A escrita ao negro


convite,

Ontem dei uma volta por zonas da blogosfera onde raramente vou. Há uns blogues engraçados, de gente transbordantemente feliz. Têm templates clarinhos e belas frases de fabrico em série, mostram as mesas bem postas, as flores, os passeios e uma ostensiva perfeição que me faz murmurar Cesário: “Como é saudável ter o seu aconchego/ E a sua vida fácil.”

Ao lado, estão os outros, os noir. Tristezas de porcelana tratadas com a ponta dos dedos, desencantos irremediáveis, impaciências várias sacudidas com gestos bruscos.

A felicidade é boa para a vida, mas não o é para a escrita. Nunca terá as potencialidades estéticas do desencanto e do seu séquito de amarguras variadas.

Há lá melhor coisa do que uma tristeza bem contada?

 

(excerto final de um post na minha Ronda)

10 comentários em “A escrita ao negro”

  1. Não sei se Cesário Verde e o seu :
    Como é saudável ter o seu aconchego,
    E a sua vida fácil! Eu descia,
    Sem muita pressa, para o meu emprego,
    Aonde agora quase sempre chego
    Com as tonturas duma apoplexia.
    poderão adequar-se aos template clarinhos e às frases fabricadas… Esses, reflectem existências fantasiosas, nem sempre vividas, nem sempre imaginadas, nem sempre desejadas, mas… aconchegantes, neste mundo áspero e amorfo, limbo de um desejo de vida maior que nunca chega.
    Tal como no poema de Florbela Espanca:

    Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
    A essa hora dos mágicos cansaços,
    Quando a noite de manso se avizinha,
    E me prendesses toda nos teus braços…

    Quando me lembra: esse sabor que tinha
    A tua boca… o eco dos teus passos…
    O teu riso de fonte… os teus abraços…
    Os teus beijos… a tua mão na minha…

    Se tu viesses quando, linda e louca,
    Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
    E é de seda vermelha e canta e ri

    E é como um cravo ao sol a minha boca…
    Quando os olhos se me cerram de desejo…
    E os meus braços se estendem para ti…

    Os negros… esses não sonham a vida!
    ;)))

    1. Bartolomeu, foi só a evocação de um verso 🙂
      Não sei se plasmam uma existência fantasiada, nem me preocupa, o que quero dizer é que, enquanto estética, me é mais cara a melancólica do que a jubilosa. 🙂

  2. Estava a ler e lembrei-me, assim de repente, do Livro de San Michele do Axel Munthe, da Relíquia do Eça, das Cidades Invisíveis do Italo Calvino, e uma infinidade de livros de ficção cientifica escritos entre ninhos de galáxias e mares astrais onde de triste só a melancolia. Compreendo o que diz, mas tenho sido mais feliz noutras letras que não as tristezas.

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