Humano, demasiado humano


convite,

Ouço falar sobre o crime de Évora e estranho a estranheza que dizem sentir. A civilização altera as circunstâncias do Homem, não a sua natureza que, de Ésquilo a Shakespeare, uma vez pisado o tapete vermelho da hýbris, não tem outro destino senão o abismo. Doem-nos as vítimas como nos doeu o choro de Ifigénia, imolada aos ventos benéficos do porto de Áulide, mas demoramos a aprender que da ordem ao caos vai um passo mínimo. Por isso, estranhamos e continuamos incautos. Estranhamos, até, a dureza dos avisos.

Da inevitabilidade do labirinto


convite,

Estraguei um casaco hoje no supermercado. O dia começou acinzentado e eu decidi pôr sobre os ombros um casaquito leve. Teria sido uma boa ideia se me tivesse apercebido de que, ao debruçar-me sobre uns alhos franceses, uma ponta solta no canelado do cós se tinha prendido a sei lá o quê. Não dei por nada e segui o meu caminho. Só quando levantei o braço para os iogurtes é que vi um longo fio azul que saía de mim e se perdia ao longo do corredor. Tivesse eu algum juízo e cortaria o fio, seguindo em frente. Mas quem diz fio diz labirinto e eu sou lá pessoa para deixar em aberto uma possibilidade daquelas. Fui, então, guiada pelo fio, ao longo do corredor dos lacticínios, entrei na zona da fruta, virei para o lado dos legumes e lá encontrei o princípio do fim do punho do meu casaco. Dei-me, então, conta de que reentrara num labirinto (ainda que imaginário) para procurar uma resposta e dela retirar um ensinamento: ter cuidado ao debruçar-me sobre alguma coisa, não vá estragar-se o que tenho em mim.

O mito do fio de Ariadne tem assumido, sob as mais variadas representações artísticas, tantas e tantas versões que, desde os antigos (Homero, Hesíodo, Apolónio de Rodes, Apolodoro, Diodoro Sículo …) até aos modernos e contemporâneos, é possível encontrar um descomunal leque de interpretações, concomitantantes ou não.

Teseu, o herói, depois de ter matado o Minotauro no labirinto em Creta, viu-se em dificuldades para sair lá de dentro. Apaixonada ou não por ele, o certo é que Ariadne, a jovem princesa cansada daquelas zoomórficas complicações familiares, decidiu que ao ajudá-lo se ajudava a ela. Ajuda-te a ti mesma, deve ter pensado, que o conhecimento viria depois e para alguma coisa lhe havia de servir ser neta do Sol. Os poetas já deram mil e uma explicações para o facto de Teseu ter abandonado Ariadne na ilha de Naxos. Quando Marguerite Yourcenar escreveu a peça Qui n’a pas son Minotaure?, mostrou-nos um Teseu fragmentado em busca de uma íntima unidade, de um absoluto pessoal, busca na qual Ariadne é, ao mesmo tempo, auxílio e objectivo. “Si j’ai voulu vivre, c’ést pour sentir de nouveau l’odeur de miel des cheveux d’Ariane.” O odor de mel dos cabelos de Ariadne está para além dela e dos seus cabelos, é a procura incessante de mais qualquer coisa, de outra coisa a ultrapassar. Que é destino do herói ser heróico e Ariadne não pode deixar de ficar em Naxos.

Muitos pintores a representaram chorosa sobre o areal ou junto às rochas da ilha. A convivência com Dédalo, o engenhoso arquitecto do labirinto, deve tê-la tornado uma rapariga prática. E as raparigas práticas sabem que o melhor sítio para chorar um homem é o ombro de outro. Melhor do que o ombro de um homem, ah pois!, só o ombro de um deus:  foi, com certeza, a conclusão a que chegou quando Dioniso lhe apareceu, disposto ao amor e aos seus excessos.

Faz muito tempo que tudo isto se passou. Até porque tudo isto se passou antes do próprio tempo começar.

O labirinto, esse repetido percurso entre a intimidade da sombra, não é apenas uma marca inapagável na condição humana. Existe, exige e é anterior a nós.

Da importância do casaco comprido de Verão ou um post fútil em tarde de domingo


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Houve um tempo em que eu tinha roupa. Agora tenho soluções. Nem sempre as melhores, nem sempre as que  quereria. Visto-me, sem que isso me mereça reflexão de maior e é o que vale, que a vida não está para pormenores. No entanto, ó mísera sorte, estranha condição, dias há que na alma nos põem nostalgias incómodas. Acordei hoje com desejos de vestir um casaco comprido de Verão. Passo a explicar o conceito a quem o achar estranho. O casaco comprido de Verão, ao contrário do de Inverno, não serve para aquecer, serve para compor. Dou a mão à palmatória: esta ideia de “roupa para compor” é um bocadinho obsoleta. O “vestir-se para” também será, embora, convenhamos, em virtude dessa consideração, vê-se cada figurinha …. adiante e vamos aos casacos. Eram feitos em tecidos leve, de manga pelo antebraço e, quando usados com umas luvas de cano curto, de uma elegância inenarrável. A minha mãe tinha um de tecido adamascado, num tom rosa-chá desmaiado, com uns botões em bege rosado. Usava-o com uns sapatos muito altos, com uns furinhos minúsculos na ponta, no exacto tom dos botões. Aqueles sapatos estragaram a minha vida para sempre. Passava horas a remirá-los.Acho que em cada sapato que comprei  ( e Deus sabe quantos … ) eram aqueles que eu procurava. O casaco, esse vestia-o e olhava-me no espelho, imaginando-me crescida, longe da interdição materna de pintar as unhas de vermelho e senhora dos meus dias. Dias bons, claro, e havia uma razão para pensar assim. Sempre ouvi contar a história do meu tio José e da minha tia Celeste, que já lá estão. É uma história com casaco comprido de Verão. Esse meu tio, o mais velho do primeiro casamento da minha avó, tardava em assentar. Enfant gaté, o meu avó tratava filhos e enteados com condescendências que só visto, tardava em assentar. Fazia ladear a égua no empedrado das ruas, entregava olhares de esperança às raparigas com ideias de cama e pucarinho e lá ia à sua vida. Por volta das seis da tarde, no largo da estação, apeava e ficava com os amigos a ver quem chegava. Um dia, desceu do comboio a nova professora primária. Era Setembro de 1938. Contam que ela trazia um casaco comprido de Verão, com uma gola lindíssima. O meu tio disse para a entourage: “Estão a ver aquela do casaco bonito? É com ela que vou casar.” E casou. Durante sessenta anos. 

