Grande frase, Margarida


convite,

Na casa em que se entra ao colo, às vezes sai-se em braços. 

 

Esta frase, escreveu-a a Margarida Pereira, hoje, n’ O destino marca a hora. Para além da estilística, é sabido que gosto de anacolutos,  é uma bela frase para início de romance ou epílogo de tragédia.

A mágoa é um um touro desembolado e quem está habituado a ser o forcado da cara já sabe que só olhando a dor nos olhos é que a encaminhamos para a desejável entropia. Ou reduzindo-a ao dizível, que é também uma forma de lhe tirar a força.

Este país não é para livros


convite,

Faz uns meses, fui à livraria de uma grande superfície sita a dois passos de minha casa para comprar Um mundo iluminado de Hubert Dreyfus e Sean Dorrance Kelly. Queria oferecê-lo para comemorar efeméride cuja data já passara e daí a pressa. Não tenho o hábito de fazer lá compras, prefiro a pequena e antiga Gil Pais, no centro de Torres Novas, onde digo o título e mo põem nas mãos em segundos. Se não houver, mandam vir e é rápido.

Entrei, pois, na referida livraria e dirigi-me ao local onde vira a obra numa anterior passagem. Pensei que, não estando na prateleira dos destaques, o local indicado seria a estante da temática respectiva. Procurei, procurei e nada. Procurei também uma funcionária. Andavam por lá duas ou três com um ar azafamado que se transformou num ar enfadado quando perguntei pela obra a uma delas:

– Isso é sobre o quê?

Há caras que não enganam. Decidi que seria melhor dizer que não o encontrava na estante onde repousavam os livros de temática congénere.

– Ah! E viu bem?

– Sim, tenho o hábito de ver bem, não quero é estar a desarrumar tudo, há livros por detrás de livros …

Respirou fundo:

– Vou ver.

Viu, remexeu, viu. Nada. Já andava pela zona dos livros de Gestão, quando lhe travei as manobras.

– Desculpe, não têm uma base de dados onde possam verificar as existências?

– Base?

-Sim. Por exemplo: um computadorzinho onde possa escrever o título e obter a informação. Ou há ou não há.

Passou outra empregada:

– Algum problema?

– Esta senhora queria um livro.

– E sabe o título?

Se eu não lhe dei um par de estalos ali mesmo, é porque nunca na vida baterei em alguém.

– Claro que sei.

Deve ter sido qualquer coisa no meu olhar (não faço ideia do quê …) que fez a segunda empregada caminhar em direcção ao computador.

– Como é o título?

Procurou.

– Sabe como é capa? Veja lá se é este?

Sim, eu sabia. Sim, era aquele.

– Há dois!

– Óptimo. Basta-me um.

Não deu sinais de se querer mexer. Chegou a terceira empregada. As pontas dos meus cabelos deviam estar a ficar verdes e as unhas tinham pensamentos nefastos.

– Esta senhora queria este livro.

– Já procuraram?

– Não há nenhum aqui em cima.

– Então deve estar lá em baixo.

Ninguém se mexeu para ir lá abaixo. Perguntei:

– Não estou a perceber uma coisa: há pouco tempo o livro estava ali em destaque. Neste momento há dois exemplares lá em baixo, seja lá isso o que for…

– Sim, ainda não vieram para cima.

– Desculpe, qual é a vossa política de reposição de livros nas estantes?

– Política??

– Pronto, não se incomodem mais. Eu vou comprá-lo a um sítio onde vendam livros.

Saí porta fora perante a mais completa indiferença daquelas duas pessoas. Quinze minutos depois, saí novamente. Desta vez da Gil Pais, com livro, embrulho e lacinho.

Lembrei-me disto há pouco, quando vi na SIC a Livraria Portugal a fechar. Sei, infelizmente sei muito bem, que há coisas mais tristes na vida do que o encerramento de uma livraria. Mas o encerramento de uma livraria é uma coisa triste. Lentamente, vamos ficando reduzidos a espaços onde não cheira a livros, onde não se respira o pó dos livros (é para o Jaime, claro), onde dois ou três exemplares da mais esplendorosa iliteracia nacional circulam por ali como podiam circular pela charcutaria. Eu sei que a vida está difícil. A minha também.

