A bolsa ou os olhos


convite,

Hoje de manhã, quando me afastava do multibanco, fui interpelada por uma senhora muito idosa. Muito mesmo.

– A senhora desculpe-me, não me fazia um favor? Está muita gente lá dentro. Não via aí uma coisa na máquina? Não tenho muita habilidade para isso, é tudo muito rápido.

Senti-me um pouco desconfortável. Mas, sem que tivesse tempo para responder o que quer que fosse, pôs-me o cartão nas mãos e disse o código. Consulta de movimentos, retirar o talão, procurar o registo do que pretendia. Não pude, como é óbvio, deixar de ver o saldo. Um montante desaconselhável a olhos alheios. Não me contive e disse, delicadamente:

– A senhora não devia pedir isto às pessoas. Tem muito dinheiro na conta. Dá o código e alguém e podem enganá-la, tirar-lhe o cartão, qualquer coisa.

Soltou uma gargalhada cristalina:

-Então, acha que eu, com esta idade, ainda não sei ver quem é pessoa séria?

E afastou-se, depois de agradecer, ainda a rir de mim e a abanar a cabeça.

E eu fiquei parada a pensar no que deveria desejar: se aquela largura no montante disponível, se ser capaz de ver no rosto alheio a marca da alma.

Um automóvel chamado passado ou a arte de domar a nostalgia


convite,

Esta tarde fui ver Midnight in Paris.

Eu sei que poucas coisas se comparam à visão de Manhattan a partir do divã de um psicanalista, mas tive de me render a este passeio europeu de Mr. Allen.

O protagonista, um norte-americano que aspira a escrever romances, na antecâmara de um casamento que não lhe tira o fôlego, passa alguns dias em Paris. E, na terna noite de Paris, assim que bate a meia-noite, pára um automóvel que o leva para o passado. Estamos aqui perante a inversão do motivo da Cinderela que, ao tocar das badaladas, volta a ser quem não queria ser e a habitar o espaço que não queria habitar. Gil Pender, o americano em Paris, vai ao encontro do tempo onde queria viver,  os anos 20 e a festa parisiense.

Há alguma ingenuidade na caracterização das personagens, construídas a partir de uma reconhecível e previsível semiologia, mas o efeito nostálgico que provocam é incomparável. Que aceitaria um Hemingway que não fosse truculento?

O primeiro encontro é, creio que intencionalmente, com Zelda e Scott Fitzgerald. Aliás, parece-me e a não ser que eu também esteja a ver coisas onde elas não existem, que o apelido de Gil, Pender, é um jogo fonético: a sobreposição do P de Paris sobre o T do título da obra de Fitzgerald, Tender is the night.

As noites de Gil saem  da companhia  da noiva, dos pais da noiva e dos amigos da noiva para uma entourage absolutamente fascinante: Cocteau, Cole Porter, Hemingway, Picasso, Buñuel, Dali, Man Ray. Até a materfamilias da geração perdida, Gertude Stein, uma muito bem achada Kathy Bates, lá pontifica, disposta a ler o livro de Gil, o livro onde a personagem principal é dona de uma loja de nostalgias, as memorabilia tão ao gosto do autor.

Se na Paris presente Gil não tem quem lhe acompanhe os gostos e as preferências, num desencontro quase permanente, na Paris passada vai encontrar em Adriana, a jovem que, quando diz “o Amadeo” está a falar de Modigliani, uma momentânea companhia. Momentânea porque se trata de um novo desencontro: Adriana, a dos vestidos de cintura baixa e pailletes, queria era viver na Belle Époque. Lá irão parar uma noite, a um cabaret onde, depois da saída da última cancaneuse, vêem Toulouse-Lautrec a quem se juntam Gaugin e Degas. Estes também não era ali que queriam estar, mas na Renascença.

Gil percebe, então, que o tempo é uma loja de memorabilia. Umas já não servem, outras são inatingíveis. E nada é como o presente.

Adriana ficará presa na sua idade de ouro, enquanto o detective que o pai da noiva americana contratara para seguir a noite de Gil se vê perdido em Versalhes, na Galeria dos Espelhos.

É Paris mas podia ser Xangai. Quando o cinema não for um jogo de espelhos, mais vale ficar em casa.

