Blogue da semana


convite,

Hesitei porque, ao contrário do de se vai dizendo, blogues bons há muitos. Ficararam-me aliás alguns de lamento, de bons que são. Mas as regras da casa mandam que seja um só. Depois do encerramento de Last Tapes, oh que belas memórias, Rui Manuel Amaral começou a escrever a solo Bicho Ruim. Um fundo branco, letras bem visíveis. Textos curtos, trabalhados. E uma coisa que me agrada: raras por lá são as fotografiazinhas. Uma ou outra, se for muitíssima boa e vier realmente a propósito. Excepção feita, que não sou parva, aos blogues de fotografia. Agora se não o forem, é texto sobre o template e mais nada. Eu não sei por que razão faço sempre destas desmesuradas declarações de voto.

Encurto, a bem da vossa paciência: longa vida ao jovem Bicho Ruim. 

Delitos poéticos (15)


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Retrato de Eleonora de Toledo com o seu filho João. Bronzino. (óleo sobre painel, 115×96  c. 1545) Galleria degli Uffizi. Florença 

 

“ELEONORA DI TOLEDO, GRANDUCHESSA DI TOSCANA”,

DE BRONZINO

                                                         Ao Murilo Mendes

 

Pomposa e digna, oficialmente séria,

 

é geometria ideal de príncipes banqueiros,

 

sobrinhos, primos, tios de toda a Europa,

 

de reis, senhores de terras e armadores,

 

severamente equilibrados entre

 

o sexo, a devoção e as hipotecas.

 

O mundo é um imenso cais de intolerância austera,

 

a que aportam escravos, pimenta, a caridade

 

à sombra das colunas sem barbárie gótica.

 

Na boca firme, como no olhar duro,

 

ou o cabelo ferozmente preso

 

ou nas imensas pérolas que se multiplicam,

 

ou nos bordados do vestido que nem seios

 

se alteiam muito, há uma virtude fria,

 

uma ciência de não pecar na confissão e na alcova,

 

uma reserva de discreto encanto

 

em que a Razão de Estado era um passeio altivo

 

por entre as árvores de um jardim areado,

 

com áleas racionais e relva em secção aúrea.

 

Sem dúvida que os astros presidiram,

 

numa ciência de terra já redonda,

 

às próprias proporções que o quadro regem.

 

Palácios, festas, complicadas odes,

 

e procissões e cadafalsos e a

 

de um céu toscano limpidez que pousa no

 

pó e nas ruínas da imperial Toledo,

 

tudo isto se condensa em penetrante

 

tom de ocre vago, onde as cores se opõem

 

como teses tridentinas muito práticas

 

elaboradas com paciência para o descanso eterno

 

dos príncipes cristãos que se devoram sob

 

a paternal vigilância de uma Roma éterea,

 

guardada pelos suiços, por cardeias e frades.

 

A grã-duquesa – se o foi, não foi de quem é filha,

 

de quem foi mãe, ante um retrato assim

 

tão pouco importa! – fez-se pintar.

 

Mas a pintura era outra coisa, um escudo,

 

um escudo de armas e um broquel tauxiado,

 

para morrer tranquilo quando a angústia brota,

 

como um vómito de sangue, do singelo facto

 

de ter-se ou não ter alma, os mundos serem múltiplos,

 

e o Sol rodar ou não em torno à terra inteira,

 

iluminando as multidões, as raças, tudo,

 

e os príncipes e os súbditos, nessa harmonia do mundo,

 

cujo estridor silente ao madrugar se ouvia

 

ranger discretamente, às portas dos castelos.

 

                                       Jorge de Sena 

                                                    Lisboa, 6/6/1959

Blogue da semana


convite,

Nunca a alegria deu boa literatura e isso é bem fácil de comprovar, basta ir por aí adiante. Já uma elegante melancolia tratada a frases de recorte preciso faz um leitor ganhar o dia. Diz Pedro mexia no seu O Malparado: Escrevo «sobre mim» apenas na medida em que sou «eu» quem escreve os textos. Não há melhor aviso à navegação. Sempre cri que um blogue de feição auto-biográfica (digo de feição, atentai) deve ser lido ao invés daquilo que Samuel Coleridge muito bem enunciou como a suspension of disbelief, que é uma aceitação da convenção do fictício, isto não é verdade mas vou crer que é: um blogue deve ser lido numa adequada suspension of belief. 

Chega e rematando, a minha escolha para blogue da semana é O Malparado de Pedro Mexia.