(também aqui)

Clarinho como água


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No Público de hoje, Paulo Jorge Assunção sintetiza, claro e preciso, a sua intervenção no Goethe Institut, em Janeiro passado.

 

O AO9O está em vigor? Onde?

 

Não consigo fazer o link, mas recomendo a leitura. Ele não o refere, mas eu pergunto-me, mais uma vez: a Convenção de Viena para o Direito dos Tratados é letra morta? Não conta para nada? Teve o mesmo destino das consoantes não articuladas: só alguns é que sabem que ela existe?

Maria Adelaide, senhor doutor


convite,

                 1912-2012

 

Era na Segunda Guerra, de noite, num hospital de campanha. Um jovem médico acudia aos gritos dos feridos, aos chamamentos, tratava, corria, desesperava.. Ao lado, uma enfermeira serena ajudava, assistia,  multiplicava-se. Quando a hora de maior desassossego parecia estar a passar, o médico perguntou:

– Como é que se chama?

Enquanto limpava as mãos ao avental ensanguentado, respondeu:

– Maria Adelaide, senhor doutor.

– Não me chame doutor, que sou só estudante de medicina.

O jovem quase médico era Nicolau van Uden. A enfermeira era Maria Adelaide de Bragança, infanta de Portugal.

O resto da história é conhecido, ou talvez não, porque este país tem o estranho hábito de não ter memória. E ainda menos parece tê-la de quem é avesso às vaidades do mundo e faz da abnegação e da generosidade um discreto percurso de vida. .

Hoje, quis Deus chamá-la à Sua glória.

Para o Sebastião, um abraço sentido. Para a restante Família, as minhas respeitosas condolências.

Cães de louça


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De onde tomo café vejo, através do vidro, duas mulheres que conversam.

Uma parece dar pequenas gargalhadas, não as ouço, mas aquele abrir de boca repetido e o menear da cabeça, como o de uns cães de louça que havia nas piroseiras antigas, leva-me a deduzi-las. Gesticula um pouco e levanta o queixo com assertividade. É, sem dúvida, uma contentinha. Topam-se à légua: leram livros que as ensinaram a ser felizes, acordam energéticas em casas arrumadíssimas e colam post-its com frases feitas às folhas do dia.

A outra parece vir do fundo da manhã, vestida de frio, com o desespero em volta do pescoço. Está parada, em desalento, e finge ouvir, enquanto o olhar lhe foge para o muro branco do outro lado da rua. Creio que não fala, que não tem palavras com que vença a euforia caudalosa que a atacou e lhe impediu o curso negro dos pensamentos.  Tenho pena dela assim agredida. Conseguir um olhar tão infeliz demora anos, só muitas insónias dão aquele tom violáceo às olheiras e é preciso ter engolido muita amargura para resistir à tonicidade das frases que parecem bater-lhe em cheio no rosto que desistiu.

Parece, repito, parece. Sou fluente na língua da tristeza. Do resto nada sei.

 

(também aqui)

Nenhuma nudez será castigada


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O cinema tem tido para com o corpo das mulheres uma generosidade que muito tem negado ao corpo dos homens. De rostos não tenho queixas, eu que prefiro os pensamentos profundos suscitados pelo olhar de Gabriel Byrne ou de Dennis Quaid à ligeireza de um café Nespresso.

O cinema esqueceu, na maior parte das vezes, o esplendor renascentista de um nu frontal. Os actores encaracolam-se sob o olhar da câmara, como se portadores fossem de uma adâmica timidez que, de súbito, lhes mostrasse que estavam nus. Numa das cenas de La reine Margot (Patrice Chéreau, 1994), Vincent Perez esconde a flexibilidade pós-adolescente nuns requebros evitáveis de fuga à câmara. É certo que essa cena foi filmada em Mafra e as salas desertas de Mafra não serão, com certeza, o melhor sítio para um homem se despir. Mas até na ascese aquecida de um hotel sueco, Daniel Craig, que não tem um centímetro de pele em que se possa pôr defeito, parece negar-se ao olhar de Lisbeth Salander.

Chegaram-me estes pensamentos nus ontem à noite, quando vi que a RTP2 passava The Accidental Tourist (Lawrence Kasdam, 1988). William Hurt não tem neste filme a magnificência física que o mesmo realizador lhe filmou, em 81, em Body Heat. Nem Kathleen Turner tem a força motriz da femme fatale porque, obviamente, a história a ser contada é bem outra.

