Houve um tempo em que eu tinha roupa. Agora tenho soluções. Nem sempre as melhores, nem sempre as que quereria. Visto-me, sem que isso me mereça reflexão de maior e é o que vale, que a vida não está para pormenores. No entanto, ó mísera sorte, estranha condição, dias há que na alma nos põem nostalgias incómodas. Acordei hoje com desejos de vestir um casaco comprido de Verão. Passo a explicar o conceito a quem o achar estranho. O casaco comprido de Verão, ao contrário do de Inverno, não serve para aquecer, serve para compor. Dou a mão à palmatória: esta ideia de “roupa para compor” é um bocadinho obsoleta. O “vestir-se para” também será, embora, convenhamos, em virtude dessa consideração, vê-se cada figurinha …. adiante e vamos aos casacos. Eram feitos em tecidos leve, de manga pelo antebraço e, quando usados com umas luvas de cano curto, de uma elegância inenarrável. A minha mãe tinha um de tecido adamascado, num tom rosa-chá desmaiado, com uns botões em bege rosado. Usava-o com uns sapatos muito altos, com uns furinhos minúsculos na ponta, no exacto tom dos botões. Aqueles sapatos estragaram a minha vida para sempre. Passava horas a remirá-los.Acho que em cada sapato que comprei ( e Deus sabe quantos … ) eram aqueles que eu procurava. O casaco, esse vestia-o e olhava-me no espelho, imaginando-me crescida, longe da interdição materna de pintar as unhas de vermelho e senhora dos meus dias. Dias bons, claro, e havia uma razão para pensar assim. Sempre ouvi contar a história do meu tio José e da minha tia Celeste, que já lá estão. É uma história com casaco comprido de Verão. Esse meu tio, o mais velho do primeiro casamento da minha avó, tardava em assentar. Enfant gaté, o meu avó tratava filhos e enteados com condescendências que só visto, tardava em assentar. Fazia ladear a égua no empedrado das ruas, entregava olhares de esperança às raparigas com ideias de cama e pucarinho e lá ia à sua vida. Por volta das seis da tarde, no largo da estação, apeava e ficava com os amigos a ver quem chegava. Um dia, desceu do comboio a nova professora primária. Era Setembro de 1938. Contam que ela trazia um casaco comprido de Verão, com uma gola lindíssima. O meu tio disse para a entourage: “Estão a ver aquela do casaco bonito? É com ela que vou casar.” E casou. Durante sessenta anos.
A primeira vez que eu vi Maria Helena da Rocha Pereira, ela atravessava o átrio da Faculdade de Letras, no meus primeiros tempos de Coimbra. Eu estava no primeiro andar, encostada ao varandim. Era a hora em que o bar se enchia de gente (rapazes) das outras faculdades para um café a meio da manhã. Eu tinha-me tomado de amores por um finalista de Direito com Reais por fazer, um clássico portanto, e ouvia-lhe as torturas sofridas às mãos do mítico Orlando de Carvalho. Olhei para baixo e vi-a com um casaco comprido de Verão, azul ferrete. Parecia eterna. Pensei que a vida era aquilo, namorar encostada ao varandim do bar das Letras, enquanto os mitos, vestidos de símbolos azul ferrete, atravessavam o átrio daquela distante despreocupação.
Quando encontrei a minha costureira, pedi-lhe um casaco comprido de Verão. Ela compreendeu-me e Deus ma conserve, até porque, hoje em dia, pouco trabalho lhe dou. Para não a cansar, claro. Fez-me muitos casacos compridos de Verão. Usava-os por cima de um vestido, a deixar ver um pouco da saia, e sentia-me tão habillée; outras vezes, vestia-os sobre umas calças e uma camisa atada na cintura e sentia-me feliz. Ando a precisar de um casaco comprido de Verão.
Há muito pouco tempo, estive com Maria Helena da Rocha Pereira num funeral. Era preto o casaco que vestia, lindo, em linho pesado, de manga pelo antebraço, com o corte irrepreensível dos alfaiates do Porto. Ela continua eterna como no dia em que atravessou o átrio da Faculdade de Letras na véspera de o Orlando de Carvalho voltar a reprovar um namorado que abandonei meses depois; eu envelheci. Deve ter sido castigo.

Adoro posts fúteis como estes, Ivone 🙂
:):)
Parabéns pelo Seu Sobre Tudo de verão…
Sobre a importância da cumplicidade da postura e imagem corporal para gerar admiradores e amores à primeira vista, até de quimicas insondáveis despoletadas pelas roupagens comunicação gritante num corpo que só de si vestido fala…
Adorei
Isabel Seixas
Obrigad, Isabel.
Eu gostava de aprender a ser fútil.
🙂
É uma arte.
A futilidade acontece muito mais do que se espera, Bruno 🙂
Não é o meu caso. Mas isto pode ser uma questão de semântica. Para mim futilidade é leveza.
Tens de me dizer o nome do namorado, Ivone, se calhar conheço-o 🙂
Provavelmente 🙂
Um casaco comprido no Verão é um trapinho magnífico. Não tive muitos, mas os poucos que usei foram muito amados 🙂
Magnífico. É isso mesmo.
Ainda tenho casacos compridos de Verão. Já não me servem, como já não me servem as lembranças desses tempos, a não ser para saber que a vida também pode ser essa coisa leve e despreocupada, pelo menos durante algum tempo. Os meus não eram de usar todos os dias, mas de toilette, o que lhes dá um estatuto ainda mais fútil mas também ainda mais mítico. 🙂 Talvez eu não me desfaça deles para não me desfazer das memórias que lhes estão coladas…
Bom é ler-te, com esta qualidade que pões em tudo, desde os assuntos “sérios” às futilidades que só o são na aparência.
E trouxeste a nossa Teresa de volta, que bom. Andava eu a pensar por onde andaria ela, e ela aqui está, num belo casaco de Verão! 🙂
Melhor do que um belo casaco de Verão só estes mimos 🙂
É a primeira vez que ouço adjectivar o Orlando Carvalho de “mítico” … bem pensado.
Tentei. Tentei encontrar um que fosse adequado.