Livros de cabeceira (10)


convite,

Sei ler mas não sei fotografar. Nem de máquina sou possuidora, daí que fui pedir emprestada. Para quê? Não sabes tirar fotografias. Lá expliquei da mesa-de-cabeceira e do blogue. Só te dás com gente estranha. Eu sei mas e a máquina, posso levá-la? Que sim e aqui está o resultado. Esclareço primeiro: eu que leio em todo o lado, o local onde menos leio é na cama. Deito-me madrugada alta e é mesmo para dormir, que já sei como me acordam as olheiras. O mais habitual é ler no canto do sofá e esse é infotografável pela desordem bibliófila que o ocupa. Mas tenho dias, melhor, tenho noites em que digo de mim para mim, majestática como convém nos solilóquios que se prezam: vou retirar-me. Agarro então num outro livro, que não o que esteja a ler, por uma qualquer razão que me salte ao caminho no momento. E esses volumes ocasionais empilham-se por lá, nas mesas, no chão, não era para fotografar o chão, pois não? Faço-lhes uma leitura entrecortada de algumas páginas benevolentes, demoro-os temporadas inteiras, esqueço-os, retorno-lhes. Começando a legenda: atrás, junto à parede e com um marcador timorense, está D. João III de Ana Isabel Buescu. O reinado de D. João III, sobretudo os últimos anos, de 55 a 57, ocupa muito espaço nas minhas leituras. Por cima, está Contemplação carinhosa da angústia, uma compilação de ensaios da Agustina, prefaciados por Pedro Mexia. É-se da Agustina como de uma religião, no chão estão outros, lidos e relidos. Em primeiro plano à direita está, por baixo, a Rayuela do Cortázar, que é como quem diz a tradução de Alberto Simões para a Cavalo de Ferro, O jogo do mundo. Nunca tinha lido Cortázar traduzido, fi-lo este Verão. Por cima, está um livro fininho, Amadeo de Mário Cláudio. Sobre Amadeo de Souza-Cardoso, uma beleza de texto. No topo, Rolando Teixo, o primeiro romance de Pedro Bidarra, que recomendo. À esquerda, por baixo há um caderno, também há uma caneta mas não se vê, vão ter de acreditar em mim que não sei tirar fotografias. Por cima do caderno, L’ imparfait du Présent – Pièces bréves, ensaios de Alain Finkielkraut para a colecção branca da Gallimard. A haste metálica que sai de dentro dos Tales of Mistery and Imagination pertence a uns óculos que estão praticamente partidos mas que ainda servem para ler. Levei o Poe para a mesa-de-cabeceira na semana passada mas já não sei precisar porquê. Ao lado há uma base onde pouso a chávena de chá que levo para comigo nas noites em que me retiro e, por detrás, há uma garrafa com água. Podia continuar na outra mesa-de-cabeceira mas achei que exagerava se a fotografasse também. Sou comedida, não quero exagerar.

O que estou a ler (18)


convite,

 

Não foi por esta ilha que comecei David Vann mas pela outra, a de Caribou. Prendi-me logo àquela escrita de mundo fechado e passado incessante a alagar o quotidiano dorido das personagens. E a paisagem. A paisagem impiedosa, também ela personagem e das agrestes. Ou alter-ego das personagens. Espelho, às vezes.

A ilha que leio é A ilha de Sukkwan, editada pela Ahab numa tradução de José Lima e há por lá um pai, Jim, e um filho, Roy, enclausurados em si mesmos. Jim já falhou demasiado e nem sempre falhou melhor, do trabalho ao amor. O desafio de passarem um ano juntos na ilha, longe do mundo, é um projecto de beatitude rapidamente transformada em frio, solidão, medo. Incapacidade. Ódio também. Roy, nos seus treze anos, é o menos frágil. Menos passado, menos peso a puxá-lo para o fundo, para a águas negras que Vann conhece como ninguém.

Eu sabia, porque li as críticas, que a dado momento uma reviravolta narrativa iria surpreender o leitor. Já lá cheguei. Grandioso. Evito aqui o fascinante porque é o raio de um adjectivo que não combina com o tom do texto.

Digo como se lê David Vann: a respirar de vez em quando. Depois fecha-se o livro, sorve-se uma grande golfada de ar e dizemos que já passou. 

 

 

E agora conta tu, João André. Que andas a ler?

Dia do livro e umas memórias


convite,

Preguiçosa que é uma vergonha, eu sei, não queria deixar passar o Dia do livro sem um texto sobre livros que é também um texto de memórias. Todas as minhas boas memórias têm livros por perto. O texto foi originalmente publicado aqui. Preguiçosa, sim, eu sei.

 

 

Conchas, pedrinhas pedacinhos de ossos

 