Body Heat é um filme sobre o corpo, ou sobre como um corpo pode empurrar outro para a passadeira púrpura da hybris, local onde, uma vez posto o pé (para ser metafórica), não há redenção possível.

Desde que o vi em Body Heat, William Hurt passou a ser o corpo do cinema e pela humidade nos ombros dele passei a aferir todos os outros. A nudez de Ned Racine é coisa para acender profundas questões teológicas e pôr qualquer ateia a murmurar, sem saber como, Credo in unum Deum, patrem omnipotentem…

Resta-me agora ver, em 3 fois 20 ans (Julie Gravas, 2011), se as costas molhadas de William Hurt ainda retêm algumas gotas de água sombria. E, daí, talvez seja o que menos importa: o corpo de um homem, e o que dele decorre, é, como se sabe, cosa mentale.

Poetas esquecidos (7)


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Esta minha série dos poetas esquecidos até parece ter sido descontinuada, mas não foi.  Já lhe passaram por cima um Natal e várias gripes e, no momento em que escrevo, continuo refém de maléfica influenza, portanto desculpem qualquer coisinha.

Eu diria que, de todos os esquecidos, o meu preferido é Reinaldo Ferreira. 

Reinaldo Edgar de Azevedo e Silva Ferreira nasceu em Barcelona a 20 de Março de 1922 e morreu em Lourenço Marques a 30 Junho de 1959. Uns meses antes de eu nascer.

A edição de Poemas, com a chancela da Portugália, ocorrerá um ano depois, resultado de um trabalho de recolha e de ordenação do espólio, que incluía os poemas de Um Voo cego a nada, Poemas Infernais e Poemas do Natal e da Paixão de Cristo, levado a cabo por Eugénio Lisboa, Guilherme de Melo e Fernando Ferreira. José Régio escreverá o Prefácio.

Poemas, dado esse carácter de recolha, será mais uma colecção de poemas do que um livro de poesia, embora tal facto não diminua, em nada, o valor de cada texto.

Os poemas de Reinaldo Ferreira trazem uma melancólica consciência da condição humana e é muito do ser-para-a-morte heideggariano que nos surge nestes versos matizados de um fatalismo português.

O punctum ( se disso se pode falar na poesia como se pode na pintura), o punctum na obra de Reinaldo Ferreira reside numa desarmada sinceridade emotiva, diversa da sinceridade artística pessoana,  e devedora de um confessionalismo em que o homem e o poeta se confundem.

Estou agora a folhear a minha velha edição da Portugália. Está cheia de notas e sublinhados. Alguns, já nem sei por que razão os fiz. Escolher só um poema é difícil, mas convém não arrastar o post:

 

Eu,  Rosie, eu se falasse, eu dir-te-ia

Que partout, everywhere, em toda a parte,

A vida égale, idêntica, the same,

É sempre um esforço inútil,

Um voo cego a nada.

Mas dancemos, dancemos

Já que temos a valsa começada

E o Nada

Deve acabar-se também,

Como todas as coisas.

Tu pensas

Nas vantagens imensas

Dum par

Que paga sem falar;

Eu nauseado e grogue,

Eu penso, vê lá bem,

Em Arles e na orelha de Van Gogh …

E assim entre o que eu penso e o que tu sentes

A ponte que nos une – é estar ausentes.

Un ballo in maschera ou a modalização obscura


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Confinada ao resguardo imposto por esta gripe que, estou certa, me vai deixar umas cicatrizes fortes, enrolei-me no sofá com xailes e chá muito quente. Na RTP2, Paula Moura Pinheiro entrevistava, para o Câmara Clara, Luísa Leal de Faria e Alexandra Assis Rosa a propósito dos 200 anos do nascimento de Dickens. Foi, mais uma vez, um excelente programa, sobretudo pelo vibrante entusiasmo das entrevistadas. Ouvir falar sobre aquilo que se conhece muito bem e de que muito se gosta é um prazer inexcedível. A palavra certa, medida, a precisão das expressões. Muito bom.