Manual de sobrevivência


convite,

Por razões que não vêm agora ao caso, estive, durante a tarde, a braços com a tragédia Alceste de Eurípides. Apresentada nas nas Dionísias Urbanas de 438 a.C., o seu plot é conhecido: por determinação dos deuses, o rei Admeto só poderá evitar a morte iminente se alguém se sacrificar em seu nome. Os pais, conquanto sejam idosos, recusam-se a abreviar o tempo de vida que lhes resta e só a mulher, Alceste, se dispõe a substituí-lo na morte. Héracles, a caminho do seu 8º trabalho, é recebido por Admeto apesar do luto em que o palácio mergulhara. Para recompensar o rei pela obediência às leis da hospitalidade num momento tão difícil, traz Alceste da morte para o amor.

Este  happy end talvez não seja o mais comum na tragédia, mas as outras características estão lá todas. Platão olhou para a figura de Alceste apenas de uma perspectiva que confere ao sentimento amoroso a força motriz do gesto da rainha: “Os numes honraram nela a virtude máxima do amor.” Não é só o amor mas o carácter que impulsiona Alceste para a abnegação total. Uma capacidade de sacrifício que persiste sem assentar a mira num qualquer retorno. Quando lhe dizem que, por tal gesto, será sempre recordada e honrada, Alceste  responde :  οί θάνοντες τεθνήκασι  “Os mortos, mortos estão.”

Uma frase lapidar que é um manancial para os estudantes de Clássicas aprenderem as subtis diferenças entre o aoristo o pretérito perfeito gregos e que nos traz a pétrea serenidade determinada de que sabe o que quer e o quer fazer.

Shakespeare esteve mais próximo da ideia de sacrifício, quando colocou na voz do velho rei Lear estes versos, sem dúvida inspirados na rainha de Feras: “Upon such sacrifices, my Cordelia, / The Gods themselves trown incense.”

Para além de um binómio caro aos antigos, Amor/Morte, parece-me clara a lição euripidiana de que todo sacrifício ou abnegado gesto tem um efeito boomerang, ainda que não seja imediato, ainda que não seja da esfera do claramente visível.

Os gregos, os antigos, sabiam muito. Como muito sabiam os poetas, os pintores, os escritores, os cineastas, os artistas que os seguiram. Na sua crónica de hoje n’ O Expresso, o Manuel S. Fonseca diz-nos que “ quando (…) nada for como dantes (…) há-de acordar-nos na boca o sabor de um filme antigo. Vai saber bem. Será que nos salva?”

Creio que sim: o filme antigo, o livro muito lido, o poema repetido, a tragédia grega ou o quadro na parede do museu hão-de ser também, como diz o Pedro Correia num post aí abaixo “uma chave para decifrar o mundo”.

A nossa Patrícia, no seu livro Por este mundo acima, coloca, como único sobrevivente no cenário de uma Lisboa pós-apocalíptica, um editor de livros. Se entre os antigos se sabia como atravessar o coração das trevas, é bom que nunca se esqueça onde é que isso se escreveu e se voltou a escrever, qualquer que seja a linguagem utilizada.

Hoje, fartei-me de fazer citações. Ainda bem: eu também acho que são os outros que nos salvam.

Subsídios para a extensão do conceito de grafitologia-Anexo único


convite,

Ontem, os nossos luíses, eheh, pareço uma aristocrata francesa antes de revolução, dizia eu que os nossos luíses se digladiaram aqui sobre os grafitis com ilustrados argumentos. Lamentámos todos que o certame tivesse sido interrompido pelo jantar de um e pelas aulas de outro. Hoje, porém, voltei a lembrar-me do assunto: ao passar rapidamente os olhos pelos títulos da imprensa  online, leio que Durão Barroso afirmou que se devia dizer: “Amo-te, Europa.” Eu achei muita piada a este arroubo de matriz mitológica. Após tal enunciação, só falta, num gesto de apaixonado de primeira viagem, ir pichá-la numa fachada. Pública, talvez, não sei.

Voyage au bout d’un dînner


convite,

Algumas correntes do pensamento filosófico contemporâneo acreditam ser possível não perder nem o Porto-Benfica nem o jantar do Delito. Claro que o ravioli e as vieiras já tinham partido e do crème brulée embrulhadinho em massa filo nem sinal, nem aroma. Pois claro, ubíquo mas não tanto.

Dos ausentes  lamentou-se a ausência, desculpada por serem conhecidas as ponderosas razões da vidinha e da distância, esse Adamastor de quem mora muito longe ou está, temporariamente, ainda mais longe. Mas ficou assente e decidido que, para o próximo jantar, a insistência na necessidade de galgar esses quilómetros aumentaria e muito.

