Adoração dos Pastores. Josefa de Óbidos. 1669, óleo sobre tela 150×184
Museu Nacional de Arte Antiga. Lisboa
O silêncio não tem só uma cara. Tem duas ou mais. Não é o deus Jano a olhar do fundo de mármore do templo o passado e o futuro. O silêncio olha em redor, poliédrico, e há quem lhe fuja do alcance e quem nele mergulhe, ah, finalmente. Depois, há aquele silêncio matizado pela oratória de Bach. Ali o Natal inteiro a impor-se dentro do carro, ao menos beleza, que o para o jingle bells plástico já não havia paciência.
– Ia para casa, pá. Não. Está bem, almoçamos. Aí? Ok.
O Júlio, de vez quando, emergia dos primitivos portugueses e ficava um bocado à tona para dois dedos e conversa. As Janelas Verdes têm um belo jardim para almoçar, vamos lá então.
– Não sei. Escapa-te. Nos últimos anos com a Luísa, estive sempre de banco. Aparecia ao fim da tarde. Toda a gente sabia que era intencional, mas fingiam.
– É verdade, a mãe dela?
– Sei lá. Vou buscar os cafés.
Cada um traz para o Natal a reunião ou a fuga, mas não há como evitá-lo ou adormecer a 23 e acordar, tarde alta, a 26, atravessadas as horas impertinentes como bolas de luz penduradas da impaciência.
– Damos uma volta, anda.
Um museu quase vazio é uma arca da infância, arca ao fundo do sótão, empurrada para debaixo da trave onde se pendurou um dia um tio que tinha cismas. As pequenas memórias, insidiosas, não há como disfarçá-las. Um museu quase vazio tem sombras de muitas sombras.
O conservador também as tem, o que adensa ainda mais as sombras do museu. Quando conheceu a Margarida, estava ali, parada debaixo do quadro de Josefa de Óbidos e ele passava na correria da temporária prestes a ser inaugurada na outra ala. Virou-se para ele, com um olhar mais barroco que o quadro. Embora preferisse épocas mais recuadas, não foi insensível àquela sombra adamascada em que ela o mergulhou. Depois foi a via-sacra dos mails, sms, este fim-de-semana não, tenho toda a gente em casa. Margarida compreendia, namorada de homem casado sabe que fins-de-semana são suspensões.
– Mas o Natal vai ser uma treta. Ela não tem gato nem cão, nem primo, nem avô. Olha, é como tu. Gaita, chego a invejar-vos. Não lhe posso dar nada, porra, já viste?
O médico olhou o quadro, comentou qualquer coisa sobre a cor, e desviou a conversa:
– Para a semana estou livre. Acabo o livro. O Zé Maria já me alargou o prazo duas vezes.
– Ainda um dia alguém há-de fazer um estudo sobre os médicos escritores. Isso é fenómeno português?
Riram um pouco. E riram pouco, que os homens riem quanto basta.
– Mas ela quer ter-te no Natal? Caramba, deve saber …
– Não quer. Eu é que queria, mas posso lá escapar-me!
– Só se houvesse um incêndio, tinhas de vir e tal …
– Parvalhão. Pensas que posso ter as tuas urgências e despencar-me para um daqueles quartinhos que há nos hospitais?
O médico ria. Há que anos que não havia quartinhos. A casa onde vivia só e naquele abençoado silêncio chegava-lhe para os amores.
– Não sei, meu velho. Mas caramba, se ela não te pede nada …
– Precisamente por isso, acho…
– Vocês têm umas porras com o Natal, que não dá para perceber. Deixa passar. É uma noite, tens lá os putos aos gritos e as comezainas. E … ó, é verdade, se a tua tia começar a enfartar não me chames. Manda-a para o hospital. Aquela cena do ano passado …
Júlio queria uma solução, bem lhe via no olhar ansioso. A Margarida tinha sido de uma habilidade filigrânica a incrustar-se-lhe sob a pele. Aquele desprendimento, aquela infinita compreensão eram pose, só podiam ser.
– E tu, ó homem sem tradições?
– O costume. À tarde bebo um copo com o Antunes …
– Ele deixou mesmo de operar?
– Completamente. Depois vou dar uns abraços aos meus filhos, volto para casa, janto e adormeço que nem os anjos de papier maché …
– Eh! Os anjos. Que cena.
Há sempre um momento em que passa o espírito dos natais passados. É multiforme, às vezes, encorpado, faz-se sentir. De outras, é mais ligeiro.
– Pá, não sei que te diga. Não sei mesmo.
Júlio fechou a porta do gabinete, sentou-se. Baixou o som. Queria do silêncio a face oracular, a que traz respostas, o silêncio-astrolábio para desbravar com artes de marinheiro experiente aquela água pantanosa.
O médico atravessou a sala até à janela: benditos vidros que não deixavam passar um som. Era a face aveludada do silêncio, um silêncio feminino e côncavo. Sossego e depois o sms:
“Pai, posso passar a noite da Natal ctg? Ñ aguento + a confusão.”
Nas Janelas Verdes, Júlio já tinha tomado uma decisão. A Oratória de Natal de Bach enchia, agora, o gabinete.
O silêncio, dispensado, sorria com todas as suas faces.