Depois, de sonos trocados, sentei-me aqui para ler alguns blogues e respectivos comentários. Quem lê blogues tem uma rota previamente traçada, sabe onde quer ir, quem quer ler. Houve um dia em que o Rui Bebiano disse que visitava sempre os blogues de que não gostava porque não dispensava a sua dose diária de irritação. Achei muita piada e, ontem, fiz o mesmo. Não foi grande ideia porque não estou nada necessitada de irritações e talvez tenha sido por isso que a minha tosse piorou.

Numa caixa de comentários, encontrei um, onde, em 5 linhas, havia 6 formas verbais no imperativo, ou no conjuntivo exortativo, o que vai dar ao mesmo. Assustador. Vejamos: sendo formulações directivas, não eram, todavia, ordens para cumprir mas sim vigorosos conselhos de quem, pois claro, sabe melhor o que convém ao outro do que o próprio. “Não faça isso”, “Não pense assim”, “Alegre-se”,  “Saia de casa”, “Anime-se”. Uma agressividade de fugir. Ou de bater ou pé: “Faço, penso, não me alegro, não saio, não me animo. Vá dar uma curva.” 

Toda a gente tem tiques de escrita, modalizações que prefere, bizantinices sintácticas que não lembram a ninguém. Um dos meus amigos diz que não conhece ninguém que, como eu, construa orações infinitivas quando está a falar de trivialidades. Também sei que abuso dos “que” causais. Hábitos, manias, predilecções. Não me parece, porém, que isto seja  a mesma coisa que vergastar os olhos do pobre leitor com meia dúzia de imperativos e caladinho que eu é que sei. ( um “que” causal :))

Fico a pensar se, para além das coisas que se podem fazer com as palavras, elas desvelam ou tapam o seu autor. Quem é assim tão perdulário com os imperativos? Uma pessoa habituada a dar ordens, incapaz de se exprimir fora dessa modalização? Uma pessoa que nunca dá ordens e, uma vez colocada a máscara blogosférica, desata à espadeirada aos incautos que lhe passam ao alcance das teclas?

Sabe-se lá. Mas que  assusta, assusta e muito.

 

Macchiato, quando muito


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Acabo de ver Os Descendentes.  Acho que não gostei. Digo acho porque não percebi muito bem. É certo que pequenos ou grandes dramas não escolhem o lugar onde ocorrem, mas contá-los exige mais do que do que uma boa articulação narrativa, pede uma rede de símbolos que suportem o plot e o façam encorpar. Eu não sou pessoa de paisagens exótico-balneares e, talvez por isso, aquele mobiliário de praia, o guarda-roupa estival e as impossíveis camisas havaianas tenham constituído um ruído que me impediu de apreciar o filme e, a meu ver, lhe retirou a credibilidade trágica.

Defeito meu, claro, que vi muito Visconti em pequenina e fiquei assim, desde então, sempre à espera de ver o pathos a escorrer do set decoration como água nos filmes de Tarkovski.

A escrita ao negro


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Ontem dei uma volta por zonas da blogosfera onde raramente vou. Há uns blogues engraçados, de gente transbordantemente feliz. Têm templates clarinhos e belas frases de fabrico em série, mostram as mesas bem postas, as flores, os passeios e uma ostensiva perfeição que me faz murmurar Cesário: “Como é saudável ter o seu aconchego/ E a sua vida fácil.”

Ao lado, estão os outros, os noir. Tristezas de porcelana tratadas com a ponta dos dedos, desencantos irremediáveis, impaciências várias sacudidas com gestos bruscos.

A felicidade é boa para a vida, mas não o é para a escrita. Nunca terá as potencialidades estéticas do desencanto e do seu séquito de amarguras variadas.

Há lá melhor coisa do que uma tristeza bem contada?

 

(excerto final de um post na minha Ronda)

“The hour of splendour in the grass, of glory in the flower”


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Para o meu pai, que faz hoje 81 anos.

Roubei estas fotografias à minha mãe há muito tempo. Tenho muitas desta série ( e de outras), mas estas quatro são as que prefiro. Não têm data, mas basta-me fazer as contas: a minha mãe e as minhas tias estão de luto por um tio que não conheci e que morreu em 55 e os meus pais casaram em 57. Por isso isto há-de ser uma tarde de Outono entre essas duas datas. Foram tiradas junto a uma ribeira, num sítio que conheço, e estas saias de crepe de lã ainda estiveram algum tempo nos armários da minha infância.

