Por razões que não vêm agora ao caso, estive, durante a tarde, a braços com a tragédia Alceste de Eurípides. Apresentada nas nas Dionísias Urbanas de 438 a.C., o seu plot é conhecido: por determinação dos deuses, o rei Admeto só poderá evitar a morte iminente se alguém se sacrificar em seu nome. Os pais, conquanto sejam idosos, recusam-se a abreviar o tempo de vida que lhes resta e só a mulher, Alceste, se dispõe a substituí-lo na morte. Héracles, a caminho do seu 8º trabalho, é recebido por Admeto apesar do luto em que o palácio mergulhara. Para recompensar o rei pela obediência às leis da hospitalidade num momento tão difícil, traz Alceste da morte para o amor.
Este happy end talvez não seja o mais comum na tragédia, mas as outras características estão lá todas. Platão olhou para a figura de Alceste apenas de uma perspectiva que confere ao sentimento amoroso a força motriz do gesto da rainha: “Os numes honraram nela a virtude máxima do amor.” Não é só o amor mas o carácter que impulsiona Alceste para a abnegação total. Uma capacidade de sacrifício que persiste sem assentar a mira num qualquer retorno. Quando lhe dizem que, por tal gesto, será sempre recordada e honrada, Alceste responde : οί θάνοντες τεθνήκασι “Os mortos, mortos estão.”
Uma frase lapidar que é um manancial para os estudantes de Clássicas aprenderem as subtis diferenças entre o aoristo o pretérito perfeito gregos e que nos traz a pétrea serenidade determinada de que sabe o que quer e o quer fazer.
Shakespeare esteve mais próximo da ideia de sacrifício, quando colocou na voz do velho rei Lear estes versos, sem dúvida inspirados na rainha de Feras: “Upon such sacrifices, my Cordelia, / The Gods themselves trown incense.”
Para além de um binómio caro aos antigos, Amor/Morte, parece-me clara a lição euripidiana de que todo sacrifício ou abnegado gesto tem um efeito boomerang, ainda que não seja imediato, ainda que não seja da esfera do claramente visível.
Os gregos, os antigos, sabiam muito. Como muito sabiam os poetas, os pintores, os escritores, os cineastas, os artistas que os seguiram. Na sua crónica de hoje n’ O Expresso, o Manuel S. Fonseca diz-nos que “ quando (…) nada for como dantes (…) há-de acordar-nos na boca o sabor de um filme antigo. Vai saber bem. Será que nos salva?”
Creio que sim: o filme antigo, o livro muito lido, o poema repetido, a tragédia grega ou o quadro na parede do museu hão-de ser também, como diz o Pedro Correia num post aí abaixo “uma chave para decifrar o mundo”.
A nossa Patrícia, no seu livro Por este mundo acima, coloca, como único sobrevivente no cenário de uma Lisboa pós-apocalíptica, um editor de livros. Se entre os antigos se sabia como atravessar o coração das trevas, é bom que nunca se esqueça onde é que isso se escreveu e se voltou a escrever, qualquer que seja a linguagem utilizada.
Hoje, fartei-me de fazer citações. Ainda bem: eu também acho que são os outros que nos salvam.

Meu Deus, que bem me soube ler esta reflexão e como me salvou a hora, talvez o dia. Todo o meu coração mergulha no clássico, na sofisticada sabedoria dos antigos.
Bem-hajas, Ivone.
Eu é que agradeço a leitura.
Excelente texto, Ivone. Não só pela forma – sempre irrepreensível em ti – como, sobretudo, pela enorme importância desta ideia que também defendo: não há futuro sem conhecimento do passado, todas as lições são preciosas e não devem ser desperdiçadas, sob pena de se viver numa eterna e estéril imaturidade. A preservação da memória é essencial. Além disto, concordo: são sempre os outros que nos salvam, e ainda bem que assim é.
Gostei muito desta reflexão, que aponta ao essencial, Ivone. Como bem escreve a Ana, «não há futuro sem conhecimento do passado, todas as lições são preciosas e não devem ser desperdiçadas, sob pena de se viver numa eterna e estéril imaturidade.»
Este apelo à memória – inclusive da memória artística, como signo e sinal de vida – é fundamental num tempo em que tudo nos surge fragmentado, sem raiz nem contexto, e em que o pensamento comum parece esgotar-se numa profusão caótica de títulos e estribilhos.
Obrigada, Ana e Pedro.
Chapeau!
Merci.