Na casa dos meus avós, entrando-se pela porta da frente, havia um cor­re­dor de onde, a meio, par­tia uma escada. Basta-me fechar os olhos e chego lá.  A memó­ria é a reco­nhe­cí­vel planta de uma casa para onde se volta repe­ti­das vezes. Eu, é sem­pre pela sali­nha do pri­meiro andar que começo, logo ao cimo das esca­das. Devia ter sido pen­sada como ves­tí­bulo mas era longa e tinha uma janela grande que dava sobre o alpen­dre onde cres­cia uma videira. É sem­pre Setem­bro na minha memó­ria e uma brisa coisa de nada faz ondu­lar o cor­ti­nado de renda que dese­nha som­bras góti­cas na parede. Quem pres­tar aten­ção ao que escrevo, verá que nunca saí de lá, da com­pa­nhia das gár­gu­las e dos gri­fos fei­tos per­fil na parede. Os anjos e os lobos vie­ram depois, mas isso já é outra his­tó­ria. Na sali­nha do pri­meiro andar, as minhas tias sentavam-se para cos­tu­rar ou coisa seme­lhante e eu, de tama­nhi­nha, ia para lá apu­rar o ouvi­do à con­versa. Fas­ci­nante mundo dos adul­tos, às vezes tão capi­toso como o outro mundo que os livros me tra­ziam. Li dema­si­ado cedo muita coisa e já disse e repito que não me deve ter feito bem à cabe­ci­nha. É demons­trá­vel. Pri­meiro os clás­si­cos, depois mui­tos poli­ci­ais. Fui cres­cendo, às vezes com as tias em fundo outras vezes sozi­nha, dei­tada que nem oda­lisca numas almo­fa­das que espa­lhava pelo chão. Os meus bisa­vós, que eram de Sil­ves, legaram-me uns genes árabes que irre­me­di­a­vel­mente me afei­ço­a­ram aos coxins e ao remanso quente. Houve um Verão em que che­guei aos sim­bo­lis­tas. Não sei que idade tinha, aliás, nesse tempo eu não tinha idade tinha ape­nas tempo que era muito e pela frente.  A Clepsy­dra de Camilo Pes­sa­nha tinha-me che­gado às mãos e em todos os balaús­tres cho­ra­vam as arca­das do vio­lon­celo. Deixei-me das pala­vras de ponta e mola e era só daquele encan­ta­tó­rio rumor do sig­ni­fi­cante que eu vivia. Era uma alu­ci­nada, nesse tempo. Melho­rei muito, mas não me curei. Aprendi das liga­ções e das refe­rên­cias entre­cru­za­das com a vaga Ofé­lia flu­tu­ando, /E, debaixo das águas fugidias,/ Os seus olhos aber­tos e cis­mando …  e da pre­ci­são da herál­dica feita lirismo … Tem de oiro num quartel/ Ver­me­lho, um lys; tem no outro uma donzela,/ Em campo azul, de prata o corpo, aquela/ Que é no meu braço como um broquel./ Tim­bre: rom­pante, a mega­lo­ma­nia …/Divisa: um ai, — que insiste noite e dia/ Lem­brando ruí­nas, sepul­tu­ras rasas … A minha natu­reza nefe­li­bata era con­forme às Ané­mo­nas, hydrângeas/ Silan­dras mas da perda eu sabia muito pouco. O cor­ti­nado de renda da sali­nha do pri­meiro andar ondu­lava e longe de mim pen­sar em quem poluiu, quem ras­gou os meus len­çóis de linho, só depois soube que é pró­prio do tempo espa­lhar a lenha e entor­nar o vinho. Umas par­ti­lhas difí­ceis divi­di­ram ao meio a casa dos meus avós e a sali­nha do pri­meiro andar desa­pa­re­ceu na cisão. Quando lá vol­tei, o cor­re­dor de onde, a meio, par­tia uma escada tinha tomado outra forma e antiga planta da casa só exis­tia no meu recordar. Con­chas, pedri­nhas, peda­ci­nhos de ossos, é disso que se faz a memória.

Um texto de excelência


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Sou suspeita. Amiga de anos, vizinha da frente. Isso não me impede, porém de considerar, sem exagero, que este texto do Jorge Carreira Maia no seu Kyrie Eleison é um dos melhores da blogosfera de hoje sobre a temática da renúncia papal:

 

Para lá das múltiplas especulações que se disseminam na esfera pública, umas sobre os reaismotivos de renúncia do Papa e outras sobre os cardeais em melhor posição para lhe suceder, o gesto de Ratzinger tem um interesse especial para o exercício futuro do poder no Vaticano … (seguir o link)

(2) Personagens de Romance. Puigmal


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Ramon Berenguer de Cabanellas y Puigmal já era célebre, quando, por fusão de duas turmas, passou a ser meu colega no 6° ano dos liceus. É assim que começa Sinais de Fogo de Jorge de Sena, dando entrada a uma personagem que, não obstante ser secundária, ganha um estatuto de centralidade nas duas primeiras páginas do romance, empurrando, aí, para um segundo plano o narrador auto-diegético cujo nome só conheceremos mais tarde na obra.

Se pelos primeiros parágrafos um livro ganha ou perde os seus leitores, o extraordinário descendente dos condes de Barcelona joga e ganha. Fabulosa figura de insolentes frases e actividades alegadamente científicas que visam comunicar com as almas penadas, fotografar a alma dos gafanhotos no seu trânsito final e a manufactura de uma pomada que confira a hímen uma elasticidade perene e impeça a sua ruptura, Puigmal é personagem fundamental no tom teatral e mimético que o narrador imprime ao início do romance, quando aquele tenta convencer o professor de Filosofia, um pobre diabo de intelecto amachucado, da existência de alma em todos os seres vivos.

