Suzanne Gabriello. Foi para ela que Jacques Brel gritou Ne quitte pas.

Mas, ah, os mitos! ao contrário do que a letra deixa supor, foi Brel quem a deixou. Suzanne estava grávida e o cantor não queria reconhecer a futura paternidade. Ela acabaria por abortar no meio de uma profunda crise depressiva.

Mais tarde, Brel diria que Ne me quitte pas não era uma canção de amor, mas sim uma canção sobre a cobardia do homem.

Suzanne morreu de cancro em 92 e, por esta altura, já devem saldado todas as contas.

Lembro-me de ter lido uma entrevista na qual uma das filhas de Jacques Brel dizia que o pai era igual aos bourgeois que vilipendiava nas canções.

Por estas e por outras, hei-de preferir sempre a obra ao autor. Gosto de que leio, vejo e ouço. O resto, je m’en fous.

Ne me quitte pas pode ser canção de amar ou de rastejar (e ninguém diga desta água não beberei …), mas é sobretudo uma belíssima canção.

Postas assim as coisas, melhor, cantadas assim, eu teria ficado. Nem que fosse para me ir embora no dia seguinte.

 

Poetas esquecidos (1)


convite,

Desde que o nosso Pedro, há dias, trouxe para aqui uma capa de um livro de Reinaldo Ferreira que tenho andado a pensar no esquecimento. No esquecimento que vai caindo sobre prosadores e poetas, caindo cada vez mais denso até deles não restar mais do que um verbete mínimo numa história da literatura.

Posso até acreditar que o olvido exerce sobre a literatura um processo de selecção e que para a posteridade só ficam as personagens bigger than life ou os versos alados. Posso ainda pensar que quanto maior for o número de textos éditos, mais se apresentam a esse julgamento da memória e dele podem sair derrotados.

Quem lê hoje Trindade Coelho, Júlio Dinis, Ferreira de Castro, Fernando Namora, Alves Redol?

E quem lê Eugénio de Castro, António Feijó, Mário de Sá-Carneiro, Carlos de Oliveira ou a poesia de Vitorino Nemésio? Temo-los nas estantes, claro, mas iremos tirá-los de lá para abrirem uma clareira  nos dias do nosso descontentamento?

Assusta-me este modo rápido de ignorar quem escreveu, quem pintou, quem disse. Assusta-me porque me sabe a fim de festa, a ruas desertas, a tristeza.

Se olharmos para o lado, para os outros com quem a Fortuna mal começou a valsa, ver-se-á que ainda são mais os esquecidos.

Hoje, resolvi trazer-vos um deles : Vítor Matos e Sá.

Pseudónimo de Victor Raul da Costa Matos, nasceu em 1926 e morreu num acidente de viação em Fevereiro de 1975. Esteve ligado aos projectos editoriais da Távola Redonda, Árvore, Cadernos do Meio-Dia e Eros e foi catedrático de Filosofia na Faculdade de Letras de Coimbra, onde está instituído um prémio de criação poética com o seu nome. O livro que aqui tenho, Poesia de Vítor Matos e Sá, editada pela Campo das Letras em 2000 com organização e prefácio de Ana Paula Coutinho Mendes, reúne a obra completa.

 

É uma poesia aristocrática e cerebral. Belíssima, na minha opinião:

 

Deves viver, inesperada, à beira-morte,

prendendo teus gestos na curva do silêncio,

tocando a fronte dos deuses mais altos

como tu,

branca geometria de olhos puros,

construindo rosas, indícios, e uma vaga saudade

de noiva não nascida – a única

pelos humanos esperada eternamente

à nocturna varanda dos poemas.

Estou a ler A Mecânica da Ficção (1)


convite,

 

Ontem, na caixa de comentários ao post que escrevi sobre releituras, resolvemos iniciar uma série nova no Delito: Estou a ler …

Mais me valia ter estado caladinha, em dieta de posts. Coube-me começar a série, que avançará por ordem alfabética. Um por dia.

