Estive durante a toda a manhã numa reunião de corpo presente. Adoptei a atitude que assumo em circunstâncias que tais: costas direitas e um olhar de indesmentível atenção cravado em quem está a falar. O pensamento, o pensamento vai andado por ali e por acolá. Trabalho imenso nestas circunstâncias. Hoje, preparava-me para pensar num conto de Natal, coisa que alguém tem sempre a malfadada ideia de me pedir por esta altura, quando o lado da minha mente vocacionado para os deveres e obrigações já assumidas me travou a fundo: “Então e os poetas esquecidos?” Pois é, vamos lá.
António Nobre. Não sei porquê, que só costumo pensar em António Nobre uma vez por ano, na altura em que vejo as fotografias das festas da Senhora da Agonia:
Georges! anda ver meu país de romarias
E procissões!
Olha estas moças, olha estas Marias!
Caramba! dá-lhes beliscões!
Os corpos delas, vê! são ourivesarias,
Gula e luxúria dos Manéis!
Têm nas orelhas grossas arrecadas,
Nas mãos (com luvas) trinta moedas, em anéis,
Ao pescoço serpentes de cordões,
E sobre os seios entre cruzes, como espadas,
Além dos seus, mais trinta corações!
António Pereira Nobre nasceu em 1867 no Porto, onde morreu em 1900. Desencantado, ou desencontrado, com Direito em Coimbra (a nossa Laura ainda não estava lá para o encaminhar…) mudou-se para Paris para estudar na École Libre de Sciences Politiques. Durante muito tempo as Sciences Po fizeram parte do meu imaginário; eu pensava nas Sciences Po e via a cabeleira e a allure blasée de Bernard-Henry Lévy… agora transformou-se com os alunos desagradáveis que a frequentam e já não consigo pensar nas Sciences Po com um suspiro de glamour (o que não é a mesma coisa que um suspiro glamouroso, não tenho essas veleidades). Adiante: em Paris, Nobre priva com Eça de Queiroz, que na altura era cônsul na cidade, e com os paladinos do simbolismo, influência que o marca profundamente.
Grande parte do Só, a sua única obra publicada em vida, foi escrita em Paris e traz nela, talvez pelo distanciamento, uma nostalgia de exilado, a falta de um paraíso que se perdeu, o paraíso da infância feliz e da juventude descuidada, a Sehnsuchtdos românticos com um rosto bem português: a saudade dos espaços conhecidos, das romarias, de um real onde se cruzam a amargura dos seus estados e alma com a consciência de um tempo de mudança. O mundo poético finissecular vive muito dessa junção entre as agonias do eu interior e a mimese do real circundante, aguarela de um mundo que, rapidamente, se iria transformar.
A tuberculose agarra-o aos 33 anos, cortando-lhe cerce os planos de uma carreira diplomática.
Peço clemência porque estive a escrever longe de fontes de informação: as datas e os textos vão de memória. Ao fim da tarde, venho corrigir:
Virgens que passais, ao Sol-poente,
Pelas estradas ermas, a cantar!
Eu quero ouvir uma canção ardente,
Que me transporte ao meu perdido lar.
Cantai-me, nessa voz omnipotente,
O sol que tomba, aureolando o Mar
A fartura da seara reluzente,
O vinho, a graça, a formosura, o luar!
Cantai! Cantai as límpidas cantigas!
Das ruínas do meu lar desaterrai
Todas aquelas ilusões antigas
Que eu vi morrer num sonho, como um ai….
Ó suaves e frescas raparigas,
adormecei-me nessa voz… cantai !




