Uma Primavera antiga


convite,

Estranhíssima que sou, só podia mesmo inquietar-me com a chegada iminente da Primavera. Prenúncio de calor, coisa que abomino. Mas há quem goste, por isso fui repristinar este post daqui.

 

 

Quando Botticelli acabou de pintar A Primavera, em 1481, fazia já quase seis anos sobre a morte de Simonetta e quase uns quatro sobre o assassínio de Juliano às mãos dos Pazzi. Tê-la-á terminado de memória ou a partir de outros retratos e esboços que havia na oficina. Os seis metros quadrados de têmpera foram inventariados na colecção de Lourenço de Pierfrancesco de Médicis, primo de Lourenço de Médicis e de Juliano. Ou encomendados por aquele ou oferecidos por Lourenço, como prenda de casamento, após a morte de Juliano .

Pintada a partir da representação da Primavera no livro 5 dos Fastos de Ovídio e sob o pensamento neoplatónico de Marsílio Ficino, o quadro tem dado, desde sempre, lugar às mais variadas interpretações dos símbolos nele contidos.

Uma das três Graças, a que vira as costas ao movimento geral do quadro, tem o rosto de Simonetta Vespuci em cujo peito termina da diagonal da seta que Cupido se prepara para lançar e no vértice das suas costas encaixa, na perfeição, o cotovelo de Mercúrio a que Botticelli deu os traços de Juliano de Médicis. Se os amores entre Juliano e Simonetta passaram das telas de Botticcelli para as alcovas do Palazzo Vecchio não poderemos saber. Nem tampouco o que se passou ao certo na manhã de 26 de Abril de 1478 no início da missa em Santa Maria dei Fiori : Lourenço e Juliano de Médicis, acompanhados de Fioretta Gorini, amante de Juliano e grávida de Júlio, o futuro Clemente VII, foram atacados e Juliano esvaiu-se em sangue no chão do Duomo. Será? Será Fioretta quem dá o rosto a Flora, a deusa do vestido às florzinhas (fioretti)? Ou a deusa terá o rosto de uma Pazzi, com quem Juliano casara secretamente? As genealogias registam uma Oretta Pazzi, nascida em 57. Seria ela a mãe de Júlio? E à deusa Vénus, de quem descende a gens Julia, com jeito  de Madona no centro do quadro, quem lhe deu o rosto?

Entre as quase 190 flores identificadas no quadro, está o heléboro cujo bolbo os boticários de Florença usavam para combater a loucura, a pazzia.

Lembro-me sempre de Hannibal, quando Anthony Hopkins pergunta ao chefe da polícia de Florença, um descendente dos Pazzi, se os seus antepassados estariam inocentes, o ambicioso comendattore diz-lhe crer que não e acusa o toque de  não são ser fácil, ainda, transportar tal nome numa Florença moderna.

Estariam os Pazzi, com  a bênção papal e, parece, com o discreto apoio de Frederico Montefeltro, o duque de Urbino,  realmente, por detrás do atentado que vitimou Juliano de Médicis? Ou seria Lourenço que o encomendou para afastar definitivamente o irmão com o qual dividia o governo da cidade, lançando as culpas sobre os Pazzi e mergulhando os florentinos numa onda de sangue solidário de onde o seu poder sairia reforçado?

Foi o quadro encomendado por Juliano para celebrar essas núpcias ainda secretas e nascimento iminente do filho e, após a sua morte, Lourenço ordenou a Botticelli que fizesse alterações na iconografia do quadro e deu-o a Lourenço de Pierfrancesco quando ele casou com Semiramis dos Apianos?

Juliano dorme na Capela dos Médicis na Basílica de São Lourenço e, em redor, a Renascença inteira, Miguel Ângelo, Brunelleschi, Donatello, Filippo Lippi,  deixou uma marca tão viva quanto as flores na Alegoria da Primavera.

Os turista passam nos Uffizi e param na frente do quadro imenso. Conhecem esta Primavera botticelliana de todos os livros de história da arte, de todos os folhetos e, de repente, ali está, rutilante, após o difícil e moroso restauro da tempera grassa.

E a Primavera continua um mistério, um regresso inevitável das cores que vencem a escuridão do solo depois da inevitabilidade da Inverno. E temos, de novo, a certeza de que nada compreendemos: nem a morte, nem a vida.

16 comentários em “Uma Primavera antiga”

  1. Entre os colegas de mesa, descendentes de Frederico Montefeltro, e dos Medicis. Não em Itália, mas bem no coração do Ribatejo.

  2. Enredos, intrigas, amores, facadas, política, famílias desavindas, traições, pactos, mensagens crípticas – TUDO! Como pudeste desassossegar um quadro aparentemente tão idílico. Fiqueis em fôlego e só me apetece lá voltar.

  3. Orgias, devassidão, degradação, libidinagem, depravação, venenos, para o desassossego se aproximar, ainda que só mesmo parcamente, da realidade de então.
    Quanto ao nada compreendermos, é irrelevante. Quedemo-nos embevecidos pelo deleite da indelével arte.

  4. “Rutilante” é o adjectivo, Ivone. E tu acabas de acrescentar intriga e inquietação à maravilha que é esta visão da Primavera. Tanto que eu não sabia sobre este quadro, afinal! Fico sempre tão hipnotizada, nas Uffizi, em frente dos quadros de Botticelli, que tudo o resto perde o interesse. É um pintor especialíssimo, que alia beleza e mistério como nenhum outro. Em Florença fica-se saturado de beleza, é uma overdose difícil de aguentar. Mas Botticelli leva sempre a palma nas minhas emoções, e na tua explicação deste quadro talvez esteja a resposta para isso.

  5. Saudades imensas de Florença. Botticelli está para a pintura como Vivaldi está para a música. Ambos existiram para fazerem feliz a nossa alma mediterrânica. Tudo é Sol, Luz, Beleza… Adoro!

  6. Excelente texto, como sempre. Ivone, acabas de dar-me a ideia de retomarmos em breve uma série que já tivemos aqui intitulada ‘Os quadros da minha vida’. E se avançássemos com isso?

        1. Esta série podia rodar sem dificuldade por quem quisesse e até haver direito a um segundo ‘round’. antes ou depois da próxima série sobre o que cada um anda a ler. Aposto que será uma das mais bem conseguidas.
          (a decidir no próximo almoço ou jantar)

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