Para o meu pai, que faz hoje 81 anos.
Roubei estas fotografias à minha mãe há muito tempo. Tenho muitas desta série ( e de outras), mas estas quatro são as que prefiro. Não têm data, mas basta-me fazer as contas: a minha mãe e as minhas tias estão de luto por um tio que não conheci e que morreu em 55 e os meus pais casaram em 57. Por isso isto há-de ser uma tarde de Outono entre essas duas datas. Foram tiradas junto a uma ribeira, num sítio que conheço, e estas saias de crepe de lã ainda estiveram algum tempo nos armários da minha infância.
Na primeira à esquerda, o meu tio Avelino e a minha tia Ivone reclinam-se em pose para a fotografia e os meus pais conversam. Na da direita, a minhas tias Ivone, Lila e Cremilde fazem friso e a minha mãe, mais uma vez, dá atenção à conversa do meu pai. Em baixo à esquerda, os meus pais namoram enquanto o Sabu, o mítico setter que acompanhava os caçadores da casa, faz de chaperon. Na última, a Lila, que ainda não deixara o meu tio António aproximar-se dela, isola-se à frente dos meus pais e dos meus tios. O tio Avelino parece ter saído de um filme dos anos 50 e os meus pais, de namoro recente, estão mais interessados um no outro do que na objectiva do fotógrafo que devia ser o meu tio Manuel.
O que sempre me encantou nestas fotografias foi o ambiente de tranquilidade, de sossego, um mundo protegido. E também aquele aprumo de gravata que o meu pai exibe em tão bucólico ambiente. Das minhas tias faltam duas: Gracinda, que enviuvara, e a Zaia que nunca casou e que se manteve na casa paterna, como uma espécie de lugar-tenente da minha avó. Dos quatro rapazes, José, Joaquim, Inácio e Manuel, o José é quem aparece mais nas fotografias. Gostava de passear com as irmãs, protector e sólido.
Foi neste mundo de tardes de Domingo que eu apareci um dia, quando os caçadores tinham acabado de chegar. Foi neste mundo que eu passei férias e fins-de-semana. Durante muito tempo, sempre que o céu se adensava à minha volta, apetecia-me voltar para o ombro dos meus tios que me levavam a passear, para a garupa da égua baia do meu tio José, para os vestidinhos que as minhas tias compunham para mim.
Demorei a perceber que a casa dos meus avós tinha ficado lá, nas minhas recordações, e que o cortinado de renda muito fina na janela da salinha do primeiro andar já não existia.
Eles envelheceram, os meus tios e os meus pais. Eu, às vezes, penso que ainda envelheci mais do que eles. Dentro de mim, a casa dos meus avós já é só a casa dos meus avós. Vejo-a daqui e sei que é inabitável.


Que bonito, Ivone! E muitos parabéns ao teu Pai.
Obrigada, Leonor. Bonito dizes tu: se algum dos meus primos dá com isto e lhe mostra, lá tenho de ouvir sermão sobre a privacidade e afins.
O teu Pai é muito à frente, Ivone :))))
Muita televisão 🙂
Mas olha que é bom estar alerta.
Bela idade. Parabéns ao senhor teu Pai, Ivone. E que conte ainda muitos.
Obrigada, John, e olha que, visto de longe, ele não difere muito da fotografia.
Gostei muito e enterneceu-me.
Muitos Parabéns a seu pai.
Obrigada, Ana.
Bonito :). Fez-me lembrar as fotografias da minha mãe, amigas e tios.
🙂
Peço desculpa, mas também queria dar os parabéns ao seu pai e que conte muitos com saúde. Cpts.
Parabéns, Ivone. Que ainda conte muitos e com saúde.
Obrigada, Teresa. Saúde tem ele, graças a Deus, é esperar é que seja por muitos anos.
Excelente texto, Ivone. A nostalgia dá-nos uma inspiração inesgotável. Sinto algo semelhante ao que aqui descreves cada vez que revejo velhas fotos familiares. Ainda hoje voltei a ver várias, do namoro e do casamento dos meus pais, em época muito próxima das imagens que aqui nos trazes. Revejo avós, tios e primos – todos a preto e branco. Sou de uma família onde felizmente sempre houve muitos tios e muitos primos, com uma terra de origem que serviu de permanente ponto de encontro, mesmo de parentes residentes há muito no estrangeiro. Isto sempre me fez sentir membro de um clã. Isto sempre me fez sentir dentro de um cordão de segurança. Sensações que volto a experimentar, tantos anos depois ao manusear novamente estas fotografias que o tempo não apagou.
Obrigada, Pedro.
Sempre acreditei que dentro de cada um de nós existia uma Pasárgada feita das nossas memórias para onde nos podíamos ir embora, sempre que quiséssemos. Em pensamento, eu dizia: “Vou-me embora para Pasárgada, porque lá eu sou a neta do rei”. Como tu, ao olhar as fotografias, sinto o cordão de segurança. Sei, todavia, que os fios que o compõem são apenas a minha memória.
E assim continuam a viver.
Prodigiosa coisa é a memória, José Navarro 🙂
Que ternura, Ivone. Fizeste-me relembrar memórias semelhantes, evocadas em fotografias destas. E parabéns ao teu pai pelos rijos 81.
Obrigada, Ana. Está bem rijo, sim, graças a Deus.
É extraordinário observarmos como em 1955, as pessoas ainda se olhavam nos olhos, demonstrando o interesse que os outros representavam para elas.
Esta “habilidade” perdeu-se em grande parte.
Em 2012, diz-se com palavras, mas sem o olhar, aquele que está inscrito nos anais da humanidade, com a designação confirmada de “espelho da alma”.
Oh, meu caro Bartolomeu, lá terá a sua razão, não lha tiro, mas as pessoas continuam a olhar-se nos olhos. Criaram-se, todavia, outras circunstâncias de comunicação que não carecem desse mútuo olhar. Não acho que seja mau, é diferente. Pelo que me toca, continuo a olhar nos olhos os meus interlocutores, quando estou fisicamente junto deles, claro.
Ivone,
Em primeiro lugar os meus sinceros parabéns ao seu pai. Quase tão novo quanto o meu. E que Deus vos dê saúde, a si para que possa homenagear todos os anos o seu antecessor e ao seu pai para que cada ano possa agradecer a bênção de mais um ano vivido.
Quanto às fotos, são fotos de outro tempo. Do tempo em que havia tempo, do tempo em que havia família, do tempo em que olhávamos os pais, os avós e os tios como gente sábia e omnipresente.
Obrigado pela belíssima partilha!
Obrigada digo eu, José, pela sua atenção.
Homenagem muito bonita.
Obrigada, Helena.