Os presentes, bem instalados em mesa ergonómica ali pela Barata Salgueiro, deliciaram-se com a conversa, com os aromatizados carpacci e com as outras iguarias que os seguiram. Debalde se pediu que fosse diminuída a toada musical de fundo bem escusada a sobrevoar a mesa de quem tem tanto para conversar. E de que conversam os membros do Delito quando se reúnem? Pois é, sei muito bem que esta é a grande questão. Melhor é experimentá-lo do que julgá-lo, mas julgue-o quem não poder experimentá-lo, sendo que esta citação camoniana pode já ir levantando o véu a uma nova série a correr brevemente no Delito.

Assombrava, todavia, o repasto a obrigação imposta ante rem de que, pelas onze horas, fossem delituar para outro lado, sem apelo nem agravo. Por qualquer razão ou desígnio que não se descortinou, passaram as onze e as seguintes e ninguém se atreveu a mandar levantar tão bem reunida gente. E, a ter acontecido, podia ter coincidido com um dos momentos fracturantes da noite quando dois delituosos se levantaram para ir fumar, numa varanda exterior, o vigésimo oitavo cigarro. Separava a dita varanda da sala de actos uma porta de vidro que, uma vez fechada, não podia ser aberta do lado de fora. Foram salvos porque o ouvido apurado de uma das delituosas, por sinal a que escreve estas linhas, atendeu às leves pancadas no vidro, perfeitamente confundíveis com as batidas da música, a omnipresente e incansável música.

E partiram, cada um para sua banda, dados os abraços finais. Uns, a braços com um volante caprichoso . Outros constipados, mas livres. De táxi.

“A thing of beauty is a joy forever”


convite,

Terminei ontem a leitura de As luzes de Leonor de Maria Teresa Horta. Acho que o li bem, que é o melhor tributo que se pode prestar a um livro e a um autor.

O romance de época, e eu vou designar assim a narrativa cuja acção se situa num tempo diverso do do autor, cria a quem se dispõe a entrar por essa via, uma exigência de proximidade.

Tomemos exemplos diferentes. O que fez de O Nome da Rosa um best-seller ? A proximidade entre Umberto Eco e o mundo medieval, seu objecto de estudo desde sempre. O ser-lhe tão comum, tão presente, aquele mundo de bestiários e monges sábios fez com que leitores diversos se tivessem comprazido na leitura de um texto entremeado de frases latinas e pautado pelas horas canónicas. Dir-me-ão que alguns leitores mais não leram do que o enredo policial. Claro. Só o leitor usado, no sentido camoniano do termo, a uma prática sistemática de leitura descodifica, num relance, as pequenas redes semióticas que fazem as delícias deste romance: Jorge-cego-biblioteca-labirinto-Burgos-Borges, Guilherme-Baskerville-o-cão-dos-Baskerville-Sherlock-Holmes; só o leitor preparado vê Aristóteles em Guilherme e Platão em Jorge e vislumbra a filosofia moderna na figura de Adso de Melk, o alemão com o nome construído sobre um verbo latino, que colhe no passado o que há-de escrever pelo seu punho futuro.

Mas o que trouxe tantos leitores ao livro? O facto de Eco estar tão à vontade dentro do pensamento de Umbertino de Casale como se estivesse sentadinho à sua secretária. Só se mostra bem aquilo que se vê bem.

Vejamos, agora, Bomarzo de Manuel Mujica Lainez, que li na excelente tradução de Pedro Tamen. É um romance fabuloso, na minha opinião. Reconstrói, pelo fio da memória do duque de Orsini, toda a Renascença italiana, nas suas mutações de beleza e de bestialidade, de monstros e quimeras. O trabalho de Lainez é um admirável exercício de imaginação sobre um trabalho apurado de investigação, servido por um léxico quase, quase a aflorar o gongórico mas que se detém sempre antes do excesso. Aqui, a exigência de proximidade é feita ao leitor.

Dir-me-ão: “Sim, claro, pois não havias de ter apreciado. Tu és muito lá dos lados da Renascença. Pensas mais no Lourenço de Médicis do que no Bernard Henry-Lévi.” É verdade, (enfim, a parte final nem tanto) a Renascença é muito cá de casa. Mas o livro de Lainez puxa o leitor lá para dentro, suga-o para um mundo que, se lhe era desconhecido, passa a não ser. Exige-lhe a proximidade.

Estou, ainda,  a  pensar em Adivinhas de Pedro e Inês da Agustina. Há dois ou três parágrafos nos quais a narradora, com umas referências aos cães que ladram no pátio, aos falcoeiros e ao barulho dos cascos no empedrado, provoca um efeito de sucção que nos faz aterrar, de repente, em pleno séc. XIV, quer queiramos quer não. Mais do que próximos, ficamos lá.