A primeira vez que eu vi Maria Helena da Rocha Pereira, ela atravessava o átrio da Faculdade de Letras, no meus primeiros tempos de Coimbra. Eu estava no primeiro andar, encostada ao varandim. Era a hora em que o bar se enchia de gente (rapazes) das outras faculdades para um café a meio da manhã. Eu tinha-me tomado de amores por um finalista de Direito com Reais por fazer, um clássico portanto, e ouvia-lhe as torturas sofridas às mãos do mítico Orlando de Carvalho. Olhei para baixo e vi-a com um casaco comprido de Verão, azul ferrete. Parecia eterna. Pensei que a vida era aquilo, namorar encostada ao varandim do bar das Letras, enquanto os mitos, vestidos de símbolos azul ferrete, atravessavam o átrio daquela distante despreocupação.

Quando encontrei a minha costureira, pedi-lhe um casaco comprido de Verão. Ela compreendeu-me e Deus ma conserve, até porque, hoje em dia, pouco trabalho lhe dou. Para não a cansar, claro. Fez-me muitos casacos compridos de Verão. Usava-os por cima de um vestido, a deixar ver um pouco da saia, e sentia-me tão habillée; outras vezes, vestia-os sobre umas calças e uma camisa atada na cintura e sentia-me feliz. Ando a precisar de um casaco comprido de Verão.

Há muito pouco tempo, estive com Maria Helena da Rocha Pereira num funeral. Era preto o casaco que vestia, lindo, em linho pesado, de manga pelo antebraço, com o corte irrepreensível dos alfaiates do Porto. Ela continua eterna como no dia em que atravessou o átrio da Faculdade de Letras na véspera de o Orlando de Carvalho voltar a reprovar um namorado que abandonei meses depois; eu envelheci. Deve ter sido castigo.

De ordine mundi


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Para a nossa Leonor que mora lá perto

 

Hoje enquanto os meus alunos avançavam pela análise de um texto adentro e a infanta D. Maria Bárbara passava o seu pensamento de princesa em trânsito sobre um convento a que dera origem e nunca veria e eu esperava que os preguiçosos sobreditos vissem a linha da ficção entremear-se na trama da História quando o oficial de escolta respondia às questões da princesa e o narrador lhe desvendava a alma, lembrei-me de uma entrevista com Isabel da Nóbrega, referida já não sei por quem, que isto a tal memória que eu tive foi chão que deu as últimas uvas, na qual se contava que na partilha subsequente ao divórcio ela terá perguntado a Saramago, Olha lá, não queres ficar com a casaca que era do meu pai. Para quê? deduzo eu que terá resmungado Saramago. Podes precisar dela para Estocolmo, replicou Isabel. Saramago desdenhou a casaca do sogro e por aqui se vê que não era homem previdente pois teve de comprar uma para ir a Estocolmo, que eu bem o vi na televisão de bom corte e vénia irrepreensível, que isto a vida dá cada volta, a um rei em carne e osso, décimo sexto de seu nome na tabela real lá da Suécia, em virtude de ter andado a falar dos empreendimentos do senhor D. João, quinto do seu nome na tabela real de cá, que quis construir um convento e ajudar um padre voador a subir por esses ares, coisa a que a Inquisição cortou as asas que pelos vistos nem que a vontade do rei tivesse sido também recolhida teria servido de grande préstimo, se quer fazer alguma coisa que construa conventos que esses não voam.

Ora estava eu em Estocolmo e os meus a alunos a contabilizarem as figuras de estilo do último parágrafo quando me lembrei do vestido vermelho que Pilar del Rio usava na noite do Nobel, assinado por Jesus del Pozo, em cuja fímbria fora bordado ton-sur-ton, Olharei a tua sombra se não quiseres que te olhe a ti. Quero estar onde estiver a minha sombra se lá é que estiverem os teus olhos. Que isto é do Evangelho segundo Jesus Cristo e foi um achado, pois, e como no simbólico como em todas as coisas nada se perde e tudo se transforma era também esse o vestido que envergava a violoncelista que tocou na Câmara de Lisboa durante as exéquias de Saramago. 

Pensei então que entre a blimúnica antevisão de Isabel da Nóbrega e a segurança da cumplicidade de Pilar del Rio se estendeu o mundo de Saramago. Um escritor não escreve contra o Mundo, o Mundo ordena-se para ele e ele devolve-no-lo, ordenando as palavras na ordem que mais lhe aprouver. Assim a charneca do Yorkshire retorceu as árvores que Emily Brontë nos leu, assim as intrigas se dobraram nos lençóis do Douro onde Agustina nos deitou. O Mundo dá-se ao escritor e o escritor devolve-o ao mundo que é como quem diz a nós que somos comuns.

Mas o Mundo não é generoso. Por isso são tão poucos os realmente bons, pensava eu enquanto metade da turma já tinha conseguido copiar pela outra metade que a névoa impalpável na mente de Maria Bárbara, a princesa em trânsito, era uma metáfora.

