Macchiato, quando muito


convite,

Acabo de ver Os Descendentes.  Acho que não gostei. Digo acho porque não percebi muito bem. É certo que pequenos ou grandes dramas não escolhem o lugar onde ocorrem, mas contá-los exige mais do que do que uma boa articulação narrativa, pede uma rede de símbolos que suportem o plot e o façam encorpar. Eu não sou pessoa de paisagens exótico-balneares e, talvez por isso, aquele mobiliário de praia, o guarda-roupa estival e as impossíveis camisas havaianas tenham constituído um ruído que me impediu de apreciar o filme e, a meu ver, lhe retirou a credibilidade trágica.

Defeito meu, claro, que vi muito Visconti em pequenina e fiquei assim, desde então, sempre à espera de ver o pathos a escorrer do set decoration como água nos filmes de Tarkovski.

6 comentários em “Macchiato, quando muito”

  1. Fico contente, porque eu também postei sobre o filme, que não apreciei e que não percebo porque se candidata ao Oscar.
    Também eu Ivone vi muito Visconti. E, para americano, morro de amores por Eastwood e por Allen. Mesmo quando são filmes menores têm sempre algo que vale a pena, que nos toca e salva a película.
    Só Visconti podia transformar um péssimo actor como Burt Lancaster e dois banais como a Cardinale e o Delon em excelentes intérpretes. “Il Gattopardo” é o melhor exemplo disto!

    1. Talvez uma senhora não perceba, mas a Cardinale não é banal.
      Quanto ao Gattopardo reproduz o esquematismo que terá herdado do livro e que os talentos de decorador de Visconti não disfarçam. Retirada a suposta clarividência marxista atribuída ao Principe de Salinas fica muito pouco.
      Concordo que o decorativismo de Visconti é um elemento estrutura da acção em alguns filmes – tal como acontece com Eça (em que não é pathos que escorre, mas pura hubris).

      1. Caro c.
        Não discutirei a Cardinale:)

        Com sabe, decerto, a hybris acaba sempre em pathos, é disso que falo. No caso do filme que refiro no post, a hybris já ficou lá para trás, antes do filme começar.
        Obrigada pela sua leitura.

      2. A Ivone não discute a Cardinale. Eu também não, porque admito que o gosto de um cavalheiro nesta matéria seja diferente do meu.
        Mas inverto a questão. As mulheres apreciam/avam Alain Delon que eu só vi bem dirigido em Rocco. Ao invés, eu achava-o banal.
        Há actores que só com certos directores se revelam. E fica a dúvida sobre “quem” tem real qualidade.

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