Como lá disse, de momento releio A Mecânica da Ficçãode James Wood. Não me perguntem o porquê da releitura. Não sei.

Lembro-me de ter estado, há dias, a escrever num mail uma frase de Mau tempo no canal , “Margarida não ia triste nem alegre: ia embrulhada no casaco cinzento, de gola puxada para cima”, porque era uma excelente frase para ilustrar o que pretendia dizer, mudada a cor do casaco.

Que associação de ideias fiz, não vo-la sei contar, o certo é que, dali a instantes, estava sentada no sofá a beber chá dos Açores e a ler, a reler, A Mecânica da Ficção.

James Wood é um renomado crítico literário, com aversões e admirações como qualquer bom crítico que se preze e, actualmente, professor de Prática da Crítica Literária em Harvard.

Neste livro, conduz-nos ao longo de pequenos capítulos aforísticos entre metáforas e diálogos, como se de uma visita guiada se tratasse. Wood aponta, mostra, chama a atenção. De Iris Murdoch a Tolstói, de Saramago a Joyce, de Proust a Virginia Woolf, de Updike a Shakespeare, de Coetzee a Flaubert, está lá tudo. Quase tudo.

Eu que me prendo, às vezes, nos emaranhados gongóricos de algumas frases e estilos e, por muito que não queira, acabo sempre por voltar ao damasco ondulado de certas formas de dizer e de contar as coisas, não deixo, não quero deixar nunca, de me deslumbrar com a capacidade iluminadora de parágrafos como este:

 

Em Sea and Sardinia, Lawrence descreve as pernas curtas do rei Vítor Manuel; mas refere-se às “suas pequenas pernas curtas”. Tecnicamente, não há necessidade para “pequenas” e “curtas” na mesma frase. Se Lawrence fosse um estudante, o seu professor teria escrito “redundância” na margem da folha e riscado um dos adjectivos. Mas se repetirmos a frase em voz alta, o que é redundante passa a ser inevitável. A frase precisa das duas palavras, porque só as duas juntas produzem o efeito cómico. E “pequenas” não significa exactamente o mesmo que “curtas”: as duas desfrutam da companhia uma da outra; e “pequenas pernas curtas” é mais original que do “curtas pernas pequenas”, por ser mais eufónico, mais absurdo, forçando-nos a tropeçar ligeiramente – um tropeção de pernas curtas – no ritmo inesperado.

 

Estou sempre disposta a que me ensinem a ler melhor. Estou convicta de que ler melhor é viver melhor.

E agora passo ao jaa.

 

Wood, James A Mecânica da Ficção

Tradução de Rogério Casanova

Livros Quetzal (2010)

Col. Textos Breves

ISBN 9789725648551

Da incompatibilidade dos meus sapatos com a chuva e suas consequências


convite,

Num post de ontem, no The Book Bench, um blogue do The New Yorker, Nathaniel Stein pergunta se a releitura de um livro será uma leitura melhor. Ou se, de algum modo, ela pode acrescentar alguma coisa às leituras anteriores.

É curioso como estes assuntos que merecem reflexão surgem do nada, assim ao virar da esquina, quando não se está à espera. Eu tinha pensado ocupar a hora do almoço com coisas menos elevadas, mas a chuva, que me agrada sempre muito, tem uma relação difícil com os meus sapatos. Foi só rugir um bocadinho mais alto que os meus saltos se retraíram num caprichoso “Não saímos, não saímos.” Estou calçada com dez centímetros de inutilidade, é o que é.

Para evitar guerras, sentei-me com o fito na leitura de um outro post, de Daniel Mendelshon, sobre traduções da Ilíada. A vida é assim: pensa uma pessoa que vai com um rumo e, quando se apercebe, está a seguir outro.