Olhares


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Jorge Carreira Maia, no seu blogue  Kyrie Eleison, escreve: 

 

Les partisans de Hollande convergent vers la Bastille pour célébrer la défaite de Sarkozy. Título cruel este do Le Monde. Os partidários de Hollande não vão celebrar a vitória deste mas a derrota de Sarkozy. Isto diz tudo sobre as eleições francesas. A vitória de Hollande não representa qualquer tipo de esperança numa inversão das coisas, mas um suspiro de alívio. A democracia resume-se, hoje em dia, a um exercício ocioso de punição daqueles que ocupam o poder. Como há muito salientou Norbert Elias, a unidade de sobrevivência – isto é, o espaço onde se decide a nossa vida – é planetário, mas as eleições e a democracia jogam-se ao nível dos particularismos do Estado-Nação. É simpático ver a penalização de um jogral como Sarkozy, mas a França não conta para quase nada e Hollande apenas ganhou o direito de ser vexado na próxima eleição.


How to cry with words


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No Público de hoje, Miguel Esteves Cardoso escreve uma crónica lancinante. Escolhi este adjectivo criteriosamente, porquanto todos nós desenvolvemos ao longo da vida aquilo a que gostaria de poder chamar a reacção semântica. Reagimos às palavras com preconceito. Eu tenho essa atitude, muitas vezes. Lembro-me de já ter escrito por aí o quanto detesto a palavra comiseração. Li, algures, alguém que dizia ter sentido comiseração pelas manifestações de um amor a que não podia corresponder. É horrível. A comiseração sente-se de cima para baixo, é um ai-coitadinho-tenho-tanta-pena-de-de-ti-mas-não-posso-fazer-nada-estou-aqui-muito-bem.

A comiseração implica uma enorme e detestável sobranceria. É preferível não sentir nada. Digo eu, claro.

Voltando ao lancinante da primeira linha. A palavra pressupõe um cortejo lexical de peso, de lágrima, alguma complexidade sintáctica ao nível da hipotaxe, uma escolha de palavras-setas que entrem em cheio nos olhos do leitor. Pois. Mas, quem muito bem escreve, não precisa da parafrenália gongórica habitual. Depura as palavras que jorram e elas caem sobre a folha reduzidas ao essencial que tudo contém.

Maria João piorou. Diz o MEC:

A minha pessoa é a Maria João e a Maria João passa mal. Nem o amor nem a sabedoria médica a podem salvar. Só a conjugação das duas coisas, mais um acrescento de milagre. O cabrão do cancro alastra-se. (…) Hoje, domingo, é o último dia em que estaremos juntos (…) amanhã logo às nove estaremos na consulta (…) onde nos avisarão das complicações possíveis. (…) Vai morrer o meu amor. Não vai. Como o meu amor por ela, nunca há-de morrer. As coisas acontecem sem acontecer o pensamento nelas. A alma, o coração e a cabeça são coisas diferentes. Que se dão bem. E são amigas. E deixam de ser quando morrem.


É assim que se chora com palavras. Fazer milagres com elas, não sei como é.

Para a Helena


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Julgamo-nos sempre senhores de mais palavras do que aquelas que temos. Quando a noite nos cai súbita e irredutível na frente dos olhos, aprendemos que nenhuma das nossas palavras chega para dizer da dor e, muito menos, para servir de consolo ou de amparo. Ficamos, apenas. Como se a nossa amizade pudesse derrotar a nossa inutilidade.

Em dia de livro


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Não deve ter sido a melhor ideia do mundo ler o Guerra e Paz aos 13 anos mal feitos. Os Guerra ainda não tinham chegado e a tradução devia ser péssima. A minha adolescente cabeça também, claro. Aprendi a ler muito cedo e, por isso, cheguei rapidamente aos livros. Comecei pelas aventuras exóticas e pelos policiais da Agatha Christie e um dia, ao abrir o Mar Morto de Jorge Amado, li: Pastoreávamos a noite como se ela fosse um bando de irrequietas virgens na idade do  homem. Pensei que devia haver vida para além do crime e peguei nos primeiros volumes que estavam à mão na estante. Era o Guerra Paz ou, pelo menos, coisa que se assemelhava. Não parei deste então. Fui andando pela estante de casa e por outras estantes e li tudo em que consegui pôr os olhos. Quando cheguei à faculdade, tinha no currículo de leitora, para além dos portugueses, os franceses, os russos, os ingleses do séc. XIX, os americanos. Continuei, compulsiva, insistente, fui descobrindo autores e redescobrindo outros. Quando me perguntam como se leva um jovem a gostar de ler, respondo sempre que não sei. Gostar de ler é uma graça que se recebe. A minha leitura do Guerra e Paz não foi, decerto, a melhor leitura, tanto que tive de voltar ao texto muitos anos depois. Mas foi lá que aprendi que os livros são a pátria comum dos homens. Nem sempre de leite e mel, mas de inesgotáveis territórios.

Cadáver esquisito (9)


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1. UM LIVRO, 2. CA…… SARKIS G……..N, 3. OLHOS, 4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS, 6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA, 7. O MEDALHÃO, 8. O SEGREDO

9

LABIRINTOS

 

Um nome, dizem crenças antigas, pode ser novelo de feiticeira em que se aprisiona ou comanda uma vida, máscara e abrigo. Espelho até, diz-me como te chamas e dir-te-ei por onde irás.

Valeriya, subitamente trazida até à claridade mágica de um nome que há muito a não procurava, emergia grave, quase solene, do casulo nocturno a que fora arrancada para a inesperada metamorfose que as palavras de José Augusto tinham precipitado.

