Hoje de manhã, quando me afastava do multibanco, fui interpelada por uma senhora muito idosa. Muito mesmo.
– A senhora desculpe-me, não me fazia um favor? Está muita gente lá dentro. Não via aí uma coisa na máquina? Não tenho muita habilidade para isso, é tudo muito rápido.
Senti-me um pouco desconfortável. Mas, sem que tivesse tempo para responder o que quer que fosse, pôs-me o cartão nas mãos e disse o código. Consulta de movimentos, retirar o talão, procurar o registo do que pretendia. Não pude, como é óbvio, deixar de ver o saldo. Um montante desaconselhável a olhos alheios. Não me contive e disse, delicadamente:
– A senhora não devia pedir isto às pessoas. Tem muito dinheiro na conta. Dá o código e alguém e podem enganá-la, tirar-lhe o cartão, qualquer coisa.
Soltou uma gargalhada cristalina:
-Então, acha que eu, com esta idade, ainda não sei ver quem é pessoa séria?
E afastou-se, depois de agradecer, ainda a rir de mim e a abanar a cabeça.
E eu fiquei parada a pensar no que deveria desejar: se aquela largura no montante disponível, se ser capaz de ver no rosto alheio a marca da alma.

Alguma aura existe na nossa “facies” que permite uma leitura;passível de equívocos, é certo, mas que a nossa Alma lê.
Serendipidade…conhece a palavra?
Aconteceu-me o mesmo no outro dia… exactamente a mesma situação. Deu-me um grande beijinho e eu outro.
Soube bem…
Eu não arriscava:
“Quem vê caras não vê corações”
Por vezes a serendipidade engana-se e dá de caras com um (a) sarapanta…
Que não é o caso… evidentmente!
A sua dúvida final significa que só poderá mesmo igualar a senhora idosa no saldo, nunca terá coração para o resto.
Tem toda a razão, tenho um coração muito imperfeito.
Ivone, já me aconteceu precisamente o mesmo. E foi inútil lembrar-me dos insistentes avisos que recebo diariamente por mail (porque o perigo também pode ser para quem ajuda), ajudei a senhora e pronto. Recuso aderir a esta onda de desconfiança “por princípio”, que nos desumaniza e afasta uns dos outros sem remédio. E logo agora, que precisamos tanto de ser solidários. Também acredito nisso, na minha capacidade de avaliar uma pessoa pelos olhos. E até agora não me dei mal com o método.
Sim, Ana, a desconfiança “por princípio” não é um bom princípio.
Eu também não me tenho dado mal com a minha intuição. 🙂
Que mal lhe pergunte: Qual foi a sua intuição em relação a Sócrates….
Confesso que ele me enganou… aí a “serendipidade” falhou sem piedade..
Vá pelo Zé Povinho:
Quem vê caras…..”
Credo, não poderia dar um outro exemplo?
Um não… vários:
D.Branca… carinha laroca
Fátia Felgueiras … a mártir
Vara… o robalo fresquinho
Isaltino… o empreendedor
Loureiro … o temperador
Godinho… o rei da reciclagem
etc etc ( seria fastidioso enumerá-los )
Fico-me por mim próprio… (se me der o endereço da Velhinha do Multibanco)
Ainda bem que não teve tempo para reagir… Poder confiar deve ter sido tão bom para a Senhora Velhota.
Estou, talvez, a ser demasiado optimista, mas tenho uma boa desculpa – é Segunda-feira 🙂
Está em todos os meios de comunicação social e a polícia, PJ e autoridades competentes já foram, também, avisadas;:”Dão-se alvíssaras a quem tiver conhecimento do paradeiro de uma Senhora chamada Ivone Costa, suspeita de ter burlado uma anciã com um cartão de crédito furtado, a qual apresentou queixa;muito possivelmente, e pelos registos dos talões disponibilizados pela Banca, ostentará uma mala “Prada” , acessórios da DNKY e sapatos “Laboutin” ou “Jimmy Shoo”.Foi vista pela última vez no aeroporto de Antananarivo.Já foi, também, solicitada a intervenção da Interpol e emitido o respectivo mandato de captura”.
No comments!!!
O crime não compensa, está visto. 🙂
Em situações destas pergunto-me sempre se nos ensinámos (ou ensinaram?) a desautomar algum tipo de instinto fundamental, Ivone; ainda não cheguei a nenhuma conclusão.
Belo post.
Olha, Cláudia, não chegaste tu nem cheguei eu. Nem sei se alguma vez chegaremos.