Stein parte do livro de Patricia Meyer Spack, On Rereading. Integrando o pensamento de Nabokov sobre esta mesma temática, atenta, sobretudo, no modo como a autora apresenta o acto de releitura, capaz de induzir no leitor um sentimento de culpa por estar a ocupar o seu tempo com mais uma leitura da mesma obra, quando, ao lado, podem estar todas as obras que mereciam ser lidas, pelo menos uma vez, e ainda não o fizemos. Não pude deixar de pensar no nosso Adolfo. (Ainda um dia te escrevo um conto : “O rapaz que queria ler o mundo”)

Ora bem, ninguém experimentará o sentimento de culpa de que fala Spack em relação a um filme ou a um quadro. Já vimos os mesmos filmes várias vezes. Já olhámos para o mesmo quadro muitas vezes. Precisámos, mesmo, de o fazer. São, todavia, experiências de fruição tidas num tempo e num espaço diversos. A leitura é uma actividade mais exigente e mais envolvente. Exige mais do leitor e das circunstâncias do leitor. Podemos admirar, calmamente, pela décima oitava vez, um quadro na parede de um museu, rodeados de japoneses de máquinas fotográficas palradoras. Está fora de questão termos um grupo de japoneses encavalitados no nosso cantinho de leitura. Teríamos de lhes dizer: “Ó se faz favor, podiam ir ver se está a chover? Arigato.*”

Voltando ao post de Stein que diz coisas muito interessantes e eu não, como está patente. Então, será a releitura uma leitura melhor? Não mudam as palavras, mas pode mudar a nossa percepção. Creio, até, que a percepção que se tem de uma obra pode mudar, ou melhorar com sucessivas releituras. Num comentário ao post, alguém diz que há livros que carecem mesmo dessas repetidas leituras para deles se apurar o entendimento.

Da apresentação que Stein faz do texto de Patricia Meyer Spack, sobressai, ainda, uma outra ideia que acho fundamental: a releitura diz sempre mais sobre a obra (este é, também, o pensamento de Nabokov), mas diz ainda mais sobre nós. Em que mudámos? Que nos aconteceu, o que é que aprendemos desde a última leitura?

Como fomos capazes de ter lido “aquilo”? Como é que não gostámos “disto” da primeira vez que o lemos?

Se Flaubert dizia: “Madame Bovary c’est moi.”, nada me impede de dizer: “Cada livro que leio sou eu.”

 

*Isto é japonês.

Blogue da semana: O Inútil


convite,

O seu autor, o Ega,  escreve num registo entre o irónico e o blasé. Um pouco diletante, às vezes pára por uns tempos largos. Depois volta e fala-nos dos livros que leu, de uma osga que não matou, de alguns telefonemas, do literário encanto das estações de comboios. E é contra o acordo ortográfico, o que é sempre muito bom de ler.

O blogue da semana é: O Inútil.

Subsídios para uma teoria do direito ao pessimismo


convite,

A minha linha de pensamento é a do pessimismo moderado. Eu diria, até, bastante moderado. Acontece que uma tremenda constipação, ou gripe ou qualquer coisa do género, vem sempre acentuar, com escuro e sombra, a minha weltanschauung.

A coisa torna-se tão complicada que, em adormecendo, é fatal sonhar com Böcklin. Estão a ver aquele quadro de Arnold Böcklin, A Ilha dos Mortos? (Tenho de aprender a colocar aqui imagens). Sonho sempre com esse quadro, em qualquer uma das suas versões. E sou eu quem vai embrulhada numa mortalha pelas águas do esquecimento a caminho da morte. Provavelmente, isto terá cura, bastará ir ao médico e perceber o que me atinge quando uma constipação me atinge. Eu acho os médicos excelentes companhias para se beber um café e conversar um pouco, agora visitá-los no exercício da sua profissão já é coisa que evito. São demasiado generosos: a pessoa chega lá com uma dor e eles, solícitos, descobrem logo mais umas quantas nas zonas adjacentes. Adiante. Ontem, fui assolada numa constipação galopante.