– Quem?! – repetiu João Cosme, olhando alternadamente para ela e para José Augusto que parecia agora uma criança que, desastradamente, fez cair com estrondo um pote de faiança no chão da cozinha.

– Desculpe… eu… não sei…

– Você é um bom homem, José Augusto – disse ela de voz já diferente – e um bom homem é difícil de encontrar.

Eduardo impacientou-se. Os títulos de Flannery O’Connor pareciam um código cujo entendimento lhe estava negado. Tomavam-no por simples, bem sabia e convinha-lhe, desde há muito, que assim o fosse. Os acontecimentos, todavia, tinham tomado o freio nos dentes e decidiu que não, não ficaria de fora. Wise Blood, também ele o tinha e era agora ou nunca. João Cosme que saísse sozinho daquele labirinto.

– Bem – tomou o medalhão de cima da mesa e olhou a fotografia esmaecida – um medalhão de São Rafael Arcanjo… encontros felizes, talvez… e este, como é que é mesmo… este Alexander, quem é? Valeriya?

Ela deu meia dúzia de passos em direcção à janela e parou. Ficou uns minutos em silêncio e virou-se, depois, para aquele grupo imóvel. Parecia uma fotografia antiga, daquelas em que ninguém sorri para a câmara num temor reverencial de que lhes levem a alma no clarão do flash.

– Sentem-se. Vou fazer café.

A azáfama habitual dos gestos dela transmutava-se numa coreografia lenta em direcção aos objectos,  as  mãos passavam sobre as coisas, estranhamente alongadas, mãos antigas vistas à renovada luz do dia que começava.

A campainha da porta tocou. Uma vez e outra.

– Stella, would you mind?

E Stella voltou, atarantada. Uma inspectora da Judiciária, pelo menos era o que tinha percebido.

– Para quê? Para quem?

Eduardo olhou a rapariga de andar eficaz que entrou na cozinha. Parecia-lhe familiar mas, naquele momento, até as coisas mais bizarras lhe pareceriam familiares.

Deu uns bons dias afáveis e mostrou a identificação:

– Portas. Helena Portas.

 

(Este é o nono capítulo do nosso ‘cadáver esquisito’, explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é do jaa.)

Berengária de Portugal revisited


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Há tempos, andei à procura de fotografias de princesas que tivessem morrido nos finais do séc. XX. Uma daquelas demandas que faço de vez em quando por razões que ninguém entende. Encontrei muitas fotografias e muitas princesas. Tristes infantas defuntas, tristes retratos de princesas de casas reais depostas há séculos, vestidas de seda branca com solene compostura e um diadema de família a prender-lhes o véu de noiva. Eram retratos dos anos 20, 30, 40, mas todas elas pareciam tão antigas como se chegassem da infância da História.

Lá pelo meio, não sei porquê, apareceu esta imagem de Berengária, uma das filhas mais novas de D. Sancho I, o da Ribeirinha, e de Dulce de Barcelona. Após a morte da mãe, levaram-na para o Mosteiro do Lorvão onde foi educada junto da irmã abadessa. Em 1214, na Páscoa, casou com Valdemar II da Dinamarca. Como seria ir por essa Europa acima, com 19 anos, em 1214? Berengária tem um rosto moderno e uma boinazinha à banda que nem uma estudante de Erasmus. Parece até que a conhecemos.

Retratos(3): Le donne della signoria


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(Pronto, é o último post da série.)

 

Ao abrir a pasta, na qual vou guardando imagens nos dias em que tomo a séria resolução de ser uma pessoa arrumada, vi alinhadas algumas das Médicis pintadas por Bronzino. Uma galeria de mulheres mortas pela doença, pelo poder, pelo turbilhão das muitas razões para morrer na Florença medicea.

Quando Bronzino se torna o pintor favorito de Cosme, os retratos oficiais, os retratos com vestidos de corte, as poses hieráticas começam a encher as paredes do pallazzo. Ei-los, sem ordem cronológica, retirados deste meu sótão virtual. Sacudi-lhes um pouco o pó, apenas.

 

 

 

Bia dos Médicis, filha bastarda de Cosme. A mãe, ninguém sabia quem era a não ser Cosme e, ao que se dizia na época, a mãe dele, a poderosa Maria Salviati. Quando Cosme se casa com Eleonora de Toledo, a jovem esposa desagrada-se da presença da criança no palácio e o marido envia-a para junto da avó, para a Villa di Castello. Morre aos seis anos e Cosme encomenda a Bronzino este retrato póstumo, feito a partir de outros retratos ou da máscara mortuária. Não é um retrato oficial, é um retrato para os aposentos íntimos, para o olhar do pai. O pintor imaginou-a séria, gravezinha nas suas pérolas, de seda branca, ela que, provavelmente se chamaria Branca ( Bianca), daí o Bia afectuoso.

 

De Eleonora de Toledo, o retrato mas conhecido é este que já mostrei lá mais para baixo. Há, todavia, um outro que me agrada bastante.

 

 

É Eleonora recém-chegada e tudo nela prenuncia o outro retrato em que a segurança da senhora de Florença atingiu a sua plenitude. O vestido é de um encarnado belíssimo, bordado a bouclé de ouro, e no encaixe dos ombros dispõem-se geometricamente pérolas que Eleonora também usava nos brincos, na rede que prendia o cabelo. Bronzino gostava de pintar as mãos à altura do peito: as mãos esguias com anéis pesados, até parecem ali estar casualmente, quando nada é casual nestes retratos.

 

Quero, também mostrar estoutro de Isabel, a do post anterior a este.

 

 

É, ainda, uma Isabel muito nova, com encaixe de renda no vestido e olhar firme. Parece-se com a mãe, mas o ruivo florentino dos cabelos e o sorriso contido mostram os genes de Cosme e da avó, Maria Salviati, com quem diziam que se parecia no carácter e no gesto.