— Quais regras da ciência? – E ele, entreabrindo os lábios finos que nunca se sabia quando sorriam ou se apertavam de contrariedade, respondeu: — A observação e a experimentação. — Ah, muito bem, e como foi que o senhor observou e experimentou a alma dos animais? — Como, senhor doutor? Pessoalmente –. E foi uma gargalhada geral. Ficou imperturbável. — Pessoalmente? – repetiu o professor. — Sim senhor. Fotografando a morte de um gafanhoto – Nova gargalhada. — Um gafanhoto? E o que deu a fotografia? – continuou o professor como que desperto da sua sonolência costumeira. — A fotografia, senhor doutor, foi tirada por um irmão meu, enquanto eu matava o gafanhoto. Mas de modo que se visse a alma passar. E, nela, vê-se nitidamente a alma subindo ao céu. – (…) — Essa é boa, snr. Puigmal, essa é muito boa. Subindo ao céu? Ah, ah, ah. E como subia ela? — Em espiral, snr. Doutor –

A construção do diálogo faz lembrar a maiêutica socrática, exposta por Platão no Teeteto, só que aqui, por força do carácter quase burlesco de que os dois interlocutores se revestem, não é revelada a verdade mas apenas a imensa pesporrência de Puigmal. É também com ele que entram no texto as referências às tensões que antecedem a Guerra Civil espanhola, embora essa alusão surja nimbada de humor porquanto é feita quando Puigmal conta o seu encontro com os separatistas catalães, separatismo em que ele, Ramon Berenguer de Cabanellas y Puigmal, único descendente dos condes de Barcelona, está naturalmente interessado.

Sinais de Fogo, para mim um dos grandes romances do séc XX português, tem uma miríade de motivos para convocar novas leituras e novos leitores. Puigmal é a mais divertida de todas.

 

 

Sinais de Fogo. Jorge de Sena

Lisboa. Guimarães Editores. 2009

 

Conto de Natal. Memória baça


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Se quer que lhe conte a história,  sente-se aí e não desista, bem sei que se faz tarde e ainda nem comecei e isto é coisa para muita volta. Se acrescento? Oh, quantas vezes, e fique a saber que quem conta deixa sempre a memória para trás, porque a memória é um peso, está a ver? Bem mais fácil de levar é a imaginação, é portátil e arruma-se em qualquer lado. E sempre lhe quero dizer, essa sua pretensão de verdade é uma birra como outra qualquer. Não queira assim tanto a verdade, há nevoeiros de onde não saem cavalos brancos nem convém, mais vale ficar tudo num embaciamento duradouro. Veja só, quando fecharam a casa deixaram tudo como estava, exactamente, penso até que nem levantaram os pratos e os restos de comida perderam-se por lá a ganhar bolor e as almofadas onde dava em cheio o sol durante a tarde foram descorando cada vez mais pálidas e dois ou três casacos ficaram caídos sobre a cadeira de espaldar. Uma natureza morta sem flores mas com alguns frutos e bolor, tanto bolor que era o que fazia mais impressão. O bolor parecia a lava do Vesúvio a fixar para sempre um último gesto, até a colher caída no chão, e lembro-me bem de a ter deixado cair, tinha sido presa naquele abraço esbranquiçado e vi-a logo quando entrei embora não me lembre muito bem se foi antes ou depois, por isso mais vale imaginar que a deixei cair quando começaram os gritos, não acha, criança assustada que eu era. Mas deixe-me lá começar isto bem: o meu tio Jorge, o irmão mais novo da minha mãe, chegava sempre atrasado. Dos natais que lembro, a campainha tocava sempre já estávamos na sobremesa e a minha irmã gritava Pai Natal, Pai Natal. Para o efeito era a mesma coisa, os melhores presentes vinham com ele e ainda hoje não percebo como em tal distância lhe faziam chegar os nossos desejos previamente refreados, claro. O meu tio chegava com muitos abraços, mano que bom ver-te, a tia Teresinha dava um jeito no cabelo e durante muito tempo pensei que ela tinha ido ter com ele depois daquilo, mas não sei, está a ver, é a imaginação a ganhar à memória. Os adultos fascinavam-me nessa altura, eu queria fumar cachimbo como o meu tio, embora não quisesse o torcer desesperado das mãos do meu pai quando iam conversar para junto da janela do fundo. O Natal abria-nos uma abundância muito esperada na mesa, soube depois que o meu tio mandava um cheque nas semanas anteriores e minha mãe doseava amêijoas e farófias e parecia que tudo corria bem. Eu estava a dizer que o meu tio tinha chegado tarde, não era? Pois chegou e andámos os dois a cabriolar em volta dele e a tia Teresinha ajeitou o cabelo como era hábito. Queres uma água das pedras, dizia a minha mãe para o fundo do corredor, lembro-me agora que o meu pai tinha saído da sala e depois ela gritou. A minha mãe nunca gritava e eu estava a comer farófias e a fazer um puzzle em cima da mesa pequena e fiquei com uma peça no ar e ainda a tinha na mão quando o meu tio nos sentou no banco de trás do carro sem casaco nem cachecol. Para que é que quer tanto a verdade? A verdade ganha bolor como todas as coisas, acredite em mim. Até a memória ganha bolor, o que vale é que temos a imaginação para clarear tudo.