Maria Teresa Horta é, em As luzes de Leonor, naturalmente próxima:  a marquesa de Alorna foi bisavó do bisavô de Maria Teresa, se não me estou a enganar nas contas. Haverá, necessariamente, no imaginário familiar da autora uma presença forte da figura de poetisa das luzes. Há, na obra, uma intenção clara de não dissociar a autora da narradora:  “… eu não faço a tua biografia: tento recriar-te, minha avó, inventando-te do grão da luz ao bago da romã.” Essa recriação a que alude demorou treze anos a fazer. Muitos anos de investigação e de escrita. A autora seguiu a sua figura ao longo de um percurso marcado por acontecimentos históricos, momentos documentados, cartas e silêncios. E entrou nos silêncios e encheu-os de luz. Porque dos silêncios de Leonor sabe Maria Teresa muito bem, melhor do que ninguém, são os silêncios da condição feminina num tempo que lhe é adverso.

Mesmo que não tivesse mil páginas, As luzes de Leonor continuaria a ser um grande romance.

Sim, meus caros, eu sei: a Grécia e a crise e o euro e a vida. Eu sei, também pago a conta do água e o meu subsídio de Natal vai descer aos Infernos. Mas sem a literatura, sem a arte, tudo me seria ainda mais difícil.

Da coisa comum


convite,

Sempre entendi a organização do espaço urbano como a primeira marca de civilização. A possibilidade de habitar a polis é a aquisição de uma parcela da vitória contra o caos. Mas a Cidade tem exigências. Ainda hoje de manhã pensei nisso: aos sábados, tenho o hábito de, durante uma meia hora indolente, flâner aux vitrines num centro comercial. No parque de estacionamento da cave há, quase sempre, carros mal estacionados, enviesados, a ocupar uma parte do espaço destinado a outro, de tudo um pouco. Hoje pasmei: alguém estacionara um carro exactamente no meio de dois lugares, a linha amarela que compartimenta os espaços coincidia, na precisão, com o meio da viatura. Quem é o cidadão que faz isto? (Os meus amigos dirão, todos marialvas, que, com grande probabilidade, será uma cidadã, está bem, está bem!) É falta de atenção? É desprezo pelos outros? É um momento de rebeldia do tipo quero-lá-saber-hoje-vou-fazer-o-que-me-der-na-telha? Eu também padeço disso. Felizmente, é em casa: descalço os sapatos no meio da sala, deixo os brincos na cozinha, atiro as écharpes para o sofá. Quando muito, aborreço-me a mim própria na hora de alinhar tudo aquilo.

É evidente que o estacionamento de um carro é coisa mínima neste mundo. Claro. Lembro-me de ter ouvido, uma vez, uma entrevista de Jaime Lerner na qual ele falava, a propósito da vivência no espaço urbano, de uma equação de co-responsabilidade.

Convém aprender a resolvê-la: na Cidade, o nosso lugar é o lugar dos outros.

“Que fantasmas me trazem desvairada …”


convite,

Há tempos, quando estava na biblioteca com alunos, uma das miúdas abriu ao acaso a Aparição, no trecho em que Sofia, durante a explicação de Latim, lê uns versos da livro 4 da Eneida:  Ana soror, quae me suspensam insomnia terrent/ Quis nouus hic  nostris sucessit sedibus hospes  e, depois, de intentar uma tradução, beija  o incauto Alberto Soares. A minha aluna comentou: “Ah, isto de aprender latim deve ser giro.” Lidas aquelas linhas, na cabeça dela, o latim passou a ser uma coisa de palavras desconhecidas e explicadores dúcteis.

Aproveitei o momento para lhes falar de Dido e Eneias, mais propriamente da desvairada Dido. Juntando as pontas da história rapidamente: Eneias, exausto dos errores marítimos, após a tomada de Tróia, aporta a Cartago, onde a rainha Dido o recebe e por ele se apaixona. No entanto, Eneias tem um destino a cumprir e ao qual não se pode eximir: fundar uma nova nação no Lácio. Nas entrelinhas da Eneida, sente-se bem fulgor da hospitalidade de Dido e, também, o quão agradável isso estava a ser para Eneias.  Mas os deuses apontavam-lhe um outro caminho e a paixão insana de Dido não consegue retê-lo. Como disse Camilo Castelo Branco, e bem, “Ninguém sente em si o peso do amor que inspira e não comparte.” Desvairada, Dido suicida-se com uma espada que Eneias deixou para trás.  

