Sempre entendi a organização do espaço urbano como a primeira marca de civilização. A possibilidade de habitar a polis é a aquisição de uma parcela da vitória contra o caos. Mas a Cidade tem exigências. Ainda hoje de manhã pensei nisso: aos sábados, tenho o hábito de, durante uma meia hora indolente, flâner aux vitrines num centro comercial. No parque de estacionamento da cave há, quase sempre, carros mal estacionados, enviesados, a ocupar uma parte do espaço destinado a outro, de tudo um pouco. Hoje pasmei: alguém estacionara um carro exactamente no meio de dois lugares, a linha amarela que compartimenta os espaços coincidia, na precisão, com o meio da viatura. Quem é o cidadão que faz isto? (Os meus amigos dirão, todos marialvas, que, com grande probabilidade, será uma cidadã, está bem, está bem!) É falta de atenção? É desprezo pelos outros? É um momento de rebeldia do tipo quero-lá-saber-hoje-vou-fazer-o-que-me-der-na-telha? Eu também padeço disso. Felizmente, é em casa: descalço os sapatos no meio da sala, deixo os brincos na cozinha, atiro as écharpes para o sofá. Quando muito, aborreço-me a mim própria na hora de alinhar tudo aquilo.
É evidente que o estacionamento de um carro é coisa mínima neste mundo. Claro. Lembro-me de ter ouvido, uma vez, uma entrevista de Jaime Lerner na qual ele falava, a propósito da vivência no espaço urbano, de uma equação de co-responsabilidade.
Convém aprender a resolvê-la: na Cidade, o nosso lugar é o lugar dos outros.

É de coisas mínimas que se fazem as grandes e, por cada um pensar que não é seu dever, é que a sociedade está ligeiramente alucinada…
Muito bem.
Para alguns, a “polis” é apenas o prolongamento natural da selva.
É mesmo isso! Não é por acaso que alguém algum dia lhe chamou selva de betão…
Não é uma coisa mínima, não. Porque é representativo da falta de empatia e de educação. Tudo isso tem a ver com o facto de cada um pensar só em si. Tal acontece em todos os locais. E nas cidades, onde estamos sempre em contacto com desconhecidos, isso é ainda mais visível. Nessas situações normalmente deixo um papel no vidro ao condutor a dizer qualquer coisa como: “parabéns. Acabou de ganhar o prémio do pior estacionamento do ano” ou “não consegue estacionar num só lugar, não é?”. Não serve de nada mas sempre liberto um bocadinho a irritação…