 

Lucrécia tinha tanto de fragilidade quanto a irmã de força.

 

 

A outra das filhas de Eleonora e Cosme, estudou, como os irmãos, grego, latim, música, literatura. Estudou, mas não deve ter aprendido grande coisa porque os autores referem que os seus talentos não iam mais além do que escrever uma carta. É uma menina muito bonita e muito triste. Aos 13 anos, casam-na com Afonso II de Este. Dois ou três dias depois do casamento, o marido parte para a corte de França, onde tinha relações familiares, pois era filho de Renata da França, e de onde só regressa após a morte do pai, para receber o título de duque de Ferrara. Alguns meses depois manda chamar a duquesa sua mulher. Lucrécia chega a Ferrara mergulhada numa profunda melancolia. Nem os acordes do Te Deum celebrado em sua honra na catedral a animam. Alta, muito magra, muito triste, a duquesa de Ferrara definha nos seus 16 anos. Cosme manda, de Florença, Andrea Pasquali, o médico de confiança, mas a morte de Lucrécia é inevitável. De tuberculose, muito provavelmente.

Foi sobre este retrato, sobre a triste beleza de Lucrécia de Cosme dos Médicis, duquesa de Ferrara, que Robert Browning escreveu o seu poema My last duchess, aquele poema que começa “That’s my last Duchess painted on the wall / Looking as if she was alive.” É uma fala de Afonso, frio e calculista, que se dirige ao embaixador Nikolaus Mardruz, após a morte de Lucrécia, para negociar o casamento com  Bárbara da Áustria.

 

Outro retrato, ainda. Outro de Eleonora, ainda de Bronzino.

 

 

Ela continua  a gostar de pérolas, mas envelheceu. Envelheceu como se envelhecia naquela época. Eleonora morreu com 40 anos e este quadro foi pintado um ano ou dois antes de  a malária chegar. O colo cobre-se de rendas, não há anéis pesados nos dedos, apenas um lenço na mão enluvada. Uma senhora idosa.  

 

(mini-série republicada com supressões e alterações)

O conhecimento segundo Tabucchi


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“A literatura é uma forma de conhecimento. O que saberíamos do amor se não tivéssemos lido o Otelo, de Shakespeare, Ana Karenina, Madame  Bovary?” António Tabucchi, em entrevista à Visão.


Mesmo que soubéssemos, não saberíamos como dizê-lo. O conhecimento, para o ser, carece da palavra e da ordenação que ele imprime ao caos desordenado que somos. Do amor e da morte, penso que nunca saberemos coisa alguma que valha a pena, ou sabê-lo-emos a benefício de inventário, quando já for tarde. 

Felizmente, a literatura traz-nos essa companhia especular onde nos reconhecemos e com a qual aprendemos a falar, titubeantes ainda, do amor e da morte.

Blogue da semana


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Ir uma pessoa para o Governo pode não ser bom bom para a blogosfera. Veja-se o exemplo d’ A Origem das Espécies, desabitada desde que Francisco José Viegas está SEC.

Felizmente há a heteronímia. Assim, o Doutor António Sousa Homem continua a escrever-nos do Minho. Esperemos que a proverbial longevidade dos Homem, testemunhada pelas paredes do casarão de Ponte de Lima e coadjuvada pelos cuidados de Dona Elaine, a governanta do eremitério de Moledo, permita que o álbum de reflexões continue a folhear-se naquela prosa vintage de belo recorte.

António Sousa Homem, o blogue hebdomadário, é a minha escolha para esta semana.

Retratos(2):Isabel e a companhia dos monstros


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Isabella di Cosimo de’ Médici, Bronzino. Galleria degli Uffizi

 

Hesitei enquanto escolhia um  retrato de Isabel de Cosme dos Médicis para encimar o post até me decidir por este de Bronzino. Eu tenho, como já se viu, uma predilecção pelos retratos em que ele pintou as Médicis. Gosto daquela oficial imobilidade, daquela pose para o pintor. São retratos que, sempre que os olho, me fazem pensar no tempo. No tempo delas e no tempo por detrás delas, a tapeçaria que não se vê mas que está lá, bordada de enredos, segredos e  tragédias.

O retrato mais conhecido de Isabel não é este, mas um dos pintados por Alessandro Allori, discípulo na oficina de Bronzino e sobrinho do mestre. Há um outro em que ela surge de veludo escuro, recamada de longas fiadas de pérolas e de coral, com os cabelos presos por uma rede, fazendo lembrar a pose majestosa da mãe. Os especialistas tendem dividir-se sobre a autoria dos quadros. Na altura em que Isabel foi retratada, Allori tornara-se já um artista reputado na oficina do tio, partilham um traço muito semelhante, embora o mais novo pareça preferir cores mais claras.

Isabel é a terceira filha de Cosme e de Eleonora e tem toda a Florença para a educar. É, sem dúvida, das filhas do casal a que melhor recebe a herança das artes e das letras que, por todo o lado,  a rodeavam. Fluente, além das línguas vivas, no latim e no grego, escrevia bem, falava melhor. O pai, que ao casar-se com Eleonora se ligara à nobreza da Europa,  continua, ao contratar os casamentos dos filhos, a estreitar laços com as antigas famílias italianas, ao sangue antigo que vinha dos patrícios da Urbe, os que se tinham sentado no Senado e determinado que Cartago devia ser destruída.

Isabel nasceu em 1542 e, prometida desde os 11 anos, casa em 58 com Paulo Jordano dos Orsini. Uma linhagem de luxo, duas avós filhas de Papas, uma della Rovere e uma Sforza, o ducado de Braciano e pouco dinheiro. E uma rudeza conhecida: os Orsini eram uma gens fabulosa, mas de uma  obscura e inapelável crueldade que muitas vezes vinha ao de cima. Paulo Jordano era um condottiero, homem de guerra e de batalhas, há-de estar na de Lepanto, sem grande apreço pelos artistas ou pelas discussões neo-platónicas.