Na primeira à esquerda, o meu tio Avelino e a minha tia Ivone reclinam-se em pose para a fotografia e os meus pais conversam. Na da direita, a minhas tias Ivone, Lila e Cremilde fazem friso e a minha mãe, mais uma vez, dá atenção à conversa do meu pai. Em baixo à esquerda, os meus pais namoram enquanto o Sabu, o mítico setter que acompanhava os caçadores da casa, faz de chaperon. Na última, a Lila, que ainda não deixara o meu tio António aproximar-se dela, isola-se à frente dos meus pais e dos meus tios. O tio Avelino parece ter saído de um filme dos anos 50 e os meus pais, de namoro recente, estão mais interessados um no outro do que na objectiva do fotógrafo que devia ser o meu tio Manuel.

O que sempre me encantou nestas fotografias foi o ambiente de tranquilidade, de sossego, um mundo protegido. E também aquele aprumo de gravata que o meu pai exibe em tão bucólico ambiente. Das minhas tias faltam duas: Gracinda, que enviuvara, e a Zaia que nunca casou e que se manteve na casa paterna, como uma espécie de lugar-tenente da minha avó. Dos quatro rapazes, José, Joaquim, Inácio e Manuel, o José é quem aparece mais nas fotografias. Gostava de passear com as irmãs, protector e sólido.

Foi neste mundo de tardes de Domingo que eu apareci um dia, quando os caçadores tinham acabado de chegar. Foi neste mundo que eu passei férias e fins-de-semana. Durante muito tempo, sempre que o céu se adensava à minha volta, apetecia-me voltar para o ombro dos meus tios que me levavam a passear, para a garupa da égua baia do meu tio José, para os vestidinhos que as minhas tias compunham para mim.

Demorei a perceber que a casa dos meus avós tinha ficado lá, nas minhas recordações, e que o cortinado de renda muito fina na janela da salinha do primeiro andar já não existia.

Eles envelheceram, os meus tios e os meus pais. Eu, às vezes, penso que ainda envelheci mais do que eles. Dentro de mim, a casa dos meus avós já é só a casa dos meus avós. Vejo-a daqui e sei que é inabitável.

No cinema com Reinaldo Ferreira


convite,

Vamos ao cinema,

já que temos este filme começado.

À sessão do fim da tarde,

à sessão que começa tarde na vida.

Vamos a um cinema vazio,

numa avenida de pouca gente,

com veludo decadente nas cadeiras

onde deslizamos como leopardos cansados,

nós que vimos todos os filmes,

sobretudo os noir,

mas também os outros far away from home.

Vamos ao cinema em direcção ao pôr-do-sol,

já que temos este filme começado,

a ver se o end é happy

como certas coisas.

 

 

(já publicado aqui)

Um post sob o signo de Eurípides


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Medeia. Pier Paolo Pasolini.1969

 

Ia atravessar a rua a caminho de um café rápido, quando fui interpelada por uma conhecida a quem me ligam meia dúzia de conversas de circunstância. Num ápice, começa a desfiar um rosário de lamentos e queixas. Tão forte é o caudal que só a custo vou percebendo. Um marido a sair de casa, tanto sacrifício, tanta abnegação e tanta indiferença, tantas férias exóticas pagas pelo pai dela, tanta crueldade e tanto desprezo. Tanta intimidade estendida ao sol desta manhã Janeiro que começo a sentir-me incomodada.

Para Heidegger a angústia é um sentimento solitário. É certo que se refere a outro tipo de angústia, mas teria mudado de ideias se conhecesse uma única destas figuras que, visitadas pela desventura, sentem necessidade de gritar às mulheres de Corinto, que é como quem diz a todas as que encontram, as inaudíveis vinganças que vão congeminando. A expressão desta angústia não tem nada de solitário.

Entretanto, os saltos finos dos meus sapatos começam a lembrar-me o empedrado chão. Sinto que ela quer ouvir-me, mas não quererá o discurso da sensatez. E lá começo eu, com a ajuda das Musas que embalam as cóleras funestas. Que sim, que se vingue. Mude as fechaduras das portas, conjure sobre ele a maldição da tríplice Hécate, deixe um pano embebido em diluente em cima do carro, contrate um advogado daqueles que não perdem um caso desde o bisavô, que usam gravatas Hermès e têm um escritório com uma mobília em torcidos e tremidos e cortinados de damasco na janelas. Que sim, que se vingue.

