A casa dos outros


convite,

Peço-lhe que pare, que não quero ouvir mais, mas ele diz-me que espere, que lhe dê atenção. Bebo mais um café e ouço. Em redor, todos parecem absortos nas conversas e nos jornais. Não lhes chega, felizmente, este quase monólogo em tom contido, um desfile de horrores, medos, chantagens, perversões repetidas, um cortejo de gárgulas e monstros em forma de gestos e atitudes. Um modo de vida até. Pode conhecer-se uma pessoa há mais de vinte anos e passar-lhe ao lado da intimidade sem conseguir ouvir as queixas que sufoca. Sinto-me estupidamente inútil. Exactamente como nos sentimos quando as palavras que temos são as triviais, são as que usamos para pedir mais um café ou agradecer ao homem que nos cede a passagem. Nunca  temos palavras que façam diferença em tragédia alheia.

A violência feminina não tem mãos, tem armadilhas. Alçapões que se abrem a meio dos dias, requintes de crueldade quando se fecha a porta de casa. Tudo tão dissimulando, como uma simpática máscara de cetim arrancada de súbito quando ninguém vê.

Digo-lhe que fuja. Que comece uma vida noutro lado, com outro nome. Sorri:

– Viste muitos filmes.

Costumo dizer que não sei nada da vida, apenas vi muitos filmes e li muitos livros. Nunca isso me pareceu tão verdade quanto hoje.

À despedida, deixo-lhe meia dúzia de palavras de pouco valor e atravesso a rua ainda aturdida. Estupidamente inútil.

 

 

(Também aqui)

11 comentários em “A casa dos outros”

      1. Com dificuldade, é possível um individuo manter-se num equilíbrio quase perfeito.
        As massas sociais nunca o conseguem durante muito tempo. Tendem a manter-se demasiado tempo inclinadas para um dos lados sem se aperceberem que estão caminhando para a reviravolta do processo. De uma forma mais ou menos global e mais ou menos consciente o ser humano actual procura a paz, mas invariavelmente opta pelo mesmo caminho de sempre, porque preferem recalcar a vergonha, o amargo da experiência, a derrota, culturando (não confundir com aculturando) apenas a vaidade e o doce da vitoria.
        A moral fria (a verdade nua e crua) devia ser um exercício constante do Homem. Caso isto não se torne uma pratica corrente nos processos de culturação , a Humanidade pode até evoluir tecnologicamente mas nunca vai descolar do animal que é.
        Esta é a minha visão sobre o passado, o presente e até mesmo o futuro.

          1. Sim, talvez. O paradigma mor esta bem representado na nominação da raça: sapiens (homem-sábio). Mais que suficiente para mostrar aos distraídos a carga de vaidade que carregam.
            Quanto a mim não passa de um macaco-racional.
            (em latim) para não se perder toda a vaidade: Simia-Rationale

  1. A vida dos outros pode ser um terreno minado. Às vezes, e quando possível fujo. Discretamente, quiçá numa cobardia emoldurada. Quando é demais atinge-me, a verdade é essa.

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