Existe e é muita, acreditem. Quem anda nisto de alunos há muitos anos sabe que eles são como os vinhos. Há anos de colheita difícil e é o cabo dos trabalhos conseguir-lhes a atenção e persuadi-los ao esforço. Os alunos que levo amanhã a exame vêm dos cursos de Humanidades. De tanto ouvirem dizer que a escolha feita não lhes augura nada de bom, começaram a acreditar. Tornaram-se indiferentes, deixam andar. Chamo-os para umas aulas fora do tempo regulamentar e eles aparecem como quem me faz um favor. Não têm dúvidas e eu obrigo-os a duvidar, a encontrar nas matérias o ponto onde sentem o chão fugir-lhe debaixo dos pés.
– Se for Lusíadas, nem começo a responder.
– Oh, valha-me Deus! Mas tu sabes …
– Sei, setôra, mas vou atrofiar.
Outros anseiam pelo Felizmente há luar!:
– Acho que sei tudo.
– Boa!
Perguntam pela milionésima vez:
– O que é que acha que sai?
– O que sai, não sei. O que pode sair, sei : é tudo.
– Veja lá isto que escrevi aqui sobre o Memorial: o sonho, o trabalho … diga lá outra vez aquilo do feminino … e como é que é? A esperança no fim …
Sobressaltam-se:
– Eu não percebo isso da vontade do outro ficar na terra. Como é que é?
Dou com eles a volta ao redondel dos símbolos e das metáforas. Suspiram. Irritam-se, passaram o ano irritados. Às vezes comigo, outras vezes com o mundo. O sistema de ensino pediu-lhes que tomassem uma decisão de vida aos 15 anos. Um decidiu que seria arqueólogo, outro geógrafo. Os restantes oscilam entre Direito e Comunicação, com paragens prolongadas no não-sei-muito-bem-ainda. Vão entrar na universidade num dos piores anos de sempre. Sabem disso e, mesmo quando tentam esquecê-lo, vem sempre alguém recordar-lhes a incerteza que os espera. Por isso, foram ficando assim, desencantados, distantes.
Hoje, um ou outro mail ainda me há-de trazer um sobressalto de última hora e, como é tradição, mantenho o MSN ligado até tarde. Lá pelo meio da noite, vão aparecer os pânicos de última hora:
– Acho que me esqueci de tudo.
Amanhã à tarde, vou esperá-los no átrio. Como sempre.
– Nada, nada, nada. Não me diga nada.
– Yes! Eu sabia isto tão bem.
– Setôra! Setorinha, veja aqui se esta relativa é restritiva. É? Oh, yeh! Tá-se bem!
Como sempre, começo a esquecê-los umas horas depois.
Para o ano, em Setembro, de novo uns pares de olhos imberbes hão-de levantar-se da “Autopsicografia” e suspirar:
– Setôra, não percebo nada …
E eu, como sempre, vou conduzi-los até ao coração do texto. No fundo, isso é que importa. Exames, leva-os o vento.