 

(Fiz três contos de Natal, três para combinar com os Reis Magos, mas não vieram da Andaluzia, vieram do teclado do meu computador; está outro aqui e outro ali. E Boas Festas para todos.)

(1) Personagens de romance. Margarida Clark Dulmo


convite,

A lição flaubertiana demora a apagar-se e, se madame Bovary c’était lui, ficámos desde então avisados. E vai de olhar em cada personagem gesto do autor ou percurso biográfico que se quer contar, ainda que seja catarse simbólica. Margarida enforma-se da imaginação de Nemésio, desenhada pelo afecto com que o escritor sempre traçou as personagens femininas, verosímil enquanto figura de romance ainda que excessiva de símbolos e de contradições.

A açorianidade com que delimita as outras personagens, mais dependentes da geografia do que da história, não parece demorar-se em Margarida. Também ela é ilha, mas só ela se eleva, voo do autor, bem o sei, acima das condicionantes sem ser produto nem da hereditariedade nem do meio. Margarida é possível mas não provável, como a ilha nunca vista descoberta por Fernão Dulmo, mas “o não sei quê que não parece ser deste mundo” (cap.VI) coloca-a numa perfeição trágica que mais não é do que o avesso do piano e do francês das mulheres da Horta. Margarida não hostiliza, porém não se entrega. Nemésio desencrava-a do real como ela desencrava as esmeraldas que lhe colocaram a contragosto no anel da avó Margarida Terra. E lança-o ao mar, serpente cega de novo, da amurada do capítulo final, boina de viagem sobre os cabelos enrolados, essa é a tragédia da personagem depois do casamento com os barões da Urzelina, que é como quem diz com André Barreto: Margarida acerta-se com o passado, com a insatisfação, com o desejo de fuga. Como no início do romance, não vai triste nem alegre, vai embrulhada no casaco castanho. É a tragédia da resignação, quando os sonhos não têm mais por onde arder. Tédio, pois claro.

Ponto onde se encontram as insaciedades insulares, indefiníveis mas omnipresentes, sôfrego desejo de viagem, Margarida é Nemésio? Talvez.

 

 

(Pretende ser uma série mas, claro, não prometo. Personagens de romance. Não são estudos mas pequenos apontamentos pessoais, muito ao correr da pena. Do teclado, digo.)

 

Mau tempo no canal. Vitorino Nemésio

Lisboa. Relógio d’ Água.Reimpressão de 2004

 

Blogue da semana


convite,

Luís M. Jorge fechou a porta do Vida Breve, Pedro Picoito saiu d’ O Cachimbo de Magritte, Filipe Nunes Vicente deixou o sossego do Lathe Biosas e escrevem agora juntos em Declínio e Queda. E escrevem muito bem. Outra coisa, aliás, não seria de esperar.

É a minha escolha para esta semana com votos de longa vida.

O Carlos


convite,

 

 

Calma. É apenas uma história e conta-se em duas linhas. Estava eu a procurar no Google umas imagens, quando reencontrei esta conhecida estátua de Posídon. Sorri do que me trouxe à memória. Faz muitos anos, talvez mais de vinte. No Forum Picoas, estava patente uma exposição de arte grega de cujos contornos já não me recordo. Cá fora, a enfrentar na sua desdenhosa e olímpica nudez a Av. Fontes Pereira de Melo, erguia-se uma reprodução desta estátua de bronze, o Posídon de Artemísia, encontrado no mar ao largo do cabo Artemísia, provavelmente da autoria de Cálamis (c. 460 a.C.) e que faz parte do acervo do Museu Nacional de Atenas. Eu seguia num autocarro que parou mesmo ao lado da estátua. No banco à frente do meu, uma mulher, olhando pela janela, disse para outra que a acompanhava:

– Olha! Parece o Carlos.

– Ah! Pois parece!- concordou ela de imediato.

Ainda hoje não sei se quem lhes trouxe à memória o dito Carlos foi algum transeunte que semelhava as feições de um conhecido comum ou se era o brônzeo deus dos mares quem lhes evocava, sabe-se lá como e porquê, um Carlos de cuja pujante nudez pareciam partilhar o conhecimento. Assim uma espécie de sisters in arms.

A casa dos outros


convite,

Peço-lhe que pare, que não quero ouvir mais, mas ele diz-me que espere, que lhe dê atenção. Bebo mais um café e ouço. Em redor, todos parecem absortos nas conversas e nos jornais. Não lhes chega, felizmente, este quase monólogo em tom contido, um desfile de horrores, medos, chantagens, perversões repetidas, um cortejo de gárgulas e monstros em forma de gestos e atitudes. Um modo de vida até. Pode conhecer-se uma pessoa há mais de vinte anos e passar-lhe ao lado da intimidade sem conseguir ouvir as queixas que sufoca. Sinto-me estupidamente inútil. Exactamente como nos sentimos quando as palavras que temos são as triviais, são as que usamos para pedir mais um café ou agradecer ao homem que nos cede a passagem. Nunca  temos palavras que façam diferença em tragédia alheia.

A violência feminina não tem mãos, tem armadilhas. Alçapões que se abrem a meio dos dias, requintes de crueldade quando se fecha a porta de casa. Tudo tão dissimulando, como uma simpática máscara de cetim arrancada de súbito quando ninguém vê.

