Esta tarde fui ver Midnight in Paris.
Eu sei que poucas coisas se comparam à visão de Manhattan a partir do divã de um psicanalista, mas tive de me render a este passeio europeu de Mr. Allen.
O protagonista, um norte-americano que aspira a escrever romances, na antecâmara de um casamento que não lhe tira o fôlego, passa alguns dias em Paris. E, na terna noite de Paris, assim que bate a meia-noite, pára um automóvel que o leva para o passado. Estamos aqui perante a inversão do motivo da Cinderela que, ao tocar das badaladas, volta a ser quem não queria ser e a habitar o espaço que não queria habitar. Gil Pender, o americano em Paris, vai ao encontro do tempo onde queria viver, os anos 20 e a festa parisiense.
Há alguma ingenuidade na caracterização das personagens, construídas a partir de uma reconhecível e previsível semiologia, mas o efeito nostálgico que provocam é incomparável. Que aceitaria um Hemingway que não fosse truculento?
O primeiro encontro é, creio que intencionalmente, com Zelda e Scott Fitzgerald. Aliás, parece-me e a não ser que eu também esteja a ver coisas onde elas não existem, que o apelido de Gil, Pender, é um jogo fonético: a sobreposição do P de Paris sobre o T do título da obra de Fitzgerald, Tender is the night.
As noites de Gil saem da companhia da noiva, dos pais da noiva e dos amigos da noiva para uma entourage absolutamente fascinante: Cocteau, Cole Porter, Hemingway, Picasso, Buñuel, Dali, Man Ray. Até a materfamilias da geração perdida, Gertude Stein, uma muito bem achada Kathy Bates, lá pontifica, disposta a ler o livro de Gil, o livro onde a personagem principal é dona de uma loja de nostalgias, as memorabilia tão ao gosto do autor.
Se na Paris presente Gil não tem quem lhe acompanhe os gostos e as preferências, num desencontro quase permanente, na Paris passada vai encontrar em Adriana, a jovem que, quando diz “o Amadeo” está a falar de Modigliani, uma momentânea companhia. Momentânea porque se trata de um novo desencontro: Adriana, a dos vestidos de cintura baixa e pailletes, queria era viver na Belle Époque. Lá irão parar uma noite, a um cabaret onde, depois da saída da última cancaneuse, vêem Toulouse-Lautrec a quem se juntam Gaugin e Degas. Estes também não era ali que queriam estar, mas na Renascença.
Gil percebe, então, que o tempo é uma loja de memorabilia. Umas já não servem, outras são inatingíveis. E nada é como o presente.
Adriana ficará presa na sua idade de ouro, enquanto o detective que o pai da noiva americana contratara para seguir a noite de Gil se vê perdido em Versalhes, na Galeria dos Espelhos.
É Paris mas podia ser Xangai. Quando o cinema não for um jogo de espelhos, mais vale ficar em casa.

Absolutamente de acordo, Ivone. Devo a este Midnight in Paris a minha reconciliação com Woody Allen, e a Woody Allen a vontade de voltar a Paris sem demora. Quem sabe se numa qualquer meia-noite, numas escadinhas de Montmartre, não me aparece também aquela reluzente máquina do tempo? Há muito tempo que eu não sentia isto num filme de WA: ainda o filme não tinha acabado e já me apetecia revê-lo.
(além de tudo o mais, aprendi uma coisa que não sabia: Toulouse-Lautrec era anão!)
Sim, Ana, dá vontade de ver Paris.
Eu não sei se Toulouse-Lautrec era anão. Creio que tinha um torso de homem e umas pernas muito curtas porque, em pequeno, as fracturou sem que sarassem bem. Tudo isso provocado, claro, por problemas ósseos.
Há, descrito na ortopedia, a síndrome de Toulouse-Lautrec que não sei o que é.
Aquelas personagens estão todas muito bem desenhadas.
Muito bem, mesmo. E o Dali? Está igual.