Praticamente toda a literatura ocidental é percorrida por esse momento de insanidade pontual que condiciona o desfecho da história. Está certo, se na morte de Dido podemos ler a simbologia do destino futuro de Cartago, em muitos outros textos encontramos apenas um momento, uma decisão tomada sem as escoras da racionalidade e, a partir da qual, tudo se precipita, acaba, desmorona.

Anna Karenina não se detém a tentar aceitar que o amor físico é temporário sustentáculo para uma relação que se queira, mais do que conjugal, familiar e lança-se ao rodado do comboio; Julieta quando vê Romeu, aparentemente, morto na cripta dos Capuleto, não pára para pensar no que poderá ter corrido mal no plano e enterra em si o punhal; Fedra, despeitada com a recusa de Hipólito, não mede as consequências da acusação que vai fazer.

O desvario não habita a claridade helénica do logos, o desvario é do domínio do topos, do lugar, da circunstância.

Se não somos sem a nossa circunstância, há que ter mão nela.

Por um punhado de romãs


convite,

Para quem não tem presente, eu conto: Proserpina ( vou usar o nome latino das personagens para não haver confusão ali com os dracmas do Rui)  andava a colher flores no campo. Plutão, deus ctónico, ascendeu à superfície para dar uma vista de olhos pelo mundos dos vivos. Subiu por uma fenda da terra (ex hiatu terrae  para quem ainda vem do tempo do Latim no liceu, lembram-se?), olhou em volta, viu a donzela e as flores e pensou que não era nada má ideia levá-la lá para baixo, para o meio das sombras gemebundas.  Os deuses da mitologia greco-latina são assim um bocadinho para o precipitado. Plutão nem se deu ao trabalho de pensar se a rapariga das flores tinha quem lhe chorasse a ausência. E tinha: era filha da deusa Ceres, a que dava as flores e os frutos aos homens. O resto da história é conhecido. A deusa, inconsolável, percorreu a terra em busca da filha, demanda essa que teve nefastas consequências, pois que Ceres, esquecida das suas atribuições, não fazia germinar as sementes nem crescer as árvores e, sobre a terra, a iminência da fome começava a fazer-se sentir.

Foi Júpiter quem teve de pôr fim àquele descalabro, concertando entre a mãe e o raptor uma solução: Proserpina passaria metade do ano nos Infernos e a outra metade à superfície. Pois é, a alternância das estações é apenas isso: quando Proserpina está junto de Plutão, as árvores perdem as folhas e a natureza parece chorar; depois, quando ela volta para a mãe, tudo reverdece e são abundantes os frutos e as flores.

Há, todavia, pormenores que não vinham no livro de Latim do liceu. Há sempre pormenores que não vêm nos livros do liceu. Quando Proserpina chegou lá abaixo, primeiro, achou que era um bocadinho escuro e frio e, enfim, um deus dos mortos também não há-de ser uma companhia muito calorosa, não sei, digo eu que nunca privei com deuses ínferos. Plutão, todavia, resolveu mostrar trabalho e rodeou a deusazita de cuidados. Arranjou-lhe um sítio bom para ficar, deu-lhe atenção, conversou com ela e, melhor ainda, trouxe-lhe rutilantes romãs que ia descascando, descascando, sem se cansar, que isto de ser deus sempre há-de ser uma vantagem. Proserpina comia os bagos doces e sedosos das romãs e esquecia, aos poucos, o mundo dos vivos. As romãs tinham essa propriedade desmemoriante na antiguidade; hoje em dia, não sei se ainda a possuem. Verdade seja dita, a moça já andava um bocado farta daquela euforia estival em que a mãe a arrastava de sol a sol.  Muita luz, muita festa, muita gente. Não sei se ela terá arranjado, lá no mundo dos mortos, alguma amiga a quem tenha feito confidências do género: “Ah, eu andava muito farta de toda aquela luz, aquela agitação. Aqui estou como se morasse no blogue do Filipe Nunes Vicente, λάθε  βιώσας, estou numa boa, sem confusões.”

Deduzo que se terá aborrecido com a decisão que tomaram sobre a vida dela sem a terem consultado.

Cá para mim, mais algumas romãs teriam feito toda a diferença. Talvez ela tivesse passado daquela ataraxia complacente e tivesse exigido, pelo menos, mais três meses longe do sol e do solo.

Mas isto digo eu, que gosto é do Outono.

