
Medeia. Pier Paolo Pasolini.1969
Ia atravessar a rua a caminho de um café rápido, quando fui interpelada por uma conhecida a quem me ligam meia dúzia de conversas de circunstância. Num ápice, começa a desfiar um rosário de lamentos e queixas. Tão forte é o caudal que só a custo vou percebendo. Um marido a sair de casa, tanto sacrifício, tanta abnegação e tanta indiferença, tantas férias exóticas pagas pelo pai dela, tanta crueldade e tanto desprezo. Tanta intimidade estendida ao sol desta manhã Janeiro que começo a sentir-me incomodada.
Para Heidegger a angústia é um sentimento solitário. É certo que se refere a outro tipo de angústia, mas teria mudado de ideias se conhecesse uma única destas figuras que, visitadas pela desventura, sentem necessidade de gritar às mulheres de Corinto, que é como quem diz a todas as que encontram, as inaudíveis vinganças que vão congeminando. A expressão desta angústia não tem nada de solitário.
Entretanto, os saltos finos dos meus sapatos começam a lembrar-me o empedrado chão. Sinto que ela quer ouvir-me, mas não quererá o discurso da sensatez. E lá começo eu, com a ajuda das Musas que embalam as cóleras funestas. Que sim, que se vingue. Mude as fechaduras das portas, conjure sobre ele a maldição da tríplice Hécate, deixe um pano embebido em diluente em cima do carro, contrate um advogado daqueles que não perdem um caso desde o bisavô, que usam gravatas Hermès e têm um escritório com uma mobília em torcidos e tremidos e cortinados de damasco na janelas. Que sim, que se vingue.
Enquanto me afasto, aprendo, outra vez, que nada é novo sob a rosa do sol.

Como sempre um belíssimo texto sobre um tema tão antigo como o mundo.
Não acho mal que se vinguem. Claro. Que é que lhes restaria, para animar os dias e educarem crianças que irão repetir o modelo visto?
Só não se devem esquecer é que a vingança se deve comer fria. Quente ou mesmo morna, é muito indigesta…
Não é só isso, Helena, é esta exposição dos lençóis privados à vista de quem passa.
Tens razão Ivone. Esse é o outro lado da questão. Mas, como sabes, essa exposição é feita pelos próprios, mesmo quando estão felizes. Costumo chamar a isto a “cultura socialite”, embora, ainda hoje, não consiga definir o que é que tipifica uma praticante da mesma.
Neste momento vende-se tudo, até a alma!
Essa exposição pública dos dramas domésticos será sempre um mistério para mim. Ensinaram-me a compartilhar a alegria mas a não despejar nos outros, por pura consideração, os meus desgostos e frustrações. Talvez por isso sempre me fez muita impressão o despudor com que se exibe tudo hoje em dia, como se a privacidade fosse um conceito fora de moda.
Eu, confesso, lido mal com estes estendais, ainda que as razões possam ser compreensíveis. É despudor, tens razão, é a palavra certa.
Hummm… um pano embebido em diluente? Olha que belíssima ideia. Isso, para um homem, é pior do que ofender-lhe a mãe! 😉
De facto. Devíamos deixar às Sinead O’Connors a função de carpideiras. 😉
🙂
Verdade seja dita que V. escreve muitíssimo bem, mesmo quando o assunto não interessa nada a ninguém.
Ficamos, então, assim, mas obrigada pelo exagero do “muitíssimo bem”.
Mas essa ainda estava a falar contigo, o pior é quando desfiam o rosário das desgraças alto e bom som ao telemóvel 🙂 Não há quem não fique a saber.
É verdade, Leonor. Ainda ontem comentava isso cá em casa – falam ao telemóvel na rua, no supermercado, nas lojas, sim empregadas de lojas que depois dizem tenho que desligar, incrível! Não é que as pessoas não possam desbafar – é o modo, o lugar, a hora, a total ausência de reserva quando ela é o melhor remédio… E a bisbilhotice tonta e maldosa, claro.
Sim, tens razão, é insuportável. Mesmo que não queiramos, temos de ouvir.
Tb me faz mt confusão o confessar de intimidades que não nos interessam e que até nos podem embaraçar – não por conservadorismo mas por sentido de elegância e reserva inteligente…
Pois, fica quem ouve mais incomodado do que quem as diz.
Se me permite acho isto mais um drama românico do que uma tragédia grega. Aqui não há destino, nem heróis que impulsionados por ele caminham taciturnos para o abismo. Aqui há partilha da dor, vontade que os outros chorem comigo. Não descreve se a “autora” terá entrado pela comédia, como tantas vezes acontece, imitando de modo ostensivamente ridículo, as vozes do inimigo, em discurso directo. É bom haver alguém como a Ivone para mostar que os clássicos são interpretados diariamente nas circunstâncias menos avisadas.
Zé Navarro, claro, mas falei de Eurípides apenas porque me lembrei do Coro de Medeia, formado por mulheres de Corinto, junto das quais a heroína tenta encontrar compreensão e cumplicidade.
Os clássicos surgem quando menos se espera 🙂