A meio da tarde, toca a campainha. Eram umas senhoras de uma religião qualquer. Na semana anterior tinham passado por cá a querer dar-me conta de todos os motivos que existem para a felicidade e para a esperança. Procuro sempre ser diplomática nestas questões. Disse-lhes que estava ocupada e que na próxima semana, talvez, as pudesse ouvir. Pontuais, voltaram ontem. Eu continuei ocupada, e ocupada por uma constipação que não me deixava espaço para teologias.

Final da tarde, supermercado. Precisava de fruta e queria passar pela livraria adjacente em demanda da tradução, numa edição bilingue, de poemas de Emily Dickinson feita por Jorge de Sena que já vira por lá. Pois é, só que até chegar onde pretendia, atravessei corredores e estantes cheios de livros cujos títulos queriam obrigar-me a ser optimista, a olhar a vida com olhos esperançosos, a despertar energias positivas e outras bizarrias do género.

Saio de lá e encontro uma amiga que, rapidamente, diagnostica que estou muito em baixo. Claro: eu, já no meu estado normal, não sou nada que se aproveite quanto mais de nariz fungante, olhos lacrimejantes e olheiras indisfarçáveis. Nem me deu tempo de lhe chamar a atenção para o meu estado clínico, de imediato, levantou voo numa prelecção sobre a importância do pensamento fofinho num mundo desumanizado, ou qualquer outra coisa dentro dessa linha, porque, a certa altura, deixei de a ouvir.

Consegui, finalmente, chegar junto dos dióspiros enquanto tentava encetar um raciocínio. Há uma agressão permanente, feita de forma pouco subtil, ao ser pessimista. No meu caso, enfim, há um pessimismo transitório. Um pessimismo que, quer parecer-me porque também não sei tudo a meu respeito, vive das circunstâncias, mormente da minha apetência pela exposição às correntes de ar porque o fresquinho sabe tão bem. Mas, e quem é intrinsecamente pessimista? Não terá direito à fruição da descrença e da amargura sem ser permanentemente questionado pelos teóricos do vamos-ser-todos-felizes, armados de frases feitas?

Da mudança de ideias


convite,

Em 1916, no único número da revista Centauro, Luís de Montalvor escreveu: “Somos descendentes do século da decadência e só a beleza nos interessa.”

Durante muitos anos pensei que era um bom lema para um projecto de vida. Agora, inclino-me mais para que seja uma tábua de salvação.

Instável, claro,  porque o mundo não se entorna  para o lado da durabilidade.

Da inutilidade da amargura


convite,

Talvez o destino do Homem seja o fracasso, mas vou já avisando que isto não é um aforismo, é um estado de espírito.

Convém, todavia, que isso permaneça numa firme incerteza e se possa retirar do Mal as flores possíveis, sabendo que o cepticismo é estéril e daí não se pode esperar ajuda válida.

Eu não sou sempre assim. Acontece que, ontem, passei metade da tarde a ler Cioran e, durante a outra metade, Baudelaire. Há misturas que não se devem fazer, sobretudo no início da semana.

Let us compare mythologies


convite,

Quando a frota grega se aproximava de Tróia, fazia-o num movimento apenas perceptível aos ouvidos de Cassandra que via, como se fossem presentes, as noites futuras de cidade e o seu fim.

À filha de Príamo tinha sido dado o poder de predizer o futuro, porém o deus Apolo, senhor dos oráculos, despeitado com a recusa da princesa em aceitar as suas atenções, fez com que a palavra dela, ainda que participasse da verdade, não fosse persuasiva.

A adivinhação, entre os antigos, decorria de uma realidade estabelecida pelos oráculos e que não se fundava em acontecimentos previamente determinados, mas em visões míticas ou simbólicas. Essa realidade, que era afinal a aletheia, a verdade, não podia impor-se por si mesma porque carecia da organização dada pelo logos de modo a que se pudesse apresentar como um enunciado persuasivo e motriz.