Da natureza de alguns humanos


convite,

Como sabe quem me é chegado, se há coisa que me aborrece é ir ao supermercado. No entanto, reconheço que, não raro, trago de lá motivo de reflexão.

A presença do meu filho em casa durante o fim-de-semana pede sempre uns mimos culinários para os quais necessitava de ingredientes que não tenho habitualmente. Lá fui. E reparei numa coisa que já me tinha chamado a atenção e na qual não me detivera ainda. Por todo o supermercado há produtos abandonados fora do sítio próprio: quatro iogurtes junto aos pacotes de arroz, uma embalagem de bacon na prateleira dos sumos, dois queijos frescos em cima dos limões. Isto só para dar alguns exemplos. Estive a pensar num termo com o qual eu pudesse qualificar a atitude subjacente a estas deslocadas presenças. Não me ocorre outro melhor: é estupidez.

Vejamos, e eu não sou, muito longe disso, um exemplo de disciplina e ordem no momento de fazer as compras. Normalmente faço uma lista, mas posso bem ir sem a fazer. Compreendo perfeitamente que alguém, olhando para o carrinho, pense: “Afinal, não preciso de esparguete, ainda lá tenho.” O que eu não compreendo é que se agarre no pacote de esparguete para o colocar na prateleira mais próxima que, por acaso, é a dos sabonetes.  Já me aconteceu, algumas vezes, decidir que, afinal, não vou levar algum produto que já tinha retirado do lugar. Volto lá. Parece-me elementar. Faço marcha atrás e volto a colocá-lo onde o tirei. E, mais fácil ainda ou se estiver muito apressada, posso deixá-lo na caixa: “Desculpe, afinal, não vou levar isto.” É capaz de ser mais correcto. Não sei, digo eu.

Haverá, decerto, quem argumente que não tem de estar a facilitar a logística do supermercado. Eles é que têm o lucro, eles que suportem as contrariedades.

Pois. Mas, na minha opinião, nada disto tem a ver com eles. Tem a ver com cada um de nós.

Na mesa do lado


convite,

Quando me disponho a sentar-me para beber café na esplanada, ou vejo coisas engraçadas, como aqui contei, ou ouço pedaços de conversas e frases soltas, se alguém levanta a voz mais do que seria suposto.

Hoje, a meu lado, conversava-se em surdina. Assertiva, uma das frases subiu no tom:

– Aquilo era uma relação de sexo e ódio.

Como estava a ler algo menos, digamos, agitado, baixei o meu nariz para as palavras escritas e abstraí-me das palavras ditas. Diga-se de passagem que, também, não me agrada muito ficar de ouvidos receptivos à vida dos outros.

Mas registei, mentalmente, a frase para voltar a ela quando tivesse tempo. Se eu fosse tão arrumada com os meus papéis como sou como os meus pensamentos, muita coisa seria diferente.

Liberta dos afazeres vespertinos, cheguei a casa e sentei-me no sofá de onde vejo o castelo, para pensar. Penso muito melhor quando estou lá a olhar para o castelo. É como se as voltas de todos os raciocínios fossem ao fundo do tempo e me trouxessem o que tinham aprendido na viagem.

Evoquei histórias vagas, pequenas confidências, desabafos antigos.

– Aquilo era uma relação de sexo e ódio.

Fosse lá do que fosse que estavam a falar, todas as probabilidades apontam para que história de que ali se fazia balanço seja pouco original. 

Ab initio


convite,

É do chão que sobe

o rumor das estradas ao longe.

 

É a distância ainda quente,

é a distância incompleta,

é o caule de Setembro

a emergir da terra.

 

in Ordem Breve, p.37

A menina almoça?


convite,

A nossa relação com os álvaros e os doutores cria as mais curiosas situações. Lembro-me de um professor universitário brasileiro que, quando esteve em Portugal a leccionar um seminário, me disse: “Sabe, eu cheguei procurando não enrolar o meu pé no tapete das etiquetas.”

Eu, quando estou em aula, prendo-me a essas minudências. Afinal, o pessoal está ali para aprender e a pragmática linguística também faz parte do conjunto. Fora isso, acho que a vida não está para pormenores. Confesso, todavia, que o “você” vindo de uma criaturinha muito nova me arranha sempre.

Uma vez almocei em Serralves e, a certa altura, o empregado, um efebo imberbe, perguntou: “A menina já escolheu?”. Olha-me este, pensei eu. Descobri, logo de seguida, que aquele “a menina” atravessa todo o comércio portuense e é uma delícia.