Uma cláusula extraordinária no contrato de casamento permitia que Isabel permanecesse em Florença enquanto o marido continuava em Roma ou onde muito bem lhe apetecia. Só o dinheiro de Cosme poderia ter imposto tal condição. Isabel fica, assim, durante muitos anos debaixo da asa florentina, ao abrigo das obrigações conjugais. Enfim, obrigações que lá terá cumprido ocasionalmente porque, depois de alguns abortos, em 71 nasce Eleonora, a pequena Nora, que casará com o primo Alexandre Sforza, e em 72 nasce Virgínio, o futuro duque de Braciano.

Isabel era feliz em Florença no seu mundo de artistas. Olha-se para ela ano quadro de Bronzino e parece-nos contida e firme na sua gola de seda com um pequeno toucado sobre a testa. A jóia aposta sobre ele não é a ferronière tão em moda naquele tempo, mas um broche de pérolas, longitudinal,  como se fosse um segmento de um diadema. A riqueza dos Médicis, muito evidente nos pormenores destes quadros, é sempre de um gosto sem defeito. 

Olhamo-la na sua bela quietude e esquecemo-nos de que Isabel viveu rodeada de monstros e de mortos. Porque era assim que se vivia, a aprender as declinações latinas e a esquivar-se ao punhal ou à taça de veneno. E a saber usá-los, também, no intervalo de duas danças.

Quando Eleonora morre, em 1562, Isabel tem vinte anos. Está naquele confortável estado de casada há quatro, não tem filhos ainda, e o pai passa-lhe o legado de Eleonora: ser a primeira-dama de Florença. Aquela rapariga muito educada, determinada, senhora do seu nariz, é a menina dos olhos dos florentinos. Gritavam-lhe como gritavam aos homens da família, quando ela saía do palazzo e  passeava pelas ruas, como tanto gostava de fazer antes de reencontrar o pai no studiolo e com ele discutir a assinatura dos contratos e dos pactos a firmar. Ocasionalmente, saía da cidade para se encontrar com Paulo Jordano em Roma ou no castelo de Odescalchi, nas margens do lago Braciano. Estadas curtas, Florença chamava-a sempre.

A morte do pai, em 74, empurra Isabel para a sombra. Francisco, o irmão mais velho que vai ocupar os destinos da signoria, inveja a estima que lhe têm, inveja a sua inteligência.

Francisco casara em 65 com Joana da Áustria, permanentemente infeliz com saudades do palácio paterno sem nunca se habituar às cores de Florença, e mantém o relacionamento de muitos anos com Branca Capello. Isabel dedica uma estima compreensiva a Joana e nunca hostiliza Branca. As suas discussões com o irmão têm um fundamento político: enquanto Cosme tudo fizera pela independência de Florença, agora a subserviência de Francisco em relação ao sogro, o imperador Fernando I, fá-lo exagerar nos impostos dos florentinos em proveito dos cofres do Sacro-Império.

Entretanto, Paulo Jordano decide que Isabel deverá ter junto dela uma espécie de embaixador de marido e nomeia para o cargo um dos primos, Troilo dos Orsini. Bem, a tradição diz que entre os dois se desenvolveu um romance. Isabel estava habituada a ser livre e a não ter dar satisfações a quem quer que fosse. A companhia de Troilo agradava-lhe, fosse um one nigth stand com direito a repetição, fosse apenas o prazer de longas conversas. Acostumada a ser a senhora de Florença, Isabel descurara a sua segurança e nunca aprendera a recear os comentários alheios. A amante do marido, Vitória Accoramboni, e o próprio Francisco devem ter tido um papel fundamental no desenlace desses amores. Paulo Jordano pede a Isabel que vá passar algum tempo com ele na villa de Cerreto Guidi, nos arredores de Florença.

Na noite em que ela chega, 16 de Julho de 1576,  estrangula-a no quarto conjugal.

O irmão não reage. Aliás, seis dias antes, o irmão mais novo, Pedro, tinha matado, também por ciúmes, a prima com quem casara, a tão bonita Eleonora de Garcia dos Médicis.

Por detrás das donne della signoria nos quadros Bronzino, há uma tapeçaria que não se vê, mas que está lá. Juro. Agitam-se na trama os monstros de sempre, os ódios, os medos, os segredos, os olhos escuros de solidões desmesuradas, a frias ambições astuciosas. O mundo.

O fantasma de Isabel passeia às vezes no castelo de Odescalchi, junto a Braciano, mas onde ela mais gosta de andar é na uilla de Cerreto Guidi. Em 1953, uma companhia de teatro que lá preparava um espectáculo viu-a nitidamente. Duas actrizes ouviram um ruído de tecido a arrastar e, virando-se para trás, viram Isabel. Todos viram Isabel a passar ao longo da sala. Vestia de veludo escuro e tinha pérolas presas nos cabelos. Ignorou-os.

 

(mini-série republicada com supressões e alterações)

Retratos (1): “Um morrer tranquilo”


convite,

 

Eleonora de Toledo com o seu filho Giovanni.