Enquanto me afasto, aprendo, outra vez, que nada é novo sob a rosa do sol.

 

O meu momento princesa de Lamballe*


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Há um submundo assustador a viver nas caixas de comentários dos jornais online. Não têm nome, apenas nicks pouco recomendáveis  e um perverso gosto pelo anonimato. Escrevem em maiúsculas, com a morfossintaxe de um Átila e a coprolalia de um paciente de Tourette no grau máximo.  

Os outros são todos, no mínimo, gatunos, uma corja, quando aparece algum mais letrado a exprimir-se. Eles, os comentadores, são honestos, sérios e clarividentes.

Só é pena que não saibam escrever. 

 

(*Parece que foi ela quem disse Se não têm pão, comam brioches e não Maria Antonieta. Guilhotina, também, que os tempos não estavam para conversas.)

Em vez do concerto de Ano Novo


convite,

Que silêncio. Devo ser a única pessoa acordada nesta casa. Ficava-me bem fazer umas profundas considerações sobre o ano que começa. Ficava, mas não vou fazê-las. Não quero considerar.

Vou, antes, deixar aqui um vídeo. Este tenor napolitano, Marco Beasley, tem a voz mais mediterrânica que já ouvi. Quando ele canta, é toda a Europa do sul que acorda e dança nos claustros da nossa memória comum.

 

 

E, se gostaram,  ouçam-no com Pino de Vittorio, com quem forma o ensemble Accordone, na belíssima canção Stu pettu è fattu cimbalu d’ amori.

Poetas esquecidos (6)


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Isto de associar ideias é rodopiar que bem se conhece mas que nem sempre bem se explica. Estive, durante a tarde, a conversar sobre o romance Adoecer da Hélia Correia. Um beleza de livro, fica já aqui dito. A personagem central é Elizabeth Siddal, a conhecida pré-rafaelita que posou, entre outras coisas, para o quadro de John Everett Millais, feita Ofélia e deitada numa banheira mal aquecida com um vestido antigo recamado a fio de prata cujo peso a puxava para a pouca água e lhe provocou uma pneumonia de tão demorado ter sido o tempo de pose. Ora bem: como é sabido que há mais coisas no céu e na terra do que sonha a nossa vã imaginação, um anjo de passagem, dos que fizeram formação em blogues, segredou-me à consciência: “Olha lá, não devias voltar a falar de um poeta esquecido?” Pois é, pensei: os poetas. Depois: Ofélia. A Ofélia de Fernando Pessoa, irmã de Carlos Queirós. Será o meu poeta de hoje.

José Carlos Queirós Nunes Ribeiro nasceu em Lisboa em 1907 e morreu em Paris em 1949. Já conferi as datas, não me enganei. Felizmente, há sempre um ou outro comentador de bom coração que me vem assinalar o lapsus calami (ou de tecla, no caso vertente). Amigo de Fernando Pessoa e de Luís de Montalvor, a estética do Orfeu não deixou marcas muito visíveis na sua produção poética. Se alguma influência se quiser encontrar, será a da Presença, talvez mais de Régio, embora a poesia de Carlos Queirós assuma características muito próprias, diversas dos dois modernismos. Em vida, a sua publicação foi escassa: Desaparecido e alguns poemas em várias revistas. A publicação póstuma de Poesia Completa permitiu uma visão de conjunto sobre uma escrita de grande apuro sintáctico e formal. Eu di-lo-ia um clássico moderno e citadino, com dores de alma refreadas numa expressão contida. É um nostálgico comedido, desencantado do mundo e dos seus enganos. Uma nostalgia muito portuguesa, com metáforas de veleiros e de arrais.

 

Sempre que leio nos jornais:

«De casa de seus pais desapar’ceu…»

Embora sejam outros os sinais,

Suponho sempre que sou eu.

 

Eu, verdadeiramente jovem,

Que por caminhos meus e naturais,

Do meu veleiro, que ora os outros movem,

Pudesse ser o próprio arrais.

 

Eu, que tentasse errado norte;

Vencido, embora, por contrário vento,

Mas desprezasse, consciente e forte,

O porto do arrependimento.

 

Eu, que pudesse, enfim, ser eu!

– Livre o instinto, em vez de coagido.