Digo-lhe que fuja. Que comece uma vida noutro lado, com outro nome. Sorri:

– Viste muitos filmes.

Costumo dizer que não sei nada da vida, apenas vi muitos filmes e li muitos livros. Nunca isso me pareceu tão verdade quanto hoje.

À despedida, deixo-lhe meia dúzia de palavras de pouco valor e atravesso a rua ainda aturdida. Estupidamente inútil.

 

 

(Também aqui)

Estamos feios


convite,

 

 

 

 

 

 

Hoje tive de viajar de comboio até uma cidade do centro do país, tratar de um assunto e voltar no primeiro comboio de regresso.  Acabei, todavia por não conseguir ser tão célere quanto pretendia e fiquei, ainda, um belo bocado à espera. Quando olhei em volta só vi gente feia, a começar obviamente por mim, de cabelo em desalinho e outros desmazelos. Parecíamos todos ter saído de quadros de Frans Hals (1580-1666), um pintor flamengo ainda da estética barroca, mas já com um pé na pincelada impressionista. Os seus retratos pouco convencionais (e estes aqui não são dos piores) mostram uma gente que entristeceu, se desamazelou, se desalinhou e se deixou andar. Nos quadros riem, ainda, os de hoje de manhã não o faziam. 

Já não é a primeira vez que tenho esta percepção de estar, rodeada de iguais, dentro de um quadro de Hals. Como se preocupações e tristezas transbordassem, sem diques nem cuidados, para o exterior e de um modo que me parece demasiado rápido.

Estamos feios e, intercalando um t entre as duas sílabas, também.

Something tweed


convite,

(A silly season é o que é não adianta. Com a maioria dos leitores a banhos e uma preguiça que me faz perder algum decorum que não me fazia mal nenhum, repristino um texto em que volto às frioleiras de roupas, sapatos e afins. É o último, prometo.)



 

Quando estava, há pouco, a pendurar um casaco no armário, dei por mim a meditar sobre a predominância de casacos de tweed sobre outras peças de vestuário. É bem certo que será melhor meditar, – e então se for em francês! – sobre a guerra, o mal e fim da história, mas cada um medita sobre o que tem no armário. Dei-me conta de que os casacos de tweed me têm acompanhado sempre, tanto na solenidade de alguns momentos como na pressa das manhãs dos dias úteis. Eu gosto de me vestir para as ocasiões por mais insignificante que a ocasião seja. Quem diz vestir, diz calçar: se não estiver com uma pressa desmesurada, passo por casa para trocar de sapatos antes de uma ida inadiável ao supermercado. Andar de saltos agulha entre as promoções dos iogurtes e a prateleira dos detergentes revela, além de mau-gosto, falta de juízo. Por razões práticas, claro, pois quem já empurrou um carrinho de compras em cima de uns saltos a sério, ao fim de um dia, sabe do que falo.

Voltemos, então, ao tweed que hoje se me afigurou como um símbolo, ou, se calhar, um talismã a que me agarro volta não volta.

Isto dos símbolos em matéria de vestuário também é engraçado. Quando casei pela primeira vez, decidi que queria um vestido de noiva curto. Na altura, não tinha ainda  a minha D. Anita, a minha costureira que, há  quase 30 anos, cose tudo aquilo que eu visto. Já se sentou, pacientemente,  no sofá a meu lado a ver um Hitchcock e a tirar apontamentos sobre um casaco que eu queria e, com a minha incapacidade para desenhar, não conseguia reproduzir no papel; já costurou um longo vestido de baile em veludo vermelho que usei num dos bailes de finalistas dos meus alunos e que guardo religiosamente na esperança de o deixar de herança  a neta que saia a mim. Ora bem e recapitulando, não foi fácil encontrar o vestido de noiva que eu queria, mas lá o desencantei, de cambraia e rendas, um ar antigo, com uma saia que dançava à volta dos joelhos e um decote generoso. Eu tinha vinte e poucos anos e vivia a glória de me sentir um desafio. A minha mãe reprovou o decote e uma das minhas tias veio, pressurosa, com dois alfinetes-de-ama minúsculos, prender qualquer coisa nos ombros de modo a reduzir o espaço visível do meu colo. Durante a cerimónia, parece que o noivo, muito alto, continuava, apesar dos propósitos impeditivos da minha tia, a ter uma vista privilegiada sobre o referido colo. Eu, em quem subsiste, malgré moi, uma certa forma de pensamento mágico, cumpri o que a tradição determina: something old, something new, something borrowed, something blue. Usei umas luvas antigas, um pulseira emprestada, um lacinho azul de cetim, discretamente algures, e tudo o resto era novo.

O vestido foi-se desfazendo nas peças de teatro da escola do meu filho, para que as amiguinhas dele, acrescentados os devidos acessórios, fizessem de princesa, de fada, de senhora, e acabou, por ponderosas razões que não vêm agora ao caso, num caixote do lixo.