Cassandra precede os momentos de catástrofe e deles fala sem poder ser ouvida. Todos os momentos de catástrofe iminente produzem Casssandras porque há uma verdade à espera de ser ordenada pelo poder persuasivo da palavra.

Eu diria, até, que há muitas verdades. E muitos graus de participação na verdade. E que nunca sabemos tudo.

Mas, se não pudermos evitar a entrada do cavalo de madeira na cidade, tentemos, ao menos, não nos deixarmos morrer no chão do palácio dos Atridas.

Os passos atrás


convite,

Como as coisas do quotidiano me enfadam, dou comigo, amiúde, a pensar em figuras mitológicas e nas suas histórias. Claro, bem sei que pensar em mitos é outro modo de pensar no quotidiano, essa Hidra de muitas cabeças que retornam, inesperadas, em cada esquina dos dias úteis. Andava eu à procura de umas imagens de Orfeu, quando vi Eurídice que caminhava silenciosa atrás dele num quadro de Poussin. A história de Orfeu, o poeta cujo canto mavioso detinha os animais ferozes e movia as pedras, é bem conhecida. Após a morte de Eurídice, obtém dos deuses o favor de ir aos Infernos e de lá trazer Eurídice de volta ao mundo dos vivos.

É aqui, precisamente, que começam as minhas dúvidas porque a voz dela não a consigo ouvir, abafada pelos harpejos da lira de Orfeu. É suposto que nã se sentisse bem entre os mortos. A mitologia mediterrânica traz-nos, de uma certa forma, essa ideia. Eneias é o único herói que aparece a desejar a morte; na Odisseia (11. 478-491), pelo contrário, quando Ulisses chega junto da sombra de Aquiles e lhe inveja a glória que, perene, lhe permitia ser rei entre os mortos, o Pelíada resmunga que antes ser o mais humilde dos escravos na terrena casa do pai do que rei ali, entre os sonhos das trevas. O Hades não era, pois, sítio aprazível para os antigos e Eurídice não deve ter sido a excepção, mas o certo é que Orfeu vai por ele, vai em busca de Eurídice que lhe falta, falte-lhe ele a ela ou não. Hábito frequente é este entre os mortais: fazer em nome do outro o que queremos fazer por nós, ou para nós.

O mito de Orfeu é também um mito da introspecção, a descida ao que de mais profundo possa trazer o que mais se quer. Torga percebeu-o num dos poemas do Orfeu rebelde, “Desço aos Infernos/a descer em mim.” De Orfeu e Eurídice se diz esta história, mas é muito mais de Orfeu.

Certo é, e para encurtar razões, que lhe estipularam um preço para o resgate de Eurídice: percorrer todo o caminho sem olhar para trás, para a amada que o seguia em silêncio. Se olhasse, não veria mais do que uma sombra a desfazer-se em nada e para sempre a havia de perder. Durante grande parte do percurso, manteve-se imperturbável, de olhar fixo na saída, sem ouvir os passos dela. Nem os podia ouvir porque caminhavam em mundos diferentes.

Dos pensamentos de Eurídice durante esta ascensão não reza o mito. Poderia estar bem, posta naquele sossego eterno, livre do mundo e do seu girar. Pode até ter encarado aquela chegada inesperada como uma grande maçada e ter pensado em Ricardo Reis: “Não só quem nos odeia ou nos inveja/Nos limita e oprime; quem nos ama/ Não menos nos limita.”

Quase, mesmo quase a transpor a fronteira que separa a morte da vida, Orfeu não resistiu e virou a cabeça para ver a mulher, cujos passos não ouvia e cujo rosto lhe tardava.

Enquanto desaparecia para sempre, Eurídice pode bem ter pensado:

“Uf! Estava a ver que nunca mais.”