Ora bem e vamos lá a ver se acabo esta conversa: aquele post que o Rui fez ontem comoveu-me muito. De modo que  achei estar a precisar de coentros para resolver um assunto e passei pelo mercado. Diz-me a rapariga que os vendia:

– Então e esta mocinha? O que é que deseja?

– Já fui, já fui – respondi eu e tivemos uma conversa engraçada.

No caminho para casa, recordei uma história antiga. Um colega meu, quando ia para o liceu onde dava aulas, costumava parar no mesmo engraxador. Passava os olhos pelo jornal, enquanto os sapatos recebiam polimento e, no fim, ouvia sempre:

 – Então obrigado, senhor engenheiro.

Em resposta, repetia o pedido de  que não o tratasse por engenheiro, uma vez que o não era. Certo dia, o homem impacientou-se:

 – Então como é que o hei-de tratar?

Lá foi dizendo que, sendo licenciado em História e professor num dos liceus da cidade, existiam várias possibilidades de tratamento, era só escolher. O engraxador ouviu com atenção. No dia seguinte, quando acabou o trabalho, tornou:

– Então obrigado, senhor engenheiro.

– Homem! Já lhe disse que não me trate por engenheiro porque eu não sou engenheiro.

– Olhe: não é, mas pode vir a ser.

 

Eu é que já não posso vir a ser uma mocinha, por isso vou almoçar. E sabe a coentros. 

Subsídios para um tratado de psiquiatria


convite,

Padeço de um distúrbio da personalidade ainda não descrito, julgo eu, na literatura especializada: excesso de confiança em pequenos espaços fechados.

Descobri-o ontem em mim e para a sua manifestação concorreram dois factores:

 

A– Deito-me tarde e levanto-me cedo. Faço sempre um esforço para vir a casa durante a hora do almoço de modo a dormitar uns instantes. Bastam-me quinze, vinte minutos: mergulho funda e rapidamente no sono e venho logo à tona, devagarinho. Fico pronta para o resto do dia.  Quando tal não acontece, tenho um momento difícil por volta das seis da tarde. Eu devia ser declarada inimputável entre as seis e as seis e meia nos dias em que não tenha sido possível reclinar-me para o meu fugaz repouso pós-prandial. 

 

B– Os elevadores do meu prédio não têm quaisquer problemas. Têm, todavia, alguns caprichos. Alturas há em que se recusam a abrir a porta. Já aprendi que, pressionando a porta num determinado sentido, ela abre. Outras vezes não abre. Quando não abre, é ir carregando, com fé, nos botões que indicam os andares. Às vezes cedem e retomam a sua actividade normal. Fazem-no, igualmente, se alguém os chamar de outro piso.

Já me aconteceu, num desses momentos de birra ascendente ou descendente e após conseguir abrir a porta, dar de caras com uma parede.  Ninguém me respondeu quando chamei a assistência técnica, de modo que pensei que já tinha visto muitos filmes e que, bem no fundo de mim, havia de haver uma Clarice Starling, uma agente da Mossad,  ou qualquer coisa intermédia. Investiguei e lá consegui chegar com a ponta dos dedos a uma reentrância que me permitiu voltar a fechar a porta. E ele moveu-se.

 

Observação de sintomas – Ontem, não me deitei durante a tarde e tinha dormido pouco na noite anterior. Seriam seis e pouco quando desci para verificar se, na caixa de correio, estaria uma correspondência esperada. Não estava. Voltei para trás. Entrei no elevador e lá fui eu. Quando o gongo avisou a chegada ao meu andar, ignorou-o e permaneceu de porta cerrada. Tentei abri-la mas não consegui. Tentei as várias manobras já usadas em situações que tais e nada. Assistência técnica de ouvidos moucos e nem adiantaria ter o telemóvel comigo porque não há rede lá dentro. Pensei que alguém o havia de chamar e ele responderia solícito como é sua obrigação. Resolvi sentar-me no chão de pernas cruzadas que nem uma deusa hindu. Encostei-me e esperei.

É ainda Agosto, ainda há gente de férias:  este prédio era, ontem, um veleiro quase deserto a flutuar sobre a avenida. Acordei com um solavanco de movimento e só tive tempo de me alinhar para aparecer sorridente e composta perante a minha vizinha do 4º andar. Pelas minhas contas,  dormi uns três quartos de hora.

 

Conclusão – Isto não é normal. Quod erat demonstrandum.

Hóspedes


convite,

I don´t believe in metaphors.

I just allowed them

to keep trying

a tango with my words

to write blind steps

on my devoid floor.