Bronzino. (óleo sobre painel, 115×96  c. 1545) Galleria degli Uffizi. Florença

 

Trazer para aqui a imagem de um quadro tirada da net é sempre uma tarefa complicada: as cores modificam-se, às vezes são mais vivas, outras mais mortiças. Talvez o fato do pequeno João seja roxo e o fundo de outro tom, mas o vestido da duquesa, esse parece conservar o esplendor saído dos teares florentinos, o veludo entrelaçado na seda branca do fundo, as romãs estilizadas que simbolizam a fertilidade e a abundância, o bordado a fio de ouro a fazer bouclé sobre as mangas e as jóias, o cinto em pedras preciosas, as pérolas na rede que contém os cabelos, as pérolas sobre o colo, os pingentes de pérolas nas orelhas. Uma pose de corte para um retrato de estado. Na Wallace Collection, em Londres, está o outro quadro em que Bronzino pintou Eleonora com este vestido, de mãos cruzadas à frente e sem o filho. Quando exumaram o corpo dela no séc. XIX, uma idêntica rede de cabelo e um tecido semelhante fizeram crer que este tinha sido, também, o vestido com que a tinham sepultado. Mais tarde, os CSI da História vieram provar que era outro vestido, ainda que semelhante, e lá estão os restos na Galeria do Traje no Palazzo Pitti em Florença. Da mesma investigação resultou saber-se que Eleonora era de compleição frágil, que carecia de cálcio e que sua morte, como os Médicis sempre tinham sustentado, se devera a um surto de malária e não um obscuro drama familiar.

 

Quando Cosme I recebe o título de duque da Toscânia, sabe bem que a ancestralidade dos Médicis, feita de sexo e hipotecas como diz Jorge de Sena, nunca deixará que a velha nobreza europeia o reconheça como igual: ser muito rico e proteger as artes não é a mesma coisa que descender de Carlos Magno. Por isso, contrata com Pedro Álvares de Toledo, vice-rei de Nápoles, irmão do 3º duque de Alba e ajudante de campo de Carlos V,  o  casamento com uma das filhas, Leonor Álvares de Toledo. O nobre espanhol ainda franze um bocado o nariz, mas cede à riqueza e ao novo estatuto ducal de Cosme que,  por Leonor, fica aparentado com toda a grandeza de Espanha e com os Habsburgos ao mesmo tempo que estreita as relações com a pátria da mulher, permitindo que o controle espanhol sob a Toscânia abrande.

 

Em 1539, os florentinos recebem a jovem espanhola, a que desde logo chamam Eleonora, um pouco de pé atrás. Mas os vivos 17 anos da duquesa rapidamente granjeiam afeição e apreço. É nova, é bonita, é culta,  é piedosa e fértil. Engravida regularmente durante 18 anos e os onze filhos trazem ao palácio dos Médicis a estabilidade doméstica que Cosme tanto quer ostentar. Eleonora era bem-humorada, ria com as representações teatrais brejeiras feitas na corte, gostava de passear e de vestidos sumptuosos que disfarçavam a sua frágil silhueta e não dispensava os dez ourives que, em exclusivo para ela, fabricavam jóias e mais jóias. Cosme confia-lhe amiúde a regência da Toscânia, quando se ausenta, e Eleonora decide, apoia as políticas do marido, sorri aos embaixadores, governa.

 

No quadro de Bronzino, pintado por volta de 45, surge com um dos filhos. A tradição diz ser João, mas pode ser Francisco ou mesmo Garcia. O sumptuoso vestido enche o quadro, um vestido que é o quadro. A duquesa tem a pose das figuras femininas nos quadros de Bronzino, contidas e geométricas. No vestido toda a riqueza dos Médicis se desdobra em ouro e veludo e as jóias pousam sobre ele quase imperceptíveis, de tal modo é rico o tecido que as exibe. Riqueza, estabilidade, perpetuidade. Um retrato oficial. Não é a Eleonora jovial dos saraus da corte, mas a soberana consorte que exibe o poder e um herdeiro.

 

Dezassete anos mais tarde, a malária leva-a para o túmulo. Cosme volta a casar com Camila Martelli, depois de uma passagem de alguns anos pelos braços de Eleonora dos Albrizzi.

 

A estabilidade que Cosme sonhara para os filhos desvanece-se. O casamento de Francisco com Joana de Áustria e o longo romance com Branca Capello; o assassínio da linda Isabel pelo marido, Paulo dos Orsini; o desequilíbrio emocional de Pedro que estrangula, com uma trela de cão, Eleonora Garcia, a prima com quem casara, não eram, decerto, as aspirações de Cosme. Só Fernando conseguirá dar a Florença e à Toscânia alguma da tranquilidade a que o pai aspirara.

 

E Eleonora continua, serena e majestosa, no quadro de Bronzino e no poema de Jorge de Sena:

“Eleonora di Toledo, Granduchessa di Toscana” de Bronzino

 

                                                                                          Ao Murilo Mendes

 

Pomposa e digna, oficialmente séria,

é geometria ideal de príncipes banqueiros,

sobrinhos, primos, tios de toda a Europa,

de reis, senhores de terras e armadores,

severamente equilibrados entre

o sexo, a devoção e as hipotecas.

O mundo é um imenso cais de intolerância austera,

a que aportam escravos, pimenta, a caridade

à sombra das colunas sem barbárie gótica.

Na boca firme, como no olhar duro,

ou o cabelo ferozmente preso

ou nas imensas pérolas que se multiplicam,

ou nos bordados do vestido que nem seios

se alteiam muito, há uma virtude fria,

uma ciência de não pecar na confissão e na alcova,

uma reserva de discreto encanto

em que a Razão de Estado era um passeio altivo

por entre as árvores de um jardim areado,

com áleas racionais e relva em secção aúrea.

Sem dúvida que os astros presidiram,

numa ciência de terra já redonda,

às próprias proporções que o quadro regem.

Palácios, festas, complicadas odes,

e procissões e cadafalsos e a

de um céu toscano limpidez que pousa no

pó e nas ruínas da imperial Toledo,

tudo isto se condensa em penetrante

tom de ocre vago, onde as cores se opõem

como teses tridentinas muito práticas

elaboradas com paciência para o descanso eterno

dos príncipes cristãos que se devoram sob

a paternal vigilância de uma Roma éterea,

guardada pelos suiços, por cardeias e frades.

