Há tempos, quando estava na biblioteca com alunos, uma das miúdas abriu ao acaso a Aparição, no trecho em que Sofia, durante a explicação de Latim, lê uns versos da livro 4 da Eneida: Ana soror, quae me suspensam insomnia terrent/ Quis nouus hic nostris sucessit sedibus hospes e, depois, de intentar uma tradução, beija o incauto Alberto Soares. A minha aluna comentou: “Ah, isto de aprender latim deve ser giro.” Lidas aquelas linhas, na cabeça dela, o latim passou a ser uma coisa de palavras desconhecidas e explicadores dúcteis.
Aproveitei o momento para lhes falar de Dido e Eneias, mais propriamente da desvairada Dido. Juntando as pontas da história rapidamente: Eneias, exausto dos errores marítimos, após a tomada de Tróia, aporta a Cartago, onde a rainha Dido o recebe e por ele se apaixona. No entanto, Eneias tem um destino a cumprir e ao qual não se pode eximir: fundar uma nova nação no Lácio. Nas entrelinhas da Eneida, sente-se bem fulgor da hospitalidade de Dido e, também, o quão agradável isso estava a ser para Eneias. Mas os deuses apontavam-lhe um outro caminho e a paixão insana de Dido não consegue retê-lo. Como disse Camilo Castelo Branco, e bem, “Ninguém sente em si o peso do amor que inspira e não comparte.” Desvairada, Dido suicida-se com uma espada que Eneias deixou para trás.
Praticamente toda a literatura ocidental é percorrida por esse momento de insanidade pontual que condiciona o desfecho da história. Está certo, se na morte de Dido podemos ler a simbologia do destino futuro de Cartago, em muitos outros textos encontramos apenas um momento, uma decisão tomada sem as escoras da racionalidade e, a partir da qual, tudo se precipita, acaba, desmorona.
Anna Karenina não se detém a tentar aceitar que o amor físico é temporário sustentáculo para uma relação que se queira, mais do que conjugal, familiar e lança-se ao rodado do comboio; Julieta quando vê Romeu, aparentemente, morto na cripta dos Capuleto, não pára para pensar no que poderá ter corrido mal no plano e enterra em si o punhal; Fedra, despeitada com a recusa de Hipólito, não mede as consequências da acusação que vai fazer.
O desvario não habita a claridade helénica do logos, o desvario é do domínio do topos, do lugar, da circunstância.
Se não somos sem a nossa circunstância, há que ter mão nela.

Adorei a frase final, Ivone. E o texto. Muito bem.
Esqueceste-te de Salomé, a mais desvairada das despeitadas, a mais violenta das rejeitadas. Porque o desvario também pode virar-se contra os outros, e vira-se muitas vezes contra o próprio objecto da paixão.
Um bom ponto de reflexão seria analisar em qual dos actos entra maior dose de racionalidade… 🙂
E eu esqueci-me de dizer que gostei muito do texto. A frase final é uma verdadeira pérola.
E ainda dizem (as mulheres) que os homens são muito impulsivos, que agem precipitadamente e sem pensar nas consequências…

Bela reflexão. O final levou-me às aulas de filosofia de Liceu. Já lá dizia Ortega y Gasset: “Yo soy yo i mi circunstancia”.
Já não me lembrava do final da frase, mas fui repescá-la e assenta que nem uma luva ao texto:
“Yo soy yo i mi circunstancia y si no la salvo a ella no me salvo yo”.
Obrigada.
Sim, Ana, Salomé também é um belo exemplo.
É isso mesmo, Hugo.
Outro excelente texto, digno de figurar na antologia Delito.