«De casa de seus pais desapar’ceu…»

Eu, o feliz desaparecido!

No dia seguinte


convite,

A festa faz-se, mas o dia seguinte é o cabo dos trabalhos. Não é só a desordem que se instala a fazer caretas a quem teve a casa cheia de garotos aos saltos pelos sofás, sogras inquisidoras ou cunhadas com o firme propósito de não tocar em nada, não fossem as unhas perder o brilho a condizer com a árvore de Natal: há qualquer coisa no dia seguinte que entristece e deprime.

O meu Natal foi calmo. Não tenho, em casa, a agitação de uma família ululante e, mesmo que a tivesse, desalinho já por aqui há, pouco se iria notar.

Hoje, de manhã, fazia-me falta um café a sério. A primeira pessoa que encontrei foi um construtor, dono de uns prédios aqui na avenida. É um homem sério, muito educado, sem os gestos e ademanes que caracterizam, habitualmente, o típico construtor civil português.

– Isto está tão mau, minha senhora, tão mau.

E  fala um pouco da vida. Pouco expansivo, dá, todavia, para perceber que, ao contrário das torres que permanecem alinhadas à espera de dono, o mundo dele ameaça derrocada. Para os filhos, que se formaram numa engenharia do ramo, as expectativas vão-se gorando dia após dia.

Desejo-lhe um ano melhor. Desejo-lho com toda a veemência, de tanto me entristece ver aquela  gravitas de patrício romano vergada sob o peso das sombras.

No café, estão duas amigas que me chamam para a mesa. A minha ideia era uma bica de pé ao balcão, mas vamos lá. Uma delas está exausta. Detesta a balbúrdia que o Natal lhe deixa em casa, mas nunca teve coragem de bater o pé e dizer : “Este ano, não. Aqui não.” Levanta-se de madrugada, tanto a 24 como a 25, para preparar os requintes a que habituou toda a gente desde o primeiro ano de casada. Fica exausta, impertinente, não tem tempo para se arranjar. Por volta das duas da tarde do dia de Natal, começa a apetecer-lhe dar respostas tortas, mas contém-se. O marido, anfitrião feliz, passeia-se pela casa tão contente, oh! como é bom tem uma mulher assim.

– E dinheiro que eu gasto nesta altura? O dinheiro. Não posso, não posso.

Confortamo-la, dizemos mal das cunhadas dela. Elas merecem. Dizemos muito mal. Acaba por rir um pouco, mas nunca a vi assim tão cansada.

A outra nossa amiga sorri, tímida, e baixa um pouco os olhos quando se fala de despesas. Dinheiros antigos, muito bem geridos, dão-lhe um conforto invejável. Nunca se fala disso, mas toda a gente sabe. É uma mulher triste, tem pequenas amarguras, pequenas queixas, tragédias miniaturais que lhe enegrecem a vida. Nada do que lhe causa sofrimento me parece grave, mas cada um sabe do convento em que mora. Não lhe digo que aquilo não é nada. Ouço, apenas.

De regresso, dou uma volta pelo caminho mais longo. Encontro gente triste. É um facto: há semblantes muito tristes na rua, uma expressão estranha em alguns deles. Um ar de fim dos tempos.

Cheguei a casa, fechei a porta e vou agora pensar em mim. Ando a fugir-me há uns dias. Hoje tenho de pensar em mim.

Short de Natal com a Oratória de Bach em fundo


convite,

Adoração dos Pastores. Josefa de Óbidos. 1669, óleo sobre tela 150×184

Museu Nacional de Arte Antiga. Lisboa

 

O silêncio não tem só uma cara. Tem duas ou mais. Não é o deus Jano a olhar do fundo de mármore do templo o passado e o futuro. O silêncio olha em redor, poliédrico, e há quem lhe fuja do alcance e quem nele mergulhe, ah, finalmente. Depois, há aquele silêncio matizado pela oratória de Bach. Ali o Natal inteiro a impor-se dentro do carro, ao menos beleza, que o para o jingle bells plástico já não havia paciência.

– Ia para casa, pá. Não. Está bem, almoçamos. Aí? Ok.

O Júlio, de vez quando, emergia dos primitivos portugueses e ficava um bocado à tona para dois dedos e conversa. As Janelas Verdes têm um belo jardim para almoçar, vamos lá então.