O casamento, esse acabou na Conservatória de um Registo Civil. Ora é aí que surge um dilema de vestuário: que deve vestir a requerente num divórcio, tanto mais que teria de ir dali directamente para  uma representação protocolar? Bem, pois foi um casaco de tweed sobre a pele, pérolas, saia e meias pretas. Quando lá cheguei, a atencioso advogado que representava o requerente elogiou-me o aprumo, mas disse que o acto não carecia de tais requisitos na indumentária. Expliquei que, saída dali, iria ouvir a oração de sapiência de uma abertura solene de aulas. Penso que estive bem vestida, tanto de um lado como de outro.

Quando casei pela segunda vez, ainda pensei em tweed mas era Abril e o tempo começava a aquecer. Usei um discreto robe-manteu, azul, que combinava bem com o casaco muito Quartier Latin do noivo. E, como há coisas que são o que são e não adianta, já que o vestido era azul e novo, usei uns brincos antigos e pensei que os cartões que tinha na carteira eram, no fundo, um empréstimo do banco e que cumpriam a requisito do something borrowed. Ah, e continuei a respeitar um conselho da minha avó: “Casem com homens bonitos porque compõem muito uma cerimónia de casamento.”

O vestido não foi parar ao caixote do lixo. Além de poder ser usado em ocasiões diversas, as amigas do meu filho já não fazem teatro e, mesmo que o fizessem, nem sei bem que personagem conseguiriam ser dentro dele.

Quando me abeirei do segundo divórcio, entendi que não precisaria de me preocupar com a indumentária, pois nem a ocasião nem as circunstâncias estavam imbuídas de tanto pathos como as do primeiro acto mas, pelo sim pelo não, usei um casaco comprido de tweed e uma écharpe num encarnado profundo, um rosso veneziano, porque o requerente gosta de Tintoretto e eu achei que era um gesto simpático.

E uns brincos de pérolas porque, se muitas coisas mudam em mim, outras permanecem iguais.

Meditação na perfumaria (com a devida vénia a coisas mais elevadas)


convite,

Estive hoje a ver, em dvd, A última estação de Michael Hoffman. Belo filme sobre os últimos tempos da vida de Tolstói. Helen Mirren é sublime no papel de Sofia Andréievna. A certa altura, o escritor, irritadíssimo, diz-lhe: “Tu não precisas de um marido, precisas é de um coro grego.” Adorei. Aliás, noutros tempos, os maridos que eu tive poderiam ter-me dito o mesmo. Bem, quando eu digo “os maridos que eu tive” convém notar que esta frase pode induzir em erro os leitores incautos. Foram só dois os maridos, mas, dito assim, cria toda uma atmosfera. 

Depois do filme, dediquei-me a uma tarefa mais pesada. Tinham-me pedido que vertesse para latim umas descrições de botânica. Foi árido e árduo e cheguei ao final da tarde cansada. Decidi que precisava de um café no exterior. De beber um café e de olhar umas montras. Tenho andado, por estes dias, com umas roupas na pré-reforma e com uns sapatos sem história. Com a roupa nada a fazer que isto do Verão limita-me os movimentos. Agora sapatos, como sabe quem sabe destas coisas, sapatos são uma religião. Os objectos sagrados guardam-se, bem estimados. Assim sendo, retirei do seu resguardo umas sandálias Luís Onofre a que os anos não tiraram o esplendor. São duas tiras de damasco  sobre o pé e uns saltos finos de 10 cm. É extraordinário o que tão pouca coisa faz pela alma de uma pessoa.

Fui, pois, com o propósito do café e de passar pela perfumaria a fim de investigar umas coisas. A linha de batôns Rouge Pur Couture, da YSL, tem uma colecção nova. Vi numa revista umas cores belíssimas com uns nomes incríveis, que o pessoal do marketing sabe-a toda: Rouge Hélios, Bronze Persépolis e o que me deixou de narizinho ar: Rouge Venise. Nas páginas da revista, era um rosso veneziano soberbo. Como fotografia em página de revista é muito enganadora no que respeita à cor, resolvi-me a ir ver se os via ao vivo, depois de bebido o café.

Na perfumaria onde vou há uma empregada muito simpática. Na maior parte das vezes, vou lá só para tagarelar um pouco, espalhar umas gotas de base nas costas da minha mão e apreciar a textura, enfim, estar por ali. Uma vez, passei lá um bocado muito engraçado. Ela disse-me, a certa altura: “Sabe… eu gostava de saber dizer o nome dos perfumes assim como a senhora diz.. “. Não percebi logo, mas cheguei lá. Tinha dificuldade em dizer o nome dos perfumes porque desconhecia as línguas. Ensinei-lhe uns pormenores e uns truques que foi anotando num caderninho de modo a treinar. Nessa tarde, quando saí, dizia na perfeição: Notorious, Black Orchid, Pleasures, Jasmin Noir e, a minha coroa de glória, Un Jardin en Méditerranée.

