1912-2012
Era na Segunda Guerra, de noite, num hospital de campanha. Um jovem médico acudia aos gritos dos feridos, aos chamamentos, tratava, corria, desesperava.. Ao lado, uma enfermeira serena ajudava, assistia, multiplicava-se. Quando a hora de maior desassossego parecia estar a passar, o médico perguntou:
– Como é que se chama?
Enquanto limpava as mãos ao avental ensanguentado, respondeu:
– Maria Adelaide, senhor doutor.
– Não me chame doutor, que sou só estudante de medicina.
O jovem quase médico era Nicolau van Uden. A enfermeira era Maria Adelaide de Bragança, infanta de Portugal.
O resto da história é conhecido, ou talvez não, porque este país tem o estranho hábito de não ter memória. E ainda menos parece tê-la de quem é avesso às vaidades do mundo e faz da abnegação e da generosidade um discreto percurso de vida. .
Hoje, quis Deus chamá-la à Sua glória.
Para o Sebastião, um abraço sentido. Para a restante Família, as minhas respeitosas condolências.

Tão bom, tão bem contado
Boa é, como sempre, a sua gentileza, Manuel Fonseca.
Obrigada.
Uma vida exemplar. Em perfeito contraste com as nulas “celebridades” que se multiplicam como bolhas de sabão nos nossos dias.
Tens toda a razão, Pedro.
Quem diria, Ivone, quando no outro dia falava dos 100 anos e da condecoração (http://delitodeopiniao.blogs.sapo.pt/3 996594.html). E a imprensa? – e os media? – de hoje? Como sempre, mudos e cobardes, pirosos e deslumbrados, acacianos até à medula. Tanta coisa que passa ao lado dos portugueses… Espero que não se esqueçam da bandeira. Ela tem de a ter. (Ou não? Afinal vai com ela. Mesmo)
Creio que a tem dentro, Laura.
Comoveste-me, Ivone. E a Infanta também, de tão exemplarmente portuguesa. Devia ter direito a funeral de Estado, não por ela, que não ligava a vénias, mas por todos nós. Faz bem a um país ter motivos de orgulho e reconhecê-lo.
Pois, Ana, mas este país reconhece lentamente e é quando reconhece.
E “isto” é um país ?? Ou uma gigantesca e grotesca feira de vaidades, com a suprema nulidade da nação sujeita a “impedimentos” e “surpreendida” com as realidades ??
Em tão poucas linhas tocaste no cerne da grandeza. É grande quem assim se apresenta. E fica tudo dito.
De quem é grande não há necessidade de muito dizer.
Minha querida Ivone
Belo e sentido texto. Puríssimo.
Se fosse alguém das telenovelas, decerto que as televisões e os jornais fariam grande espalhafato.
O mais difícil neste país não é a crise económico financeira. O mais difícil é a crise de valores!
O teu texto é tão bonito que me vou permitir reproduzi-lo lá no meu sítio, com todos os teus créditos.
Ora essa, leva-o lá à vontade 🙂