– Não sei. Escapa-te. Nos últimos anos com a Luísa, estive sempre de banco. Aparecia ao fim da tarde. Toda a gente sabia que era intencional, mas fingiam.

– É verdade, a mãe dela?

– Sei lá. Vou buscar os cafés.

Cada um traz para o Natal a reunião ou a fuga, mas não há como evitá-lo ou adormecer a 23 e acordar, tarde alta, a 26, atravessadas as horas impertinentes como bolas de luz penduradas da impaciência.

– Damos uma volta, anda.

Um museu quase vazio é uma arca da infância, arca ao fundo do sótão, empurrada para debaixo da trave onde se pendurou um dia um tio que tinha cismas. As pequenas memórias, insidiosas, não há como disfarçá-las. Um museu quase vazio tem sombras de muitas sombras.

O conservador também as tem, o que adensa ainda mais as sombras do museu. Quando conheceu a Margarida, estava ali, parada debaixo do quadro de Josefa de Óbidos e ele passava na correria da temporária prestes a ser inaugurada na outra ala. Virou-se para ele, com um olhar mais barroco que o quadro. Embora preferisse épocas mais recuadas, não foi insensível àquela sombra adamascada em que ela o mergulhou. Depois foi a via-sacra dos mails, sms, este fim-de-semana não, tenho toda a gente em casa. Margarida compreendia, namorada de homem casado sabe que fins-de-semana são suspensões.

– Mas o Natal vai ser uma treta. Ela não tem gato nem cão, nem primo, nem avô. Olha, é como tu. Gaita, chego a invejar-vos. Não lhe posso dar nada, porra, já viste?

O médico olhou o quadro, comentou qualquer coisa sobre a cor, e desviou a conversa:

– Para a semana estou livre. Acabo o livro. O Zé Maria já me alargou o prazo duas vezes.

– Ainda um dia alguém há-de fazer um estudo sobre os médicos escritores. Isso é fenómeno português?

Riram um pouco. E riram pouco, que os homens riem quanto basta.

– Mas ela quer ter-te no Natal? Caramba, deve saber …

– Não quer. Eu é que queria, mas posso lá escapar-me!

– Só se houvesse um incêndio, tinhas de vir e tal …

– Parvalhão. Pensas que posso ter as tuas urgências e despencar-me para um daqueles quartinhos que há nos hospitais?

O médico ria. Há que anos que não havia quartinhos. A casa onde vivia só e naquele abençoado silêncio chegava-lhe para os amores.

– Não sei, meu velho. Mas caramba, se ela não te pede nada …

– Precisamente por isso, acho…

– Vocês têm umas porras com o Natal, que não dá para perceber. Deixa passar. É uma noite, tens lá os putos aos gritos e as comezainas. E …  ó, é verdade, se a tua tia começar a enfartar não me chames. Manda-a para o hospital. Aquela cena do ano passado …

Júlio queria uma solução, bem lhe via no olhar ansioso. A Margarida tinha sido de uma habilidade filigrânica a incrustar-se-lhe sob a pele. Aquele desprendimento, aquela infinita compreensão eram pose, só podiam ser.

– E tu, ó homem sem tradições?

– O costume. À tarde bebo um copo com o Antunes …

– Ele deixou mesmo de operar?

– Completamente. Depois vou dar uns abraços aos meus filhos, volto para casa, janto e adormeço que nem os anjos de papier maché …

– Eh! Os anjos. Que cena.

Há sempre um momento em que passa o espírito dos natais passados. É multiforme, às vezes, encorpado, faz-se sentir. De outras, é mais ligeiro.

– Pá, não sei que te diga. Não sei mesmo.

Júlio fechou a porta do gabinete, sentou-se. Baixou o som. Queria do silêncio a face oracular, a que traz respostas, o silêncio-astrolábio para desbravar com artes de marinheiro experiente aquela água pantanosa.

O médico atravessou a sala até à janela: benditos vidros que não deixavam passar um som. Era a face aveludada do silêncio, um silêncio feminino e côncavo. Sossego e depois o sms:

“Pai, posso passar a noite da Natal ctg? Ñ aguento + a confusão.”

Nas Janelas Verdes, Júlio já tinha tomado uma decisão. A Oratória de Natal de Bach enchia, agora, o gabinete.

O silêncio, dispensado, sorria com todas as suas faces.