O país digeria ainda a revolução. O meu melhor amigo era o Preto. Um rafeiro negro, dócil e companheiro, com uma mancha branca no peito. É claro que teve os seus desentendimentos com as galinhas do Alexandre. Algures nuns territórios inóspitos que começavam exactamente no limite do quintal da casa dos meus avós. É certo, também, que algumas não sobreviveram. Mas, não me parecia, à época, que tal comportamento justificasse mais do que um olhar de censura. Que diabo. Eu já tinha visto uma galinha a passear-se sem cabeça depois de a minha avó lhe ter cortado o pescoço. E não me tinha zangado com ela por causa disso. Ao olhar de censura, o Preto respondia estendendo-me a pata. E eu abraçava-o sem mais recriminações. As manhãs de Outubro pareciam-me, então, bem mais frias do que as de todos os Outubros que vivi. Os acontecimentos, claro, devem ter levado o seu tempo. E hão-de ter-se sucedido todas as peripécias e rotinas próprias da saída de casa. Mas, antes de chegar à escola, só recordo daquela manhã um frio intenso enquanto, pela mão da minha mãe, cruzava a feira de Espinho. Os meninos foram entrando na sala, à medida que chegavam. Sentei-me no lugar que o Professor me indicou, respirei fundo e esperei com os olhos pregados na lousa. O meu companheiro de carteira começou a gemer e a bater com as pernas. O Professor Bigail aproximou-se dele e, por momentos, pensei ver nos seus olhos uma profunda compaixão. Depois da bofetada, a cabeça do Quim ficou a abanar como um pêndulo, ao mesmo tempo que os gemidos iam definhando e as pernas ficavam abandonadas em repouso. A lousa negra e a sala que a debruava tomaram-se de cores acastanhadas e sei, desde esse dia, que o castanho é a cor dos meus medos. O movimento pendular das cabeças esbofeteadas repetiu-se ao longo do dia, sempre que alguém tentou a fuga ou, por ignorância ou profundo terror, não respondeu às primeiras perguntas sobre o aeiou. O Bigail não recorria a varas ou palmatórias. A justiça grossa e inapelável que infligia tomava-a nas suas mãos, sem intermediários. Naquele primeiro dia, corremos no recreio, como todos os meninos. Mas, não era à apanhada que jogávamos. Ainda ali, era do Bigail que fugíamos. Nessa fuga desordenada, lembro-me de, a certa altura, ter cruzado os olhos com a feira. Vi o Alexandre que vendia galinhas. Ali estavam todas as que tinham sobrevivido ao ataque do Preto do dia anterior. O sacana tinha estado junto de mim, com focinho de quem não fazia mal a uma mosca, enquanto eu me pendurava na grande roda que puxava a água do poço. Depois ausentara-se para só regressar segundos antes de se ouvirem os primeiros gritos de indignação do Alexandre. Uma semana depois, fomos viver para Braga e eu mudei-me para a escola de S. Lázaro. A Professora Maria José recebeu-nos no recreio de terra batida onde estava a cantar numa roda de meninos sorridentes. Ouvi-a dizer à minha mãe que havia lugar na turma dela ou na do Professor Marinho. Puxei o braço da minha mãe e disse-lhe muito baixinho, enquanto as lágrimas das saudades do Preto se juntavam às da angústia provocada pela possibilidade de um novo Bigail: mamã, desta vez quero uma Professora.

Rui, quando é que publicas? Avisa, está bem?
Obrigado, Ana.
Excelente, apesar do toque politicamente incorrecto de chamar “Preto” a um rafeiro negro.
E a professora Maria José era boa? (Quero dizer, simpática, como parecia no recreio…)
É a vida tal como ela aconteceu. Jaa. Bem sei que um dia, alcançada a fama e o reconhecimento literário, terei que mudar o nome do cão ou sujeitar-me às consequências. A Professora não era boa (entendamo-nos, não era nenhuma Madre Teresa de Calcutá), mas era competente, justa, rigorosa e exigente na sala de aulas e simpática nos recreios.
Pois, a escola, naquele tempo… E as lousas… O meu marido já não as conheceu, na Alemanha, nos anos 60/70 já não se usavam.
Então não pôde levar o Preto, quando mudaram de casa? O que lhe aconteceu?
O Bigail não percebia uma palavra de eduquês, Cristina. Se bem me lembro, a Professora Maria José já não usava lousa… O Preto era o cão dos meus avós. Lá ficou na casa deles. Passei a vê-lo só aos fins-de-semana.
O Bigail não era caso único, muitos professores não faziam ideia de como lidar com crianças 🙁
Depois do 25 de Abril, a situação melhorou, pois foram obrigados a frequentar muitos cursos de actualização, chamavam-se “cursos de reciclagem” (sei isto porque os meus pais eram os dois professores primários).
Eu usei lousa, pelo menos, nas 1ª e 2ª classes, acho que só depois do 25 de Abril (que me apanhou na 3ª) é que desapareceu. Este pormenor é, para mim, interessante, porque um parente do meu marido, com mais de 70 anos (alemão), escreveu as suas memórias. Fala lá no uso da lousa, e o meu marido contou-me aquilo muito divertido, como se se tratasse de algo medieval, pensando que me ia surpreender. Eu é que o surpreendi, quando lhe disse que ainda a tinha usado.
Obrigado pela clarificação do caso do Preto. Embora ele já tenha morrido há muitos anos, confesso que fiquei aliviada 🙂
Já o mesmo não se pode dizer das galinhas do Alexandre que ainda que o tiveram que aturar mais uns anos.
que lindo… lindo mesmo, adorei tudo, as descrições, a narrativa, tudo.
bjo, o meu pai tb é de Braga 🙂
Obrigado pelas suas palavras, Isa. Braga é uma cidade interessante. Algo estragada por ter, nos últimos anos, muitos prédios e pouca arquitectura.
Parabéns pelo texto, Rui. Também este merece entrada directa na futura antologia Delito de Opinião.
Obrigado, Pedro. Essa da Antologia parece-me uma excelente ideia.
Conheço quem tenha aspectos menos bons da infância para contar. Também da escola. Lá chegaremos…
No meu caso, esta má experiência escolar foi só de uma semana, Sandra. Mas, lembro-me muitas vezes dos meus colegas que continuaram a ser alunos do Bigail. E dos que foram de outros Bigais.