 

I don’t believe in metaphors,

but sometimes they stay,

well-known guests,

behaving

as the lady of the manor.

Da inutilidade retórica


convite,

A minha capacidade argumentativa hoje abriu em baixa. Tomei café com um colega que não via há algum tempo.  Queixou-se, com visível tristeza, de que tinha engordado uns quilos em que não conseguiu ter mão. Expus-lhe a minha velha teoria: os homens, ao contrário das mulheres, não engordam: encorpam. O que é uma mais-valia, pois que fragilidades masculinas querem-se na alma e não no corpo.

Não consegui convencê-lo.

Um sítio bom para morrer


convite,

Há pouco, quando desci para ir beber café, ouvi uma senhora dizer para outra: “Já lhes disse que, quando chegar a minha hora,  quero é morrer em casa na minha cama.” Pelo tom calmo da frase, deduzi que aquele “quando chegar” se referia um hipotético futuro e não a um previsível desfecho à vista.

Já ninguém morre em casa. Pensei num quadro que está no Museu Nacional de Arte Antiga que, quando o vi, me fez lembrar uma canção de Aznavour, “La Mamma”. O quadro, cujas referências não tenho de memória, intitula-se “O passamento da Virgem”. É um daqueles quadros de temática mariana que representam os momentos marcantes da vida da Virgem Maria. Naquele, a Virgem agoniza num leito deslocado para o lado esquerdo do quadro. Em redor, a vida doméstica não parece sofrer alterações: os quartos de uma maçã e a sua casca repousam num prato sobre a mesa, uma mulher cozinha junto à grande lareira acesa, umas galinhas passeiam por ali no meio de uns brinquedos de criança, uma cesta de fruta entorna-se pelo chão. Quando olhei para o quadro achei-o ingénuo, mas, depois, olhei para ele com os olhos de outro tempo. Um tempo em que a morte, melhor, o morrer estava presente na domesticidade que não se alterava nem se detinha. Por isso, o leito da moribunda não era o centro do quadro, o centro do quadro era aquela grande cozinha, metáfora da vida, que olhava para um moribundo como para uma cesta de fruta caída à passagem apressada de alguém.

Em “La Mamma”, Aznavour também canta a morte a acontecer num espaço doméstico. Mas num espaço que se organizou para a receber, que se virou todo para ela, ao contrário das mulheres que, no quadro lá de cima, continuam imperturbáveis os seus afazeres. Naquela toada mediterrânica e solar, o cantor diz-nos que  la mamma vai morrer, que vieram todos, até  Giorgio, le fils maudit, que as crianças brincam em silêncio junto do leito, há um oncle guitarriste qui joue en faisant attention à la mamma. E conclui que c’est drôle, on ne se sent pas triste, prés du grand lit de l’Affection.

Estas mortes assim representadas não existem mais. A tipologia das casas modernas relegou o quarto do moribundo (como também o leito da parturiente) para o exterior, concentrou-se no percurso da vida, não nas suas extremidades. Ainda bem, digo eu,  se me deixar de lirismos. Antes a assepsia branca e eficaz de um hospital indiferente, onde alguém nos deixou para que fôssemos cuidados, do que ser, inaudível e esquecida, uma progressiva mancha de fluidos corpóreos decompostos na solidão do soalho flutuante.

O que me incomoda, ao de leve, é não haver um ponto intermédio. Morre-se cada vez mais tarde, devia morrer-se cada vez melhor.

Just arrived


convite,

Nos tempos que correm, parece-me grande impudência arranjar uma segunda casa e habitar, na deriva do momento ou da vontade, uma ou outra. Há, todavia, convites que, de tão generosos, se torna difícil declinar. Não sei bem o que de novo posso trazer a esta casa de mesa farta e alegres janelas. Entro na esperança de que, quando as minhas conversas abrirem bocejos no rosto das visitas, não hesitem em dizer-me: “Deves estar cansada. Não queres ir dormir para outro lado?”

JUST ARRIVED


convite,

Nos tempos que correm parece-me grande impudência arranjar uma segunda casa e, ao sabor do momento e da vontade, habitar uma ou outra. Os deuses que protegem a audácia são os mesmos que castigam o excesso. Há, todavia, convites que, de tão generosos, são irrecusáveis. Não sei bem o que possa trazer de novo a quem já tem tanto, que esta é casa de mesa farta e alegres janelas.

Venho, pois, na esperança de que me digam, quando as minhas conversas abrirem bocejos no rosto das visitas: “Deves estar cansada. Não queres ir dormir para outro lado?”