Hoje estava acompanhada de uma colega muito mais nova, também muito simpática e afável. Lá conversámos um pouco. Não, pois ainda não havia  batôns novos. E as colecções do Verão já tinham poucos. Em alturas de crise, batôn vende-se sempre. Mesmo nas grandes marcas, custa 25, 30 euros. Pode sair-se de uma perfumaria sem mais nada: quando se traz um batôn, comprou-se alguma alegria que dura uma estação inteira.

Eu gosto de batôns a sério, de mulher crescida. Nada de rosas imberbes, ou gloss que dá um ar de quem esteve a comer batatas fritas. Prefiro ter uns lábios de filme noir.

Lá estávamos, pois,  junto ao expositor da Dior, marca à qual ela sempre me tentou converter. Olhávamos para um rosa fundo, intenso, e a menina mais nova disse: “A senhora deve ficar bem com esse. A minha avó tem um igual e fica-lhe tão bem.” Soltei uma gargalhada perante a pirueta que ela deu com a frase: “Eu .. eu… não estou a dizer que a senhora seja da idade da minha avó … eu só queria dizer que …” 

Sosseguei-a, que tivesse calma. Feitas bem as contas, se calhar, tecnicamente, eu poderia ser avó dela.

Foi divertido mas fiquei a pensar no assunto. Quando eu tinha 20 anos, queria ser mais velha. Achava que as mulheres mais velhas tinham, naturalmente,  uma elegância, um andar, uma segurança que eu demorava a achar. Andei ansiosa por fazer 40 anos, a pensar que a graça dos deuses cairia sobre mim. Não notei grandes diferenças. Nem agora aos 52. 

Lembro-me de, quando era garota e tinha como meta a alcançar uma autorização da minha mãe para pintar as unhas de vermelho, ver muitas vezes a passear em Faro, na rua de Santo António, uma senhora que eu achava a quintessência da elegância. Usava uns vestidos de seda pesada e uns casacos de corte imperturbável. Pisava a calçada com uns saltos finos com se subisse as escadas do Scala.

E eu queria envelhecer. E usar meias pretas e retocar o rosto com pó solto, com uma esponja aveludada segura na ponta das unhas vermelhas.

Ok, já cá cheguei. A minha mãe já me deixa pintar as unhas.  

 

(texto republicado)

A angústia do professor antes do exame


convite,

Existe e é muita, acreditem. Quem anda nisto de alunos há muitos anos sabe que eles são como os vinhos. Há anos de colheita difícil e é o cabo dos trabalhos conseguir-lhes a atenção e persuadi-los ao esforço. Os alunos que levo amanhã a exame vêm dos cursos de Humanidades. De tanto ouvirem dizer que a escolha feita não lhes augura nada de bom, começaram a acreditar. Tornaram-se indiferentes, deixam andar. Chamo-os para umas aulas fora do tempo regulamentar e eles aparecem como quem me faz um favor. Não têm dúvidas e eu obrigo-os a duvidar, a encontrar nas matérias o ponto onde sentem o chão fugir-lhe debaixo dos pés.

– Se for Lusíadas, nem começo a responder.

– Oh, valha-me Deus! Mas tu sabes …

– Sei, setôra, mas vou atrofiar.

Outros anseiam pelo Felizmente há luar!:

– Acho que sei tudo.

– Boa!

Perguntam pela milionésima vez:

– O que é que acha que sai?

– O que sai, não sei. O que pode sair, sei : é tudo.

– Veja lá isto que escrevi aqui sobre o Memorial: o sonho, o trabalho … diga lá outra vez aquilo do feminino … e como é que é? A esperança no fim …

Sobressaltam-se:

– Eu não percebo isso da vontade do outro ficar na terra. Como é que é?

Dou com eles a volta ao redondel dos símbolos e das metáforas. Suspiram. Irritam-se, passaram o ano irritados. Às vezes comigo, outras vezes com o mundo. O sistema de ensino pediu-lhes que tomassem uma decisão de vida aos 15 anos. Um decidiu que seria arqueólogo, outro geógrafo. Os restantes oscilam entre Direito e Comunicação, com paragens prolongadas no não-sei-muito-bem-ainda. Vão entrar na universidade num dos piores anos de sempre. Sabem disso e, mesmo quando tentam esquecê-lo, vem sempre alguém recordar-lhes a incerteza que os espera. Por isso, foram ficando assim, desencantados, distantes.

Hoje, um ou outro mail ainda me há-de trazer um sobressalto de última hora e, como é tradição, mantenho o MSN ligado até tarde. Lá pelo meio da noite, vão aparecer os pânicos de última hora:

– Acho que me esqueci de tudo.

Amanhã à tarde, vou esperá-los no átrio. Como sempre.

– Nada, nada, nada. Não me diga nada.

– Yes! Eu sabia isto tão bem.

– Setôra! Setorinha, veja aqui se esta relativa é restritiva. É? Oh, yeh! Tá-se bem!

Como sempre, começo a esquecê-los umas horas depois.

Para o ano, em Setembro, de novo uns pares de olhos imberbes hão-de levantar-se da “Autopsicografia” e suspirar:

– Setôra, não percebo nada …

E eu, como sempre, vou conduzi-los  até ao coração do texto. No fundo, isso é que importa. Exames, leva-os o vento.