A lição flaubertiana demora a apagar-se e, se madame Bovary c’était lui, ficámos desde então avisados. E vai de olhar em cada personagem gesto do autor ou percurso biográfico que se quer contar, ainda que seja catarse simbólica. Margarida enforma-se da imaginação de Nemésio, desenhada pelo afecto com que o escritor sempre traçou as personagens femininas, verosímil enquanto figura de romance ainda que excessiva de símbolos e de contradições.
A açorianidade com que delimita as outras personagens, mais dependentes da geografia do que da história, não parece demorar-se em Margarida. Também ela é ilha, mas só ela se eleva, voo do autor, bem o sei, acima das condicionantes sem ser produto nem da hereditariedade nem do meio. Margarida é possível mas não provável, como a ilha nunca vista descoberta por Fernão Dulmo, mas “o não sei quê que não parece ser deste mundo” (cap.VI) coloca-a numa perfeição trágica que mais não é do que o avesso do piano e do francês das mulheres da Horta. Margarida não hostiliza, porém não se entrega. Nemésio desencrava-a do real como ela desencrava as esmeraldas que lhe colocaram a contragosto no anel da avó Margarida Terra. E lança-o ao mar, serpente cega de novo, da amurada do capítulo final, boina de viagem sobre os cabelos enrolados, essa é a tragédia da personagem depois do casamento com os barões da Urzelina, que é como quem diz com André Barreto: Margarida acerta-se com o passado, com a insatisfação, com o desejo de fuga. Como no início do romance, não vai triste nem alegre, vai embrulhada no casaco castanho. É a tragédia da resignação, quando os sonhos não têm mais por onde arder. Tédio, pois claro.
Ponto onde se encontram as insaciedades insulares, indefiníveis mas omnipresentes, sôfrego desejo de viagem, Margarida é Nemésio? Talvez.
(Pretende ser uma série mas, claro, não prometo. Personagens de romance. Não são estudos mas pequenos apontamentos pessoais, muito ao correr da pena. Do teclado, digo.)
Mau tempo no canal. Vitorino Nemésio
Lisboa. Relógio d’ Água.Reimpressão de 2004

Inesquecível, arrebatadora
É a minha personagem de ficção no Questionário de Proust.
Uma das minhas preferidas, também. Obrigada pela leitura.
E havias logo de começar por uma das mais espantosas personagens femininas do séc.XX! Especulo: este é um romance que termina num começo. Por mim só termina no “Pedra de canto”. Belíssima ideia Ivone.
Especulo também: todos os grandes romances, como as boas histórias, não acabam: derivam.
Obrigada, Zé Navarro.
Bifurcam-se, como diria o Borges. Grande série, Ivone. A coisa promete, a avaliar pelo arranque! Pode seguir e derivar à vontade que é sempre bom ler-te.
(Concordo: a Margarida é uma personagem fortíssima, de um livro que já li e reli e nunca me cansa. Nemésio é um autor muito especial para mim.)
Bons são os teus comentários, Ana. Obrigada.
Que belíssima ideia! Que extraordinário começo! Só apetece neste dia cinzento, frio e chuvoso de mau tempo neste canal, seguir já direitinha a casa, e repegar nesse maravilhoso livro para melhor saborear este seu apontamento, Ivone. Um a suivre imprescindível. Muito obrigada!
Obrigada digo eu, ora essa. O Mau tempo no canal é sempre para retomar, sejam quais forem a condições atmosféricas.
Começas muito bem, Ivone. Com a mais extraordinária personagem do melhor romance português do século XX. Um romance que li há 24 anos- ainda antes de conhecer os Açores – e me deixou deslumbrado. Sinto uma vontade enorme de o reler.
O Mau tempo no canal é todo um deslumbramento. E eu não conheço os Açores. Ainda bem que fiz com te apetecesse relê-lo.