A grã-duquesa – se o foi, não foi de quem é filha,

de quem foi mãe, ante um retrato assim

tão pouco importa! – fez-se pintar.

Mas a pintura era outra coisa, um escudo,

um escudo de armas e um broquel tauxiado,

para morrer tranquilo quando a angústia brota,

como um vómito de sangue, do singelo facto

de ter-se ou não ter alma, os mundos serem múltiplos,

e o Sol rodar ou não em torno à terra inteira,

iluminando as multidões, as raças, tudo,

e os príncipes e os súbditos, nessa harmonia do mundo,

cujo estridor silente ao madrugar se ouvia

ranger discretamente, às portas dos castelos.

 

                                       Jorge de Sena

                                                                              Lisboa, 6/6/1959

(mini-série republicada com supressões e alterações)

Fotograma


convite,

Sebastian Venable escrevia

um poema em cada Verão,

um laborioso poema

até que o acordou a morte

nas mãos de Cabeza de Lobo.

Deve ter percebido, suddenly,

que esporear com fúria o flanco das emoções

instiga nas plantas carnívoras

a hostilidade dos jardins.

Tudo isto, claro, bem sei, Tennessee Williams dixit.

Mas quem, rejeitado pelas palavras,

resiste a ser, a um tempo,

do calor e da vertigem a presa e o predador?

Uma Primavera antiga


convite,

Estranhíssima que sou, só podia mesmo inquietar-me com a chegada iminente da Primavera. Prenúncio de calor, coisa que abomino. Mas há quem goste, por isso fui repristinar este post daqui.

 

 

Quando Botticelli acabou de pintar A Primavera, em 1481, fazia já quase seis anos sobre a morte de Simonetta e quase uns quatro sobre o assassínio de Juliano às mãos dos Pazzi. Tê-la-á terminado de memória ou a partir de outros retratos e esboços que havia na oficina. Os seis metros quadrados de têmpera foram inventariados na colecção de Lourenço de Pierfrancesco de Médicis, primo de Lourenço de Médicis e de Juliano. Ou encomendados por aquele ou oferecidos por Lourenço, como prenda de casamento, após a morte de Juliano .

Pintada a partir da representação da Primavera no livro 5 dos Fastos de Ovídio e sob o pensamento neoplatónico de Marsílio Ficino, o quadro tem dado, desde sempre, lugar às mais variadas interpretações dos símbolos nele contidos.

Uma das três Graças, a que vira as costas ao movimento geral do quadro, tem o rosto de Simonetta Vespuci em cujo peito termina da diagonal da seta que Cupido se prepara para lançar e no vértice das suas costas encaixa, na perfeição, o cotovelo de Mercúrio a que Botticelli deu os traços de Juliano de Médicis. Se os amores entre Juliano e Simonetta passaram das telas de Botticcelli para as alcovas do Palazzo Vecchio não poderemos saber. Nem tampouco o que se passou ao certo na manhã de 26 de Abril de 1478 no início da missa em Santa Maria dei Fiori : Lourenço e Juliano de Médicis, acompanhados de Fioretta Gorini, amante de Juliano e grávida de Júlio, o futuro Clemente VII, foram atacados e Juliano esvaiu-se em sangue no chão do Duomo. Será? Será Fioretta quem dá o rosto a Flora, a deusa do vestido às florzinhas (fioretti)? Ou a deusa terá o rosto de uma Pazzi, com quem Juliano casara secretamente? As genealogias registam uma Oretta Pazzi, nascida em 57. Seria ela a mãe de Júlio? E à deusa Vénus, de quem descende a gens Julia, com jeito  de Madona no centro do quadro, quem lhe deu o rosto?

Entre as quase 190 flores identificadas no quadro, está o heléboro cujo bolbo os boticários de Florença usavam para combater a loucura, a pazzia.

Lembro-me sempre de Hannibal, quando Anthony Hopkins pergunta ao chefe da polícia de Florença, um descendente dos Pazzi, se os seus antepassados estariam inocentes, o ambicioso comendattore diz-lhe crer que não e acusa o toque de  não são ser fácil, ainda, transportar tal nome numa Florença moderna.

Estariam os Pazzi, com  a bênção papal e, parece, com o discreto apoio de Frederico Montefeltro, o duque de Urbino,  realmente, por detrás do atentado que vitimou Juliano de Médicis? Ou seria Lourenço que o encomendou para afastar definitivamente o irmão com o qual dividia o governo da cidade, lançando as culpas sobre os Pazzi e mergulhando os florentinos numa onda de sangue solidário de onde o seu poder sairia reforçado?

Foi o quadro encomendado por Juliano para celebrar essas núpcias ainda secretas e nascimento iminente do filho e, após a sua morte, Lourenço ordenou a Botticelli que fizesse alterações na iconografia do quadro e deu-o a Lourenço de Pierfrancesco quando ele casou com Semiramis dos Apianos?

Juliano dorme na Capela dos Médicis na Basílica de São Lourenço e, em redor, a Renascença inteira, Miguel Ângelo, Brunelleschi, Donatello, Filippo Lippi,  deixou uma marca tão viva quanto as flores na Alegoria da Primavera.

Os turista passam nos Uffizi e param na frente do quadro imenso. Conhecem esta Primavera botticelliana de todos os livros de história da arte, de todos os folhetos e, de repente, ali está, rutilante, após o difícil e moroso restauro da tempera grassa.

E a Primavera continua um mistério, um regresso inevitável das cores que vencem a escuridão do solo depois da inevitabilidade da Inverno. E temos, de novo, a certeza de que nada compreendemos: nem a morte, nem a vida.